Arquivo mensal: Junho 2020

Freddie Mercury – “Homenagem A Mercury, Ontem, No Estádio De Wembley – Nas Garras De Freddie”

Cultura >> Terça-Feira, 21.04.1992


Homenagem A Mercury, Ontem, No Estádio De Wembley
Nas Garras De Freddie


Freddie Mercury foi um “homem-espectáculo” em toda a acepção da palavra. Enquanto viveu, entreteve e chocou como lhe competia. O mundo do espectáculo fez-lhe a homenagem póstuma e aproveitou para lembrar o perigo dos excessos. Não se sabe se a “rainha” teria gostado.



Estádio de Wembley, 72 mil pessoas na relva mais 500 milhões em frente à televisão ou de ouvidos colados à rádio, para assistir ao “Mercury Tribute” – uma homenagem do universo rock ao ex-vocalista dos Queen, vitimado pela sida em Novembro do ano passado, aos 45 anos de idade – a que aderiram nomes como David Bowie, Paul Young, Lisa Stansfield, Elton John, George Michael e Annie Lennox, entre outros. O PÚBLICO seguiu o acontecimento via satélite. A aldeia global voltou a sintonizar em onda única. Com os lucros a reverterem a favor dos doentes da sida.
Antes do início do espectáculo, já uma locutora da Correio da Manhã Rádio, visivelmente nervosa, se esmerava num chorrilho de disparates em directo, chamando Estádio Nacional a Wembley e Luís a Nuno Bettencourt. Um simples teledisco dos Queen, projectado no ecrã gigante, foi suficiente para lhe provocar “uma das maiores emoções” da sua “vida”. Mais tarde, outro locutor chamaria Def Deppard aos Def Leppard só faltando chamar Merdy Fercury a Freddie Mercury. À mesma hora a RTP, de outro modo, também provocava. Com a passagem de uma selecção de “clips” da banda, mostrando como se sabe estar em cima do acontecimento. A transmissão em diferido ficava marcada para quinta-feira próxima.
No exterior do estádio, as já habituais manifestações de protesto. Desta vez com os rapazes “gay” da “Outrage”, especialistas na denúncia pública dos seus companheiros de armas não assumidos a insurgirem-se contra a presença no programa dos Guns ‘n’ Roses. Um dos membros da organização chamou “hipócrita” ao vocalista Axl Rose e acusou a banda de “racista”, citando a propósito um verso de uma das canções: “niggers get out of my way”. Nada preocupados com questões ideológicas, os jovens formavam bicha (em singela homenagem a Freddie Mercury) para entrar no recinto.

Música Preservativa

Os Metallica, banda de “heavy metal”, homenagearam da única maneira que conhecem, ou seja, a ferro e fogo, com uma salva de artilharia pesada que deve ter feito Freddie Mercury dar cambalhotas no túmulo. Os Extreme vieram a seguir. Tocaram um “medley” de canções dos Queen que atingiu o auge em “Radio ga-ga”, com a multidão a cantar o refrão em uníssono e Nuno Bettencourt a dar “show” na guitarra eléctrica. Depois foi a vez dos Lef Deppard – quer dizer, dos Def Leppard, a tal banda do baterista que só tem o braço esquerdo e toca melhor com o direito – fazerem mais uns minutos de barulho com “Animal” e “Let’s get rocked” e aquecerem os ânimos com “Now I’m Here”, ajudados por Brian May, um dos sobreviventes dos Queen.
Roger Taylor, outro dos Queen vivos, apresentou Bob Geldof, símbolo vivo de todos os “aids”. Geldof chegou vestido de flores, acompanhado por um acordeonista e dois guitarristas. Despachou-se cedo, com um “Too late God” composto especialmente para a ocasião. Foi interrompido pelos Spinal Tap, supostos parodiantes do “heavy metal”. O único tema que tocaram não pareceu uma paródia.
Um dos momentos mais belos do espectáculo foi proporcionado pela Top-model Cindy Crawford que não precisaria sequer de apresentar os U2 para deslumbrar. Os irlandeses limitaram-se a enviar de Sacramento uma gravação de “Until the end of the world”.
Alheios à polémica provocada, os Guns ‘n’ Roses, com Axl Rose, o vocalista “hipócrita” e “racista”, de lenço na cabeça e outro à volta da cintura a fazer de saia, deram uma lição de profissionalismo que incluiu o capítulo de Dylan “Knocking on Heaven’s Door”. Os sons, os gestos e a presença de duas vocalistas de apoio agitaram a assistência de ponta a ponta – se assim se pode dizer -, fazendo de novo assomar o espectro da sida. Após alguns minutos de “afrojazz” pelos Mango Groove, em directo de Joanesburgo, na África do Sul, Elizabeth Taylor veio dar o conveniente tom sério ao “Tributo a Freddie Mercury”. Dirigiu-se, emocionada, à multidão, forneceu números alarmantes e lançou o alerta da praxe: “hétero sex”, “gay sex” ou “bissexual sex”, mas sempre “safe sex”. “Use a condom.”

Reis do Mambo, Diabólicos – “Reis Do Mambo Portugueses Dão Baile Nos Alunos De Apolo – Dançar De Memória”

Cultura >> Quinta-Feira, 16.04.1992


Reis Do Mambo Portugueses Dão Baile Nos Alunos De Apolo
Dançar De Memória


Os Reis do mambo em Portugal chamam-se Diabólicos. São o testemunho vivo de um passado em que não se tinha vergonha de dançar e sentir o calor do outro corpo. Mas, na noite de terça-feira, na Sociedade dos Alunos de Apolo, os corpos voltaram a abraçar-se. Ao som do mambo, das rumbas e boleros da nossa imaginação. Quem resiste à vertigem quando se tocam canções de amor?



Tudo começou nos anos 40, no salão de festas Palladium, na Broadway, Nova Iorque, para acabar terça-feira à noite na Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo, em Campo de Ourique, a “catedral das danças de salão”, como lhe chamam. Na Broadway como nos Alunos de Apolo, o mambo foi o rei da festa e os seus intérpretes os “reis do amor”. Reinaram os Diabólicos Troupe Jazz, únicos sobreviventes de um tipo de agrupamentos que entre os anos 40 e 60 abrilhantaram os bailes da sociedade lisboeta e incendiaram os corações e não só dos jovens dessa época.
Nos Alunos de Apolo, há baile todos os fins de semana. Há o gosto pela dança. Ensina-se quem quer e elegem-se os melhores. O baile desta noite serviu para assinalar a edição simultânea do livro e do CD “Los Reyes del Mambo Tocan Canciones de Amor”, o primeiro da autoria de Oscar Hijuelos, o segundo uma colectânea que reúne os melhores intérpretes do género.

“Volare” Pelo Salão

Anunciavam-se bebidas tropicais, um cheiro a exotismo e muita sensualidade. As bebidas tropicais eram estranhas e ostentavam designações bizarras: “sumo de laranja”, “vinho branco” e “imperial”. Serviram às mil maravilhas para pôr toda a gente bem disposta. Os Diabólicos fizeram o resto e mostraram “como se tocava nesse tempo para os amantes da música de salão”. Começaram nas Caraíbas, com mabos, rumbas e boleros a preceito e acabaram nas “emoções” de Roberto Carlos: “Aqueles ojos negros”, “Volare”, com muita gente a cantar o refrão “nel blu dipinto di blu”, “Kanimambo”, “Pensylvannia Station”… Domenico Modugno, João Maria Tudela e Glenn Miller misturados na recordação de outros tempos em que não se tinha vergonha de dançar agarrado ao parceiro nem de rodopiar pelo meio da pista…
Sensualidade não houve muita, pelo menos que se comparasse à que antigamente acontecia em clubes como o “Mamboscope”, nos chamados “mambobacanais” onde as “muchachas lucian trajes sensuales y bailavan com movimentos provocativos cambiando de pareja al final de cada canción”.
Não faltaram demonstrações nem um concurso de dança de salão. Agora chamam-lhe “dança desportiva” – porque já “estamos integrados na Europa”, explicou o apresentador – e há pares campeões nacionais: José Carlos e Lena, Armando e Anabela e os campeoníssimos Marina e Alberto que positivamente voaram entre as colunas do salão embalados por uma valsa de Viena ou “desenvolvendo jazz”, segundo a explicação científica dada pelo apresentador da noite a um “swing” de Glenn Miller.

“Toda Uma Filosofia Sobre A Dança”

Entre os dançarinos havia-os ilustres. Teresa Guilherme, de mini-saia primaveril, regozijava-se por “se viver uma fase em que as pessoas perderam a vergonha de dizer que gostam de dançar”. A apresentadora do “Eterno Feminino” só parou para descansar. Mais calmo, o historiador José Mattoso também não se coibiu de ensaiar uns passos de dança. Veio “só para acompanhar os amigos” mas acabou por se render e concordar que “estes ritmos são muito envolventes e que em todas as épocas as pessoas gostam de dançar”. No final, ele e a ensaísta Teresa Rita Lopes foram um dos pares premiados pelo júri do Concurso.
Carlos do Carmo trocou por uma noite o fado pelas emoções fortes da rumba e do chá-chá-chá. O autor de “Um Homem na Cidade” apontou os jovens, abaixo dos 25 anos, que “não sabem dançar estas danças nem fazem a mínima ideia de como o fazer” e referiu-se aos dias de hoje, “vazios de memória”. Para ele uma noite como esta “não foi revivalismo mas um exercício de memória”, mesmo que a velha-guarda se tenha mostrado “um pouco destreinada”.
Zita Seabra, ex-dirigente da comissão política do PCP e editora, também “gosta muito de dançar” e choca-se com que “dança para se exibir e não para estar com a outra pessoa”. Correndo o risco de “parecer um arcaísmo”, a dissidente comunista acha que “a dança é uma coisa para se fazer a dois – não é possível dançar o tango sozinho no meio da pista”. “Eis toda uma filosofia sobre a dança” – disse, antes de desaparecer rodopiando entre as colunas do salão.

“Acabava Tudo À Batatada”

Sobre o palco, o sr. Alfredo Manuel, 64 anos de idade, 43 anos a tocar banjo nos Diabólicos, viu de novo desenrolar-se um filme e um baile sempre iguais – “apanhei três gerações, vou a caminho da quarta, de pessoas a dançar” – mas sempre diferentes: “Antes dançava-se até às 7h00 da manhã, havia concursos de “dance-hall”, tocava-se Fox a prémio e normalmente acabava tudo à batatada”. Hoje os Diabólicos Troupe Jazz, formados em 1947, em Campo de Ourique, ali ao pé do Jardim da Parada, são a única “troupe” do género existente em Portugal e teimam em manter viva uma época de ouro só perturbada à entrada dos anos 60 pelo aparecimento da “música yé-yé que começou a separar os pares uns dos outros”. Os Beatles vinham substituir as “troupes” que tocavam “temas das melhores orquestras americanas, do Glenn Miller, Harry James e tantos outros”.
O sr. Alfredo e os Diabólicos são um sonho de que ninguém quer acordar. Tocam todos os fins-de-semana, e até sempre, nos bailes dos Alunos de Apolo. Tocam canções de amor.

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“Los Reyes del Mambo Tocan Canciones de Amor”
CD, EDiÇÕES MANZANA
Mambo! Só o nome tem a força de uma explosão. Se Rambo é o rei dos músculos, mambo é ginástica para os músculos do amor. O CD apresenta 22 versões originais dos anos 40 e 50, interpretadas pelos melhores intérpretes da música latino-americana: Tito Puente (considerado “el rey del timbal”) e a sua orquestra, Machito & his Afrocubans, Tito Rodriguez & Orquestra, Celia Cruz, Graciela, Neno Gonzales, José Fajardo & Orquestra, Alfredito Valdez, Rosendo Ruiz Jr. E a Orquestra Super Colosal. Trompetes, marimbas, “steel drums” não dão descanso aos pés nem ao coração. As vozes de Celia Cruz e de Graciela sussurram ou gritam desafios de sedução no calor da noite. O mambo nasceu nas Caraíbas, mas estendeu-se rapidamente ao continente americano, desejoso de suar em lutas corpo-a-corpo, dos abraços nos clubes aos enlaces no divã. Mambo é ritmo de exibicionistas, dos mil requebros inventados só para provocar. Canções de amor? Mais de paixão. Um disco abrasivo, de atear incêndios. Um disco que é fogo.

Eugénia Melo E Castro, Wagner Tiso -“Eugénia Melo E Castro E Wagner Tiso No D. Maria – A Verdadeira Cantora É A cantora Que Se Esforça”

Cultura >> Quarta-Feira, 15.04.1992


Eugénia Melo E Castro E Wagner Tiso No D. Maria
A Verdadeira Cantora É A cantora Que Se Esforça


Segunda-feira, no Teatro Nacional, Geninha esforçou-se, deu tudo por tudo para se parecer com uma grande cantora. Na prova dos nove de “Terra de Mel – 10 anos depois” mostrou que ainda está longe de o ser. Mas que está melhor, está. Dispensado de exame, Wagner Tiso, um pianista e músico fabuloso, rubricou os melhores momentos da noite.



Sala esgotada, anunciava a bilheteira. É relativo. Lá dentro sobravam cadeiras vazias, não muitas, portanto houve quem decidisse não passar por Geninha no Rossio, em Lisboa. Hoje às 22h00 no Porto, na Casa das Artes, haverá mais “Terra de Mel”.
Sobre o palco do Teataro D. Maria II, um piano e um castiçal de velas, eram os únicos adereços de um recital que primou pela discrição. Excepto quando Geninha se entusiasmou e a voz não conseguiu acompanhar o entusiasmo. Mas já lá iremos.
Wagner Tiso deu início ao espectáculo, a solo, em dois temas interpretados de forma sublime ao piano: “Chorava”, da sua autoria, e um Villa-Lobos. Brasil interiorizado, de dramas e tragédias que não cabem no samba nem nas telenovelas. Brasil sublimado no trópico da solidão. Estava preparado o ambiente para a eclosão triunfante da pretendente a diva. Primeiro surgiu só a voz, pelas colunas, em “Hei-de amar-te até morrer”. Depois o corpo, franzino, envolto num vestido decotado de cetim vermelho, apropriado para os jogos entre a inocência e a sedução que Eugénia Melo e Castro tão bem sabe jogar.

Trilogia De Wagner

Sucederam-se as canções, recentes e antigas, entre as quais “Noite sem Luar”, composta em 1907 por Godofredo Guedes, mas que tudo indica estar ainda dentro do prazo de validade. Como a voz aliás. Chegada à casa dos 30, Eugénia Melo e Castro está a cantar melhor do que nunca e vê-se que faz gala nisso. Nos médios graves, nas surdinas, nos arroubos quase declamatórios, a emoção passa, sente-se que há naturalidade. Infelizmente Geninha entusiasma-se e quer ir onde a sua voz não alcança, perdendo-se em estridências metálicas, gritadas, que por vezes, como aconteceu sempre que a cantora “esticava” a garganta, atingem o perigoso registo “Castafiore”, notório sobretudo nos “scats” perfuradores de tímpanos” que se permitiu numa ou noutra canção. Mas tudo bem, Geninha esforçou-se e o público, que gosta sempre de ver um artista a esforçar-se, aplaudiu.
Consumado o esforço, Geninha retirou-se do palco para descansar. Wagner Tiso aproveitou e voltou a deslumbrar, em mais três peças instrumentais: um “Xorinho” de Waldir Azevedo, um “baião” com a sua assinatura e um tema de Tom Jobim. Grande, enorme pianista, Wagner Tiso fez uso magistral do pedal de “decay”, pondo o piano a arquejar, cortando reverberações para lhe soltar de novo a respiração e o “choro”. No “baião” passou de “clusters” oceânicos para rendilhados milimétricos tecidos com a perícia de um cirurgião e apoiados por uma mão esquerda ultra swingante. Da maneira como interpretou a música de Tom Jobim basta dizer que o fez com a profundidade e o sabor derradeiro de um Carlos D’Alessio. Não foi “India song” foi uma “Brasil song”, “Eu sei que eu vou te amar”.

Arrojos De Uma “Louca De Amor”

Ainda mal refeita da emoção, a plateia voltou a acomodar-se às investidas da artista principal, pelo menos no cartaz. Durante uma canção, Geninha afaga com volúpia uma coxa, depois a cauda do piano. É o momento mais erótico do espectáculo a anteceder outros movimentos não menos arrojados da cantora que a seguir cruza os braços sobre o decote, na denominada “posição sarcófago” antes de se atirar a um “no puedo ser feliz”, cantado em espanhol e em que Geninha positivamente se espremeu para simular os transportes da paixão.
“Louca de Amor”, de Cruz e Sousa e Carlos Galhardo (o mesmo de “Maldita Cocaína”), que será o título do próximo álbum de Eugénia Melo e Castro, prosseguiu em idêntica veia de loucura cujo auge foi atingido numa canção em inglês, toda gemidos, toda “jazz singer”, com versos assim, sobre a preguiça em fazer certas coisas: “It´s not that I shouldn’t / it´s not that I wuldn’t / it´s not that I couldn’t / it´s simply because I’m the laziest girl in town”. A verdadeira cantora é a cantora que canta em estrangeiro.
Tempo a chegar ao fim, quase duas horas de espectáculo que vão dar a “O Amor É Cego e Vê” e a uma rapsódia que incluiu “Lua Feiticeira”, como não podia deixar de ser. Flores para Geninha, simpatia, beijinhos e um “encore” final: “Terra de Mel” e uma confissão em verso de canção: “A voz é um instrumento que às vezes não posso controlar.” Não foi tanto assim.