Arquivo mensal: Novembro 2017

Isabel Silvestre – Isabel Silvestre Lança Segundo Álbum A Solo – “‘Eu’, Portuguesa, Me Confesso” (entrevista)

Sons

10 de Março 2000


Isabel Silvestre lança segundo álbum a solo

“Eu”, portuguesa, me confesso


“Eu”, portuguesa, me confesso. Poderia ser o dístico afixado no novo álbum a solo de Isabel Silvestre. Depois da canção popular, em “A Portuguesa”, a cantora do Grupo de Cantares de Manhouce regressa com um álbum de originais. Música que os seus pais cantavam à lareira. Chamado “Eu”. Um eu de todos.



Produzido por João Gil e Mário Delgado, “Eu” reúne 12 temas tradicionais portugueses com a participação de Mário Delgado, João Nuno Represas e, num dos temas, Rão Kyao. Isabel Silvestre falou ao PÚBLICO sobre este seu novo trabalho onde o “eu”, afinal, se dissolve numa entidade colectiva.
PÚBLICO – Depois da canção popular, a tradição. Faz sentido. Foi uma decisão sua?
ISABEL SILVESTRE – Nasceu de conversas com o João e com o Mário. Ao fim e ao cabo foi uma escolha de toda a gente envolvida. Mas fui eu que trouxe os temas de Manhouce. Alguns dos temas já tinham sido cantados pelo Grupo de Cantares, mas as versões para este disco são diferentes.
P. – “Eu” é um título bastante personalizado, quase orgulhoso. O que quis dizer com ele?
R. – É um bocado complicado. Não sou bem eu, nós somos todos um produto de nós todos, da sociedade em que vivemos, daquilo que nos ensinaram, da casa onde nascemos, dos brinquedos que tivemos. Ninguém é “eu”. Este “Eu” é a minha terra, a minha música, as minhas raízes. No meio disto tudo também lá estou eu.
P. – “Eu” é um filme de todas essas memórias?
R. – Sim. De toda a música que canto, e sobretudo daquela que se cantava ainda antes de eu ter nascido, a música de Manhouce. Sem querer e sem saber estamos a cantar dentro do próprio ambiente em que nos foram ensinadas essas músicas. Estamos nas festas, nas desfolhadas, nas romarias, onde as ouvimos. Essas músicas são mais eu.
P. – Músicas que os seus pais cantavam em casa?
R. – Sim, à lareira, nas noites de Inverno. Tive a sorte de nascer e de fazer parte de uma família grande em que havia tias solteiras que nos criaram como filhos. E a mãe, claro, que gostava muito de cantar e cantava muito bem. O Grupo de Cantares praticamente é tudo família. Nesta música está a família, a casa, o afecto.
P. – Hoje, em Manhouce, ainda se cantam estas canções à lareira? Ou vê-se televisão?
R. – Sem dúvida nenhuma. A televisão e, ainda antes, a rádio e os discos distraem as pessoas. Antes o povo tinha necessidade de fazer a sua própria música. Como é que eles a faziam? Indo às romarias, inclusive recebendo influências da música de outras regiões. Em Manhouce, por exemplo, ia-se muitas vezes à romaria da Senhora da Saúde, estavam ao pé da gente da beira-mar. Traziam músicas de lá. Não quer dizer que as copiassem, ouviam-nas numa noite, não as captavam na sua totalidade nem na sua verdade, então davam-lhe a sua própria volta, vestiam-na com a roupagem de Manhouce. Lavavam-nas nas águas de Manhouce.

Do litoral para Manhouce

P. – Os mais novos de Manhouce ainda cantam música tradicional?
R. – Tenho sobrinhos-netos que me chamam mãe. Ensino esta rapaziada na escola a cantar a três vozes. Há gente no Grupo de Cantares que já é filha de gente que me passou pelas mãos, a quem pus o bichinho da música. E, além do Grupo de Cantares, há um grupo de danças com quarenta e tal elementos. Neste momento estamos a revitalizar a serra no aspecto turístico, fazem-se encontros com música e danças. A maneira de cantar e de dançar em Manhouce vai continuar viva nos próximos tempos.
P. – Por muito tempo?
R. – Sim, os pequeninos já estão a entrar dentro da nossa música. Felizmente que em Manhouce, apesar de já ter estradas, luz e telefone, isso tudo que eu não tinha, há um gosto pela própria terra e pelas coisas que a valorizam. Além das quarenta e tal pessoas que estão no grupo de danças há mais vinte e tal que estão no grupo de cantares. Numa aldeia pequena como Manhouce já são à volta de sessenta pessoas voltadas para a música. Forçosamente têm que incutir esse mesmo gosto nos filhos e nos netos.
P. – O Grupo de Cantares de Manhouce já rompeu as fronteiras da sua região. A Isabel Silvestre grava na capital com músicos urbanos. Continuam a encará-la da mesma forma, na aldeia? A popularidade alterou a sua maneira de viver?
R. – Sou a mesma pessoa. Falo com os outros da mesma maneira. Continua a fazer tudo da mesma maneira. Por isso as outras pessoas também me tratam da mesma maneira. Claro que sentem e gostam do que o grupo faz. Sobretudo quando vão à cidade e dizem que são de Manhouce e as pessoas sabem logo que são da terra do Grupo de Cantares. E perguntam se conhece a D. Isabel. Eu sinto orgulho naquilo que faço, mas também sinto que gostaria de fazer muito mais.
P. – Sente-se tão à vontade a cantar em estúdio, sobre música já gravada, como aconteceu em “Eu”, como com o Grupo de Cantares?
R. – Quando se fala de música tradicional, pensa-se sempre, ou há pessoas que pensam, numa música menor. Eu penso que a música tradicional, sendo cantada com arranjos de qualidade, fica com um enquadramento perfeito. Não quero dizer que me sinta tão à vontade como no Grupo de Cantares…
P. – Dos doze temas que fazem parte de “Eu”, sente particular afinidade por algum deles?
R. – Talvez “Senhora do Livramento”, por causa, na altura, da morte de Amália e por ser um tema que ela própria cantou. Conheci a Amália, marcou-me muito. Estive em casa dela, cantámos em casa dela, há fotos dela a cantar ao nosso lado, com o xaile e o lenço. Era uma pessoa extraordinária, de uma simplicidade e sinceridade… A gente estava ao pé daquela mulher e havia sempre coisas que vinham ter connosco.
P. – Disse há pouco que gostaria de fazer mais. Tem ideia de quê?
R. – Em conversa no estúdio, durante a gravação deste disco, pôs-se a hipótese de eu fazer para o ano um disco de temas tradicionais religiosos. Há coisas lindíssimas na minha região, e não só…
P. – É uma pessoa muito religiosa?
R. – Sou! Embora não seja – como é que hei-de dizer? – aquela pessoa certinha que vai à missa…
P. – As pessoas continuam à espera de um grande espectáculo seu aqui em Lisboa.
R. – Olhe, na altura de “A Portuguesa” esteve previsto um espectáculo no Centro Cultural de Belém, mas depois, não sei porquê, passou a Expo, ficou tudo muito complicado, as pessoas dispersaram-se… pode ser que aconteça agora.



Sérgio Godinho – Sérgio Godinho Observa As Canções Do Seu Novo Álbum À Lupa – “Através Da Lente” (entrevista)

Sons
20 Outubro 2000


Sérgio Godinho observa as canções do seu novo álbum à lupa

Através da lente


“Lupa” é Sérgio Godinho “vintage”. Excelentes canções vestidas de forma superlativa por Nuno Rafael, dos Despe & Siga, e Hélder Gonçalves, dos Clã. Depois de “Domingo no Mundo” o autor de “Pano Cru” regressa em força, numa demonstração de que o seu veio criativo está longe de se esgotar. Se ele descobriu ou não o elixir da eterna juventude, ´´e irrelevante. Os efeitos são visíveis nas novas histórias que conta. Observadas pelo próprio à lupa.



Bíblias de um deus ateu – “(É que) em matéria de amor/Estamos sempre adolescendo”

A ideia de utilizar discos antigos de vinilo riscados foi do Nuno Rafael. Há uma memória. Parece que as coisas vêm de outro passado. É uma canção forte que explana um bocado o que são os meus temas, sobretudo em relação à vida e ao amor. Fala de renovação. Achei piada explicar o significado das palavras “androceu” e “gineceu”. Nota-se na juventude um fenómeno de simplificação, sobretudo ao nível da leitura. A imagem, a televisão, tirou-lhe espaço. Por outro lado, fico surpreso com o grau de liberdade destas gerações mais novas. Liberdade criativa, de diversidade e de interesse por outras culturas, depois de se ter passado primeiro por uma espécie de “vale tudo”. Mas esta canção, embora fale dos festivais de Verão, não é só sobre a juventude. Seja qual for a idade que tenhamos, como eu digo na letra, em matéria de amor, estamos sempre adolescendo.

Benvindo Sr. Presidente – “Soubera eu que o senhor vinha/E com certeza não me tinha/Apanhado na cozinha”

Canção satírica. Uma crítica ao poder e à mediatização do poder. Sem os “media”, o poder e os políticos não são nada. E não são só as idas aos mercados do Paulo Portas [risos]. São todos. A canção fala, por um lado, do tipo que é obrigado – os portugueses são bem educados… – a receber bem o político, embora a mulher tenha ido embora e esteja desempregado, e, por outro lado, do papel que são obrigados a fazer os políticos, quase sempre artificial. Quem quiser que enfie a carapuça!
Em termos musicais, tem os sons do cortejo que se vai afastando, com o ladrar dos cães, uma espécie de remate cacofónico.

Dancemos no mundo – “Separam-nos crimes/Separam-nos cores/A noite é de horrores”

Mistura géneros, com um refrão um bocadinho “retro”, idílico, embora seja uma canção mais pesada do que parece. Fala das separações dos amantes. A primeira imagem veio de uma reportagem que li sobre um casal formado por um palestiniano e uma israelita. Também podia ser um branco e uma negra. O título esteve para ser “Fronteiras”. Uma utopia sobre o sonho de podermos estar juntos. Os corpos existem, simplesmente há a intolerância religiosa, os “fatwas”, os credos, as cores, os crimes que separam…

Maçã com bicho (acho eu da praxe) – “Mas há quem ache/Graça à praxe/É divertida (hi-hon)/Lição de vida (ão-ão)”

É uma crítica, e na primeira pessoa! Gosto dos estudantes, já fui várias vezes convidado para a queima-das-fitas, mas rituais celebratórios como as praxes, em que a humilhação funciona como processo iniciático, chateiam-me! É o riso considerado como valor absoluto, quando o valor absoluto não é o riso, mas o humor. Eu aqui até uso um bocado as mesmas armas, zurro e ladro…

Na prisão – “Porque há horas tão velozes/E semanas infinitas?”

Já cantei na penitenciária. Mas gostaria de poder um dia cantar esta canção numa prisão. É uma coisa que me toca muito, sei como são as prisões por dentro… É uma canção de alguém que se sente irmão dos que estão presos. Uma série de vinhetas sobre o que é estar preso – para além de tudo o que eu possa denunciar, sobre as condições horríveis das prisões portuguesas. Ainda por cima para pessoas que não deviam ir lá parar, presas por razões ridículas, como o consumo de drogas. A justiça portuguesa é dos setores em que estamos longe de viver uma situação satisfatória. É um monstro, uma hidra que não pára de crescer. Corta-se de um lado e cresce do outro. É assustador. Os encobrimentos, os favorecimentos, a lentidão… Para mudar é necessária a coragem que falta numa situação de corporativismo.

Estou com os azuis – “I’ve got the blues/Estou com os azuis/Salvé! Tê/Salvé! Rei dos Ruis”

Uma homenagem a uma parceria. Nem sabia que havia este tributo ao “Ar de Rock” quando fiz isto. É um “gag”. Uma canção despreocupada em forma de blues. Gosto de parcerias, de vozes que se confundem. Eu, além de já ter trabalhado com o Milton [Nascimento], por exemplo, faço parcerias comigo mesmo… No sentido em que procuro encontrar a minha outra voz…

Bom prazer – “Amanhã, bom prazer eu ponho/No que faça do que hoje sonho”

Uma canção que eu já andava a cantar ao vivo, embora com uma versão muito simples, à guitarra. Também já tinha sido gravada para a Filipa Pais. Esta nova versão foi trabalhada pelo Nuno Rafael e ganhou uma nova vida. Os ambientes mudaram…

Visita guiada – “Cada qual sabe de cor/(Ninguém tem nada com isso!)/Em que ponto de que dor/Se arrisca a cauda na estrada”

Canção sobre o amor, sobre as circunstâncias do amor. O amor e as suas “atrocidades”, “felicidades” e “sacaneidades”. Mostra as maneiras como as pessoas se amam…

É nosso, o S. João – “Mas se houver um dia/Em que a gente/Negue tudo intimamente/E se preste à mais perdida confusão”

Nem sequer sou do FC do Porto; sou do Sporting, embora tenha uma costela salgueirista. Não tenho uma imagem muito conotada com o Porto, apesar de ter escrito o “Porto aqui tão perto”. E peguei no “Carteiro”, do António Mafra, que era lá do Norte. A melodia é uma marcha franca que depois o Hélder transformou em algo mais. Já não vou ao S. João há anos, mas gosto da maneira de estar das pessoas do Porto. A canção celebra a comunhão entre elas, numa noite especial que não devia ser de exceção mas algo para viver sempre. Ainda o desejo de utopia.

A última sessão – “Vimos todos o filme de rajada/Sempre de olhos postos no desfecho/Do happy-end, eu nem sequer me queixo/Só que a vida é mais emaranhada”

Teve um primeiro arranjo, mas depois chegámos à conclusão de que estava demasiado espesso, que a canção perdia simplicidade. Tem uma frase que é um bocado o resumo de tudo, a “caixa negra dos amores” que esteve mesmo para ser o título da canção. São duas personagens que estão a ver um filme onde não vai haver desgraças e de repente a realidade começa a interferir. Não é um final pessimista. É apenas a vida que é mais emaranhada…



Artgrafsiteband – Artgrafsiteband Despertam Os Sentidos – “Batatas Digitais” (artigo de opinião)

18 de Fevereiro 2000


Artgrafsiteband despertam os sentidos

Batatas digitais


Tribalismo, teatro e tecnologia compõem o universo performativo dos Artgrafsiteband, “uma metáfora ao desaparecimento gradual dos recursos naturais”, como os próprios se definem.

Ao vivo, os Artgrafsiteband apresentam um ritual de luz, som e imagem que, em espectáculos de maior dimensão, pode incluir bailarinos e bailarinas seminus pintados com tinta fluorescente, projecção de “slides”, manipulação de fogo e, como já aconteceu em diversas ocasiões, o grupo de gaita-de-foles de Paulo Marinho, dos Sétima Legião. Junte-se a todo este aparato um theremin, um didjeridu, percussões tradicionais e industriais (bidões, bateria recnstruída), samples, programações várias e uma “groovebox” e teremos uma ideia do que se pode esperar de uma “performance” deste quarteto formado por Nuno Paulino, Miguel Barriga, Gonçalo Marques, José Baietas e Gonçalo Azul. Ou, como eles gostam de ser chamados, Artix, Voatrix, Turang, Zzefile e Saturnosun.
Chegaram ao PÚBLICO armados, entre outros símbolos e artefactos da decadência da civilização ocidental, com um computador alimentado a batatas.
Nuno Paulino, mentor do grupo, “aquele que desafiou os outros para fazer coisas”, explicou-nos a génese do grupo, há cerca de dois anos: “Estava a organizar uma feira multiartes e ia pela rua sozinho a pensar no que poderia acontecer, se faltasse uma banda. Achei que seria giro ter um grupo de baile para animar… Encontrei o Gonçalo Marques numa paragem, também sozinho, a tocar gaita-de-foles. Comecei a falar com ele e foi daí que tudo surgiu, em conjunto com o interesse em usar ‘slides’ e um lado visual.”
Esta componente visual é inseparável da proposta estética dos Artgrafsiteband, o que não espanta, atendendo a que Nuno Paulino é gráfico de profissão.
Começaram a tocar sobre as imagens dos “slides”, a construir fraseados musicais até evoluírem para um esquema global onde se confundem algumas coordenadas de grupos como os La Fura Dels Baús e Einstürzende Neubauten.
Subjacente ao espectáculo está um conceito que Nuno Paulino define como “um alerta para a degradação dos recursos naturais”. Fizeram um vídeo ambientalista, “quase metafísico”, sobre a “evolução do homem”, desde a “descoberta do fogo” até à “actualidade, onde se vêem guerras todos os dias”.
Sincronizar o som e a imagem foi o passo seguinte, até se chegar nas apresentações ao vivo a algo mais alargado, com a inclusão de algumas amigas da Escola Superior de Teatro que dançam com o corpo pintado ou envergando estranhos acessórios tribais em desempenhos ritualísticos.
No mínimo intrigantes – “as pessoas perguntam se o nome do grupo é em alemão…” –, os Artgrafsiteband estão prontos para espantar os palcos nacionais, como fizeram já em espectáculos apresentados o ano passado na FIL, no Parque das Nações, em Lisboa, ou nas Festas de Loures, onde conseguiram chocar as pessoas.
Nuno Paulino entusiasma-se ao pensar em novos truques de sonoplastia, como apertar um saco de batatas fritas para imitar o som do fogo, ou abanar uma radiografia para simular o som do vento. Assistir a um espectáculo dos Artgrafsiteband põe os cinco sentidos em estado de alerta.