Arquivo mensal: Novembro 2017

Saturnia – Música Cósmica Portuguesa Para Dançar – “Chamada De Saturno” (artigo de opinião)

18 de Fevereiro 2000


Música cósmica portuguesa para dançar

Chamada de Saturno


A nave do “space rock” que no final dos anos 60 foi lançado pelos Hawkwind, Nektar e Pink Floyd e hoje se mantém em órbita com os Ozric Tentacles é habitada em Portugal pelo projecto Saturnia, de Luís Simões. Segundo o próprio, “uma mistura de psicadélico clássico e progressivo dos anos 70 com beats contemporâneos”.



Tudo começou porque o irmão mais velho se casou e saiu de casa, deixando-lhe a colecção de discos em vinilo. Luís Simões, de 27 anos, não se fez rogado. Aprendeu a ouvir e a gostar do passado. Há quatro anos formou – com M. Strange (pseudónimo de Eduardo Vasconcelos), aos quais se juntou mais tarde um terceiro elemento, Vasco Pereira – os Saturnia, um projecto de “sensibilidade hippie para os anos 90” onde se misturam theremins, ondas de krautrock e grooves de drum ‘n’ bass. “Música cósmica”, para viajar. “Trippy”, como Luís Simões lhe chama numa alusão às “trips” de música e ácido que há 30 anos atiravam as cabeças para o lado oculto da lua.
“Somos os três músicos com um ‘background’ de rock mas estacionado nas áreas do ‘space rock’ e do ‘prog rock’ do fim dos anos 60, princípio dos 70, dos Hawkwind, Pink Floyd, Gong, esse tipo de bandas”, explica Luís Simões. “Em 1996, quando a cena dos Saturnia começou, esse tipo de referências, da ‘trip’, da improvisação, dos ambientes, estavam completamente excluídas do rock.”
Mas Luís Simões percebeu que “essa forma de pensar, essa filosofia” tinha “ficado presa na cena da música electrónica, mesmo ainda de o drum ‘n’ bass e do trip hop terem rebentado, com a cena tecnotrance, os ‘chill outs’, tudo isso”.
O que os Saturnia fizeram foi a 2fusão” entre esses dois universos separados pelo tempo mas paradoxalmente unidos pelos conceitos de viagem e evasão. O primeiro desses universos herdou-o Luís Simões do irmão mais velho. “Era o que se ouvia sempre lá em casa.” Hoje, depois de ter absorvido os velhos álbuns em vinilo que ficaram lá por casa depois de o irmão se casar, fala com à-vontade sobre o livro “Krautrocksampler”, de Julian Cope e da foto da capa, tirada do álbum “Yeti”, dos Amon Düül II. A música de dança e electrónica, essa, enche o éter do ano 2000.
Basta ler os títulos das faixas do álbum que os Saturnia tencionam em breve editar para se perceber a galáxia em torno da qual gravitam: “Club Aquarium”, “The twilight bong”, “Interstellar rainbow lung”… Neles, o “groove” é uma constante mas apontado às estrelas. A tal “trip” que Luís Simões só até certo ponto conota com o consumo de drogas psicotrópicas. Sorri ao falar dos Hawkwind, os quais, neste particular, eram “uma desgraça!”. Quanto aos Saturnia, admite que pode haver diferenças entre ouvir-se a música em estado “normal” ou “alterado”. Pode ser considerada “uma banda sonora tripante”, reconhece Luís Simões, embora negando que seja esse o propósito. “É mais uma música que visa a harmonização do ‘eu’ com o universo que o rodeia. Mas também um “sequencial de religiosidade dopada, de mantras dopados”. No fundo, para o ideólogo dos Saturnia, trata-se afinal da “cena descendente do período psicadélico, um psicadelismo contemporâneo”. “Busca-se qualquer coisa, não só em relação à música mas, de uma forma geral, do que é a sociedade ocidental actualmente, onde há uma enorme falte de valores, ideais e crenças.” Para Luís Simões, a resposta encontra-se algures entre os anéis de Saturno.


QUINTO ANDAR: Luís Simões, Saturnia from Arte Sonora on Vimeo.

Angra Do Budismo – Mentor Dos Ocaso Épico Regressa Mais Espiritual – “Farinha Maizena” (artigo de opinião)

25 de Fevereiro 2000


Mentor dos Ocaso Épico regressa mais espiritual

Farinha Maizena


Lembram-se de Farinha e dos Ocaso Épico? Nos anos 80, provocaram com a sua mistura de pop saloia e electrónica futurista. Pois o provocador farinha está de volta, com a mesma electrónica, agora já não tão futurista, desta vez mesclada de filosofia oriental, no novo projecto Angra do Budismo. Zen e energias cósmicas para cada um interpretar como quiser.



Depois do ocaso dos Ocaso Épico, juntamente com António Variações, um dos nomes que mais rastilhos de pólvora acendeu à pop nacional, Farinha entrou em letargia. Um período prolongado de doença afastou-o dos estúdios e dos palcos, mas agora o veterano provocador regressa imbuído de energia renovada e da vontade de vencer.
Angra do Budismo é o seu novo conceito, partilhado com Luís Bernardo, guitarra e voz, e um terceiro elemento, Manuel Machado, teclados e voz. Farinha encarrega-se das programações, guitarra e voz. O projecto nasceu há cerca de um ano. “O Luís é de um elemento astrológico com uma energia mãe da minha enquanto a minha energia é mãe da energia do Manuel. Existe aqui uma energia de apoio que acabou por gerar uma construção.” Neste ponto Farinha prontifica-se a mostrar os vários tratados de budismo que traz consigo. Percebe-se que a onda não é bem a mesma em que navegavam os Ocaso Épico.
Angra do Budismo joga nas associações. Com humor, afinal uma das características que não se ausentou da personalidade musical de Farinha. Luís Bernardo, no entanto, carrega na tecla do eruditismo, apontando o “estudo e o acompanhamento de ciências orientais como a macrobiótica ou as doutrinas zen de Lao-Tsé”. “Não como praticantes, mas como curiosos.” Farinha corrige de imediato o seu companheiro: “Mas já fizeste alguns exercícios, eu tenho feito bastantes, embora não tenha nenhum mestre e ache que um homem deva ter um. Pronto, não há um enquadramento em estruturas rígidas, mas apenas uma observação de longe.” “É o budismo como podia ser o taoismo”, explica Farinha, esclarecendo que o grupo estava para ser chamado “Portal” – o “portal informático”, o “portal da sabedoria”, com conotações fadistas o “portal da Severa” e o portal 57 porque ele é energia do sol 5 e eu sou metal 7”.
Postas as coisas nestes termos, tudo se torna mais claro. Há ainda o fogo de Kundalini presente nas letras, sobretudo num tema como “Dança de Kundalini”, em que são notórias algumas parecenças com os Sétima Legião, influência que Farinha, de resto, não renega. Como não se importa quando alguém chama a este tema uma “canção romântica”.
“Fugia de ti”, “Trambolhão”, “Trash city”, “Alguém não” e “Irreal” são outros dos temas dos Angra do Budismo, contidos numa demo que, embora ainda não na sua versão definitiva, constitui já “um cartão de visita” daquilo que o grupo pode e quer fazer. Já há propostas de pequenos editores, porque se trata de “uma música não apontada ao circuito comercial”.
Falta sentido de humor à canção nacional? “Há é falta de descontracção”, lança Luís Bernardo. Farinha faz questão de dizer que este projecto não se insere na estética do drum ‘n’ bass, que considera ter “uma origem muito próxima do Brasil”. No leitor do automóvel tem andado – “Vais ficar à toa!” – um disco dos Anjos. Ao lado de Nusrat Fateh Ali-Khan, dos Kraftwerk, Blasted Mechanism e Da Weasel. Luís Bernardo também ouve de tudo, neste momento mais os Thievery Corporation.
O que também não se perdeu foi aquele lado mais popular que já estava presente nos Ocaso Épico. “Música popular, mas completamente electrónica e mecânica. Os puristas tocam só com cavaquinho e os da pop têm vergonha de ir àquilo que é castiço, eventual motivo de vergonha.” Farinha, “dixit”. Com ele ninguém faz farinha.



Reunião De Amigos Da Música Tradicional – “Sobe, Sobe, Balão Sobe” (artigo de opinião sobre a compilação “Cantigas De Amigos”

25 de Fevereiro 2000


Reunião de amigos da música tradicional

Sobe, sobe, balão sobe


“Cantigas de Amigos” reúne uma série de clássicos da música tradicional portuguesa onde o factor divulgação está bem servido de boas ideias e nomes famosos. A ideia partiu de João Balão – colaborador habitual da Ala dos Namorados, de Fausto e do chileno Ramuntcho Matta. Balão não teve qualquer problema em ser “sombra”. Com ele sobe também a música.



“Foi uma ideia que começou a tomar forma ao longo do próprio processo de gravação”, começou João Balão por explicar ao PÚBLICO. “Era para ser uma coisa completamente diferente, um disco instrumental.” Afinal “Cantigas de Amigos”, concretizado com a ajuda preciosa de José Moz Carrapa e do engenheiro de som Jorge Avilez, acabou por reunir uma constelação de cantores que inclui Genoveva Faísca, João Afonso, Paulo Costa (dos Ritual Tejo), Luís Represas, Né Ladeiras, Viviane (dos Entre Aspas), Carla Lopes, José Medeiros, o grupo Cramol, Nuno Guerreiro, Maria João, Minela Medeiros e três Gaiteiros de Lisboa, José Manuel David, Rui Vaz e Carlos Guerreiro. Faltaram à chamada para a participação em “Cantigas de Amigos” – gravado no Verão de 1998 –, por “indisponibilidade” de momento, Dulce Pontes (“estava a entrar em estúdio para a pré-produção do seu novo disco”) e Amélia Muge (“sobrecarregadíssima de trabalho com as Vozes Búlgaras”). “Ainda por cima estávamos no ano da Expo”, diz João Balão, um multinstrumentista cuja carreira passou até agora pela música tradicional, nos finais dos anos 70, com o grupo Água Dura, tocando na década seguinte com Fausto (com quem voltou a trabalhar nos últimos três anos), Júlio Pereira e Trovante e, já nos dias de hoje, com a Ala dos Namorados. João Balão reside actualmente em Barcelona, onde toca com uma formação de jazz, os El Chuco. Já trabalhou com o músico chileno Ramuntcho Matta, um dos expoentes da fusão entre electrónica e sonoridades étnicas, autor, entre outros trabalhos, do clássico “Domino One” para a editora Made to Measure.
Apesar de todo este passado, o nome de João Balão não tem por enquanto grande expressão nas primeiras páginas dos jornais. Ele não se importa, embora tenha sido ele quem escolheu os temas e assinou a maioria dos arranjos de “Cantigas de Amigos”: “Não é uma questão que me preocupe. Sinto-me confortável em ser sombra. Não que tenha qualquer receio em expor-me, mas não tenho, de facto, grande apetência em ser figura pública.”
Os cantores envolvidos nos projecto aceitaram de bom grado o desafio, colaborando com “críticas e sugestões”. “Houve muitas coisas modificadas em relação aos arranjos originais, como o tema vocalizado pelos três Gaiteiros, “juntamente com o tema cantado pela Genoveva Faísca”. “Um dos que não foram feitos por mim.”
Nas gravações, foi fácil. “Uma das experiências que pus em prática neste disco foi a psicologia de estúdio, eliminando a tensão de pessoas mais vulneráveis a ela.” Tudo correu bem, com total envolvimento dos participantes, “havendo, inclusive, quem regressasse de novo ao estúdio para melhorar o que já estava feito”.
O espírito era de celebração e de celebração se fez o disco. “Celebração da força da terra que está na origem de toda a música tradicional, seja ela portuguesa ou de outro sítio qualquer”, diz João Balão em cujo leitor de cassetes tem rodado ultimamente uma colectânea de música tradicional finlandesa, com Maria Kalaniemi, Troka, Loituma e Tallari, entre outros.
“Cantigas de Amigos” bem poderia ser o primeiro volume de uma série de álbuns animados pelo mesmo espírito. João Balão ri-se e não põe de parte a ideia. Para já fez-se o que devia ser feito. E bem. Não faltam momentos de excepção em “Cantigas de Amigos”, culminando com um “A garrafa vazia de Manuel Maria” que homenageia da melhor forma o nome de José Afonso, com todos os vocalistas numa espécie de desgarrada isenta daquele toque de populismo, tipo “live aid”, que normalmente caracteriza este género de temas. Talvez porque “as vozes foram gravadas separadamente”, o que não lhe retira nenhuma das virtudes. “As únicas pessoas que gravaram juntas foram, no coro final, a Né Ladeiras, o João e o Toninho Afonso que, por acaso, se encontraram no estúdio.”
“Cantigas de Amigos” surge assim como uma ideia susceptível de criar novos desenvolvimentos. Depois dos “Romances” de Amélia Muge, Sérgio Godinho, Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa e João Afonso, este trabalho comprova que é possível, ao contrário do que tem acontecido neste mesmo meio e em outras paragens, avançar em conjunto em prol da música de raiz tradicional feita em Portugal. Basta deitar antigas questiúnculas para trás das costas e ser amigo.