Arquivo mensal: Julho 2016

Quinta do Bill – “No Trilho do Sol”

Pop Rock

6 de Março de 1996
portugueses

Quinta do Bill
No Trilho do Sol

POLYDOR, DISTRI. POLYGRAM


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Os putos gostam de se divertir na Quinta, nada a fazer quanto a isso. Por onde passa, ao vivo, a banda faz a festa. À música de bar a fingir de irlandesa, do álbum de estreia, segue-se agora a música dos índios, muito em voga nas colecções de new age étnica da temporada. Não há dúvida, porém, de que o grupo evoluiu bastante desse primeiro trabalho para este segundo pacote de canções, em que a tentativa de “fazer épico” deu lugar a uma maior contenção. “Parar o tempo”, “Se te amo” e “Prece (uma canção)” são mutações atraentes dos Sétima Legião, enquanto, instrumentalmente, o grupo inflectiu na direcção dos “folkrockers” irlandeses Horslips e de uma tónica “progressiva” (“Gerónimo”, agigantada por um sexteto de cordas), curiosamente aquela que parece ser o lugar natural da Quinta. A influência índia aparece no tema inicial, em “Índios na reserva” e “Mão na consciência” (com letra à UHF!…); a irlandesa em “O fogo posto”, “Reunir aos meus amigos” e “A única das amantes”; e o passado da Quinta em “Quanto + me olho ao espelho” (um “hit” à espera de o ser?). Palmas para o violinista Nuno Flores, está um senhor. Numa Quinta agora bem cuidada. Eu próprio – cujas reservas em relação à banda nunca escondi -, confesso, me deleitei nalgumas das suas paragens. Uma canção como “Eles ignoram” indica, só por si, que o grupo, afinal, tem potencialidades para ir longe. Rapazes, larguem lá os irlandeses e os índios e usem as pernas que têm para andar. (6)



José Mário Branco – “A Noite” + “Correspondências”

POP ROCK

13 de Novembro de 1996
portugueses
reedições

Perguntas que nascem dentro da memória

JOSÉ MÁRIO BRANCO
A Noite (8) / Correspondências (8)

Ed. EMI –VC


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O que torna José Mário Branco e a sua música únicos? A arte dos arranjos e da composição? O segredo da transmutação? A culinária de venenos? A capacidade de luta e de resistência? A ironia? O sarcasmo? A transparência? Tantas perguntas a pedir respostas, que, por sua vez, exigem outras perguntas. Experimente-se uma chave: a força. A força das convicções e dos ideais. A força que confere unidade a uma obra que passou em revista os vícios e virtudes da sociedade portuguesa das últimas três décadas.
“A Noite”, editado originalmente em 1985, junta duas facetas distintas do compositor. De um lado, em termos de rodela de vinilo – ou na reconversão para o novo formato, na primeira parte –, é o foguetório popular, a sátira mordaz e festivaleira de “Cá vai Caneças”, “Tiro-no-liro” e “Elogio da Corrupção”. Na segunda parte, Portugal apaga-se, para se reacender e desventrar, uma vez mais, numa solidão que é de todos nós, que definhamos a sonhar os mitos e glórias do passado.
De todos, quase todos nós, carneiros modernos ou pós-modernos, mas carneiros sempre – por imposição ou vocação, vai dar ao mesmo. “A Noite” é um longo poema sinfónico/ manifesto espiritual, que interroga os abismos da história (ou o seu negativo) e do inconsciente portugueses. “A noite é o espaço vago, o tempo sem história/ em que as perguntas nascem dentro da memória/ em tudo o que já fomos está o que seremos/ mas cabe perguntar: foi isto que quisemos?”
Se “FMI” fazia a dissecação, sem anestesia, de um corpo inteiro em agonia, “A Noite” é a revelação das suas motivações e pulsões – estéticas, espirituais, existenciais e políticas –, através da interrogação e da auto-interpelação: “Como é que aqui chegámos?” “Acaso estamos vivos?” “Existe uma saída?” Caminho de retorno ao paraíso do útero maternal, única matriz a partir da qual é possível recomeçar tudo de novo. Com “A Noite” a música portuguesa recomeçou e das trevas fez-se luz. Ascensão e queda, passado e futuro, indivíduo e colectividade, “A Noite” constitui-se como a própria dialéctica da criação. Iluminada em palco, à luz dos holofotes e do espírito, mesmo em frente aos nossos olhos estremunhados.
Com data de edição original de 1991, “Correspondências”, ao contrário de “A Noite”, tem carimbo e o endereço dos destinatários. Palavras e sons dirigidas a poetas e músicos, aos netos e ao sr. Silva, ao remetente, quando a solidão e a ilusão apertam mais. Um álbum que, em termos poéticos, resume, sem lhes acrescentar novos destinos, viagens cumpridas do autor, espécie de recapitulação, de um pôr em ordem o desalinho dos anos e desenganos do passado. Em termos de som e produção, é um trabalho de colaboração, de experiências formais, por vezes sentidas como desvios.
Nesse aspecto de partilha de responsabilidades, “Correspondências” pode ser visto como o equivalente a “Galinhas do Mato”, de José Afonso, no qual as funções de comando foram entregues a José Mário Branco. Cumprida mais uma espiral do tempo, chegara a vez do próprio José Mário Branco entregar os arranjos a amigos como José Peixoto, José Martins e Júlio Pereira.
É ainda o sinal do fim de uma época e o começo de outra, marcado pelo nascimento da UPAV, na defesa, em novos moldes, da música portuguesa. José Mário Branco, o político, sobrepondo-se ao José Mário Branco, músico. Uma vez mais, as notas informativas que acompanham as presentes reedições, da autoria de Nuno Pacheco, constituem leitura auxiliar obrigatória.



José Mário Branco – “Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades” + Margem De Certa Maneira” + “A Mãe” + “Ser Solidário”

Pop Rock

29 de Maio de 1996
portugueses

JOSÉ MÁRIO BRANCO
Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (10)
Margem de Certa Maneira (10)
A Mãe (8)
Ser Solidário (9)

Ed. EMI – Valentim de Carvalho


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Lançados há pouco, “A Mãe” e “Ser Solidário” completam o primeiro pacote de reedições da produção integral de José Mário Branco, juntando-se às duas primeiras obras anteriormente colocadas à venda no mercado.
Mais que um acto de justiça feito a um dos maiores compositores, arranjadores e – porque não dizê-lo – intérpretes de música popular portuguesa de todos os tempos, a recuperação para o formato digital da sua obra (com a reprodução das capas originais e enriquecida pela escrita de Nuno Pacheco) vale como exemplo de uma atitude. Ao mesmo tempo, poderá e deverá servir de ensinamento e base de trabalho para toda uma geração de novos músicos que pretendam fazer algo mais do que simplesmente submeter-se às regras do jogo.
“Não te prendas a uma onda qualquer”, era o aviso, feito em 1982, em “Ser Solidário”. Se há uma lição a extrair do modo como o autor destes quatro álbuns sempre encarou a música, ela está na liberdade e no desafio que lhe permitiram livrar-se tanto do espartilho ideológico como de um esteticismo autoconvencido.
José Mário Branco, como José Afonso antes dele, apontou o único caminho que permite a verdadeira emancipação de uma arte onde o popular não se confunde com o popularucho, nem o acto interventivo com o gesto irreflectido. Didáctica, sem impor formas de conduta, aberta, na não exclusão preconceituosa de qualquer género musical, toda a obra do compositor aponta para a ruptura e para a auto-análise, essenciais para um movimento que se pretenda dialéctico. Não como círculo fechado em torno de um qualquer umbigo, mas como projecção num presente reinventado, sem dúvida, a partir da experiência pessoal. Um presente inserido numa realidade social que, mais que filtrada ou reproduzida através de meros processos de dobragem ou contemplação, se transmuta numa outra realidade, onde a poesia e o trabalho, a arte e a vida, a dor e a diversão, a raiva e a ternura deixam de ser veículos encapotados ao serviço de ideologias ou quaisquer outros tipos de manipulação.
Se “A Mãe”, álbum composto para uma peça de teatro da Comuna/Teatro de Pesquisa, constitui, dos quatro discos em questão, aquele onde o discurso surge mais conotado com uma visão partidária – o fabuloso incêndio de “F. M. I.” pode ser encarado como o equivalente musical de manifestos poéticos como a “Cena do ódio” de Almada Negreiros ou a “Ode triunfal” de Pessoa/Álvaro de Campos, nessa absoluta justaposição do sentir com o dizer – “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” e “Margem de Certa Maneira” são o gosto pelo risco e a reinvenção de uma herança musical sem data nem fronteiras. São dois álbuns em que o sinfónico, o jazz, a tradição rural, a poesia trovadoresca, o rock, a canção libertária e o teatro (tantas vezes da crueldade…) se unem para dizer – e contradizer – o que deve ser dito, na conquista de mais espaço e liberdade para as palavras e para os sons que jamais se contentam com o que têm. Dois álbuns que, enfim, nos ensinam que o acto político mais forte e corajoso nasce da coragem de ser (e de parecer) o que se é.