Arquivo mensal: Julho 2016

GNR – “Tudo o que Você Queria Ouvir”

POP ROCK

29 de Maio de 1996

portugueses

GNR
Tudo o que Você Queria Ouvir (8)

2XCD, ED. EMI – V.C.


gnr

Já não era sem tempo! Valeu a pena esperar! Finalmente, tudo o que queríamos ouvir mas não ousávamos perguntar, muito menos pedir, dos GNR, encontra-se disponível nesta compilação-maravilha. Agora a sério: o grupo de Rui Reininho já merecia uma antologia deste tipo, até porque tarda um álbum de originais. Mas há originais em “Tudo o que…”! E remisturas das canções que todos nós amamos, por Marsten Bailey, a partir das bobines originais de 24 pistas, o que confere um som mais do que apetitoso ao que julgávamos enterrado nos arquivos para sempre. As excepções são os primeiros “hits” da banda, ainda com Vítor Rua, “Portugal na CEE”, “Sê um GNR” e “Espelho Meu”, que foram remasterizados, também neste caso com a qualidade de som a melhorar de forma dramática.
Depois, miam miam, aparecem 14 temas nunca antes editados em CD, entre “singles” e “maxis”, como “TV mural”, “Sê um GNR” ou “Twistarte”. Os inéditos são “Julieta su & sida” (título ao nível dos melhores do grupo) e “Pena de morte”. O primeiro é a resposta, no feminino e nos anos 90, ao “Chico fininho” de Rui Veloso. Bastante mais inteligente e a jogar com a ambiguidade das palavras da maneira como só Reininho é capaz. No segundo, o Bryan Ferry português desacelera para ambientes soturnos e para o sobrerealismo da era espacial.
Banda desavergonhadamente pop, depois de ter sido desavergonhadamente experimental, em “Independança”, os GNR cantam com uma candura perversa alguns dos temas tabu da sociedade portuguesa, como a droga, a religião ou a homossexualidade. Se as acusações que recaíram sobre o grupo, por causa de “Sob Escuta”, incidiam em geral na superficialidade das letras e de um som que, segundo se disse, parecia dirigir-se em exclusivo aos prazeres sem culpa de adolescentes imberbes (porque será que a palavra “adolescentes” surge sempre associada ao adjectivo “imberbes”?), esta colectânea prova que, pelo contrário, os GNR sempre se dirigiram, em primeiro lugar, aos adolescentes imberbes. Ao lado de adolescentes imberbes que existem em cada um de nós. E neles. Há lá hino que faça mais sentido do que aquele que diz “mais vale nunca mais crescer”? Os GNR são a fonte da eterna juventude sobre as dunas. Mesmo com barbas brancas e reumático. É pecado passar a vida a brincar? Reparem bem, há ou não algo de assustador no sorriso de Rui Reininho? Devemos acreditar na bondade de um GNR?



Rui Júnior & O Ó Quem Som Tem – “Ó Tambor”

POP ROCK

1 de Maio de 1996

Rui Júnior & O Ó Quem Som Tem
Ó Tambor

ED. FAROL


rj

Na linha de outro grande percussionista, Glen Velez, Rui Júnior encara o ritmo como a arte e um veículo de transmutação interior. O objectivo é o transe, a sintonia nas frequências menos óbvias do som, a flutuação nos ecos e reverberações, a descoberta das ligações insuspeitas entre o ritmo dos corpos e o ritmo do mundo, o recorte dos microtons, em texturas onde o timbre vale tanto como o rigor do compasso. “Ó Tambor” prefere a contemplação à tempestade, a progressão lenta à explosão. Rios e ribeiros deslizam devagar, as suas águas confundindo-se com as de lagos que, por sua vez, desaguam em mares e oceanos. As samplagens de vozes de crianças, de uma orquestra, de ruídos animais, tanto como o poema védico lido por José Mário Branco ou a carga emotiva da voz de Amélia Muge, jogam com as polifonias vocais de índole religiosa ou simplesmente lúdica, seja na proximidade com a tradição portuguesa ou na apropriação das técnicas indianas. Não é música tradicional, embora haja uma gaita-de-foles a cantar em “Recolhimento”, um dos mais belos temas do disco, e a dança dos ritmos jogue às escondidas com as reminiscências do passado. Um reco-reco transporta consigo Airto Moreira e o Brasil, em “Frase feliz”, a África ergue-se no coro das Fincapé, em “’68”, um sonho cresce em procissão no enlace das percussões com o violoncelo, em “6 feira”. “Ó Tambor” é o pesadelo dos adeptos da adrenalina e o paraíso dos espeleólogos e alpinistas da sensibilidade. Um “O” cujo centro está em toda a parte e a circunferência em parte nenhuma. (8)



Três Tristes Tigres – “Guia Espiritual”

Pop Rock

3 de Abril de 1996
Álbuns portugueses

Alma ecrã

TRÊS TRISTES TIGRES
Guia Espiritual

EMI, ed. EMI – VC


ttt

“Partes Sensíveis”, o álbum de estreia destes Tigres de caninos afiados, chamava atenção para as palavras, para os seus duplos sentidos, os seus ritmos, o seu poder de sugestão. O salto dado com “Guia Espiritual” faz perder de vista esta perspectiva. Trata-se agora, antes de mais, de uma operação sobre um conceito global de som. A esta deslocação do ponto de focagem correspondeu obviamente uma transferência de poderes no seio do grupo. Regina Guimarães, autora de todos os textos das “Partes”, recuou para a sombra, entrando para a boca de cena Alexandre Soares, que, no primeiro álbum, se limitara a cumprir a sua função de guitarrista. Em “Guia Espiritual”, o ex-GNR cria uma paleta sonora que, sendo sua, deriva de uma leitura selectiva de concepções – sobretudo, ao nível da construção – que remontam aos anos 70 e 80, para desaguar numa síntese de modernidade em que as noções de composição e produção se confundem. A aproximação literária, até certo ponto humanista, de “Partes Sensíveis” (muito se referiu, a propósito deste, o seu lado cabarético, abrigo de uma humanidade no limite do teatral, logo, do virtual) deu lugar a um outro espaço em que as palavras de Ana Deus se diluem numa paisagem complexa de memórias e reconversões musicais. A passagem, de um para o outro disco, tem lógica. O “novo realismo” que Alexandre Soares enuncia (ver artigo no Poprock da semana passada), construído sobre imagens, alucinações – um filme, enfim, ou filmes – não faz, afinal, mais do que elevar a estética dos Três Tristes Tigres do patamar da história temporal dos homens para a intemporalidade (o tempo cinematográfico) de algo mais difuso, em que o imagético se sobrepõe ao poético. É nessa justa medida que a música de “Guia Espiritual” se abre numa caleidoscópio de ecos, fragmentos e discursos, cujo efeito mais consistente (e perturbante) é a hipnose, a diluição da escuta num som que preza tanto a arquitectura como a sua própria textura. Se os Can, e a escola alemã dos anos 70, em geral, estão presentes, em temas como “Ruído rosa” ou “Kindergarten” e “Missão impossível” se aproxima descaradamente da Suzanne Veja de “99,9 F”, o que releva no subconsciente, após a imersão auditiva, é uma espécie de flutuação num largo sem margens, onde a espiritualidade de que fala o título se afirma como o derradeiro dos enganos ou das armadilhas. A imagem da capa, uma mancha negra rodeada de “vida artificial”, ilustra de forma exemplar um disco que dá a imagem fenoménica dos anos 90. Em Portugal ou qualquer outra parte do mundo dito civilizado. Fotografia “kirlian” de um corpo que já não existe ou se perdeu. Fala da mutação física, do “Anormal” (um dos títulos do guia) tornado normal. E da alma, transmutada num ecrã. (8)