Arquivo mensal: Abril 2016

Jimi Hendrix – “Voodoo Soup”

Pop Rock

19 de Abril de 1995
álbuns poprock

Jimi Hendrix
Voodoo Soup

POLYDOR, DISTRI. POLYGRAM


jh

Jimi Hendrix tinha uma teoria. Um dia, dizia ele, por volta do final deste século, o planeta Júpiter há-de explodir e transformar-se num segundo sol do nosso sistema solar. Uma teoria que Arthur C. Clarke explorou igualmente no seu livro “2010, o ano do contacto”. A nova Terra, assim iluminada por dois astros-reis, tornar-se-ia um paraíso e todos os seus habitantes pessoas de bons princípios. Entretanto Hendrix morreu, sem ter tido tempo de comprovar a sua teoria. Estamos cá nós para ver. “Voodoo Soup” junta três temas inéditos do mestre e visionário da guitarra com composições antigas. Tudo remisturado e “remasterizado” digitalmente. No começo, precisamente em “The new rising sun” (um dos originais, também um dos muitos títulos que foram avançados pelo músico para aquele que seria o seu próximo álbum de estúdio, depois de “Electric Ladyland”, editado em 1968), escuta-se o som da chegada de um OVNI, em ambiente de antecipação científica, com a guitarra num delírio de efeitos electrónicos. “Message to love” e “Peace in Mississipi” são os outros dois inéditos, embora neste caso se trate das versões com os músicos originais – Buddy Miles e Billy Cox, os Band of Gypsies, no primeiro caso, Mitch Mitchell e Noel Redding, no segundo – de canções que já haviam aparecido em “Crash Landing”, embora por músicos que nem sequer chegaram a tocar com Hendrix. De resto, é um exercício interessante, reescutar alguns temas menos conhecidos retirados sobretudo de “Cry of Love” (álbum póstumo, de 1971), mas também da banda sonora “Rainbow Bridge” e “War Heroes” (outro dos álbuns póstumos, este de 1972). Ao todo, uma selecção que pretende não ser inocente, procurando relacionar entre si composições que de algum modo se entrelaçam na teia complexa visionada pelo artista, na origem do tal “mundo novo” que há-de vir. Perspectiva que se completa com a leitura dos últimos movimentos de Hendrix, contados por MIchael Fairchild no livrete incluso, acompanhado de fotos inéditas, em que se acentua o lado místico do músico A lenda continua.



Marianne Faithfull – “A Secret Life”

Pop Rock

12 de Abril de 1995
álbuns poprock

Cheia de fé

MARIANNE FAITHFULL
A Secret Life (7)

Island, distri. Polygram


MF

Laura Mars trocou de lugar com Marianne Faithfull. A combinação da música de Ângelo Badalamenti, autor da banda sonora de “Twin Peaks”, de David Lynch, com a visão trágica da antiga protegida de Mick Jagger parece, à partida, apropriada. Escrito ao mesmo tempo que o livro “Faithfull: An Autobiography” e em paralelo com o lançamento da colectânea “Faithfull: A Colletion of Her Best Recordings”, o novo álbum pode ser encarado como uma espécie de complemento da autobiografia, desvendando alguns recantos secretos no processo de autodescoberta que desde “Broken English” coincide com a discografia da cantora. Badalamenti, que Marianne define como “alguém com uma atitude positiva em relação à vida”, tem por seu lado a capacidade de transformar em veludo os abismos da alma humana. Mas Marianne Faithfull não +e a boneca Julee Cruise, o que torna neste caso inviável qualquer tipo de manipulação e faz com que as orquestrações e os arranjos – da autoria do compositor – soem em certas ocasiões demasiado ligeiros. “A Secret Life” não aborda de forma directa o “drama”, ainda utilizando as palavras da cantora, familiares para o público.
Não se trata de mais uma descida aos infernos, mas de um disco onde as diversas temáticas, por mais escuras que sejam, são observadas pelo prisma da fé e da esperança. A diferença de registo poderá parecer chocante a um público que se habituou a ver em Marianne Faithfull a artista “naufragada em culpa e angústia, num grande sofrimento”, sobretudo se tiver ainda vivas as recordações de um álbum em carne viva como “Strange Weather”. Mas os ritmos electropop de “Love in the afternoon”, dançáveis em “Bored by dreams” e “Wedding” não afligirão tanto se nos lembrarmos que a quase totalidade de “Broken English” foi construída sobre uma base de pop electrónica. Assim, a junção do negro das palavras com a maior leveza dos sons não é virgem e, muito menos, inocente, considerando que Badalamenti não terá assim tanto a personalidade “solar” que Faithfull lhe atribui.
Um “Prologue” e “Epilogue” em tons épico-orquestrais e canções como “Sleep”, “She” e “The stars line up” conferem à música uma dimensão espacial de outro tipo, mais ampla, abrindo as cortinas para um céu estrelado sob o qual o pessimismo se deixa esbater em nocturno apaziguamento. Arquivar entre “The Love Songs”, de Peter Hammill, e os discos recentes de Leonard Cohen.



Duran Duran – “Thank You”

Pop Rock

12 de Abril de 1995
álbuns poprock

Duran Duran
Thank You

EMI, DISTRI. EMI – VC


dd

Antigamente os Duran Duran eram um simpático grupo pop com um toque de decadência chique. Fizeram grandes singles, numa altura em que a moda era a afectação rococó de bandas como os Classix Nouveau, Visage e Spandau Ballet. Os Duran tinham uma vantagem, eram melhores compositores. De “singles”, entend-se. Aliás, o “design” da embalagem – excelente – do CD, quer dizer isso mesmo. Coisas como “Planet Earth”, “Girls on film”, “Save a prayer” ou “A View to a kill”, esta da banda-sonora de uma James Bond, ficavam no ouvido de uma maneira distinta, com as suas melodias insidiosas e a voz “beatleniana” de Simon LeBon. Mas isso era dantes. Entretanto a banda foi endurecendo, deixando progressivamente os tiques amaricados, e as vozes endureceram até acabarem no rock’n’ roll para adultos. “Thank You” é um álbum de versões de canções de que eles gostam ou dizem que gostam. Há coisa mais original? Sly & The Family Stone, Elvis Costello, Grand Master Flash & Mele Mel, Public Enemy, Iggy Pop, Temptations, Led Zeppelin e Bob Dylan passaram a ter a honra de ter canções suas interpretadas pelos Duran Duran. No meio das guitarras “hard” e das vocalizações másculas escondem-se duas pausas que merecem crédito adicional: “Perfect day”, de Lou Reed, o tema de “Transformer” em que a rádio pegou e, melhor ainda, “Crystal ship”, dos Doors, onde os Duran, como por magia, conseguem transferir todo o balanço da banda maldita para o território da Pop de bâton e peruca. Os outros duran enquanto duran. (5)