Arquivo mensal: Março 2016

Lars Hollmer – “Looping Home Orchestra, Live 1992-1993”

Pop Rock

1 de Fevereiro de 1995
álbuns poprock

Lars Hollmer
Looping Home Orchestra, Live 1992-1993

VICTO, IMPORT. ÁUDEO

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Lars Hollmer é um teclista e acordeonista sueco que fez parte dos lendários Sammla Mannas Mama – membros da organização Rock in Oposition –, formados no final dos anos 70 por Fred Frith e Chris Cutler, para depois enveredar por uma carreira discográfica a solo brilhante, da qual se encontravam até agora disponíveis, entre nós, a colectânea “The Siberian Circus” e a reunião, em CD simples, de “XII Sibiriska Cyklar”, de 1981, e “Vill du Hora Mer”, de 1982, ambas reedições da Resource. Hollmer insere-se na genealogia dos grandes criadores totalitários, sintetistas absolutos que procuraram (e encontraram) a confluência de todas as músicas do universo. Uma genealogia que se iniciou nos anos 60 com Frank Zappa, prosseguiu na década seguinte com os Faust e os Henry Cow, e culminou nos Oitenta com os Univers Zero e Art Zoyd. O sueco tem ainda a vantagem adicional de ser um espantoso inventor de melodias, inspiradas ou não no folclore do seu país. Segunda gravação com a Looping Home Orchestra, depois de “Tӧnoga”, de 1985, este novo registo recolhe gravações ao vivo no célebre Festival Musique Actuelle, que anualmente se realiza em Victoriaville, no Canadá (daí o nome da editora: Victo) e ainda em vários outros festivais na Alemanha e na Suécia. A execução instrumental do colectivo – além de Hollmer, mais quatro suecos, Jean Derome (juntamente com Robert LePage, um dos grandes saxofonistas da nova música do Canadá) e Fred Frith – é simplesmente inacreditável, na forma exemplar como elaboram uma música complexa que por nenhum instante se deixa cair no tom de “desbunda” que, por vezes, assoma em registos ao vivo. Uma música com as dimensões dramáticas ao nível de Robert Wyatt, de “Rock Bottom”, o experimentalismo “dada” dos Henry Cow e a espacialidade cinematográfica de Ennio Morricone. Orquestrações extraplanetárias e improvisações ultraestruturadas, metamorfoseiam-se na fala de um piano em estado de exaltação psicotrópica. Fanfarras de circo derivam para canções infantis, motivos minimalistas explodem bruscamente num fogo de artifício de sopros com a urgência de um “free rock” sem fronteiras. A inventividade é constante. Cada segundo, cada nota contém em si os germes de mil outras músicas imagináveis. Há aqui a dor de gestação de planetas e a alegria de uma criança que brinca. Música que vive e respira, com sangue a pulsar-lhe nas veias. Ao disco chamemos-lhe obra-prima. (10)

Hans-Joachim Roedelius – “Theater Works”

Pop Rock

1 de Fevereiro de 1995
álbuns poprock

Hans-Joachim Roedelius
Theater Works

MULTIMOOD, IMPORT. ANANANA

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Roedelius, juntamente com Dieter Moebius, formou no início dos anos 70 um dos grupos mais importantes e menosprezados da escola electrónica alemã, os Cluster. Afastados tanto da vertente cósmica, que se viria a revelar dominante (T. Dream, Schulze, Wegmuller, Ashra, Eroc, etc.), como das antecipações tecno dos Kraftwerk (mas também dos La Dusseldorf), do orientalismo místico (Popol Vuh, Yatha Sidhra, Mythos), do romantismo (Hoelderlin, Parzival) ou do psicadelismo libertário (Amon Düül, Agitation Free), já não falando dos subprodutos “sinfónicos” (Message, Wallenstein) ou do jazz minimal dos Release Music Orchestra ou Achim Reichel, os Cluster anteciparam em quase vinte anos o som “industrial” (nos álbuns I e II) do final de década de 80, antes do encontro com Brian Eno os levar para o território do romantismo ambiental, encontro esse de onde resultaram os álbuns “Cluster & Eno” e “After the Heat”. A dissolução do grupo e as consequentes carreiras a solo de cada um permitiram perceber que Dieter Moebius era o experimentalista e o radical do grupo, enquanto Roedelius rapidamente enveredou por uma música que tanto devia a Eno como a um jazz de feira com uma costela romântica tipicamente germânica. O já extenso percurso discográfico de Roedelius pecou sempre por esta hesitação, visível em álbuns que vão da “new age” não assumida de “Momenti Felicci” a híbridos interessantes como “Der Ohren Spiegel”. Surpreendentemente, porém, este novo trabalho, reunião de temas dispersos compostos para bailado e peças de teatro, consegue a síntese almejada, através de uma música que pela primeira vez investe sem timidez nos ritmos electrónicos e no jazz de facto, como acontece no exercício “free” do saxofonista Herman Ridd, em “The blind”. É também o álbum onde Roedelius, a par da utilização de “samples” de Airto Moreira, Jorge Reyes ou Jorgen Thomasius, reencontra antigos companheiros, de Moebius a Eno, passando por Michael Rother, que em “Captured by letters” e “Long run” reactualiza o som dos Harmonia, fusão episódica dos Cluster com os Neu!, testemunhada nos álbuns “Musik von Harmonia” e “De Luxe”. Indispensável para os amantes da electrónica.

Máire Brennan – “Misty Eyed Adventures”

Pop Rock

11 de Janeiro de 1995
álbuns poprock

Máire Brennan
Misty Eyed Adventures

RCA, DISTRI. BMG


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A música de Máire Brennan, como as de Enya Loreena ou Frei Hermano da Câmara, funciona como uma tisana para a alma, xarope em colher de chá contra o mal-estar, tosse mental e irritação. Depois de um primeiro disco a solo, “Máire”, a vocalista e harpista dos Clannad refinou as canções e a garganta e deu uma vista de olhos no catálogo de sons “world”. Há em “Misty Eyed Adventures” razões de sobra para os apreciadores do género se refastelarem: um forró (!) com punhos de renda, “The days of dancing”; as “uillean pipes” de Davy Spillane, em “A place among the stones” (o mesmo tema que aparece no álbum do mesmo nome do gaiteiro); batuques decorados de Mike Oldfield e Peter Gabriel, em “The watchman”; uma piscadela de Loreena McKennitt, em “An fharraige”; sininhos do paraíso, em “Pilgrim’s way”; um relance de “As Brumas de Avalon”, “The mighty one”; de novo o gaélico e uma maior proximidade da veia tradicional, em “Heroes”; “samples” a fingir de marimbas, em “Misty eyed adventures”. Máire manda às urtigas a falsa inocência que caracteriza tanto a sua imagem como a sua música e não se envergonha de ser simplesmente pop, em “Big yellow taxi”, uma composição de Joni Mitchell arranjada pelos Blue Nile, e uma suave “country singer”, em “Dream on”. Claro que é sempre uma vantagem poder contar na ficha técnica com nomes como Calum Malcolm (dos Blue Nile, co-produtor do disco), Mairtin O’Connor e Donal Lunny, mas não é por isso que Máire Brennan, dentro do género folclore celta, pode ser considerada uma fada. (5)