Arquivo mensal: Março 2016

Harold Budd – “She Is A Phantom”

Pop Rock

8 de Fevereiro de 1995
álbuns poprock

Fantasmas que falam

HAROLD BUDD
She Is A Phantom

New Albion, import. Ananana


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Cabecinhas para trás e vamos a relaxar. Para dar descanso aos neurónios não há melhor do que a música de Harold Budd. O compositor – que começou por ser minimalista, escreveu uma peça com 24 horas de duração para gongo solo, descobriu as potencialidades sónicas de um coro feminino em “topless” e, finalmente, deu o braço a Brian Eno – continua aqui uma das suas paixões de sempre, as palavras. Na peça principal que dá o título ao álbum, composta em 1971, Budd desenvolve um processo de escrita musical em forma de “suite” no qual o ponto de partida são os títulos/frases, descritos por si como “fantasias”, “observações” ou “recordações”: “Emboldened by a fresh view of my visage, I take stock my dreams perish” ou “She’s by the window”. You can see her face faintly through the encrustated crystal”… Um acto de “descoberta literária” empreendido em conjunto com o grupo electro-acústico Zeitgeist (vibrafone, marimbas, percussões várias, piano, sintetizador e sopros de madeira). O início, “Breathless, she left her shoe by my favorite bourdelle, I”, dá uma pista falsa, numa caminhada circular e apressada “a la” Philip Glass (piada ao autor de “Einstein on the Beach”?…), que se repete em “Breathless… II”. Adiante, o percurso é o mesmo de sempre – e sempre diferente – por um jardim oculto muito próximo do céu. Um passeio pelos meandros do silêncio. As flutuações do piano ou do vibrafone são flores delicadas. Cheiram a perfume de anjos. Só é pena que, de vez em quando, Budd quebre o encantamento, quando declama textos que transformam a alucinação em redundância. Mas é por pouco tempo. Um resmungo, e reentramos no sonho. Ela (a música?) é um fantasma. Sonho ou sono, permanecemos no domínio da realidade literária. O tema final, “In Delius’ slepp”, de 1974, não tem, segundo Budd, nenhuma relação com o compositor Frederik Delius (1862-1934), autor, também ele, do “tone poem” “Over the hills and far away”), embora “conjure” as mesmas “imagens de um panteísmo inglês” que eram o seu timbre. A parte inicial de um piano inspira-se num solo de celeste de Sun Ra, mas o lirismo continua a ser a palavra de ordem. Harold Budd, impressionista. Um dos seus projectos futuros é a criação de uma peça intitulada “1000 chords”, para “cores sónicas flutuando livremente”. Como Steve Roach ou Robert Rich, outros dois compositores californianos, expoentes da escola electrónica americana, Harold Budd cresceu na contemplação das paisagens desérticas do Mojave. A sua música reproduz a eterna mutação das dunas e a vibração do ar quente do deserto. As palavras são castelos de areia desfeitos pelo vento. (8)



Bill Frisell “Music For The Films Of Buster Keaton: Go West” + “Music For The Films Of Buster Keaton: The High Sign & One Week”

Pop Rock

8 de Fevereiro de 1995
álbuns poprock

Quinta do Bill

BILL FRISELL
Music for the Films of Buster Keaton: Go West (6)
Music for the Films of Buster Keaton: The High Sign & One Week

Elektra, distri. Warner Music


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Bill Frisell é um nome importante da nova música nova-iorquina e em particular da cena “downtown”. Certo. Bill Frisell tocou com John Zorn. É verdade. E com Marianne Faithfull. Sim, sim. E com Madonna! Ah!? Tem discos gravados na ECM, um pouco chatos, mas… De Charles Ives a Hendrix, já passou um pouco de tudo pela sua guitarra. Sim senhor, até já tocou ao vivo em Portugal. Depois disto quem é que me vai perdoar por não gostar dele? Não se trata de uma daquelas embirrações irracionais a que vulgarmente se chama “ódios de estimação”. Também é um bocadinho isso, mas não só. Confesso que não vou a à bola com o seu ar certinho, de menino-prodígio que se tornou professor de guitarra. Sou da opinião de que não deviam deixar uma pessoa com o seu aspecto “clean” andar pela “downtown” – coisa de génios lunáticos –, embora conceda que possa haver excepções. O problema, a verdadeira incompatibilidade, está em que já ouvi vários discos do Bill e até à data, por mais que me esforçasse, não consegui gostar (ou será melhor dizer, aderir?) de nenhum. Este não é excepção. Bill é um tecnicista, disso não tenho dúvidas. Assim como os dois músicos que o acompanham neste projecto, Kermit Driscoll, no baixo, e o afamado Joey Baron, na bateria. Estas peças, repartidas por dois CD, compostas por encomenda da Academia das Artes de St. Ann, em Nova Iorque, para ilustrar curtas-metragens protagonizadas pelo mito do burlesco e do cinema mudo Buster Keaton, são neste aspecto exemplares. Mas, o tal mas fatal, fica-se com a impressão de que a música não vai a lado nenhum. Que não é carne nem peixe. Não diria que é música a metro, porque Frisell se preocupa ao milímetro em sacar ao seu instrumento fraseados que umas vezes invocam a violência agoniada de Hendrix e outras a fragmentação tímbrica de Fred Frith, mas evidenciando a cada instante a preocupação em fazer um som limpo e, para os meus ouvidos, morno. Mas é música que nunca mais pára de passar. As peças são quase todas curtas e isso lembra de imediato John Zorn, mas Bill, por muito rápido que seja – e não é, o seu discurso atira antes para o tortuoso e para a ruminação –, não consegue ser tão conciso nem sintético como o saxofonista. Sobretudo a “country” e os “blues” surgem como motivos fugazes, bem como certas referências à cançoneta, à bossa-nova, ao som ECM e ao próprio Zorn. Mas Bill mói e remói até ficar tudo uma pasta sem sabor. A Bill Frisell faltará talvez a focagem, a força de uma música verdadeiramente original. Sobra cérebro, mas falta coração. Neste caso, será por não termos as imagens? Rezam as crónicas que na estreia, em Nova Iorque, em que os músicos actuaram ao vivo por baixo do ecrã durante a projecção, o público gozou que nem um perdido. Por mim, suspeito de que continuo a preferir um Buster Keaton mudo.



Rob Angus – “Ethnoloopography” + O Yuki Conjugate – “Equator”

Pop Rock

1 de Fevereiro de 1995
álbuns poprock

Rob Angus
Ethnoloopography (8)

MULTIMOOD, IMPORT. ANANANA

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O Yuki Conjugate
Equator (8)

STAALPLAT, IMPORT. ANANANA

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Electro-totens. Pequenos quadros de texturas naturalistas-ambientais. Batuques minimalistas. Sombras. Ciclos de trevas e cristal. Rob Angus é um técnico arqueológico que alia a computorização ao tribalismo. Como o título do álbum sugere, embora não se esgote aqui a sua arquitectura formal, os “loops” servem de veículo circular tanto para gravações étnicas de campo (cânticos, tambores, sons da natureza) como a sons sintéticos. Próximo de Jeff Greinke, ou do lado mais tribal de Asmus Tietchens e Peter Frohmader, Rob Angus elabora um catálogo de espectros, geografia de falso primitivismo que, recuando no tempo, encontra antecedentes no lado escuro de “Another Green World” e em “On Land”, ambos de Brian Eno, mas sobretudo nos esquiços dos Can, de genérico “E.F.S.” (“ethnological forgey séries”) reunidos em compacto no fabuloso “Unlimited Edition”, com selo Spoon (a versão em vinilo tem menos faixas e o título “Limited Edition”, numa edição da United Artists). O som dos O Yuki Conjugate, neste seu quarto álbum, depois de “Scene in Mirage”, “Into Dark Water” e “Peyote”, embora radicando em idênticas premissas, de uma estética que poderemos designar por naturalismo tecnológico, é mais amplo, imbuído de uma temporalidade que se distende em alucinações auditivas, não sendo por acaso que a banda escolheu o “peyote” – droga usada com fins ritualísticos e religiosos pelos índios mexicanos – como título para um dos seus trabalhos, opção que situa os O Yuki Conjugate num território sónico e mental próximo do de Jorge Reyes. Pesquisadores da noite, dos sons e da terra, Angus e os O Yuki Conjugate abrem túneis de acesso ao inconsciente colectivo. Música para navegantes.