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Arbete & Fritid – “Deep Woods” + Bo Hansson – “Magician’s Hat” + Lars Hollmer – “The Siberian Circus”

pop rock >> quarta-feira >> 26.10.1994


Arbete & Fritid
Deep Woods (7)
Bo Hansson
Magician’s Hat (7)
Lars Hollmer
The Siberian Circus (8)
Re-Source, distri. MC – Mundo da Canção



Nos anos de ouro da música progressiva chegaram ao conhecimento de alguns iniciados portugueses grupos oriundos da Escandinávia. Como era o caso dos dinamarqueses Burnin’ Red Inanhoe, com “W. W. W.”, gravado para a editora Dandelion, de John Peel, ou dos finlandeses Tasavallan Presidentti, com “Milky Way Moses”, na Sonet, e Wigwam, com “Nuclear Nightclub”, na Virgin, já para não falar nos mais conhecidos Nova. A partir desta altura, porém, o mercado foi pondo de lado a música vinda do frio. Até que a Recommended, autêntica instituição das “novas músicas” dirigida com mão vinícola e anarquista por Chris Cutler, entrou em cena para retomar a divulgação da música alternativa produzida em vários países da Europa, entre os quais a Suécia, com o destaque dado ao muito aclamado “Maltid”, dos Sammla Mannas Mama. Com a chegada do novo selo XSource/Re-Source – criado, respectivamente, para a edição e reedição de trabalhos na área da folk e fusões várias por artistas suecos – álbuns como o citado “Maltid” (obra sem dúvida importante mas irremediavelmente datada) voltaram a estar disponíveis e a História retomou o seu curso.
“The Siberian Circus” é uma colectânea de temas retirados dos álbuns “XII Sibiriska Cyklar”, “Villm du Höra Mer?”, “Fran Natt Idag”, “Tonöga” e “Vendeltid” (distribuído pela Recommended e do qual apareceram alguns exemplares importados por uma discoteca da capita) de Lars Hollmer, um acordeonista e multinstrumentista excêntrico, ex-Sammla, que Fred Frith compara, na atitude e importância, a Astor Piazzola e a quem faz o elogio no folheto do CD. Música inclassificável, recupera o folclore sueco, a estética fragmentária de Zappa, a nostalgia dos românticos europeus e o minimalismo pop de Eno dos primórdios, em sínteses que tanto podem ser swingantes como mostrar a fragilidade de uma caixa-de-música avariada.
Também colectânea, “Deep Woods”, dos Arbete & Fritid, outro nome conotado com a Recommended, testemunha a polivalência mas também os desequilíbrios deste grupo, cuja música se estendia às áreas do jazz de New Orleans, o jazz-rock, as marchas fúnebres e de novo a música tradicional.
Num registo diferente, “Magician’s Hat” (outro disco que andou há anos pelos escaparates nacionais) de Bo Hansson, um músico que Hendrix conhecia e apreciava, espraia-se por um jazz lânguido deslizando sobre um órgão Hammond e sintetizadores atentos à subtileza do timbre, sobrevoados por saxofone, uma flauta ou uma guitarra em melodias que têm tanto de estranho como de insinuante. Também deste compositor, entretanto afastado da cena musical, encontra-se disponível a estreia “Lord of the Rings”, inspirada na obra do mesmo nome (“O Senhor Dos Anéis”) de Tolkien. Um disco menos conseguido, onde o medievalismo e o ambientalismo não chegam a ser convincentes.

Lars Hollmer – “Looping Home Orchestra, Live 1992-1993”

Pop Rock

1 de Fevereiro de 1995
álbuns poprock

Lars Hollmer
Looping Home Orchestra, Live 1992-1993

VICTO, IMPORT. ÁUDEO

lh

Lars Hollmer é um teclista e acordeonista sueco que fez parte dos lendários Sammla Mannas Mama – membros da organização Rock in Oposition –, formados no final dos anos 70 por Fred Frith e Chris Cutler, para depois enveredar por uma carreira discográfica a solo brilhante, da qual se encontravam até agora disponíveis, entre nós, a colectânea “The Siberian Circus” e a reunião, em CD simples, de “XII Sibiriska Cyklar”, de 1981, e “Vill du Hora Mer”, de 1982, ambas reedições da Resource. Hollmer insere-se na genealogia dos grandes criadores totalitários, sintetistas absolutos que procuraram (e encontraram) a confluência de todas as músicas do universo. Uma genealogia que se iniciou nos anos 60 com Frank Zappa, prosseguiu na década seguinte com os Faust e os Henry Cow, e culminou nos Oitenta com os Univers Zero e Art Zoyd. O sueco tem ainda a vantagem adicional de ser um espantoso inventor de melodias, inspiradas ou não no folclore do seu país. Segunda gravação com a Looping Home Orchestra, depois de “Tӧnoga”, de 1985, este novo registo recolhe gravações ao vivo no célebre Festival Musique Actuelle, que anualmente se realiza em Victoriaville, no Canadá (daí o nome da editora: Victo) e ainda em vários outros festivais na Alemanha e na Suécia. A execução instrumental do colectivo – além de Hollmer, mais quatro suecos, Jean Derome (juntamente com Robert LePage, um dos grandes saxofonistas da nova música do Canadá) e Fred Frith – é simplesmente inacreditável, na forma exemplar como elaboram uma música complexa que por nenhum instante se deixa cair no tom de “desbunda” que, por vezes, assoma em registos ao vivo. Uma música com as dimensões dramáticas ao nível de Robert Wyatt, de “Rock Bottom”, o experimentalismo “dada” dos Henry Cow e a espacialidade cinematográfica de Ennio Morricone. Orquestrações extraplanetárias e improvisações ultraestruturadas, metamorfoseiam-se na fala de um piano em estado de exaltação psicotrópica. Fanfarras de circo derivam para canções infantis, motivos minimalistas explodem bruscamente num fogo de artifício de sopros com a urgência de um “free rock” sem fronteiras. A inventividade é constante. Cada segundo, cada nota contém em si os germes de mil outras músicas imagináveis. Há aqui a dor de gestação de planetas e a alegria de uma criança que brinca. Música que vive e respira, com sangue a pulsar-lhe nas veias. Ao disco chamemos-lhe obra-prima. (10)

Lars Hollmer – Tonöga; Fran Natt Idag; Vendeltid

09.02.2001
Lars Hollmer
Tonöga; Fran Natt Idag; Vendeltid
2XCD Resource, import. Lojas Valentim de Carvalho
8/10

larshollmer

LINK (“Viandra” – 2008)

Excêntrico, avant-garde, extremista, inteligente, intimista, doido, aventureiro, ininteligível, intelectual, infantil e extravagante foram alguns dos adjectivos já utilizados para descrever o indescritível Lars Hollmer, compositor, acordeonista e teclista sueco oriundo dos Samla Mannas Mamma, banda dos anos 70 pertencente ao colectivo Rock in Opposition. Os três álbuns aqui recuperados na íntegra, gravados em 1983, 85 e 87 (“Vendeltid”, com a Looping Home Orchestra), revelam uma personalidade musical apenas comparável a Fred Frith, de “Gravity” e “Speechless”. Elementos traficados do minimalismo, folk escandinava, jazz, música de feira, rock & roll, ridicularias pop, fanfarra, music-hall, danças dos Balcãs esquizofrénicas e outras coisas para as quais não existem ainda palavras para as definir, arriscam-se a causar vertigens aos mais desprevenidos. Chamem-lhe o Zappa escandinavo, que Lars nem há-de reparar, entretido na manufactura dos seus delírios pessoais.