Arquivo mensal: Março 2016

Future Sound Of London – “ISDN”

Pop Rock

11 de Janeiro de 1995
álbuns poprock

ILUSIONISTAS AO VIVO NA “INTERNET”

FUTURE SOUND OF LONDON
ISDN

Virgin. distri. EMI-VC


fsol

“Lifeforms”, álbum anterior dos FSOL, remetia para coordenadas que aproximavam a estética tecno dos anos 90 da “música cósmica” dos anos 70, nomeadamente dos Pink Floyd até “Atom Heart Mother” e de representantes da escola alemã como Klaus Schulze e os Tangerine Dream. Semelhante na forma – longas explanações planantes, utilização exaustiva de ritmos sintéticos –, o ponto de partida era, e continua a ser, porém, diametralmente oposto.
Os nomes atrás citados partiam de uma perspectiva humanista, romântica, da música. A sua música era uma extensão electrónica do psicadelismo. LSD vertido para os circuitos de um sintetizador analógico. Uma ideia transposta para os canais da tecnologia. Os FSOL, pelo contrário, partem da tecnologia – digital, de “bits” autónomos – para formatarem múltiplas ideias reflectoras de uma realidade fragmentada e desumanizada. Significativa é, de resto, a oposição entre analógico (“continuum” temporal) e digital (divisão matemática), enquanto símbolo de um contraste entre duas músicas e duas atitudes que são como dois espelhos colocados um frente do outro.
“ISDN”, seguindo as mesmas premissas de “Lifeforms”, é, em comparação, um álbum mais orgânico e imaginativo. Gravado “ao vivo” em estúdio e enviado por via informática, em tempo real, para vários canais radiofónicos da Europa, “ISDN” simula a excitação do concerto, enquanto simulacro assumido de uma realidade sem consistência, de acordo com o conceito de “consistência” que nos reconfortava. O mundo, sabemo-lo hoje, não é constituído por partículas materiais, mas sim por simetrias, um equilíbrio mantido por campos de força em tensão recíproca, jogos de polaridade em constante alternância (inversão) de sinal. Os FSOL tecem em som a mesma “ilusão”.
“ISDN” ilude, na medida em que os programas que introduz no sistema não passam de fantasmas electrónicos. O electrojazz, a etnotecno, as paisagens ambientais – elementos de um novo tribalismo – são “reais” apenas enquanto manifestações de um universo sem solidez nem contornos definidos, onde a relatividade impera. Informação despojada de mensagem. Leia-se “o meio é a mensagem”, como profetizava McLuhan. Do mesmo modo, as referências a músicas que podemos considerar pioneiras e, decerto, fontes de ensinamento para os FSOL, surgem aqui como linguagens e vozes à deriva, já não procurando arrancar um sentido do nada, mas fazendo desse nada o próprio sentido.
Os Kraftwerk, em “You’re creeping me out”, os Yellow Magic Orchestra, em “Eyes pop”, os Pink Floyd, nas primeiras notas de “Tired”, a música industrial, também em “Tired”, Jah Wobble, em “Slider” e “Hot knives”, os KLF, em “A study of six guitars”, ou os Delerium, em “An end of sorts”, são pontos de ligação óbvios a uma era tornada para os FSOL um fóssil. O “trompete”, as “guitarras” e os computadores de “ISDN” interagem em linha directa com os centros nervosos de um novo “homo sapiens” em pleno processo de mutação. Uma música sem alma, mas onde o cérebro funciona em velocidade acelerada, num fluxo criador de imagens que são ao mesmo tempo alimento e suporte para um tipo de homem que passou a ter um ordenador e fibras ópticas no lugar do coração. Emoção igual a tratamento de informação. “ISDN” é um espectáculo de ilusionismo no circo virtual da “internet”.
Está escrito que, quando a nova ordem estiver instalada no mundo, alguém há-de chegar, furtivo, como um ladrão, e destruir a grande máquina. (8)



Gryphon – “Gryphon” + “Midnight Mushrumps” + “Red Queen to Gryphon Three” + “Raindance”

POP ROCK
27 de Dezembro de 1996

Álbuns world

JOGO DO GRIFO

GRYPHON
Gryphon (7)
Midnight Mushrumps (9)
Red Queen to Gryphon Three (8)
Raindance (8)

Curious (ed. ingl.)/ Canyon (ed. jap.), import. Loja da Música e Planeta Rock


gry

Para os amantes do progressivo, em particular os que pretendem trocar as velhas rodelas pretas pelo disco prateado, é um acontecimento. Claro, a música dos Gryphon não encaixa propriamente na world, mas, como existem algumas ligações suspeitas, não parece mal.
Em Portugal, os Gryphon receberam alguma divulgação radiofónica através do álbum “Treason”, quinto e último da banda, com selo Harvest.
Foram acrimbados como mais uma variação do eixo Genesis-Gentle Giant. Classificação que, embora injusta, não era totalmente descabida, porque “Treason”, estando fora de questão a sua qualidade, evidencia características que o distinguem do som personalizado que fez dos Gryphon um dos faróis do progressivo tardio, entre 1973 e 1977. Uma fusão de rock progressivo perfeccionista, carregado das usuais toneladas de sintetizadores e teclados, com música e instrumentos antigos, da Idade Média ao Barroco, como a cromorna, o fagote ou a flauta de biesel, este último manuseado pelo “virtuose” Richard Harvey.
“Gryphon”, dos quatro álbuns o mais próximo da folk, inclui tradicionais interpretados de forma surrealista e de acordo com uma leitura teatral, situada, porém, nos antípodas dos Genesis. Na linha da frente, os sopros “antigos” de Brian Gulland – que viria a integrar uma formação tardia dos Malicorne – e histórias recambolescas de bruxas, princesas e trovadores. “Midnight Mushrumps” é um clássico do progressivo. A obra-prima encontra-se na faixa com o mesmo nome, que ocupa a totalidade do primeiro lado, vinilicamente falando. Uma “suite” instrumental de sombras, dourados pôr-de-sol, verdes húmidos e violetas de capelas em ruínas em que os Gryphon exploram o lado mais ambiental da sua música, cruzando de forma subtil a música antiga com uma espécie de folk de câmara. Imagine-se um sonho nocturno na serra de Sintra.
“Red Queen to Gryphon Three” trouxe alguma notoriedade para o grupo em Inglaterra. Ao contrário do que acontece no álbum anterior, a música, totalmente instrumental, explode em força e extroversão. As guitarras eléctricas rivalizam com os teclados, tocados de forma superior por Harvey, e o fagote de Brian Gulland. Harvey é simplesmente magnífico nos solos de flauta de biesel, cujas potencialidades desenvolveria em pleno no seu primeiro álbum a solo, de música barroca, “Divisions on A Ground”. “Second spasm”, uma sucessão de golpes de teatro e idiossincrasias electro-acústicas, lembra os Faust disfarçados de arlequins. As vocalizações regressam em “Raindance”, um cozinhado de feitiços electrofolk confeccionado por mestres. Do “ambiental naturalista”, com sons de chuva e de riachos (uma vez mais Sintra a espreitar), de “Raindance”, à comédia acústica de “Le cambrioleur est dans le mouchoir”, passando por uma versão “chantilly” de “Mother nature’s son”, dos Beatles. Os 16m de “Ein klein (heldenleben)” constituem, por seu lado, uma lição do “progressivo”. Para aprender a ouvir com outros ouvidos os anos 70.



The Who – “Who’s Next”

Pop Rock

6 de Dezembro de 1996
àlbuns poprock
reedições

The Who
Who’s Next

POLYDOR, DISTRI. POLYGRAM


who

Originalmente editado em 1971 pela Track, “Who’s Next” resultou de um projecto abortado de Pete Townshend que deveria suceder e ultrapassar o gigantismo de “Tommy”. “Lifehouse”, assim se chamava o que deveria ter sido um filme, uma peça de teatro, um álbum duplo e um novo conceito de apresentação ao vivo que Townshend definiu, na altura, como “música total”. “Lifehouse” antecipava uma sociedade totalitária do futuro em que a salvação dos indivíduos apenas seria possível através do rock’n roll. O guitarrista dos Who idealizou, inclusive, aquele que seria o “concerto definitivo”, onde cada elemento do público contribuiria com a sua própria música pessoal – utilizando para tal um computador – para um “acorde universal”. Excertos deste projecto, que Townshend ainda não desistiu de pôr em prática, encontram-se no álbum a solo do guitarrista editado em 1993, “Psychoderelict”, bem como em alguns temas de bónus incluídos na presente versão, remisturada e remasterizada, de “Who’s Next”. À distância de 24 anos, a música de “Who’s Next” mantém a mesma vitalidade, soando como um manifesto do rock criativo com o qual Pete Townshend pretendeu responder à desbunda remanescente dos anos 60. Obra sólida e rigorosa (o guitarrista afirmou, na altura, que ele próprio funcionou como uma espécie de computador humano, ao qual todos os aspectos da música estavam ligados), “Who’s Next” é ainda um álbum formalmente inovador, onde Pete Townshend transpôs para o rock os fundamentos da música sequencial electrónica, utilizando os sintetizadores VCS3 e A.R.P. não como instrumentos melódicos (o que na época faziam quase todos, dos ELP a Rick Wakeman), mas como agente rítmico de primeiro plano. Em 1971 causou furor o minimalismo robótico do A.R.P. no tema de abertura, o célebre “Baba O’ Riley” (onde participa o violinista dos East of Eden, Dave Arbus), sem esquecer outros onde o sintetizador funciona como componente sonoro determinante, como o não menos célebre “Won’t get fooled again”, “Bargain”, “The song is over” e “Going mobile”. “Behind blue eyes”, aqui presente em duas versões, é, por seu lado, uma das mais belas prestações vocais de sempre de Roger Daltrey. “Who’s Next”, mantendo dentro de limites aceitáveis os excessos dramáticos de “Tommy”, mostrou que a complexidade dos anos 70 não passou apenas pelas hostes do Progressivo. Um álbum para viver, cheio de saúde, até no final do século. (8)