Arquivo mensal: Outubro 2015

Nick Cave & The Bad Seeds – “Let Love In”

Pop Rock

13 ABRIL 1994

O DIABO ATRÁS DA PORTA

NICK CAVE & THE BAD SEEDS
Let Love In

Mute, distri. BMG


nc

Em quatro dos dez novos temas de “Let Love in”, sem contar com o título, aparece a palavra “Amor”: “Do you love me”, “Loverman”, “I let love in” e “Do you love me, part 2”. Quer isto dizer que o ex-vocalista dos Birthday party se converteu ao rock sentimentalão e ao mesmo tempo se arrependeu dos seus pecados e excessos do passado?
Numa miniestrevista passada recentemente na MTV, Cave afirmava – não é possível saber com que dose de cinismo – que se fartara de lixar a cabeça alheias, que entrara na fase de reconversão e de mudança: em suma, que se tornara uma boa pessoa. É um facto que a fúria dos Birthday Party ou dos primeiros álbuns a solo já não é a mesma e que o australiano foi desenvolvendo ao longo dos anos outras formas de inocular o veneno. De “cão raivoso” passou progressivamente a uma espécie de “crooner” luciferino, que disfarça o niilismo demoníaco dos temas num embrulho de falso romantismo que só enganará os mais ingénuos.
Nick Cave é um estratega do cinismo. “Let love in” não esmaga pelo lado do horror e da cacofonia, como acontece por exemplo com a música de um dos seus amigos, Blixa Bargeld, dos berlinenses Einstuerzende Neubauten, e com Mick Harvey, elemento de primordial importância no som dos Bad Seeds. Pelo contrário, o cantor veste-se com os veludos, os cetins e néons do “showbiz”, ou então deixa-se envolver pelos fumos de cabaré, para do lado de dentro das falsas canções de amor nos atirar à cara a mesma desesperança de sempre.
O universo actual de Cave, passado – pelo menos na aparência – o fascínio pelo Brasil (embora o músico continue a não esconder a admiração por este país, onde se desloca com frequência), encontra-se com as “industrial cowboy songs” de Frank Tovey, aliás Fad Gadget, como “I let love in” e “Red right hand”, o desestruturalismo dos Neubauten, a ideologia de autoflagelação de Clint Ruin, aliás Foetus, aliás Jim Thirlwell e, em última instância, com Jim Morrison, dos Doors. Em “Jangling Jack”, o maligno revela o seu rosto real, numa torrente de ácido de guitarras saturadas, que, em paralelo com a rouquidão alucinada da voz, recorda de forma surpreendente as primeiras experiências empreendidas pelos “industriais” de Sheffield, Cabaret Voltaire, de “Mix-Up” e “Red Mecca”.
O diabo dá inequivocamente a cara e o discurso em “Loverman”, talvez o tema emblemático do que Cave tem hoje para nos dizer – “there’s a devil waiting outside your door” –, em que de novo os sinos (os sinos que aparecem logo na entrada, “Do you love me”, os mesmos sinos que assombraram Lou Reed, ainda os mesmos sinos subliminares que gelam “An índex of metals”, de Fripp e Eno, um dos temas, se não “o tema” que na “música popular” melhor deixa passar o vento da loucura e do demónio para o lado de cá) anunciam a tragédia. Arredada ficou também a religiosidade invertida – por muito que Cave cite num dos temas, “Nobody’s baby now”, a Bíblia e Jesus como fontes de salvação – que caracterizava uma álbum como “The Good Son”, incondicionalmente aberto à influência do “gospel”. O “bom filho” deixou cair a máscara mas não o enorme talento para perturbar o mostrar o lado oculto e escuro da vida “real”, pintada com as mesmas cores que David Lynch utilizou para colorir a “realidade” de superfície, de “Veludo Azul”.
O que faz afinal aquilo que é ao mesmo tempo a unidade e a pulverização dessa unidade, na música dos Bad Seeds? Que o explica é Mick Harvey, guitarrista e companheiro de longa data de Cave, com quem alinhou nos Birthday Party: “Os Bad Seeds dependem dos aspectos idiossincráticos de cada músico individualmente. Não são um grupo regular no sentido vulgar do termo. Tudo depende muito da maneira como Thomas Wydler toca bateria ou Blixa Bargeld a guitarra. A personalidade do grupo define a globalidade de som, em que cada um trabalha a sua própria participação nas canções. É o que nos distingue das outras bandas. O grupo desenvolve as suas diferenças e o modo como cada um de nós estimula e se inspira na sonoridade dos outros.”
Nada disto resultaria, como é evidente, se não existissem as palavras e a perspectiva, sempre focada, do vocalista. Juntos, palavras, ruídos e “rock and roll”, formam um “cocktail” que mistura doses proporcionais de mistificação, deformidade e espectáculo de variedades. Teatro da crueldade, onde, como profetizava Artaud, vida e representação de confundiam. Paradigma desta estética de dramatização é a faixa atrás citada, “Loverman”, na qual três partes distintas, correspondentes a outras tantas personalidades fictícias, se conglomeram num todo que confere a um termo como “soul music” significações iguais a dor, medo, tortura, desespero e morte.
Idêntica desocultação ocorre em “Thirsty dog”, dilúvio de guitarras e gritos enraivecidos, que recuam aos tempos épicos de fogo dos Birthday Party – conotação a que decerto não é alheio o regresso de Tony Cohen, antigo produtor dos Birthday aos comandos do actual grupo. Épico de outra maneira volta a ser “Ain’t gonna rain anymore”, em que Cave, por um momento, se deixa comover por algo parecido com o amor. Para voltar a vestir o hábito do monge em “Lay me low”, um espiritual tingido de sangue, em que efabula sobre o próprio funeral, sobre coros e um órgão da igreja dos danados. A calma assassina desce, a mesma calma assassina que desde nos momentos mais escuros da obra de Leonard Cohen ou John Cale, no tema final, segunda parte de “Do you love me”, ardil e mote daquele que é um dos grandes discos de Cave até ao presente. Quem ama afinal Nick Cave? Quem se atreve a enlaçar este filho do filho das trevas? (8)

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Material – “Hallucination Engine”

Pop Rock

13 ABRIL 1994
ÁLBUNS POPROCK

Material
Hallucination Engine

Axiom, distri. BMG


matrial

Bill Laswell vem de há longos anos a esta parte procurando a síntese de várias tipologias, que no estilo inconfundível do seu baixo eléctrico encontram o fio de prumo necessário para não se volatilizarem algures na alucinação virtual de um estúdio de gravação.
“Hallucination Engine” representa a fase actual da obra deste mago de laboratório onde se congregam numa amálgama vulcânica (embora longe esteja o fogo de trabalhos prévios como “Memory Serves”, “Temporary Music” e “One Down”) o funk, o acid-jazz, as infiltrações étnicas provenientes da faixa que se estende desde o Norte de África até à Índia (descendo até ao coração do continente negro no tema final, “Shadows of paradise”, culminar de uma viagem de retorno à fonte dos ritmos e melodias primordiais), o jazz e o “dub” ambiental (do tema “Mantra” já se apropriaram os The Orb, numa versão de 17 minutos).
Sendo lícito descortinar afinidades, sobretudo ao nível das fragmentações “dub”, com Jah Wobble ou os African Head Charge, é contudo com os germânicos Can, e em particular com Holger Czukay (cujo álbum mais recente, “Moving Pictures”, seria o pólo etéreo de uma música com idênticos objectivos), que Laswell partilha uma estratégia global, mescla de tecnologia e tribalismo, cuja finalidade seria em última instância a criação de uma espécie de “trance music” planetária, afinal a mesma que os Can se propunham realizar, há duas décadas com meios artesanais.
Accionam os maquinismos deste indutor de alucinações (imagens recontextualizadas dos vários exotismos folclóricos, mas também do discurso de William Burroughs ou da música dos Weather Report e John Coltrane) uma horda da qual fazem parte, entre outros, Wayne Shorter, Nicky Skopelitis, Bernie Worrell, Bootsy Collins, Shankar, Sly Dunbar, Jonas Hellborg, Zakir Hussain, Trilok Gurtu, Vikku Vinayakram e Ayib Dieng. Desfeito o sonho, completa a mutação de síntese, ficarão talvez apenas as ruínas e o vento electrónico que paira sobre o tema “Ruins (submutation dub)”. Como dizia Heraclito, anulados os contrários, sobrevém a morte. (7)

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Etienne Daho – “Daholympia”

Pop Rock

9 MARÇO 1994
ÁLBUNS POP-ROCK

Etienne Daho
Daholympia
Virgin, distri. EMI – Valentim de Carvalho


ED

Em França, seu país de origem, Etienne Daho goza de um certo prestígio, retirando daí o proveito. Ele é um entre muitos autores de hexágono que foram capazes de romper com a “chanson”, no seu caso com um “cocktail” que mistura a componente pop dominante com incursões “chic” no étnico e o olhar atento aos sobressaltos da dança – fórmula que só chegou aos ouvidos portugueses muito mais tarde, com o álbum “Paris Ailleurs”, acompanhado por um concerto de promoção realizado no S. Luiz. O novo registo ao vivo, pese embora o peso da sala, não adianta, antes atrasa, em relação àquele trabalho, manchando-o com cedências (ainda mais) descaradas ao comercialismo, pela pior via possível, a da facilidade. Música de variedades acaba por ser o rótulo que melhor cola a “Daholympia”, que recupera a maioria dos temas de “Paris Ailleurs” juntamente com uma canção de Piaf, “Mon manège à moi” – não muito boa nem original. Exceptuando o tema final, “Saint lunaire dimanche matin”, uma boa recriação francesa da nostalgia decadentista de Bryan Ferry, “Daholympia” é um puro objecto de consumo procurando facturar no estrangeiro à custa de um “charme” que pretensamente perfuma toda a música francesa. Talvez, mas não aqui. (4)

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