Arquivo mensal: Março 2015

Quincy Jones / Vários – “Listen Up – The Lives Of Quincy Jones”

Pop Rock

3 ABRIL 1991
LP’S

REI MIDAS VAI NU

QUINCY JONES/VÁRIOS
Listen up – The Lives of Quincy Jones

LP / CD, Quest, distri. Warner port.

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Um “poster” com as dimensões aproximadas de 100 por 80 cm a anunciar em letras garrafais o título do filme e do disco. Cento e noventa e duas páginas no formato de livro, profusamente ilustradas, que incluem declarações de toda a gente e do próprio sobre essa figura monumental que dá pelo nome de Quincy Jones. Um CD com mais de uma hora de, não diremos música, mas um punhado de amostras da dita. Sentimo-nos atordoados com tanta informação, tanto luxo, tantas letras impressas em cores garridas, tantos nomes importantes. Pasmamos como foi possível enfiar (é o termo) tantas e tão belas canções em, mesmo assim, tão pouco tempo de… música… Calamo-nos, comovidos, perante o sublime das intenções: a obra é dedicada àqueles que “têm a coragem de concretizar as suas visões, ultrapassaram os obstáculos e iluminaram o caminho de outros”. Quincy Jones, músico e produtor, sobretudo produtor, é uma espécie de rei Midas da indústria discográfica norte-americana. Tudo em que toca vende. Não espanta pois que, passados anos e anos de bons e dedicados serviços, essa mesma indústria lhe esteja mais que reconhecida e tenha resolvido homenagear em vida um dos seus maiores beneméritos. Quincy não se poupa a esforços, se bem que solte alguns desabafos do tipo “às vezes penso que gostaria de ter um emprego mais estável”. Filme, livro e disco servem como objectos promocionais de uma figura que se pretende elevar a um estatuto mítico. Sabendo-se como na América os mitos vendem e se exportam melhor, torna-se fácil descortinar qual é de facto o maior objectivo da presente edição. Junta-se o útil ao agradável e fica toda a gente feliz, já que muita cor, muitas páginas e um CD e “poster” a condizer sempre operaram maravilhas nos corações palpitantes e mentes habilmente programadas do consumidor e mais ainda nos bolsos dos felizes autores da ideia. Em relação ao CD torna-se penoso falar de música. Na faixa número quinze (4’ 28’’), comprimem-se nove temas, amostras de pouco mais que alguns segundos cada, onde cabem a introdução instrumental de “We Are the World”, George Benson, os Brother Johnson, Lesley Gore (em mais alguns segundos de “It’s My Party”), Nick Ashford, Valerie Simpson e Chaka Kahn, numa (entre outras) molhadas aqui eufemisticamente designadas por “medleys”. All Star Choir, Ray Charles, Chaka Khan, Ella Fitzgerald, Siedah Garrett, Al Jarreau, Bobby Mcferrin, Take 6, Sarah Vaughan (estes seis últimos juntos durante breves instantes, em “Wee B. dooinit”), Tevin Campbell e os “rappers” Ice-T, Big Daddy Kane, Kool Moe Dee lutam por um pouco de espaço nas oito peças acopladas que constituem “Back on the Block Album”, “medley” de 5’ 36’’. Frequentemente os temas são introduzidos (e parasitados) pela voz de Quincy, em histórias de si próprio e da obra, deste modo obstando a que se possa ouvir a música pela música. Nos dois minutos e picos que dura “Fly Me to the Moon”, as palavras com que Frank Sinatra se anuncia – “Hello, my name is Frank Sinatra” – soam quase pornográficas. Tudo se reduz a uma gigantesca estratégia de “marketing” visando a obtenção de não menos gigantescos lucros. Fica-se a odiar o capitalismo e a livre iniciativa, ao mesmo tempo que se lamenta a morte precoce do comunismo. Apetece agitar bandeiras vermelhas, fazer ocupações selvagens e aderir a um partido de extrema-esquerda. O próprio leitor de CD aparece como um objecto suspeito ao serviço do imperialismo americano (mesmo se a marca for japonesa). Nomes que fizeram história na música, como as orquestras de Count Basie e Lionel Hampton ou os cantores Sarah Vaughan, Aretha Franklin e Ray Charles aparecem aqui reduzidos a meros enfeites, instrumentos promocionais, perdidos entre a normalização vigente. Como lutar então contra tal situação? Contra a falta de vergonha generalizada, numa operação concertada, destinada a acabar de vez com a música? Boicotando o filme, o livro, o “poster” e o disco! Tapar ou ouvidos e fechar os olhos. Bater com os pés no chão e cantar a plenos pulmões, um fado, o cochicho ou um cântico devocional tibetano, se alguém lá em casa insistir em não desligar a rádio. A alternativa é desistir, gostar do disco e agradecer ao “grande irmão”. *



Danielle Dax – “Blast The Human Flower”

Pop Rock

3 ABRIL 1991
LP’S

DANIELLE DAX
Blast the Human Flower

LP / CD, Sire, distri. Warner port.

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Na frente da capa, luminosa, Danielle Dax tem olhos e cor de fada. No verso, o inverso – arma em punho, colar de balas, maquilhagem de negro e desespero, em pose de mulher habituada à escuridão. Imagens opostas definidoras de uma atitude ambígua perante o mundo. Danielle inclui-se naquela faixa obscura de cantoras marginais, nascidas da “new wave”, que não sabem muito bem para onde se hão-de voltar. Mas enquanto se deixa ficar no limbo das indecisões, consegue perturbar. Agita fantasmas e acorda outros. Professa uma religião estranha, segundo os ritos de um “rock’n’roll” cinzento e doentio atravessado por bizarras incursões de psicadelismo orientalizante (“Tomorrow never Knows”), versão do tema da dupla Lennon/McCartney, em espirais de “loop” próximas das de Brian Eno em “No one Receives” e o tema final “16 Candles”, sombrio e obsessivo à maneira dos Velvet Underground).
“Bayou” abre-se ao canto de criaturas nocturnas voando sobre ritmos tribais. O espectro dos Velvets e de Nico em particular assoma de novo em “Daisy”. “King Crack” destila veneno e violência por todos os poros e “Deadman’s Chill” faz enregelar a alma. Versão britânica, bem mais convincente, de Nina Hagen, Danielle Dax faz passar discretamente a mensagem: “Ao canto de cisne do planeta Terra/ maravilhamo-nos com um remédio bem simples/ pegar na roupa/ limpar a ardósia/ retirar calmamente a fina camada de ferrugem/ e fazer ir pelos ares a flor humana.” Perigosa, a senhora. ***

aqui



Vários – “International”

Pop Rock

27 MARÇO 1991
LP’S

VÁRIOS
International

LP e CD, Mute, Ed. Edisom

varios

Não se trata da celebração de nenhum aniversário, mas tão-só de uma orgulhosa declaração de princípios e de uma afirmação de vitória. Compreendem-se os festejos, no caso desta editora independente inglesa, formada em 1978, que no curto espaço de 13 anos conseguiu competir, em termos de venda e penetração do mercado, com as suas companheiras mais velhas e abastadas.
Vocacionada para a música electrónica nas duas vertentes comercial e experimental, a táctica consistiu sempre, por um lado, em apostar na rentabilização de nomes como os Depeche Mode (e não Mod, como aparece escrito no rótulo interior), que hoje enchem os estádios americanos, os Erasure ou os recém-chegados Inspiral Carpets, e, por outro, na divulgação e lançamento de propostas mais radicais e obscuras, como são os casos paradigmáticos de Diamanda Galas ou dos Einstuerzende Neubauten.
A presente compilação opta pelo meio termo, procurando o justo equilíbrio entre o mais imediatamente apelativo (os temas dançáveis dos Fortran 5, “Crazy Earth” ou a recriação ao vivo dos Erasure, em “Push me, Shove me”) e o moderadamente experimental (o excerto retirado da ópera nacionalista dos Laibach – e não Laiback, como vem escrito…) “MacBeth” ou o estruturalismo pop samplado de Holger Hiller, com os Oh! Ho Bang Bang, em “The Three”). Pelo meio algumas ideias interessantes e tédios evitáveis. Interessante é o instrumental dos Depeche Mode, “Enjoy the Silence” na veia séria institucionalizada no “alter ego” Recoil, povoada de cordas sintéticas e melancolia futurista. Mark (e não Mar…) Stewart repete a brincadeira de “Fatal Attraction” (e não “attractional”…), à custa de toneladas de “samplers”, fatalmente atraído pela batida “I Feel Love”, de Donna Summer. Os Inspiral Carpets servem-se de “Sackville” para imitar Julian Cope acompanhado à guitarra. Engraçado o tema dos Wire, metronómico-minimais da pop electrónica fabril de “Drill”, como antes a tinham visionado os Cluster de “Zuckerzeit”. Nitzer Ebb parece querer homenagear o patrão da editora, Daniel Miller, nos tempos em que este, com os The Normal, gelava as pistas de dança com “Warm Leatherette”.
Nick Cave representa o seu habitual papel de “crooner” sombrio e estelar em “The Train” e os Crime & the City Solution divertem-se à grande com “I Have the Gun” de Woody Guthrie. Durante escassos minutos assomam fantasmagorias dub a 16 r.p.m. de “Pocket Porn”, invocadas pelos Renegade Sounsdwave (e não “soudwave”…). Chatos são os suecos Easy, com “Between John & Yoko” (já não há respeito?). Dispensável é também “Give me” dos A. C. Marias, uma “má viagem” da irmã mais nova de Julee Cruise. A Mute não é muda e diz de sua justiça. Cada cabeça sua sentença. •••