Arquivo mensal: Abril 2011

Ricardo Rocha – “Voluptuária”

06.06.2003

Ricardo Rocha
Voluptuária
2xCD ed. e distri. Vachier & Associados
8/10

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O Terceiro Movimento

Depois de Pedro Caldeira Cabral e das suas “Memórias da Guitarra Portuguesa” é a vez de Ricardo Rocha testemunhar a gavor (embora a entrevista oa lado possa sugerir mais um “contra”…) da guitarra portuguesa e das suas especificidades enquanto instrumento que melhor exprime um modo de sentir (tradicional?) português mas que finalmente se abre para um universalismo, de ordem não só estética como ideológica, antes apenas enunciado.
“Voluptuária” pode ser encarado como o terceiro momento, ou movimento de um caminho de emancipação deste instrumento que terá tido origem em Carlos Paredes, prosseguindo no sentido de uma certa “normalização” estilística através de Pedro Caldeira Cabral, e finalmente sido redimido das suas limitações próprias e enquadrado no campo mesmo das novas músicas, por Ricardo Rocha. De Paredes retirou Rocha a expressividade física (o arrebatamento, esse é próprio da alma de cada um) enquanto de Caldeira Cabral aproveitou o gosto pelo jogo das formas e a propensão para um estruturalismo mais cerebral que em Paredes mal se deixava perceber por detrás do dilúvio das emoções. Rocha possui uma visão de campo alargada, sente o tempo de uma forma que lhe permite ir do minimalismo e da repetição ao estatismo, das cascatas de acordes que tombam em dilúvio às notas soltas que flutuam com vida própria no seio do silêncio. Do classicismo, reiterado nas três composições em forma de “trompe l’oeil” com dedicatória a Scriabin e enredado nos parâmetros do contraponto e do Barroco nas peças para cravo, ao abstraccionismo cultivado, à sombra de um acompanhamento discreto da guitarra, nas peças para violino. É, porém, no gosto pelo equilíbrio e na preocupação, quase obsessiva, pelo detalhe (inclusive posto em prática no trabalho meticuloso da escolha dos títulos e no grafismo da embalagem, um digipak que põe em contraste o lado cósmico com o microcosmos dos pequenos ícones pessoais) que Ricardo Rocha se revela exímio, propondo a integração da guitarra portuguesa numa “new age” de contornos inovadores onde as noções de tradicionalismo e modernidade se esbatem e a beleza não se esgota nas cores de uma natureza-morta, antes é espaço de procura de novos horizontes.

@c – “Hard Disk” (conj.)

06.06.2003

@c
Hard Disk
8/10

Pedro Tudela
Là où je Dors
8/10

Longina
!Siam Acnun
7/10

Vítor Joaquim
La strada is on Fire (and we are all Naked)
8/10

Todos ed. Crónica, distri. Matéria Prima

@c, Pedro Tudela, Vítor Joaquim e Longina – Crónicas da Terra Digital

“Crónica” é nome de série de uma nova editora nacional de elctrónica. Com informação áudio e vídeo e “links” directos ao neurónio mais próximo. Primeira edição da colecção, “hard Disk”, dos @c (Miguel Carvalhais, Pedro Almeida e Pedro Moreira) inclui seis disseminações sónicas e um vídeo da programadora gráfica e artista digital Lia. Refracções industriais, vozes enforcadas numa linha de montagem de clones psicóticos, ordenadores de batidas digital/tribais. Pan-Sonic, Cabaret Voltaire de “Mix-up” e “Voice of America” em versão rolo compressor são enxertados na memória. Forward. Valsas ao longe, frequências “limpas” e “sujas”, sinais de rádio, dissecação do interior de um “chip” com vida. “Hard Disk” é uma ampliação, um acto de voyeurismo que tira prazer do processamento digital. Os sons nascem do vazio e a ele regressam. Mas analise-se a radiografia sonora desta sequência de tempo e encontrar-se-á um universo em metamorfose evolutiva. Crónica número um da terra digital: aprovada sem reservas para usos indescriminados.
Crónica número dois. Pedro Tudela sai do colectivo @C para apresentar “Là où je Dors”. Onde o colectivo opta por apenas numerar cada tema, Tudela intitula os seus com termos como “Forest”, “Carrousel” (alô cluster), “man that can not touch woman”, “Mermaids”, “Bed of Clouds” e “Delirium with dolls”. Sabe-se da importância da palavra poética enquanto factor de indução de imagens. Desta conjugação Tudela faz surgir drones das quais vão emergindo batidas de “ambient tecno”, cortadas por arranhões nos locais mais extravagantes da rede sónica, efeitos de “delay” e “phase”, sobreposições, ecos, súbitas eclusões de ruído seguidas de contracções e aspirações. “Là où je Dors” pode ser um complemento dos @C em que o composto sonoro abre mais uma janela, deixando antever uma fauna e uma flora não menos monstruosas onde cada aberração é capaz de espantar por uma concepção do Belo que se infiltra como uma doença. Aprovada para uso farmacológico ou para contemplação em estados de consciência alterados.
Crónica número três. “!Siam Acnun” (“Nunca Mais”, ao contrário) do galego Longina. Algumas fórmulas rítmicas semelhantes às dos @C, mas recuperando o “groove” com patas de insecto de Victor Nubla sob a designação Xjacks, o “swing” dinossáurico, terrivelmente aditivo, dos Esplendor Geometrico ou o minimalismo dos Rechenzentrum. Baixo de jazz moribundo, piano-anagramas, binários de tribos perdidas, cortam as batidas daquela que, das quatro, será a crónica mais perto de se poder dançar mas também a que mais se aproxima de alguns estereótipos do género. Aprovado para sessões de terapia de hipnose de regressão.
Crónica número quatro. “La Strada is on Fire (and we are all Naked)” de Vítor Joaquim. Com Martin Archer (saxofones processados), Rodrigo Amado (saxofones), Victor Coimbra (baixo) e Mariana F (voz). E pedaços de sons extraídos de emissões de TV, um “velha estrela de rock” e “um discurso de Bill Clinton (depois de um bombardeamento com danos colaterais). Ainda a electrónica como máquina de sonhos fabricados a partir de recortes da realidade mesmo que a “realidade” não seja mais do que a fenomenologia de um mundo “exterior” que nos é vedado. A estrada está a arder mas não nos damos conta. E Vítor Joaquim filma o vazio do pós-incêndio. Os saxofones conferem uma nota de psicadelismo-etno e “alien jazz” a uma música que ocasionalmente evoca os SPK na sua vertente mais ritual. Aprovado como banda-sonora de um “peep show” para o pós-Apocalipse.

Jah Wobble’s Solaris – “Live in Concert” (self conj.)

18.04.2003

Jah Wobble’s Solaris
Live in Concert

Jah Wobble
Fly

30Hertz, distri. Universal

6/10

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Ostentando os números 18 e 19 da série hertziana, “Live in Concert” e “Fly” são os mais recentes desenvolvimentos de Jah Wobble, o paquiderme do baixo. “Live in Concert” reúne uma formação de luxo com o pianista Harold Budd, o baterista dos Can, Jaki Liebezeit, o trompetista com um pé no jazz e outro na “world”, Graham Haynes, e um sefundo baixista na pessoa do igualmente proboscídeo Bill Laswell. Apresentado como uma abordagem “holy minimalist” de “texturas jazz, world e dub” embaladas numa “paisagem modal”, “Live in Concert” varia entre a jam adrenalínica, o “dub” pneumático de baixas frequências e próteses rítmicas enxertadas a partir do material genético dos Can, com os dois baixos e a “human drum machine” Jaki Kiebezeit a carburarem em tandem. Falta subtileza a estas divagações oleosas que deveriam homenagear a fábula metafísica saída da pena de Stanlislaw Lem. “Fly” compõe-se de 11 “voos” cuja tripulação integra Clive Bell, Harry Beckett e Jean-Pierre Rasle. De nada valem, porque logo à segunda descolagem a aeronave despenha-se contra as cordilheiras da “etnoseca” com selo Enigma. O resto é a dose habitual de “dub”, funk & house, um magnífico voo nº4 a fazer lembrar o “Requiem” que permanece até à data como a obra mais conseguida do ex-P.I.L. e uma sequela requentada da folk universalizante que Jean-Pierre Rasle ajudou a criar nos Cock & Bull. O melhor são as fotos da capa.