Arquivo mensal: Janeiro 2011

Rickie Lee Jones – “Evening Of My Best Day”

07.11.2003
Rickie Lee Jones
Evening Of My Best Day
V2, distri. Edel
8/10

LINK

Rickie Lee Jones – Jus a Perfect Day

Há vozes às quais acenamos de longe. Vozes que cumprimentamos com um aperto de mão. Vozes que nos abraçam e nos beijam apaixonadamente. Vozes pelas quais nos apaixonamos. Umas fazem-nos sonhar. Outras fazem-nos sofrer. A querer-nos mal. A querer-nos bem.
As piores vozes são as vozes que nos deixam indiferentes. A voz de Rickie Lee Jones, mais que não fosse, dá vontade de espirrar. Mas não em “The Evening of my best day”. Não, porque a respiração está mais solta e tudo parece fluir como o movimento da lua entre os eucaliptos, a envolver a silhueta de uma mulher que dança.
A tarde do melhor dia dela tem tudo para ser uma ocasião inesquecível para nós. “Justa a perfect day”, como diria Lou Reed… A autora de “Pop Pop”, o disco de jazz mais pop do mundo, e do fantasmagórico e experimental “Ghosty Head” (um dos nossos preferidos), regressou com um novo álbum só de originais, pondo fim a um interregno de seis anos. Está melhor da constipação. Ou são as canções que se pegam, nos contagiam, nos infectam com uma doença parecida com os sintomas da luxúria.
“The Evening on my Best Day” começa por deslumbrar pela riqueza e diversidade dos arranjos. Como palco de cada registo interior encontram-se paisagens pop, jazz, country, rhythm & Blues, “americana”, gospel… Ecos de Joni Mitchell (“A Second Chance”) e certidões de apadrinhamento a Suzanne Vega. E, em “Bitchennostrophy”, o Brasil, cantado em francês, “Jane Birkin meets Astrud Gilbert” naquele areal que os Stereolab e os High Llamas tentam desesperadamente tornar um local quente.
Órgãos “lounge”, vibrafones marinhos, flautas de pássaros, violinos de outras épocas vestidas de fraque, trombones de bigode, guitarras a escorrer sucos do espírito. E a tais grandes canções, em alguns casos enormes, como “Sailor song”, trágica como um naufrágio. Ou a “A tree on Allenford”, com a beleza intricada de um enigma oculto no nevoeiro da infância (a capa do disco mostra uma criança), desenhados nas margens por um acordeão e um clarinete baixo. Passam acusações a George W. Bush, em “Tell somebody (repeal the patriot act)” e melodias leves como “It takes you there”, de fazer inveja aos The Sea and the Cake, e o “blues” carnívoro mas depois doce e torta de angústia de “Mink coat at the bus stop”, com uma das mais legíveis e fortes assinaturas vocais de todo o disco.
“Evening of my best day” faz-nos querer mais, levando-nos, a cada audição, a penetrar profundamente neste dia com a duração da eternidade mas que finalmente se apaga no crepúsculo até nada ficar senão a noite. Tal qual o tempo da infância. E da paixão. Iluminado por fora, escuro como um poço dentro.
Rickie Lee Jones não pretendeu mais nada senão partilhar connosco este seu mundo. Sem no-lo atirar à cara, antes com o calor e o toque sensual de uma carícia. E, ao contrário de outras “singer songwriters”, sem confundir simplicidade e sinceridade com penúria de meios e pose de pobrezinha sofredora. Mulher e esteta, oferece-nos sentimentos como se fossem iguarias. Entre a extensa lista de ,úsicos convidados encontram-se Syd Straw, Rob Wasserman, Alejandro Acuna, Bill Frissell, Nels Cline, Grant Lee Philips e Ben Harper com os innocent Criminals. Todos contribuem de maneira tão discreta como eficaz, acrescentando recortes de outras músicas a um fluxo inesgotável de ideias e emoções que conseguem soar ao mesmo tempo complexas e naturais. Saúde-se a saúde deste dia.

Six Organs Of Admittance – “Six Organs Of Admittance”

31.10.2003
Six Organs Of Admittance
Six Organs Of Admittance
Holy Mountain, distri. Sabotage
7/10

LINK

A diferença entre o génio e o louco não é evidente. Ben Chasny, mentor do projecto pouco convencional Six Organs of Admittance, ou é uma coisa ou é outra. Sob uma capa de insondáveis folhagens a negro e prata, albergam-se sete temas sem fronteiras definidas entre o ambiental, o minimalismo e um indisfarçável desequilíbrio mental. “Psicadelismo”, diria o outro!… Senão, como havemos de chamar a “Sum of all heaven”, 17 minutos de arrastamento de órgão marado, ruídos de aparelhagem de som danificada, guitarra arranhada e voz estrangulada? “Shadow of a dune”, com fita a rodar ao contrário (sim, tudo aqui é “lo-fi”), e “Harmonice mundi II”, electrónica “from outer space” e guitarra-numa-nota só, antecedem o “raga” “Race for Vishnu”, manifestação simultânea de uma técnica particular de arrancar sons inusitados à guitarra acústica e de um misticismo pegajoso. “invitation to the SR for supper” é tão impenetrável como a falsa “world” de Lazslo Hortobágyi” e “Don’t be afraid”, a fechar, uma “bad trip” e um aviso. Chasny não é um John Fahey mas o seu delírio tem a virtude de nos desinquietar.

Swans – “Children of God / World of Skin” (self conj.)

03.10.2003
Swans
Children of God / World of Skin
9/10
Swans Are Dead
8/10
Ambos 2xCD Young God, distri. Sabotage

LINK

Swans – A Praga dos Cisnes

“O bem estar e a felicidade nunca me pareceram um fim absoluto. Sinto-me mesmo inclinada a pensar que estes propósitos morais são mais parecidos com os de um porco”. Quem o diz é Jarboe, a serpente entre os cisnes. Os Swans eram uma daquelas bandas americanas dos anos 80 que achavam que o inferno é o melhor local para se viver e que procuravam convencer o seu público do mesmo. Como Clint Ruin, Lydia Lunch, Sonic Youth ou The Art Barbeque, os Swans moldaram o rock em volutas de “noise”, escolhendo como temas para as suas litanias infernais, a religião, o sexo, a morte e, em geral, todas as actividades humanas . da escatologia mais infame a um ascetismo neurótico – que conduzem ao sofrimento e à loucura.
“Children of God”, editado originalmente em 1897 no formato de duplo-álbum e agora reeditado e remasterizado em conjunto com “World of Skin”, do projecto paralelo, Skin, não foge a esta tecla com a diferença de que, comparativamente aos discos anteriores como “Filth” ou “greed”, pauta o horror por uma espécie de Psicadelismo negro, faceta que viria a acentuar-se nos Skin e na obra a solo de Jarboe.
É verdade que logo a abrir, “New Mind” nos põe K.O. Rock sinónimo de agressão física e psíquica, crispado na guitarra carnívora de Gira, arrepiante numa letra que ousa dizer “The sex in your soul will damn you to hell”. Mas “Children of God” aborda o mal noutra perspectiva, aquela que se disfarça sobre o manto carmesim do Belo. Jarboe sibila entre guitarras acústicas, pianos e naipes de cordas, num jardim de pesadelo que mima o Psicadelismo, enquanto Gira faz ecoar a sua voz de barítono, invectivando tudo e todos, numa impossível catarse em que o amor é ainda um outro rosto da morte. “I’ll always remember your hand on my shoulder, pulling me down, into the cold dead earth”, um pouco à maneira do pregador Nick Cave, em “Real Love”. A agonia eleva-se, enfim, nas asas de vampiro de uma majestade feita de ódio e orgulho, música quase sinfónica, no formidável “Beatiful Child” – tão totalitária como a dos Einsturzende Neubauten, horrivelmente pornográfica como a de Boyd Rice (Non), eivada de uma dimensão cinematográfica como a de Jim Thirlwell sob o pseudónimo de Foetus. E se a dupla condescende em afirmar que somos todos “children of god”, é com um arrepio que reconhecemos a natureza dessa divindade.
Jarboe brilha como uma estátua de sal no outro lado da lua, na compilação de temas dos Skin, “World of Skin”, bom complemento para “Children of God”. Cantora de verdade, em “Cry me a river”, “Blood in your hands” ou “My own hands”, a sua voz chega a ser atraente, atraindo-nos para um labirinto de gigantescos espinhos de rosa. Os violinos e violoncelos cortam como punhais, a electrónica afunda-se em nevoeiros sinistros a envolverem as vozes, mais litúrgicas do que nunca, dos oficiantes. Tudo em “World of Skin” ostenta uma religiosidade malsã. Ouve-se um tema como “We’ll fall apart” e a confusão enrola-se no impossível acordo entre Sade Adu e os Dead Can Dance em dia de enterro ou quando a harmónica dos Supertramp (!) é estrangulada por um piano tumular, em “Cold Bed”. Ou, como cantava Marc Almind: “Beauty is skin deep”.
Mas não é tudo. Como proclamava Frank Zappa, “the torture never stops”. A par de “Children of God/World of Skin”, foi igualmente reeditado, em CD duplo, “Swans are Dead”, registo das derradeiras digressões do grupo, em 1995 e 1997. Aguente quem puder os 16 minutos de mantra de ruído a que o grupo chamou “Feel Happiness”, capazes de deitar por terra a aliança Glen Branca/Sonic Youth. Mas também há um anjo a voar montado num vibrafone a assombrar a missa negra “The Sound” e os 17 minutos de “Helpless child”, reflexo distorcido num espelho de águas inquinadas. No canto de cisne dos Swans, o niilismo dos anos 80 transitou, tal qual um vírus já disseminado pelo corpo todo, para os 90. Como uma praga.