Arquivo mensal: Janeiro 2011

DAT Politics – “Tracto Flirt”

19.09.2003
DAT Politics
Tracto Flirt
Tigerbeat6, distri. Ananana
8/10

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Alguém falou em electroclash? De orgasmos ciborgues importados dos 80’s e da máquina de afagos sexuais inventada por Wilhelm Reich? Os DAT Politics oferecem garantias de prazer máximo à distância de uma SMS. Arrumem numa disquete a espacialidade dos Kraftwerk, a subvida digital dos Pansonic e a batida enguiçada dos Daft Punk, desenhem no rótulo o “smile” das “funny electronics”, baixem a intensidade de corrente no capacete de tortura à mioleira chamado “Villiger” com que os DAT Politics vos puseram os cabelos em pé, e terão uma ideia de como soa esta reedição em CD de um dos primeiros discos desta banda de Lyon que faz com os “laptops” o mesmo que Hendrix fazia com a guitarra. Ou seja, tudo. A diferença entre “Villiger” ou “Plugs Plus”, manifestos de ruído conceptual, e “Tracto Flirt”, é que este põe a funcionar as roldanas e ligações nervosas com que o cérebro dá ordem para dançar. O “groove” tem código de barras mas é infecciosos e divertido. Qual boneca insuflável de ligar à tomada, “Tracto Flirt” condensa a energia do rock ‘n’ roll nos arquétipos sexualidade mais electricidade. E não se gasta. Em comparação, as Chicks on Speed ou Peaches (com ou sem barba) parecem donzelas.

Monoton – “Monotonprodukt 07 20y++”

19.09.2003
Monoton
Monotonprodukt 07
20y++
Oral, distri. Matéria Prima
8/10

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Alerta! “Monotonprodukt 07 20y++” é a reedição, revista e melhorada, de um clássico da electrónica dos anos 80. Criado em 1985, pelo austríaco Konrad Becker, “Monotonprodukt 07!” (assim se intitulava então) é um dos esteios da transição da estética “krautrock” dos anos 70 para a electrónica industrial dos 80, posteriormente reapropriada pela geração pós-tecno dos 90. A “wire” integrou este álbum na lista dos 100 “mais importantes e ignorados” do séc. XX. A música é minimalista, apoiada em programações artesanais e caixas de ritmo monolíticas que tanto fazem lembrar os franceses Heldon e Spacecraft como os D.A.F. ou uma aliança sinistra de clones –zombies dos Tangerine Dream com os Suicide. Tal e qual uma sessão de hipnose destinada a enviar-nos para o fundo do poço dos nossos medos, é definido no livrete como uma “experiência física da vibração e do ritmo, construída sobre frequências audíveis ou inaudíveis, e estruturada segundo padrões matemáticos” ou ainda, mais de acordo com o que os sentidos provam e não receiam, “uma massagem de ondas sonoras”. Ideal para lobotomias sem dor.

Robert Wyatt – “Cuckooland”

10.10.2003
Robert Wyatt
Cuckooland
Hannibal, distri. Edel
10/10

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Valsa Para Um Homem Só
As primeiras notas de “Just a bit” poderiam pertencer a uma versão para funeral de “Música no Coração”. E é disso que se trata. As palavras, aquelas palavras que noutras gargantas soariam a lamentos de um velho senil mas que no caso de Wyatt irrompem como emanações de uma personalidade que sublimou a dor e a solidão, fazendo delas seus amigos íntimos, pulsam como os batimentos de um coração ferido. “I’m as mad as any hatter, I feeel safer touching wood” canta, sobre o tal jacuzi de sintetizadores que banham e afogam cada sílaba num dilúvio de melancolia. Como quase todos os discos do ex-Soft Machine desde “Rock Bottom”, desprende-se da música uma tristeza feita em partes iguais de ternura, lucidez e resignação. Acompanhado por músicos como Annie Whitehead e Karen Mantler, Wyatt encarrega-se, como vem fazendo a partir de “Ruth is stranger than Richard”, a partir o jazz aos bocadinhos, cada um deles correspondente a um pedaço de espelho que apenas reflecte uma parcela de uma verdade mais vasta. Naipes de sintetizadores girando no Ocaso, saxofones do princípio do século, valsas da Europa romântica onde Miles Davis corteja Juliette Gréco, uma inusitada intromissão guitarrística de rock-vaudeville de Paul Weller, a par dos habituais disparos (sem o estampido de manifestos como “Nothing can stop us” contra o imperialismo e a injustiça, tudo encaixa no lugar que este homem determina como sendo o certo, ou seja, o seu, por mais que diga estar “Neither here…” e “… Nor there”.
Os cucos são aves solitárias. Ao escutarmos de lágrimas nos olhos (porque a Beleza tem que ter este efeito nas almas dos que estão vivos), esta voz que parece volatilizar-se por trás das nuvens, este oceano de melodias que limpam e redimem de uma vez por todas as banalidades que infestam a pop, imaginamos a figura de um homem dobrado sobre os seus sonhos, medos e esperanças, sentado à mesa, sozinho, a beber chá, no meio de um prado outonal. Mesmo na orla da floresta, como a de “Forest”, onde se escondem estranhas maravilhas mas também as vítimas e os lobos – valsa definitiva dos génios e dos loucos, marcha dos anjos decaídos. Mas anjos, apesar de tudo. Um dos discos do ano.