Arquivo de etiquetas: Vários

Vários – “Lament”

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993


Vários
Lament
CD Real World, distri. Edisom



O conceito e a intenção são imaculados. Um lamento pela Irlanda do presente, em particular pela Irlanda do Norte. Resultado de um projecto inicial dedicado à cidade de Derry e inspirado no modo musical “goltrai” da mitologia antiga, que exprime a tristeza, “Lament” foi intencionalmente reduzido à expressão mais simples, de modo a concentrar ao máximo a emoção, sem ambiguidades. Assim, cada faixa limita-se a uma prestação individual, instrumental ou cantada, que procura canalizar os vários matizes da tristeza. A música é na generalidade destituída de arranjos complexos. São choros, gritos, suspiros, sobressaltos solitários. E silêncio, que pode ser a forma mais profunda de dizer a dor. “Lament” é ainda uma espécie de mostruário dos diversos instrumentos musicais típicos da Irlanda: “Tin whistle”, “uillean pipes”, rabeca, acordeão, “bodhran” e harpa. Os demosntradores foram escolhidos a dedo: Davy Spillane, Declan Masterson (ex-Moving Hearts), Maighread Ní Dhomhnaill, Paddy Glackin, Micheal ‘O Suilleabháin (pianista e compositor erudito), Christy Moore, Kevin Conneff, John Sheahan (Dubliners), Séan Potts (ex-Chieftains, Bakerswell) e Derek Bell, entre outros. O resultado é decepcionate, por demasiado monocórdico, sem contrastes. Três momentos de excepção: a prestação vocal de Alann O’ Kelly, em estranha aproximação a Meredith Monk, um Christy Moore no fundo de um poço e uma versão de “O’Carolan’s Farewell” distendida até ao limite por Derek Bell. Um tiro desperdiçado. Lamento. (6)

Vários – “Weird Nightmare”

pop rock >> quarta-feira, 17.02.1993
NOVOS LANÇAMENTOS POP / ROCK


MINGUS E OS BACANAIS

VÁRIOS
Weird Nightmare
CD Columbia, distri. Sony Music



Francis Thumm, discípulo do iconoclasta Harry Partch, define do seguinte modo os pontos em comum entre o seu mestre e Charlie Mingus: “Cada um deles era capaz de combinar a precisão de um trabalho de ‘ensemble’ com a entrega e o abandono de um bacanal.”
Hal Wilner organizou o encontro e o festim fantasmáticos (especula-se quanto à possibilidade de um encontro de facto, algures na Califórnia, no princípio do século) entre os estes dois génios. Depois de “Amarcord Nino Rotta” (compositor favorito de Fellini), “That’s the way I feel now – A Tribute to Thelonius Monk”, “Lost in the Stars – The Musico f Kurt Weill” e “Stay Awake – Various Interpretations of Music from Vintage Disney Films”, Winner presta agora homenagem ao mito que Joni Mitchell já havia celebrado no duplo “Mingus”, gravado no ano da morte do compositor. Hal Winner fá-lo da melhor forma e após maturação lenta de um projecto que germinou a partir de uma selecção de gravações antigas da editora Folkways (algumas das quais serviram de inspiração às célebres colagens musicais de Mingus): através da reinvenção de um universo temático riquíssimo e da apropriação possível de um estado de espírito.
Mingus, falecido em 1979, foi um explorador de sons e sentidos. Nas décadas de 50, 60 e 70, ajudou a dar nome e consistência às fusões “Third Stream” e ao “free”, integrando na sua música elementos “étnicos” do Mediterrâneo, da América Latina e do Médio Oriente. O bacanal que Thumm refere é, no seu caso, esta mistura orgânica de formas musicais e vivências que Mingus trabalhou e combinou até ao fim. Nele, a composição era indissociável dos outros interesses que cultivava na vida: mulheres, comida, pintura, literatura, percepção extra-sensorial, meditação, teologia, psicoterapia, política, relações inter-raciais…
Mas se Mingus é o arquitecto deste “estranho pesadelo”, Harry Partch é o seu artesão (um músico “seduzido pela carpintaria”, como ele próprio se definiu). Tão ou mais excêntrico que Mingus, Partch – falecido em 1974, cinco anos antes do autor de “Ah Um” – inventou para si uma notação musical própria (vale a pena escutar os resultados em obras como “Petals Fell on Petaluma”. “Delusions of the Fury”, “Barstowl Daphne of the Dunes” e “The Bewitched”, esta última com reedição recente em compacto) que o obrigou a idealizar e fabricar novos instrumentos: “Cloud chamber bowls”, “marimba eroica”, “Chromelodeon II”, “Harmonic canon”, “Surrogate kithara”, “cone gong”, “Crychord”…
Instrumentos que Hal Winner foi buscar ao museu e que em “Weird Nightmare”, foram utilizados pela primeira vez num disco sem a autoria do seu inventor.
Faltava escolher os intérpretes. À semelhança dos anteriores projectos de Winner, o grupo de “Weird Nightmares” é constituído por uma panóplia de músicos oriundos de esferas musicais distintas, unidos numa mesma sensibilidade e devoção ao homenageado. Há um núcleo a quem foi entregue a função de sustentáculo sonoro, formado por Art Baron, Bill Frisell, Greg Cohen, Don Alias e Michael Blair e uma constelação de convidados, com a função de narradores – vocalistas – instrumentistas ocasionais: Henry Threadgill, Marc Ribot, Robbie Robertson, Don Byron, Elvis Costello, Vernon Reid, Henry Rollins, Charlie Watts, Keith Richards, Bob Stewart, Tony Trischka, Chuck D, Bobby Previte, Diamanda Galas, Leonard Cohen, Robert Quine, Ray Davies e Dr. John, entre muitos outros.
A que é que soa semelhante festim de sons, referências e ideias? Próximo do cruzamento entre Stravinsky, John Zorn e os Biota (“Work song”, por exemplo, habita esse proto-oceano onde os ruídos se revolvem na procura da harmonia) e Charlie Mingus, é claro. O ambiente é quase sempre soturno, preso às complexidades e exigências da pauta, interrompido por emanações “bluegrass”, um swing a que falta o pé ou um mundo em colapso. Impressionista de um modo espectral, desprende-se de “Weird Nightmares” uma sensação de profundidade abissal, de águas turvas habitadas por seres inomináveis. O título está perfeito. (8)

Vários – “The Impressionists”

pop rock >> quarta-feira, 03.02.1993
NOVOS LANÇAMENTOS


Vários
The Impressionists
CD Windham Hill, distri. BMG



O termo “impressionista” começou por ser ofensivo antes de ser arte. Os impressionistas eram artistas que nunca diziam nada de forma directa. Jogavam com a subjectividade da percepção. Pintavam e compunham a partir de pontos, manchas, luz. Em suma, não mostravam “coisas” mas sim “impressões”, como a designação deixa entender. Um grupo de músicos da editora Windham Hill, das primeiras a lançar o termo “new age”, jugou que tinha uma palavra a dizer sobre o assunto. Reuniram-se as hostes, os pianos, as guitarras acústicas e as cordas sintéticas, acenderam-se os paus de incenso e deitou-se mãos a peças de Gabriel Fauré, Claude Debussy, Maurice Ravel e Erik Satie. O resultado, semelhante ao que Waldo de Los Rios fez com Vivaldi, mas mais lento, é bastante soporífero. As “Sicilienne”, “Pavane” e “Sontine” transformaram-se em “sprays” de Brise e romances de cordel. Faz pena ver as “Gimnopédies” de Satie serem assassinadas por Tim Story e Alex de Grassi, e confusão os manos Triona e Micheál O’ Dhomhnaill (ilustres da folk irlandesa) metidos nestas andanças, com os Nightnoise. Graças à Windham Hill, “impressionista” volta a ser um insulto. (3)