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João Braga, Rodrigo-Costa Félix, Salvador Taborda-Ferreira, Miguel Capucho, Miguel Sanches, Sancha Costa Ramos, Maria Ana Bobone, Mafalda Arnauth – “João Braga E Convidados – Amor Ao Fado”

cultura >> sábado, 04.02.1995


João Braga E Convidados
Amor Ao Fado


JOÃO BRAGA regressou aos bons velhos tempos. Cantou como nunca e mostrou à sociedade que o fado tem a continuação da sua linhagem mais nobre garantida. A noite de quinta-feira, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, perdurará na memória como uma das melhores de sempre na história do fado, com o espectáculo “Em Nome do Fado”, também o título do último trabalho discográfico do fadista monárquico e sportinguista. Para trás ficou a má recordação do espectáculo do ano passado no CCB. A atmosfera do S. Luiz era outra, desde logo propícia à comunicação com o público – numeroso -, e não admirou que todos os participantes dessem o máximo, ultrapassando-se a si próprios em cada interpretação.
Há muito que não escutávamos João Braga em tão boa forma. Seguro de voz, deixou perceber entoações trágicas que não lhe são muito usuais, não sendo poucas as vezes nas quais se deixou arrastar pela emoção. Como aconteceu logo no fado de abertura, “Saudades da tua voz”, o primeiro de sempre na sua carreira, com as palavras de João Fezas-Vital, já desaparecido, a traçarem aquele misto de dor e de esperança que só o fado e os grandes fadistas são capazes de transmitir.
Cristina Ferreira, substituta de última hora de Nicolau Breyner, fez as apresentações, manifestando algum compreensível nervosismo. Mas quem se importou com isso, no meio da excelência da música? Foram quase três horas de fado, com as palavras dos poetas que João Braga não dispensa a voarem na voz dos mais velhos e dos representantes da geração mais nova. Fernando Pessoa, Sophia de Mello-Breyner, Pedro Homem de Mello, Vinicius e, o mais cantado, Manuel Alegre, presente na sala, cujo nome, por lapso, omitimos no texto de apresentação a este espectáculo, publicado na passada terça-feira.
A facção masculina cumpriu. Rodrigo-Costa Félix, voz e dicção claríssimas. Salvador Taborda-Ferreira, já com alguns tiques de profissional, foi subtil, sugerindo por vezes o jogo de luz e sombras de um Vicente da Câmara. A sua hoste de fãs femininas delirou! Miguel Capucho, mais nervoso, optou por coisas mais ligeiras. Não deslustrou. A Miguel Sanches, um regresso ao fado que se saúda, coube a tarefa ingrata de cantar a seguir à grande revelação da noite, Mafalda Arnauth.
Simplesmente brilhantes, Sancha Costa Ramos, Maria Ana Bobone e Mafalda Arnauth, as três fadistas de excepção. Sancha é extroversão, canto da alma desnuda, prece. Uma grande voz e um corpo atirado para o céu. Houve quem se recordasse de Tereza Tarouca. Maria Ana Bobone, veludo vibrante, cantou em crescendo, ganhando confiança, até se entregar por inteiro. Mas – e que me perdoem as suas duas companheiras – Mafalda Arnauth, em estreia absoluta, foi algo mais. A sua interpretação de “Foi Deus” deixou a plateia estarrecida. É uma voz que luz, arrasta e fere. Tocada pela transcendência. Como a de Amália, um dom de Deus. Não andaremos longe da verdade ao considerarmos Mafalda Arnauth a sucessora natural de Amália Rodrigues. Há muito que o fado não se elevava tão alto na voz de uma mulher.
Quem esteve presente nesta noite onde todos cantaram de facto “Em Nome do Fado” saiu com a certeza de que a tradição está mais viva do que nunca. No final, João Braga estava feliz.

João Braga – “João Braga Cantou Ao Vivo Fados Do Seu Novo Disco – Em Nome De Um Fado Universal”

cultura >> sábado >> 10.09.1994


João Braga Cantou Ao Vivo Fados Do Seu Novo Disco
Em Nome De Um Fado Universal


Com a bandeira nacional monárquica por fundo, João Braga apresentou no palácio dos condes de Óbidos o seu novo álbum “Em Nome do Fado”. Ainda e sempre numa via aristocrática e universalista, desta feita com a presença, no disco e ao vivo, de Rita Guerra e alguns representantes da nova geração de fadistas. Ainda sobrou tempo para bater no bobo da corte, Sousa Cintra.



João Braga apresenta-se pelo menos com duas qualidades: a de monárquico e a de sportinguista. A voz que tem é que já não é a mesma de outros tempos, facto que, tendo em conta os 28 anos que já leva de carreira, se compreende e tem que aceitar. O bom gosto na escolha do reportório e dos convidados para este seu novo disco – “Em Nome do Fado”, com o selo Strauss – compensam no entanto tal fraqueza.
As costelas monárquica e sportinguista, essas, continuam tão fortes como nunca. Assim se compreende, de resto, o local e a simbologia utilizados para a apresentação do disco: o palácio dos condes de Óbidos, no fim da tarde de quinta-feira, com as cores da coroa portuguesa bem em evidência na bandeira azul e branca com o escudo e a coroa, estendida a servir de pano de fundo à actuação do fadista. Logo no princípio, antes de dar início à mini-actuação que serviu para apresentar “Em Nome do Fado”, João Braga chegou mesmo a cantar os “Parabéns” a um aniversariante presente, Francisco van Uden, em quem o fadista gostaria de ver um “herdeiro” ao trono de Portugal.
Antes dos fados e depois dos canapés, João Braga falou, falou bastante. Do fado e da sua recusa em deixá-lo cair nas vielas da má vida. Dos guitarristas que no disco e na ocasião o acompanharam, José Luís Nobre da Costa, Pedro da Veiga, Jaime Santos Jr. E Joel Pina. Das palavras e dos poetas que gosta de cantar. Lamentou a opinião de certos críticos, “alguns de nomeada”, e insurgiu-se contra quem recentemente descreveu o fado como “flamenco impotente”. Até porque o flamenco, disse, enquanto designação genérica e ao contrário do que o senso comum acredita, “não se dança”, enquanto o fado, “sim”, além “de falar ao coração”, também “faz pular o pé”.
João Braga aludiu ainda ao “golpe de Estado que deu nome à ponte” e explicou a razão de ser do título do novo álbum, “trocadilho” do filme “Em Nome do Pai”. Por fim, cantou. Cinco temas retirados de “Em Nome do Fado”: “Ali, então”, com letra de Sophia de Mello Breyner, “Na Rua do Silêncio”, imortalizado por Alfredo Marceneiro, “Fado de Lisboa”, com texto de Manuel Alegre, “Samba em Prelúdio”, poema de Vinicius de Moraes e música de Baden Powell, e a participação de uma Rita Guerra com voz de fazer vento e calças de boca de sino ao estilo carrilhão de Mafra, e, a finalizar, uma desgarrada, “Sul versus Norte (com alguns versos pelo Centro)” que, à semelhança do disco, contou com as vozes de quatro dos mais jovens e promissores fadistas nacionais: Sancha Costa Ramos, Maria Ana Bobone, Miguel Capucho e Rodrigo Costa Félix. Os três últimos prestes a lançar o seu próprio projecto discográfico, “Alma Nova do Fado”.
Uma alma que se acendeu sobretudo em Rodrigo Costa Félix e nessa grande cantadora de fado que é já Sancha Costa Ramos. A Miguel Capucho, mais nervoso, coube a responsabilidade de cantar, na passagem pelo Centro, a parte de fado de Coimbra que no disco é assegurada por António Bernardino. O nervosismo acabou por passar para a cantora do lado, Maria Ana Bobone, que teve um bom começo mas concluiu hesitante.
No final, o autor de “Em Nome do Fado” não se coibiu de ler uma carta que a propósito lhe foi endereçada por António Bernardino onde este tece alguns comentários menos elogiosos à figura do presidente do Sporting, Sousa Cintra, o tal que João Braga considera “estruturalmente desonesto”. Com ou sem justa causa.