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João Braga – “João Braga Estreia Auditório De Fado Em Cascais – Cantar Na Linha”

cultura >> sexta-feira, 21.07.1995


João Braga Estreia Auditório De Fado Em Cascais
Cantar Na Linha


João Braga e um grupo alargado de amigos estreiam hoje uma nova sala de fados em Cascais. Para este intérprete, que “antes de aprender a falar aprendeu a cantar” e nos anos 60 se ergueu contra a descaracterização do fado, será o regresso às origens. Ao tempo em que “a noite” e a “má vida” tomaram o lugar de Aznavour, Sinatra, Ray Charles e Elvis Presley nas suas preferências.



“Pertenço a uma daquelas enervantes espécies humanas que têm por fado estar sempre com as minorias – quer sejam políticas, religiosas, desportivas, culturais e, até, ao que parece, nos tempos que correm, sexuais.” Quem o diz é João Braga, da forma desassombrada que o caracteriza, na apresentação de mais um recital onde vai estar acompanhado por representantes de várias gerações de fadistas, que têm em comum o facto de “cantarem bem”. Ou, como ele próprio diz, terem a “voz colocada, bem timbrada e afinada, dentro dos andamentos, com a dicção perfeita e uma divisão sem mácula”. A reunião terá lugar hoje à noite numa nova sala de espectáculos, o recém criado auditório do Parque de Palmela, em Cascais. Nesta sessão de “Fados no Parque” vão estar presentes, além de João Braga e por ordem de entrada, Sancha Costa Ramos, Rodrigo Costa Félix, Bela Bueri, Miguel Sanches, Teresa Siqueira, Carlos Zel, Miguel Capucho, Maria Ana Bobone, Salvador Taborda-Ferreira, Camané e Mafalda Arnauth. Todos acompanhados à guitarra por Carlos Gonçalves e José Luís Nobre Costa e, à viola, por Jaime Santos Jr. E Joel Pina. A apresentação está a cargo de João Maria Tudela.
Para João Braga é o regresso às origens. O cantor monárquico e sportinguista descobriu e descobriu-se nos anos 60 na vila de Cascais, mais precisamente no Verão de 1963 – tinha então dezoito anos – no Galito, no Estoril, e em Birre, no Estribo Club, voltando ao centro da vila para cantar no Cartola bar e no Búzio. O que significa que o ano em que “saltou” para a “noite” e para a “má vida” foi o mesmo em que, paradoxalmente, passou a andar na linha. De Cascais, obviamente. Antes disso, João Braga já cantava, “de tudo”, com aqueles “predicados2 com que foi dotado por “Deus Nosso Senhor”: cânticos religiosos, duetos dos Everly Brothers, Charles Aznavour, “cjeias de ‘chagrin’”, Paul Anka, Neil Sedaka, Roy Orbinson, Bill Halley, Platters, Little Richard, Buddy Holly, Frank Sinatra, Dean Martin, Ray Charles, Elvis Presley…

Ritual No Parque

O novo auditório do Parque de Palmela tem, para si, todas as condições para se transformar num local de eleição do fado. “Ao contrário do pavilhão de Cascais, que é grande demais, o novo recinto tem a intimidade suficiente que eu exijo sempre para os meus espectáculos”. Hoje à noite, João Braga reatará o contacto com as palavras dos poetas que não dispensa – Fernando Pessoa, Sofia de Mello-Breyner, Pedro Homem de Mello, Miguel Torga, Vinícius de Moraes, Manuel Alegre, João Fezas-Vital – sem esquecer os tempos antigos, numa homenagem que trará à luz do dia “fados antigos”, do começo de carreira.
Dos que vão estar consigo esta noite, João Braga salienta duas presenças que são novidade no seu círculo de amigos e companheiros de ofício: Camané, “um fadista com qualidade” e, “por razões sentimentais”, Bela Bueri, uma cantora da sua geração, dos tempos de Cascais. Um grupo cada vez mais alargado de cantores, a garantirem que “o fado está bem vivo” e a existência de “bastantes valores novos e bons para renová-lo”.
A juntar a esta renovação de valores está a abertura de novas salas exclusivamente dedicadas ao fado, como é o caso de dois novos clubes abertos recentemente, um em Birre, na Quinta da Bicuda, outro em Lisboa, junto à Sé. “Clubes de fado é uma maneira de dizer”, esclarece João Braga. “Antigamente, a gente chamava-lhes retiros. É só uma questão de terminologia. A ideia é a mesma, as pessoas reunirem-se com o espírito de retiro (pu, neste caso, de ‘clube’) para ouvirem o fado. O novo recinto no Parque de Palmela, embora se chame pomposamente ‘auditório’, tem uma lotação limitada, o que permite aquele ritual que é um recital de fados.”

João Braga, Rodrigo-Costa Félix, Salvador Taborda-Ferreira, Miguel Capucho, Miguel Sanches, Sancha Costa Ramos, Maria Ana Bobone, Mafalda Arnauth – “João Braga E Convidados – Amor Ao Fado”

cultura >> sábado, 04.02.1995


João Braga E Convidados
Amor Ao Fado


JOÃO BRAGA regressou aos bons velhos tempos. Cantou como nunca e mostrou à sociedade que o fado tem a continuação da sua linhagem mais nobre garantida. A noite de quinta-feira, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, perdurará na memória como uma das melhores de sempre na história do fado, com o espectáculo “Em Nome do Fado”, também o título do último trabalho discográfico do fadista monárquico e sportinguista. Para trás ficou a má recordação do espectáculo do ano passado no CCB. A atmosfera do S. Luiz era outra, desde logo propícia à comunicação com o público – numeroso -, e não admirou que todos os participantes dessem o máximo, ultrapassando-se a si próprios em cada interpretação.
Há muito que não escutávamos João Braga em tão boa forma. Seguro de voz, deixou perceber entoações trágicas que não lhe são muito usuais, não sendo poucas as vezes nas quais se deixou arrastar pela emoção. Como aconteceu logo no fado de abertura, “Saudades da tua voz”, o primeiro de sempre na sua carreira, com as palavras de João Fezas-Vital, já desaparecido, a traçarem aquele misto de dor e de esperança que só o fado e os grandes fadistas são capazes de transmitir.
Cristina Ferreira, substituta de última hora de Nicolau Breyner, fez as apresentações, manifestando algum compreensível nervosismo. Mas quem se importou com isso, no meio da excelência da música? Foram quase três horas de fado, com as palavras dos poetas que João Braga não dispensa a voarem na voz dos mais velhos e dos representantes da geração mais nova. Fernando Pessoa, Sophia de Mello-Breyner, Pedro Homem de Mello, Vinicius e, o mais cantado, Manuel Alegre, presente na sala, cujo nome, por lapso, omitimos no texto de apresentação a este espectáculo, publicado na passada terça-feira.
A facção masculina cumpriu. Rodrigo-Costa Félix, voz e dicção claríssimas. Salvador Taborda-Ferreira, já com alguns tiques de profissional, foi subtil, sugerindo por vezes o jogo de luz e sombras de um Vicente da Câmara. A sua hoste de fãs femininas delirou! Miguel Capucho, mais nervoso, optou por coisas mais ligeiras. Não deslustrou. A Miguel Sanches, um regresso ao fado que se saúda, coube a tarefa ingrata de cantar a seguir à grande revelação da noite, Mafalda Arnauth.
Simplesmente brilhantes, Sancha Costa Ramos, Maria Ana Bobone e Mafalda Arnauth, as três fadistas de excepção. Sancha é extroversão, canto da alma desnuda, prece. Uma grande voz e um corpo atirado para o céu. Houve quem se recordasse de Tereza Tarouca. Maria Ana Bobone, veludo vibrante, cantou em crescendo, ganhando confiança, até se entregar por inteiro. Mas – e que me perdoem as suas duas companheiras – Mafalda Arnauth, em estreia absoluta, foi algo mais. A sua interpretação de “Foi Deus” deixou a plateia estarrecida. É uma voz que luz, arrasta e fere. Tocada pela transcendência. Como a de Amália, um dom de Deus. Não andaremos longe da verdade ao considerarmos Mafalda Arnauth a sucessora natural de Amália Rodrigues. Há muito que o fado não se elevava tão alto na voz de uma mulher.
Quem esteve presente nesta noite onde todos cantaram de facto “Em Nome do Fado” saiu com a certeza de que a tradição está mais viva do que nunca. No final, João Braga estava feliz.

João Braga – “João Braga Cantou Ao Vivo Fados Do Seu Novo Disco – Em Nome De Um Fado Universal”

cultura >> sábado >> 10.09.1994


João Braga Cantou Ao Vivo Fados Do Seu Novo Disco
Em Nome De Um Fado Universal


Com a bandeira nacional monárquica por fundo, João Braga apresentou no palácio dos condes de Óbidos o seu novo álbum “Em Nome do Fado”. Ainda e sempre numa via aristocrática e universalista, desta feita com a presença, no disco e ao vivo, de Rita Guerra e alguns representantes da nova geração de fadistas. Ainda sobrou tempo para bater no bobo da corte, Sousa Cintra.



João Braga apresenta-se pelo menos com duas qualidades: a de monárquico e a de sportinguista. A voz que tem é que já não é a mesma de outros tempos, facto que, tendo em conta os 28 anos que já leva de carreira, se compreende e tem que aceitar. O bom gosto na escolha do reportório e dos convidados para este seu novo disco – “Em Nome do Fado”, com o selo Strauss – compensam no entanto tal fraqueza.
As costelas monárquica e sportinguista, essas, continuam tão fortes como nunca. Assim se compreende, de resto, o local e a simbologia utilizados para a apresentação do disco: o palácio dos condes de Óbidos, no fim da tarde de quinta-feira, com as cores da coroa portuguesa bem em evidência na bandeira azul e branca com o escudo e a coroa, estendida a servir de pano de fundo à actuação do fadista. Logo no princípio, antes de dar início à mini-actuação que serviu para apresentar “Em Nome do Fado”, João Braga chegou mesmo a cantar os “Parabéns” a um aniversariante presente, Francisco van Uden, em quem o fadista gostaria de ver um “herdeiro” ao trono de Portugal.
Antes dos fados e depois dos canapés, João Braga falou, falou bastante. Do fado e da sua recusa em deixá-lo cair nas vielas da má vida. Dos guitarristas que no disco e na ocasião o acompanharam, José Luís Nobre da Costa, Pedro da Veiga, Jaime Santos Jr. E Joel Pina. Das palavras e dos poetas que gosta de cantar. Lamentou a opinião de certos críticos, “alguns de nomeada”, e insurgiu-se contra quem recentemente descreveu o fado como “flamenco impotente”. Até porque o flamenco, disse, enquanto designação genérica e ao contrário do que o senso comum acredita, “não se dança”, enquanto o fado, “sim”, além “de falar ao coração”, também “faz pular o pé”.
João Braga aludiu ainda ao “golpe de Estado que deu nome à ponte” e explicou a razão de ser do título do novo álbum, “trocadilho” do filme “Em Nome do Pai”. Por fim, cantou. Cinco temas retirados de “Em Nome do Fado”: “Ali, então”, com letra de Sophia de Mello Breyner, “Na Rua do Silêncio”, imortalizado por Alfredo Marceneiro, “Fado de Lisboa”, com texto de Manuel Alegre, “Samba em Prelúdio”, poema de Vinicius de Moraes e música de Baden Powell, e a participação de uma Rita Guerra com voz de fazer vento e calças de boca de sino ao estilo carrilhão de Mafra, e, a finalizar, uma desgarrada, “Sul versus Norte (com alguns versos pelo Centro)” que, à semelhança do disco, contou com as vozes de quatro dos mais jovens e promissores fadistas nacionais: Sancha Costa Ramos, Maria Ana Bobone, Miguel Capucho e Rodrigo Costa Félix. Os três últimos prestes a lançar o seu próprio projecto discográfico, “Alma Nova do Fado”.
Uma alma que se acendeu sobretudo em Rodrigo Costa Félix e nessa grande cantadora de fado que é já Sancha Costa Ramos. A Miguel Capucho, mais nervoso, coube a responsabilidade de cantar, na passagem pelo Centro, a parte de fado de Coimbra que no disco é assegurada por António Bernardino. O nervosismo acabou por passar para a cantora do lado, Maria Ana Bobone, que teve um bom começo mas concluiu hesitante.
No final, o autor de “Em Nome do Fado” não se coibiu de ler uma carta que a propósito lhe foi endereçada por António Bernardino onde este tece alguns comentários menos elogiosos à figura do presidente do Sporting, Sousa Cintra, o tal que João Braga considera “estruturalmente desonesto”. Com ou sem justa causa.