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Pop Dell’Arte – “Edição De Máxi Antecipa Novo Álbum Dos Pop Dell’Arte – Assim Falava Peste, Com Música De Strauss”

Cultura >> Quinta-Feira, 16.01.1992


Edição De Máxi Antecipa Novo Álbum Dos Pop Dell’Arte
Assim Falava Peste, Com Música De Strauss



“2002” e “M C Holly” são os dois temas que integram o novo máxi dos Pop Dell’Arte antes do álbum “Ready-made”, com edição prevista para a primeira semana de Fevereiro na editora Variodisc. O disco é “mais dirigido às pistas de dança” que o álbum, nas palavras de João Peste, vocalista e anarco-ideólogo do grupo do qual fazem parte ainda Rafael Toral, Luís Sampayo, Pedro Alvim e João Paulo Feliciano.
“2002”, que o cantor considera um tema “carismático”, prolonga por alamedas sombrias o sonambulismo “house” vigente nas noites mais ácidas da Europa, em alucinações e parasitagens electrónicas, descarrilamentos “scratch” e as vocalizações de Peste que, como não podia deixar de ser, também saltam da linha. Não falta sequer a alusão kitsch à odisseia espacial de Stanley Kubrick, em “2001”, através da utilização de “Thus Spake Zarathustra” – “Assim falava Zaratustra”, de Richard Strauss – “a ideia partiu de uma colagem de uma versão ‘funky-jazz” do poema sinfónico deste autor, dedicada a Friedrich Nietzsche. Trabalhámos nela e o resultado acabou por soar um bocado irónico, uma brincadeira à volta dos slogans ‘power is life, power is love’, disse o cantor. “M C Holly” carrega com mais força no acelerador e é mais fiel aos cânones tradicionais da música de dança. Há menos ousadia sem que isso implique ausência de provocação. A maneira como, logo no início do tema, se dirige via cinismo samplado, aos jovens – “remember kids, I’m your friend”, como um “amigo” que só dá bons conselhos – ilustra bem a atitude de Peste como diletante da decadência “chic” por excelência entre o conformismo bem comportado da maior parte das bandas pop nacionais.
Confirmando o interesse crescente de João Peste pela música de dança, o cantor estará hoje à noite na discoteca “Zona Mais”, onde actuará desta feita na função de disc-jockey”: “É uma coisa que eu não costumo fazer regularmente mas que já aconteceu por várias vezes, sempre que para tal me convidam. Neste caso concreto, trata-se de pôr a tocar discos de ‘disco-sound’, ideia que julguei engraçada. De resto já tinha colaborado antes, também como ‘disc-jockey, no mesmo local, durante uma ‘noite psicadélica’”, informou João Peste.
Interrogado quanto aos discos que irá passar esta noite, o cantor refugiou-se num lacónico “ainda não pensei nisso”.

Pop Dell’Arte – “Pop Dell’Arte Inauguram Catálogo De Editora – João Peste Impõe Condições” (ready-made, novo disco)

Cultura >> Sábado, 04.01.1992


Pop Dell’Arte Inauguram Catálogo De Editora
João Peste Impõe Condições


“Ready-Made”, o novo álbum dos Pop Dell’Arte, sairá em Fevereiro na editora Variodisc. É a grande aposta para o lançamento em força deste novo selo independente. Mas João Peste impõe condições.



“Ready-made” tem como data prevista de lançamento o dia 6 de Fevereiro. Já em meados deste mês o maxi “M C Holly / 2002” chegará aos escaparates nacionais. “Ready-made”, como os surrealistas chamavam a objectos que a deslocação mágica do olhar e o humor transformavam em obras-de-arte, reúne seis temas entre os quais “Ballad of Lily-Io”, “808 loop”, “Jani’s pearl” e versões diferentes das incluídas no maxi, “M C Holly” e “2002”, recuperadas no formato CD.
Gravado no Exit estúdio, em Lisboa, o novo álbum tem produção de João Peste, Rafael Toral e Luís Sampayo e a assistência técnica de Paula Margarida e, nalguns temas, de Jonathan Miller, que já havia trabalhado no disco de estreia dos Resistência. Para João Peste o novo disco não representa uma ruptura com a orientação estética que a banda tem vindo a seguir nos últimos tempos – uma mistura de “house” e pop psicadélico embalada em doses industriais de teatro, electricidade e “glamour”.

Quem Controla Quem?

Numa altura em que as bandas nacionais parecem apostar em contratos com multinacionais, não deixa de causar uma certa estranheza a opção dos Pop Dell’Arte por uma editora ainda sem provas dadas, como a Variodisc. “O disco beneficiou de um orçamento global equivalente ao de uma multinacional”, garante João Peste, para quem a proposta da Variodisc, para além de “boa”, surgiu “na melhor altura”. Mas mais importante que o aspecto financeiro é o “controlo em termos estéticos, de orientação e de promoção” que os Pop Dell’Arte não dispensam à partida. “Uma garantia que a maior parte das bandas portuguesas não tem”, mas que João Peste procura a todo o custo assegurar, “de poder centralizar nas próprias mãos todos os aspectos ligados à promoção do disco”. O ideal seria, ainda segundo Peste, o de “assegurar os serviços” – pagos pela editora – “de alguém da confiança da banda para tratar de todas estas questões”. De referir que o contrato agora assinado com a Variodisc prevê a edição de um único disco. “Não há qualquer outro vínculo da nossa parte em relação à nova editora”, como João Peste faz questão de acentuar.
É neste ponto, sobre quem assegurará o trabalho de promoção – alguém da editora ou a própria banda – que parecem surgir os primeiros sinais de clivagem entre os Pop Dell’Arte e a Variodisc, numa relação que, longe de se poder considerar conflituosas, poderá não ser de todo pacífica. Fala-se em descoordenação (na Variodisc afirma-se, por exemplo, que o maxi “M C Holly / 2002” já fora distribuído antes pela Polygram; João Peste insiste que o dico nunca saiu dos aramazéns) e na pouca sensibilização do “staff” da editora à música dos Pop Dell’Arte. O que nem será de estranhar se atendermos a que um dos homens ligados à Variodisc, Pedro Cardoso, esteve ligado a áreas musicais como o “heavy metal”, o “thrash metal” ou o “hard core”.
Seja qual for a solução encontrada, João Peste não prescinde do que considera uma condição necessária: “Mesmo que a promoção seja entregue a alguém da editora, terá de ser em total coordenação connosco”.

À Conquista Da Europa

Do lado da Variodisc, as estratégias editoriais encontram-se me fase de definição. Formada em Outubro do ano passado, o novo selo dirigido por Pedro Cardoso, Carlos Alberto Pereira e Alfredo Graça pretende, segundo o primeiro, “abarcar os catálogos não distribuídos em Portugal” Embora não haja “uma orientação estética específica” esta por certo não deixará de contemplar os géneros mais pesados atrás aludidos. O que não impediu a Variodisc de já ter lançado no mercado a caixa dos Cocteau Twins ou uma série de discos piratas, dos Aerosmith, U2, Rolling Stones e Led Zeppelin, entre outros, “tendo o cuidado de lançar ‘bootlegs’ de editoras, como a Pluto ou a Great Dane, que previamente e segundo a legislação em vigor, depositaram uma soma a ser entregue aos artistas, por cada exemplar vendido”, apressa-se Pedro Cardoso a explicar. Previsto está também o lançamento dos primeiros discos da editora holandesa Provogue, da qual a Variodisc é distribuidora oficial em Portugal.
Embora sem “o apoio de nenhum grupo financeiro” o recém-nascido selo faz parte de uma “holding” nacional que inclui um despachante, um transitário e uma firma de “import-export” com o escritório na Holanda, a Vegatan, o que permitirá a distribuição neste país, no Benelux e no resto da CEE, do novo disco dos Pop Dell’Arte e das outras bandas que vierem a fazer parte do catálogo.
Para Pedro Cardoso, até há pouco na Anónima (agora ligada à Valentim de Carvalho) é a oportunidade de poder trabalhar com “eficácia e rapidez” ao contrário do que acontecia na antiga editora. “Detestava estar dois e três meses à espera de uma encomenda de discos, retida no despachante ou na alfândega, porque a Valentim de Carvalho tinha outras coisas pendentes, como os lançamentos da EMI. E a Anónima ficava sempre para trás”. Estas razões ditaram o afastamento do homem de “música pesada”. Acabou por tornar-se numa questão pessoal: “Quando souberam que tinham ficado ligado a esta nova editora e procurava tentar importar alguns discos do catálogo da Anónima, deixaram de me falar e impediram-me de entrar nas lojas da VC”. “Estou à espera da versão deles”, afirma, resignado.

Vários – “Festa Do ‘Avante!’ 91 – A Música Em Comício”

Secção Cultura Segunda-Feira, 09.09.1991


Festa Do “Avante!” 91
A Música Em Comício


Na Festa do “Avante!” é sempre assim todos os anos: bons nomes em cartaz, actuações invariavelmente prejudicadas por deficiências e o desconforto inerentes ao gigantismo do evento. Sabe-se que é assim, mas vai-se na mesma. Festa é festa, como se costuma dizer. O contingente “folk” foi refrigério no banho de poeira.

Há duas maneiras de apreciar a Festa do “Avante!. Impressiona, por um lado, a reconhecida capacidade de organização e mobilização dos comunistas portugueses. Montar uma cidade descartável não é fácil e o milagre é alcançado todos os anos. De resto, o partido é especialista em milagres. Por outro lado, essa mesma cidade, erguida com o objectivo de proporcionar a fruição, seja ela estética, ideológica ou gastronómica, ao apostar na massificação acaba por deixar em muitos um sabor a frustração.
Evidentemente, há quem tenha opinião contrária e aprecie. Para os da casa está sempre tudo bem. Festejar é, como no resto, nivelar por baixo. Quem também gosta muito, numa população de circunstância, é aquela camada de “jovens” para quem o paraíso consiste em emborcar quilolitros de seja o que for com álcool na composição, rebolar na terra, sozinho ou às voltas com o parceiro(a) e, com sorte, culminar a aventura no hospital mais próximo. Na Quinta da Atalaia, foi um rodopio de ambulâncias para cá e para lá a transportar os despojos humanos resultantes dos êxtases instantâneos. Em qualquer dos casos, do militante fanático ao “freak” andrajoso, a festa funciona ao nível da alucinação.

O Inferno São Os Outros

Para complicar, o programa das actividades culturais (e em particular as muitas músicas que são o mel da festa) costuma ser aliciante. São as circunstâncias que fazem o inferno. O anjibho incauto atraído pela promessa de boa música sofre a bom sofrer, numa correria de poeira e encontrões, para finalmente ver recompensado o esforço com mais poeira, parasitagens extra-musicais de toda a espécie (deficiências técnicas, atropelos à higiene mais elementar, interferências humanas provocadas por gritos e choros de crianças ou militâncias mais inflamadas, vómitos à tangente, numa massa envolta na bruma poeirenta que transforma o cenário numa variante proletária de “Mad Max…) ou o desespero terminal de não conseguir chegar a tempo ao espectáculo ansiado, devido ao desfasamento e atrasos de horário.
Saíram-se bem os Pop Dell’Arte que na sexta à noite se embrenharam num delírio psicadélico “kitsch” apoiado por um eficaz show de luzes psicoalucinantes de tendência dadaísta. João Peste contorceu-se vocalmente a contento, emitou a Piaf, fez inveja a Vítor “Goodbye Maria Ivone” Peter e embasbacou meio povo presente em mil e uma provocações inteligentes.
Provocantes e inteligentes foram ainda os Telectu que, depois de Elliott Sharp, voltaram a escolher o parceiro certo – desta feita o percussionista Chris Cutler – para mostrar que por cá a vanguarda também mexe. Espaço para a improvisação e para o diálogo entre músicos de diferente formação e sensibilidade. Num instante o caos, no outro a convergência. Jorge Lima Barreto, em tom de contenção, sugeriu ambientes e avançou pistas. Vítor Rua provou até que ponto é bom guitarrista, sobretudo quando se esquece dos botões e pedais de efeitos, como aconteceu no encore final. Chris Cutler construiu, destuiu, brincou, ordenou e explodiu em compasos ora binários ora impossivelmente complexos. Experiência radical.

Uma Fada Entre A Poeira

Quem sofreu mais foram os representantes da “folk”. Prejudicados por investidas sistemáticas de “feedback” e pela indiferença de um público na maioria já em avançado estado de decrepitude física e moral, os Boys of the Lough mostraram no palco grande, com a dignidade que se impunha, os mistérios da música irlandesa, a que poucos terão sido sensíveis, distraídos da hora mágica do pôr-do-sol.
No auditório “1º de Maio” (uma tenda de circo montada sobre a terra) a harpista Savourna Stevenson fez esquecer o mundo exterior e material. Nem o ruído insistente de um baixo tonitruante e monocórdico do grupo de arraial do lado conseguiu vencer a atmosfera intimista criada pela fada. Fada sensual, diga-se de passagem, mini-saia negra recuada em volta da madeira central do instrumento, acrescentando outras divagações ao sonho do espírito. Acompanhada em dois temas pelo violinista dos Boys of the Lough, Aly Bain, Savourna Stevenson alternou temas swingantes com tradicionais do seu mais recente disco “Tweed Journey “ou a revisitação de um tema de Duke Ellington. Brilhante, num barracão ou num palácio.
À noite, os Oyster Band enlouqueceram por completo uma assistência (em parte já recuperada da ressaca vespertina) que não se fartou de dançar e formar rodas ao som da “Punk Folk” da banda britânica. Alheados da agitação geral, dois jovens jogavam às cartas no escuro entre pernas, sentados no chão… Folia somente perturbada pela presença emblemática da vocalista June Tabor que, sem voz, e desfasada do grupo, arrefeceu os entusiasmos e conseguiu assassinar o clássico dos Velvet Underground “All Tomorrow’s parties”, fazendo Nico revolver-se no túmulo. Rainha de outros reinos, June Tabor, ao contrário do que aconteceu no “Folk Tejo”, não deslumbrou.
Do reino da poeira, terra e confusão fica a recordação de umas febras com sabor a plástico rotuladas de “cozinha típica”, as imagens apocalípticas do império das latas de cerveja amontoadas rivalizando com os corpos empilhados e o comentário sabedor de alguém ao passar no palco onde actuava um “ensemble” de contrabaixos: “olha um violino!”. É assim na Festa do “Avante!”, os olhos só vêem aquilo que sabem ou querem ver…