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Everything But The Girl – “DOCES COM PICANTE” (concertos | antevisão)

pop rock >> quarta-feira >> 08.03.1995


DOCES COM PICANTE



em Outubro do ano passado, o duo britânico Everything But The Girl tocou em Portugal, no CCB, mas, por razões de saúde de um dos seus elementos, acabou por ter de cancelar as duas restantes actuações, agendadas uma para o mesmo local e outra no Porto. O regresso, passado tão pouco tempo, de Tracey Thorn e Bem Watt às salas portuguesas pode assim ser encarado como uma espécie de compensação para todos os apreciadores da música nostálgica deste grupo que não conseguiram vê-los na primeira vez. “Amplified Hearts”, o seu disco mais recente, editado no ano passado, mostra o casal com uma energia que não lhes é muito habitual, em canções sobre o mesmo tema de sempre, o amor, manancial inesgotável de histórias, sempre diferentes e sempre iguais, com que tem sido escrita a folha de serviço da música pop. No CCB foram recebidas com alguma frieza, mas, como já houve tempo para as pessoas se familiarizarem com elas, é possível que à segunda as coisas aconteçam de maneira diferente. Thorn e Watt sabem como criar uma boa melodia, enfim, uma melodia que se possa assobiar e esquecer de seguida, com tempo de vida igual ao tempo de um romance. Nisto, os Everything But The Girl são especialistas, embora em “Amplified Hearts” queiram dar a imagem de durões, a quem a vida endureceu e ensinou a ser cínicos.
Mas ninguém acredita que alguém como Tracey Thorn e Bem Watt, com o seu ar franzino e a sua música, toda ela delicadeza, seja capaz da mínima patifaria. Quando muito puseram mais picante.
. EVERYTHING BUT THE GIRL .
C. C. Belém (Lisboa) – Março – Sábado – 11
Teatro Circo (Braga) – Março – Segunda – 13
Coliseu do Porto – Março – Terça – 14

Né Ladeiras “Né Ladeiras Traz Os Montes A Belém – A Cidade E As Serras”

cultura >> sábado, 25.02.1995


Né Ladeiras Traz Os Montes A Belém
A Cidade E As Serras

Ponto de encontro da tradição com um cosmopolitismo reaprendido, a música de Né Ladeiras acorda memórias esquecidas e abre novas portas para a renovação da música popular portuguesa. Em Belém, Trás-Os-Montes foi berço de uma terra com futuro.



“São cantos de nascimento e morte, embalo de meninos e brado de folia, ajudantes no trabalho e no lazer, confissões d’amores proibidos, hinos de crenças cristãs e das pagãs. Vozes de tempos recuados foram ensinando outras vozes e chegam-nos hoje sob a forma de cantos ‘bizarros’ que o cidadão português comum não reconhece como seus.” O texto, escrito à laia de prefácio no mais recente álbum de Né Ladeiras, “Traz os Montes”, ilustra bem a história de magia que ao vivo se contou na noite de quinta-feira no grande auditório do Centro Cultural de Belém. Outro texto, vulgo programa – com chancela da Fundação das Descobertas e do CCB -, menos poético, é certo, mas bastante mais didáctico, alertava em grossos caracteres para as “percurssões”, com “r”, para dar mais ênfase, ao mesmo tempo que promove o encenador Ricardo Pais a director musical e autor dos arranjos, deixando Ricardo Dias, o verdadeiro responsável, a chuchar no dedo. Só faltava mesmo que alguém com responsabilidades no centro declarasse com entusiasmo a sua admiração pelos “paliteiros de Miranda”, assim como se falasse entre dentes, num espírito de criatividade linguística sempre de saudar. Adiante…
Cerca de uma hora e dez de música bastaram a Né Ladeiras e ao seu grupo Galandum para ter a seus pés uma plateia no final rendida aos sons e atitude “bizarros” desta mulher, misto de virgem e feiticeira, vinda de “Alhures” em “Trás-os-Montes”, sua pátria espiritual. Né veio vestida de prata lunar, contra um fundo simulando fragas transmontanas. Teve início o ritual com “Fonte do salgueirinho”, ao som da voz gravada da anciã Adélia Garcia. “Çarandilheira”, “Roro”, “Anda duermete nino” e “La molinera” revelaram as duas principais vozes instrumentais, de Ricardo Dias, no piano e sintetizador, e Manuel Rocha, no violino, ambos da Brigada Victor Jara, recordada no tema seguinte, “Marião”. Depois as notas aceleraram até à velocidade do rock, em “Ai se a luzia”, um tema da Banda do Casaco, onde se destacaram Ricardo Dias, na sonoridade arcaica de uma ponteira, o baixo de Vítor Milhanas e as vozes de apoio de Isabel Bernardo e Genoveva Faísca.
Com “Pingacho” o oceano da tradição invadiu as montanhas. Amadeu Magalhães (natural do Barrosão e elemento dos Realejo) iniciou o seu “tour de force” na gaita-de-foles, ao mesmo tempo que um careto cabriolava no estrado e os oito dançarinos do grupo G. E. F. A. C. derreteram de vez o gelo do auditório. “Ora assi que te quiero morena, ora assi que te quiero salada, por beilar lo pingacho!”. Um diálogo de bateria e percussões, mais em força do que em jeito, de André Sousa Machado e Joaquim Teles, desaguou numa batida transmontana, tornada berço de “Cirigoça”, uma das notáveis interpretações vocais de Né Ladeiras, com bons apontamentos de Amadeu no “tin whistle” (ou flauta de lata…). As serranias soltaram espectros carnavalescos num lhaço animado pela dança guerreira dos paliteiros, perdão, pauliteiros, de novo com Amadeu Magalhães endiabrado na gaota-de-foles. À ventania sucedeu a ternura de uma canção de embalo, “Perlimpinchim”, entre o sussurro do piano e os sobressaltos da guitarra de António Pinto. Em “En tu puerta” a voz da cantotra escalou os montes mais latos, pairando à altura das vozes búlgaras, as tais que falam com Deus. “Indo por la sierra” antecedeu “Beijai o menino”, no louvor das gaitas-de-foles, por Amadeu e Ricardo Dias, com Manuel Rocha notável de subtileza e doçura no violino. “Ó que estriga tenho na roca” fechou o ciclo. Né trocou as voltas ao tempo, banhando-se namesma água-régia da anciã cantora do tema inicial. A serpente mordeu a sua cauda.
Três “encores”, com repetição de “Çarandilheira”, “Ai se a Luzia” e “Beijai o menino”, constituíram o justo prémio para um espectáculo onde tudo pareceu encaixar no lugar certo. Um reparo final, apenas, para o som, que se cumpriu em termos de clareza, terá pecado por alguma dureza. Mas aí terá que haver, na mesa de mistura, alguém com coração e ouvido para este tipo de música. A de Né Ladeiras, se é verdade que tem a força do granito, pede igualmente pétalas de rosa.
Um espectáculo de música portuguesa como há muito não se via nem ouvia.

Né Ladeiras – “A LUA SOBRE OS MONTES – NÉ LADEIRAS – C. C. Belém – Lisboa – Quinta – 23 – 22h”

pop rock >> quarta-feira >> 01.02.1995


A LUA SOBRE OS MONTES
NÉ LADEIRAS
C. C. Belém – Lisboa – Quinta – 23 – 22h


“traz os Montes” vem até Belém. O novo disco de Né Ladeiras tem a sua apresentação ao vivo marcada para o Centro Cultural de Belém (CCB), no Grande Auditório, a 23 de Fevereiro, numa co-produção da Fundação das Descobertas / CCB e Encore. O espectáculo terá cerca de hora e meia de duração e contará, como convidados, com o músico transmontano Amadeu Magalhães, membro dos Realejo, e um grupo de pauliteiros da Associação Académica de Coimbra, que “tem feito recolha em termos de dança em Trás-os-Montes”. “Vão dançar llaços [dança típica transmontana] e trazer adereços típicos da região, como os caretos ou os gigantones, utilizados nas festas populares”, explica a cantora. Está ainda planeada uma coreografia, pelos pauliteiros, de “Pingacho”, um tema de “Traz os Montes”, o único dançado por homens e mulheres, já que “normalmente os llaços são só dançados por oito ou 16 homens”.
Além da totalidade dos temas de “Traz os Montes”, Né Ladeiras incluirá outros que não constam do disco, como “Morgadinha dos canibais” e “Ai se a Luzia”, ambos da Banda do Casaco, de que fez parte, e “Marião”, da Brigada Victor Jara, grupo de música portuguesa de raiz tradicional com o qual a cantora gravou, em 1976, o primeiro álbum da banda, “Eito Fora”. Os arranjos vão diferir pouco dos do disco, estando os acompanhamentos vocais – alguns em mirandês -, de cariz tradicional, entregues a um coro formado por Isabel Bernardo e Genoveva Faísca. “Cantar os temas sozinha, não iria ter piada nenhuma.” As diferenças mais significativas terão lugar, por exemplo, em temas como “Argila de luz”, com um arranjo “totalmente diferente, mais moderno do que aquele que foi gravado em 1976”, e “Ai se a Luzia”, “mais próximo da cor musical que os músicos do concerto representam”. Os acompanhantes de Né Ladeiras no CCB serão, além dos já citados, Manuel Rocha (Brigada Victor Jara e Realejo), no violino, Victor Milhanas, baixo, André Sousa Machado, bateria, Joaquim Teles (Quiné), percussões, Ricardo Dias, piano, outros teclados e voz, e António Pinto, guitarra. A direcção musical e os arranjos estão a cargo de Ricardo Dias e Galandum.
Considerado unanimemente pela crítica um dos melhores álbuns de música portuguesa editados no anos passado, “Traz os Montes” não está, estranhamente, a obter em termos de vendas, resultados correspondentes. Exceptuando a primeira edição, lançada em Novembro, “que esgotou logo”, depois do Natal, diz a cantora, “deixou de haver [discos à venda]”. “É uma coisa que me está a espantar imenso, porque não consigo encontrar discos em lado nenhum. No Norte, já me dei ao cuidado de verificar que o álbum não está a ser bem distribuído. A partir daqui, estamos a começar a ter problemas. Já me vieram perguntar na rua o que é que se passa. Perguntam-me onde é que podem comprar o disco e fico sem resposta.” Para a cantora, o problema não está nas discotecas, “que têm feito pedidos ininterruptamente para os CD serem recolocados”, mas na distribuição, uma vez que tais pedidos “têm demorado muito a ser atendidos ou então simplesmente não são respondidos”. Luís Pedro Fonseca, da Alma Lusa, responsável pela supervisão artística do próximo concerto no CCB, já teve uma reunião com responsáveis da distribuidora, a EMI – Valentim de Carvalho, e a própria cantora tenciona fazer o mesmo, no sentido de “ser esclarecida” do que se passa.
Enquanto o disco não regressa aos escaparates, vale a pena encontrar ao vivo os caminhos da Tradição, à luz da voz e da música mágicas de Né Ladeiras. Depois do concerto do CCB, nada será como dantes. Para a navegante lunar das montanhas enfeitiçadas do Norte, a intenção é “não ficar por aqui e continuar”, embora “Traz os Montes”, como diz, “tenha acabado de nascer”: “É um bebé que temos de alimentar e fazer crescer.” Um bebé que, inclusive, poderá crescer no estrangeiro, uma vez que existem já “vários contactos feitos pela produtora, a Encore, com festivais de música tradicional”, além de que foram enviadas, pela Alma Lusa, para diversas editoras europeias, amostras do disco que têm sido “muito bem recebidas”. “Estão a ficar muito entusiasmados com este som português.” Né Ladeiras planeia ainda, num futuro próximo, ver editada num compacto duplo a sua discografia anterior a “Traz os Montes”: “Sonho Azul”, “Alhur”, “Corsária” e “Ana e as suas irmãs”.