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Rodrigo Leão E Os Vox Ensemble – “Rodrigo Leão E Os Vox Ensemble Carpiram Mágoas No CCB – Afogados Por Números” (concerto)

cultura >> quinta-feira, 04.05.1995


Rodrigo Leão E Os Vox Ensemble Carpiram Mágoas No CCB
Afogados Por Números


Os Vox Ensemble, de Rodrigo Leão, fizeram questão de mostrar anteontem no CCB que a sua música é séria. E com as coisas sérias não se brinca. O rigor e a solenidade, a matemática e o misticismo, foram as palavras de ordem num concerto que mais pareceu uma missa. Nalguns momentos, de defuntos.



Muito espírito, muita paz, muita serenidade, muita partitura, muitas preces e cânticos de elevação. É esta a imagem que se está a criar da música portuguesa. Somos místicos, somos tristes, vestimos de preto. E temos orgulho nisso. Rodrigo Leão e os Vox Ensemble vestem o disfarce na perfeição. Já dizia Pessoa. É a Hora! E quando a hora, mais pequena, da Europa, é dos Enigma, dos monges de Silos e das catedrais, por cá é mais pequerrucha ainda. Mas tem tino e dignidade. Os nossos músicos, quando toca a puxar ao sentimento, não há quem lhes passe à frente.
Assim aconteceu na noite de terça-feira no Centro Cultural de Belém, transformado em igrejinha onde os fiéis acorreram em número bastante numeroso. Para criar ambiente foi chamado um prior de uma freguesia próxima, Joaquim d’Azurém, sozinho em palco com a sua guitarra portuguesa e os seus sonhos de uma idade dourada. E diga-se desde já que se desprendeu da sua música e dos seus silêncios uma profundidade e uma nostalgia talvez mais genuínas e sentidas que as dos Vox Ensemble. Joaquim d’Azurém – de quem existe um belo e ignorado álbum intitulado “Transparências”, saído em 1989 – toca a guitarra como se fosse uma harpa. Os dedos deslizam sonhadores sobre as cordas, jogando com a memória e as refracções electrónicas, orientando a alma e os sentidos para mares longínquos em contraste com a fogosidade rasgada que caracteriza mestre Carlos Paredes. Joaquim d’Azurém suspendeu o tempo no CCB. Fez-nos sentir Saudade. Uma nova idade de cristal.
Depois o guitarrista saiu e entraram os Vox. Uma entrada em força, colectiva no corpo e nas intenções, a lição dos clássicos e de Michael Nyman bem estudada. Violino, viola, violoncelo, oboé e sintetizador. Em frente de cada músico, à excepção do líder, Rodrigo Leão, as partituras impressas a ouro no papel. Rigor no som e na pose. Nem uma palavra de introdução, um sorriso, um flic-flac à retaguarda. A música de “Ave Mundi Luminar” mais os inéditos de “Mysterium” não dão para brincadeiras.
Gostámos sobretudo da solidez respiratória de Teresa Rombo, no violoncelo, uma ondulação de fundo que casou bem com as sonoridades “orquestrais” de Rodrigo Leão no sintetizador. A Nuno Rodrigues coube em geral o desenho das melodias, no oboé, sobre as manobras de contraponto das cordas que, por enquanto, tendem a refugiar-se num certo academismo de compêndio. Como resultado, os ouvidos acomodam-se ao conforto de harmonias que não exigem qualquer esforço para se fazerem amar.
Se ao longo de toda a primeira parte a música soube manter uma certa pujança, em grande parte devida à força e convicção – que chegaram a ser empolgantes em “Carpe diem” – vocais de Ana Sacramento e João Sebastião (Bach?…), na segunda os Vox Ensemble afogaram-se no bonitinho e num romantismo “muzak” que ora recordava os Aphrodite’s Child ora se arrumava ao lado do funcionalismo decorativo de um Paul Mauriat. Foi a altura de todos se comprazerem na apatia das orações beatas e das alegrias do “easy listening”. Os Vox Ensemble perderam a compostura. Fizeram com competência o seu número, a sua matemática de lágrimas e suspiros, mergulhando finalmente no lago da indiferença, essas águas régias onde reina o almejado espírito da paz.
“Façam amor e não a guerra” e ninguém se fez rogado. Ficou toda agente num apaziguamento interior, aplaudiu-se de pé e pediram-se “encores”, viram-se auréolas na sala. Ficou-se, enfim, com a certeza de que o futuro já é nosso. Vestido de negro e com uma cruz de néon às costas “Nullum infortunium venit solum. O me infelicem! Me perditum! Tempus fugit! Carpe diem!”. Nós cá somos assim!

Everything But The Girl – “Everything But The Girl Afagam No CCB – Corações De Geleia” (concerto)

cultura >> segunda-feira, 13.03.1995


Everything But The Girl Afagam No CCB
Corações De Geleia


Foi uma actuação pausada, suave, bastante suave, excessivamente suave até, a dos Everything But The Girl num CCB à cunha e disposto a ir ao embalo. Tracey Thorn e Bem Watt fizeram festinhas nos ouvidos. Ficou toda a gente a fazer “ronron”.

Há alturas em que um homem só tem vontade de ouvir o ruído de esferovite a raspar contra o vidro. O concerto dos Everything But The Girl no Centro Cultural de Belém (CCB), sábado á noite, primeiro de uma minidigressão pelo nosso país que hoje leva o grupo a Braga, ao Teatro Circo, e amanhã se concluirá no Coliseu do Porto, foi uma dessas alturas. Ao longo de cerca de uma hora e um quarto, o casal formado por Tracey Thorn e Bem Watt – os dois desamparados, , ao contrário da actuação do ano passado em que tiveram a boa companhia do contrabaixista Danny Thompson – presenteou uma plateia que esgotou o CCB com canções de uma delicadeza extrema cuja principal característica é deixar os corações a tremer como geleia.
Tracey Thorn e Ben Watt, figuras franzinas, têm aquele “charme” das pessoas que estão ali mas podem desfalecer a qualquer momento. Ele veio de “T-shirt” branca e ténis. Ela, de minivestido a imitar pele de leopardo e botas, armada com uma sensualidade de tipo específico, evidente nos movimentos de trás para a frente do corpo, a tentar manter o equilíbrio, ao mesmo tempo que cantava num registo semelhante ao de Joni Mitchell há 20 anos.
A actuação dos Everything But The Girl foi, apesar de tudo, variada e recheada de episódios emocionantes. Houve canções em que ele cantou sozinho, outras em que cantou só ela, outras ainda em que cantaram os dois, por sinal bastante afinados. Tocaram os dois guitarra mas nem sempre. Às vezes revezavam-se. Entregaram-se de alma e coração, mas sempre com cautela e em passinho curto, a canções de álbuns como “The Language of Life” ou do recente “Amplified Heart”, o tal com músculo, mas em estúdio, claro. As canções novas recordaram as antigas. Estas, por sua vez, possuem bastantes semelhanças com as mais recentes. As letras, de uma brutalidade por vezes chocante, giraram em volta de um tema imorredoiro, o amor, na sua vertente obscura, tatuado na alma em palavras de fogo como “My love, I’ve been waiting for you for so long”.
Watt dedilhou na guitarra a maior parte do tempo ao ritmo da bossa-nova, estilo que tem marcado desde início a música do duo. O público, dando mostras de excepcional capacidade analítica, conhecia de cor praticamente todas as canções, aplaudindo logo às primeiras notas. Aliás, um dos momentos mais significativos de ternura manifestada pela plateia para com os Everything But The Girl ocorreu no aplauso espontâneo a Bem Watt quando este soltou um “Hi” de cumprimento, com toda a convicção.
A excitação atingiu o climax, não numa intervenção mais intempestiva de qualquer dos vocalistas, nem com a queda de algum deles, mas no choro de protesto de uma criança (“não era suposto estar em casa a esta hora?”, exclamou Tracey Thorn) e no “bip” de um relógio electrónico a rasgar uma pausa de angustiante silêncio na prestação dos EBTG. Em matéria de conteúdo musical propriamente dito, a adrenalina descongelou em “Sunday morning”, um tema de Lou Reed dos anos malditos dos Velvet Underground, e em “25th December”, de “Anplified Heart”.
Bonito foi também ouvir Tracey cantar num português bastante fluente o clássico da bossa-nova, “Corcovado”, de Tom Jobim, no fecho do concerto, arrancando mais uma revoada de aplausos de um público que levou a banda nas palminhas. Dois “encores”, sempre no mesmo registo de melodia-beijinho, deram por fim descanso ao descanso. Decididamente, embora tenham cara disso, os Everything But The Girl não são nenhuns “boxeurs”.

Everything But The Girl – “DOCES COM PICANTE” (concertos | antevisão)

pop rock >> quarta-feira >> 08.03.1995


DOCES COM PICANTE



em Outubro do ano passado, o duo britânico Everything But The Girl tocou em Portugal, no CCB, mas, por razões de saúde de um dos seus elementos, acabou por ter de cancelar as duas restantes actuações, agendadas uma para o mesmo local e outra no Porto. O regresso, passado tão pouco tempo, de Tracey Thorn e Bem Watt às salas portuguesas pode assim ser encarado como uma espécie de compensação para todos os apreciadores da música nostálgica deste grupo que não conseguiram vê-los na primeira vez. “Amplified Hearts”, o seu disco mais recente, editado no ano passado, mostra o casal com uma energia que não lhes é muito habitual, em canções sobre o mesmo tema de sempre, o amor, manancial inesgotável de histórias, sempre diferentes e sempre iguais, com que tem sido escrita a folha de serviço da música pop. No CCB foram recebidas com alguma frieza, mas, como já houve tempo para as pessoas se familiarizarem com elas, é possível que à segunda as coisas aconteçam de maneira diferente. Thorn e Watt sabem como criar uma boa melodia, enfim, uma melodia que se possa assobiar e esquecer de seguida, com tempo de vida igual ao tempo de um romance. Nisto, os Everything But The Girl são especialistas, embora em “Amplified Hearts” queiram dar a imagem de durões, a quem a vida endureceu e ensinou a ser cínicos.
Mas ninguém acredita que alguém como Tracey Thorn e Bem Watt, com o seu ar franzino e a sua música, toda ela delicadeza, seja capaz da mínima patifaria. Quando muito puseram mais picante.
. EVERYTHING BUT THE GIRL .
C. C. Belém (Lisboa) – Março – Sábado – 11
Teatro Circo (Braga) – Março – Segunda – 13
Coliseu do Porto – Março – Terça – 14