Arquivo de etiquetas: Everything But The Girl

Everything But The Girl – “Everything But The Girl Afagam No CCB – Corações De Geleia” (concerto)

cultura >> segunda-feira, 13.03.1995


Everything But The Girl Afagam No CCB
Corações De Geleia


Foi uma actuação pausada, suave, bastante suave, excessivamente suave até, a dos Everything But The Girl num CCB à cunha e disposto a ir ao embalo. Tracey Thorn e Bem Watt fizeram festinhas nos ouvidos. Ficou toda a gente a fazer “ronron”.

Há alturas em que um homem só tem vontade de ouvir o ruído de esferovite a raspar contra o vidro. O concerto dos Everything But The Girl no Centro Cultural de Belém (CCB), sábado á noite, primeiro de uma minidigressão pelo nosso país que hoje leva o grupo a Braga, ao Teatro Circo, e amanhã se concluirá no Coliseu do Porto, foi uma dessas alturas. Ao longo de cerca de uma hora e um quarto, o casal formado por Tracey Thorn e Bem Watt – os dois desamparados, , ao contrário da actuação do ano passado em que tiveram a boa companhia do contrabaixista Danny Thompson – presenteou uma plateia que esgotou o CCB com canções de uma delicadeza extrema cuja principal característica é deixar os corações a tremer como geleia.
Tracey Thorn e Ben Watt, figuras franzinas, têm aquele “charme” das pessoas que estão ali mas podem desfalecer a qualquer momento. Ele veio de “T-shirt” branca e ténis. Ela, de minivestido a imitar pele de leopardo e botas, armada com uma sensualidade de tipo específico, evidente nos movimentos de trás para a frente do corpo, a tentar manter o equilíbrio, ao mesmo tempo que cantava num registo semelhante ao de Joni Mitchell há 20 anos.
A actuação dos Everything But The Girl foi, apesar de tudo, variada e recheada de episódios emocionantes. Houve canções em que ele cantou sozinho, outras em que cantou só ela, outras ainda em que cantaram os dois, por sinal bastante afinados. Tocaram os dois guitarra mas nem sempre. Às vezes revezavam-se. Entregaram-se de alma e coração, mas sempre com cautela e em passinho curto, a canções de álbuns como “The Language of Life” ou do recente “Amplified Heart”, o tal com músculo, mas em estúdio, claro. As canções novas recordaram as antigas. Estas, por sua vez, possuem bastantes semelhanças com as mais recentes. As letras, de uma brutalidade por vezes chocante, giraram em volta de um tema imorredoiro, o amor, na sua vertente obscura, tatuado na alma em palavras de fogo como “My love, I’ve been waiting for you for so long”.
Watt dedilhou na guitarra a maior parte do tempo ao ritmo da bossa-nova, estilo que tem marcado desde início a música do duo. O público, dando mostras de excepcional capacidade analítica, conhecia de cor praticamente todas as canções, aplaudindo logo às primeiras notas. Aliás, um dos momentos mais significativos de ternura manifestada pela plateia para com os Everything But The Girl ocorreu no aplauso espontâneo a Bem Watt quando este soltou um “Hi” de cumprimento, com toda a convicção.
A excitação atingiu o climax, não numa intervenção mais intempestiva de qualquer dos vocalistas, nem com a queda de algum deles, mas no choro de protesto de uma criança (“não era suposto estar em casa a esta hora?”, exclamou Tracey Thorn) e no “bip” de um relógio electrónico a rasgar uma pausa de angustiante silêncio na prestação dos EBTG. Em matéria de conteúdo musical propriamente dito, a adrenalina descongelou em “Sunday morning”, um tema de Lou Reed dos anos malditos dos Velvet Underground, e em “25th December”, de “Anplified Heart”.
Bonito foi também ouvir Tracey cantar num português bastante fluente o clássico da bossa-nova, “Corcovado”, de Tom Jobim, no fecho do concerto, arrancando mais uma revoada de aplausos de um público que levou a banda nas palminhas. Dois “encores”, sempre no mesmo registo de melodia-beijinho, deram por fim descanso ao descanso. Decididamente, embora tenham cara disso, os Everything But The Girl não são nenhuns “boxeurs”.

Everything But The Girl – “DOCES COM PICANTE” (concertos | antevisão)

pop rock >> quarta-feira >> 08.03.1995


DOCES COM PICANTE



em Outubro do ano passado, o duo britânico Everything But The Girl tocou em Portugal, no CCB, mas, por razões de saúde de um dos seus elementos, acabou por ter de cancelar as duas restantes actuações, agendadas uma para o mesmo local e outra no Porto. O regresso, passado tão pouco tempo, de Tracey Thorn e Bem Watt às salas portuguesas pode assim ser encarado como uma espécie de compensação para todos os apreciadores da música nostálgica deste grupo que não conseguiram vê-los na primeira vez. “Amplified Hearts”, o seu disco mais recente, editado no ano passado, mostra o casal com uma energia que não lhes é muito habitual, em canções sobre o mesmo tema de sempre, o amor, manancial inesgotável de histórias, sempre diferentes e sempre iguais, com que tem sido escrita a folha de serviço da música pop. No CCB foram recebidas com alguma frieza, mas, como já houve tempo para as pessoas se familiarizarem com elas, é possível que à segunda as coisas aconteçam de maneira diferente. Thorn e Watt sabem como criar uma boa melodia, enfim, uma melodia que se possa assobiar e esquecer de seguida, com tempo de vida igual ao tempo de um romance. Nisto, os Everything But The Girl são especialistas, embora em “Amplified Hearts” queiram dar a imagem de durões, a quem a vida endureceu e ensinou a ser cínicos.
Mas ninguém acredita que alguém como Tracey Thorn e Bem Watt, com o seu ar franzino e a sua música, toda ela delicadeza, seja capaz da mínima patifaria. Quando muito puseram mais picante.
. EVERYTHING BUT THE GIRL .
C. C. Belém (Lisboa) – Março – Sábado – 11
Teatro Circo (Braga) – Março – Segunda – 13
Coliseu do Porto – Março – Terça – 14

Everything But The Girl – “Sorriam Corações”

pop rock >> quarta-feira >> 05.10.1994


Sorriam Corações



Vão estrear-se em Portugal e logo com uma série de três concertos. São os Everything But The Girl, “A melhor banda britânica ainda não fenomenalmente famosa”.

“Amplified Heart”, o seu álbum mais recente, mostra uns Everything But The Girl diferentes do habitual. Mais duros e musculados. Com outras ambições para além da sua música servir de banda sonora para um par de namorados abraçados numa praia fazerem o que têm a fazer. Para trás ficaram os tempos em que Tracy Thorn e Ben Watt – talvez o par mais feio de sempre da música pop, excluindo Popeye e Olívia Palito – flirtavam com os ritmos quentes da América do Sul e o jazz fazia parte da sua bagagem musical itinerante. É verdade que a dupla continua a ter no amor a sua temática principal, só que agora já nem tudo são rosas e é preciso fazer pela vida antes de se chegar a vias de facto.
Para tal mudança de atitude terão contribuído as presenças de um novo produtor, John Coxon, responsável pela ascensão das Pooka, e de Harry Robinson, na qualidade de arranjador, alguém que no passado andou ligado aos já desparecidos Sandy Denny e Nick Drake. Ou então ter-se-á dado o caso de ele e ela se terem fartado do papel de meninos bonitos, o que, convenhamos, devia ser com certeza tarefa difícil. Mas, como os músicos não se medem pela fotogenia, o seu peso terá de ser aferido por outra escala de valores, embora no caso de Meat Loaf ou Frank Black esta norma não se aplique.
Thorn e Watt têm um passado. Ela fez parte dos Marine Girls e publicou a solo o álbum “A Distant Shore”, cujo título diz tudo quanto ao seu conteúdo. Watt, por seu lado, gravou, também sozinho, “North Marine Drive”. Foi a admiração de ambos pela vida marítima que os juntou. Watt também gravou, devido à semelhança dos apelidos, com Robert Wyatt. Há quem considere quaisquer destes discos feitos em solitário melhores do que qualquer um da dupla.
Enfim, nessa época metia-se os Everything But The Girl no mesmo saco que os Working Week, Sade Adu e Carmel, com o rótulo “British jazz revival”. O que no caso dos EBTG era talvez demasiado abusivo. É certo que o jazz, como já dissemos, e para não acharem que estou a desmentir-me, exercia um fascínio nestes dois jovens, mas nada que tivesse a ver com os paroxismos rítmicos dos Working Week, a sensualidade de Sade Adu ou o formalismo geométrico de Carmel. No caso dos EBTG, era tudo mais adocicado pelas subtilezas da bossa-nova, outra das influências óbvias do grupo.
A fama foi chegando aos poucos. Concertos no Ritz de Nova Iorque ou no Parque Gorky em Moscovo tornaram a banda célebre e a imprensa italiana, vejam lá, considerou Tracy a “dona da mais bela voz da pop britânica”. Uns exagerados estes italianos, sempre atrás das “donnas”, não se lembrando que existia uma “Madonna” que, ainda por cima, nessa altura cantava que era virgem. Bem, mas como alguém dizia, “Baby, The Stars Shine Bright”, os dois tornaram-se estrelas, por volta de 1988. Nesse álbum cresceram e foram para estúdio com uma orquestra.
Seguiram-se outros trabalhos, recebidos pela imprensa com alguma simpatia, mas raramente com entusiasmo: “The Language of Life”, “Worldwide” e a colectânea de sucessos “Home Movies”, que inclui dois inéditos produzidos por Phil Ramone. Sem esquecer um EP onde, já adultos compenetrados da função do artista, incluíram versões de canções de Tom Waits, Bruce Springsteen e Cindy Lauper.
E assim, sem fazerem grandes ondas nem operações plásticas, os Everything But The Girl chegaram a “Amplified Heart”, um álbum que levou a Radio One a considera-los “a melhor banda britânica que ainda não é fenomenalmente famosa”, o que talvez não seja um elogio por aí além. Seja como for, depois disso, até os Massive Attack convidaram Tracy para cantar com eles.
É este grupo, “ainda não fenomenalmente famoso”, em cujo início esteve uma versão de “Night and day” de Cole Porter, que os portugueses vão ver pela primeira vez. Com a dupla principal estarão o baterista Dave Mattacks, um ex-Fairport Convention e colaborador eventual dos Pere Ubu, e o contrabaixista Rob Braviner.
DIAS 6 E 7, CENTRO CULTURAL DE BELÉM, LISBOA
DIA 8, COLISEU DO PORTO.