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UHF – “Os Melhores De Sempre” (dossier | editado em livro)

pop rock >> quarta-feira, 27.09.1995
OS MELHORES DE SEMPRE


MÚSICA PORTUGUESA

Esta selecção dos melhores álbuns de sempre da música produzida em Portugal até aos anos 90, resulta de uma votação feita pela equipa do suplemento Pop/Rock. São privilegiados os trabalhos concebidos sob a forma de álbum, mas também sendo aceites compilações e mini-álbuns quando estes forem os melhores ou únicas edições dos respectivos autores. A ordem de publicação é aleatória.

UHF À Flor Da Pele



Como Foi

GNR, CTT, NZZN, UHF. Não se sabe bem por que estranho fenómeno (para António Manuel Ribeiro tratar-se-ia de uma “maneirismo do pós-25 de Abril2), parte das bandas de rock português que emergiram no início dos anos 80 adoptaram siglas como designação. Apenas a primeira e a última sobreviveram. Muito por força de duas personalidades dominantes do a partir de então denominado “rock português”: Rui Reininho e António Manuel Ribeiro, ambos apostadores natos na importância das palavras. No som das palavras, Reininho. Na sua carga existencial, Ribeiro. “À Flor da Pele”, disco de estreia da banda almadense, vive em grande parte dos textos empenhados de AMR, cantor por força de uma necessidade interior e da circunstância de ter nascido onde nasceu. No estúdio foi difícil. AMR acha apenas que foi “curioso”: “O início da gravação coincidiu com a altura em que a Valentim começou a transformar os seus estúdios. Então, a meio das gravações, era completamente impossível cantar. Na altura em que comecei a meter as vozes, de noite, ou de manhã, tinham lá estado os pedreiros a partir paredes e o estuque pairava no ar. Começava a tossir e não conseguia cantar. Houve ali uns dias em que tivemos que parar”. Foram ainda as circunstâncias que obrigaram o vocalista a desempenhar as funções de guitarrista. “Comecei a tocar guitarra solo, uma coisa para a qual não estava sequer vocacionado. Tudo porque o Renato Gomes estava a fazer o SMO [N.A: Ainda a mania das siglas. Para os menos conhecedores, SMO significa ‘Serviço Militar Obrigatório’] que na altura durava dezoito meses. Dezoito meses duros, sobretudo os primeiros quinze dias, da chamada recruta. Ninguém podia sair do quartel. Houve uma altura em que o Renato não podia estar em estúdio. Aliás há uma canção, ‘Rola roleta’, em que ele pura e simplesmente não toca”.
Descontando as dificuldades causadas pelo estuque e pela tropa, problemas que hoje AMR considera “giros” (“habituámo-nos àquilo tudo!”), o clima de trabalho que se gerou foi, segundo diz, “fabuloso”. “Sobretudo”, diz, “porque tivemos a ajuda de uma pessoa importante, o Hugo [Hugo Ribeiro, técnico de som], para mim um dos mestres de som deste país. Era o técnico da Amália e foi ele que nos foi destinado. Percebeu perfeitamente que nós, músicos, éramos demasiado ingénuos em algumas coisas e ajudou-nos bastante. No meio disto tudo havia ainda a mão patronal de Francisco Vasconcelos que nos deixou fazer tudo o que quisemos”. Tamanhas facilidades não era costume serem dadas às bandas que pela primeira vez entravam em estúdio, o que levou a que muitas delas, as quais, diga-se de passagem, nem sequer lá deveriam ter entrado, fossem trucidadas no processo. Enquanto algumas gravavam um álbum em dois ou três dias, os UHF estiveram lá dentro perto de três meses. “Era um ‘modus operandi’ esquisito”, reconhece o líder do grupo, “banda que entrasse em estúdio gravava quatro canções para dois ‘singles’, o primeiro saía logo e o outro muitas vezes só seis meses depois, já a banda estava desfasada”. Tal não aconteceu com os UHF, talvez porque esse fenómeno tenha acontecido “somente depois do sucesso do ‘Cavalos de corrida’ e do ‘Chico fininho’, ou ainda dos Táxi, que reconfirmam todo este sucesso de uma música nova feita em Portugal. A partir daí é que é a bagunça total”.
A banda de Almada ultrapassou essa bagunça. Desde logo transformados em estrelas do rock’n’roll, o seu estilo de vida adaptou-se ao novo estatuto. “Na altura foi um bocado ofuscante. Quando se passa de concertos em clubes pequeninos, em Almada, para trinta pessoas, para audiências de milhares, é outra dimensão, é quase passar para o infinito. E depois são as vendas. Sem querer fazer uma leitura pelo lado negativo, o que começa a criar alguns problemas é o dinheiro que se passa a ganhar. De repente, começámos a ser solicitados para todo o tipo de actuações. Em 1981 demos qualquer coisa como 140 espectáculos, algo que hoje ninguém mais fez em Portugal”. Os UHF precaveram-se bem cedo contra este tipo de pressões, assegurando para os seus espectáculos uma qualidade de som à altura, criando para tal a sua própria empresa de som, Furacão. “Garantimos a nossa autonomia, sem dependermos de ninguém. Até 1979, a980, tínhamos tido muito más experiências com o som de estrada”. O resto do dinheiro serviu para fins menos utilitários: “Passámos da imperial para o whisky duplo de doze anos!”. Quanto à imagem de estrela, não tiveram vontade nem tempo para a cultivar. “Não tínhamos muito tempo para a pose, até porque não havia este culto que hoje existe. Os UHF nunca foram, a esse nível, muito ofuscados nem pelo estrelato nem pela pose, ter que estar todo o dia vestido assim, ou maquilhar-se e pentear-se para as fotografias”.
Estava, ,ais preocupados em ferir a realidade que os rodeava. Em particular do “ambiente citadino de Almada nos anos 70 e princípio dos 80”. “Nomeadamente a questão do 25 de Abril, para quem vai fazer 20 anos na altura, era um bocado confusa. Estávamos na fronteira de nada”. AMR era “contra o antigamente, mas não de uma forma partidária”. Estava simplesmente “contra”: “Contra a guerra”, por exemplo, e “à espera que aparecesse alguma coisa que valesse a pena”. Em Almada, sobretudo, AMR via à sua volta “muitas pessoas andando pelos mesmos caminhos, ou pelos mesmos becos”. Não é por acaso que, ainda hoje, ele é considerado como porta-voz dos habitantes mais jovens da cidade. “Os UHF cresceram no meio da rua”, diz, “eu andava na faculdade, mas simultaneamente ia ao café onde toda a gente ia. Os UHF cresceram um bocado nessa onda, conheces um baixista, conheces um baterista, foi assim que as coisas aconteceram. Juntaram sempre à sua volta um grande grupo de pessoas”. Muitas dessas pessoas foram ponto de partida para canções, como no caso de “Rapaz caleidoscópio”, um “cruzamento de vários sujeitos”. Histórias, como essa, de “amigos que iam buscar três meses de trabalho aos estaleiros da Lisnave para poderem passar as férias de Verão num parque de campismo no Algarve”, escreveu-as AMR na solidão do seu quarto: “Sempre escrevi muito sozinho. Só depois é que começa a escrita de estrada”. Cita “Ébrios (pela vida)”, uma canção “mágica”. Na prática, porém, essa magia manifestou-se de forma pouco ortodoxa: “Foi escrita na primeira casa que tive na Costa da Caparica. Ensaiávamos no segundo esquerdo e havia uma vizinha por baixo que batia com a vassoura por causa do barulho”. Catorze anos depois de “À Flor da Pele”, ainda há quem bata com a vassoura.

Como É

Rui Veloso abrira o caminho, com “Chico Fininho”. Na rádio, Luís Filipe Barros pegara a fera de caras, nas tardes da Rádio Comercial, com o seu “Rock em Stock”. Era o “boom” do rock português que pouco tempo depois explodia num “bum!” que se ouviria por alguns anos de distância. Mas nessa altura, despontavam os anos 80, era só euforia e a descoberta de que o produto português afinal também vendia. Proliferavam as bandas, quase todas más. Não fazia mal, desde que fossem portuguesas. Os UHF, na primeira linha, não eram maus. Não tocavam muito bem, é certo, mas sobrava-lhes uma convicção, uma honestidade e uma energia que lhes dava um cunho de autenticidade e os colocava num lugar à parte da chusma de bandas oportunistas que iam cavando a sepultura do movimento. Quando António Manuel Ribeiro cantava “Jorge Morreu” (edição anterior em “single”, não incluída em “À Flor Da Pele”), em homenagem a um amigo falecido, ou martelava as palavras, sentidas na pele, de “Ébrios (pela vida)” ou “Nove e Trinta”, percebe-se que havia nele uma raiva genuína, uma sensibilidade de “rocker” assumida no sentido mítico do termo, enquanto herói existencial e porta-voz solitário de uma geração que sobrevivia na prisão de uma cidade dos subúrbios, Almada. “à Flor da Pele” funciona porque é sincero. É um disco cru, por vezes cruel, que recusa as imagens pelas imagens. Não se refugia no solipsismo da auto-análise fechada sobre si mesma, antes volta o olhar – por vezes de uma forma ingénua mas sempre destituída do verniz da superficialidade – para o cerco e os estigmas sociais, personificados por pessoas (“Modelo fotográfico”, “Rapaz caleidoscópio, “Geraldine”) ou lugares (“Rua do Carmo”, um dos “hits” do grupo). “Rapaz caleidoscópio” é a fotografia em negativo de “Chico fininho” (o lado negro niilista da vivência do “rocker” nacional, em oposição à leviandade jovial da canção de Rui Veloso) e um murro nos olhos vidrados do psicadelismo. Um sinal do que viria a ser no futuro o caminho traçado, sem desvios, por AMR e os UHF, com uma legenda decalcada dos versos finais de “Anjo Feiticeiro”: “Não vou ficar por aqui / escolho por mim, passei por ti / podes guardar a imagem”.

ALINHAMENTO
Lado A
1 – Rua do Carmo (texto & música: António Manuel Ribeiro)
2- Rapaz Caleidoscópio (texto: António Manuel Ribeiro; música: Renato Gomes e António Manuel Ribeiro)
3 – Nove e trinta (texto & música: António Manuel Ribeiro)
4 – Anjo Feiticeiro (texto & música: António Manuel Ribeiro)
Lado B
1 – Modelo Fotográfico (texto & música: António Manuel Ribeiro)
2 – Rola roleta (texto: António Manuel Ribeiro; música: Carlos Peres, António Manuel Ribeiro, Zé Carvalho)
3 – Geraldine (texto: António Manuel Ribeiro; música Carlos Peres)
4 – Ébrios (pela vida) (texto: António Manuel Ribeiro; música: Carlos Peres)

MÚSICOS
Zé Carvalho (bateria)
Carlos Peres (baixo, voz)
Renato Gomes (guitarras)
António Manuel Ribeiro (voz, guitarras, sintetizador, órgão)

PRODUÇÃO
Luís Filipe Barros e Nuno Rodrigues

GRAVAÇÃO
Estúdios Valentim de Carvalho, Paço de Arcos, entre 16 de Março e 6 de Maio de 1981.
Técnico de som: Hugo Ribeiro

FOTOGRAFIAS E CAPA:
Luís Vasconcelos

EDIÇÃO
EMI, 11C 076-40554,
1981
Reeditado em compacto, pela mesma editora, em 1993



Vários – “Música Portuguesa – Grandes Expectativas”

Pop-Rock 16.01.1991


MÚSICA PORTUGUESA grandes expectativas

Se 1990 foi o ano das confirmações dos grandes nomes, mas também o da inexistência de um circuito alternativo que pudesse prometer a continuação do cenário, já há muita gente a tentar reagir contra isso. Pelo menos há uma grande esperança em relação ao aparecimento de projectos novos, que ainda assim pouco se vislumbram. Será 1991 um ano de grande explosão de vias alternativas impostas pela aparente estagnação do meio?
Algumas pistas parecem apontar nessa direcção, senão atente-se na qualidade de nomes consagrados dispostos a arriscar em projectos fora do habitual. Uma dessas pistas passa mesmo pela grande vontade de altar as fronteiras e mostrar no estrangeiro o que se vai passando por cá. Serão tudo promessas de ano novo?

ANTÓNIO M. RIBEIRO
Nova editora discográfica, discos a solo e com os UHF, tornée intensiva

Como sempre, os UHF têm uma agenda recheada para o ano em curso. Concertos não faltam e parece que discos também não. António Manuel Ribeiro, mentor e porta-voz habitual do grupo, é organizado e prepara com antecedência todas as suas actividades, isto é, não brinca em serviço. É peremptório: “Este ano, os UHF vão realizar uma série de concertos, já assinados, que farão parte da pré-temporada em relação ao Verão, que será muito intenso.” Quanto a discos, há projectos muito concretos: edição de single antes da época estival, “que será como que um aperitivo do álbum de originais a editar depois do Verão”. Mais bombástica é a intenção da banda de Almada criar a sua própria editora, destinada a editar e promover novos valores e, muito provavelmente, os próprios UHF, o que deixa antever uma rotura definitiva com a Edisom, à qual ainda se encontram ligados.
1991 vai ser o ano do lançamento a solo de António Manuel Ribeiro. Depois de uma primeira apresentação no Teatro Tivoli, integrada na campanha do MASP e que foi “até certo ponto uma brincadeira, embora tivesse sido minimamente preparada” (a apresentação, não a a campanha como é evidente…), tenciona continuar a trabalhar com os mesmos músicos que o acompanharam nessa ocasião e publicar o seu primeiro disco a solo ainda antes das férias grandes.
António Manuel Ribeiro anda no meio musical há muito tempo e conhece-o como poucos. Não tem pejo em criticar uma situação que julga cada vez mais deteriorada: “Em relação ao mercado discográfico, as coisas estão cada vez pior.” A editora que pensa criar pretende lutar contra tal situação: “Acho que nos devemos meter um bocado ao barulho. Ao fim destes anos todos de críticas constantes ao sistema, o que temos de fazer neste momento é apresentar-nos dentro desse próprio sistema e produzir, ao fim e ao cabo, novos grupos, novos artistas e novas ideias.”
O líder dos UHF não poupa as editoras: “A Europa e o confronto com 1992 deixou-as num deserto de ideias.” E diz ainda: “Toda a gente se queixa, desde os artistas aos próprios chefes das editoras, mas o que é um facto é que os disparates continuam semanalmente a ser os mesmos.” Refere-se a disparates como “gastar dinheiro mal gasto, de que são exemplo os melhores de contos perdidos em estúdio, em projectos sem pernas para andar” e adianta soluções: “A música portuguesa precisa sobretudo de descobrir novos valores, mas também de segurança e garantias de viabilidade financeira, sob riscos de [as editoras] se tornarem meros financiadores discográficos.” Acusa novamente: “Mas nada tem sido feito para que isso aconteça e as editoras são talvez as principais culpadas do insucesso prático que se verifica. O público não é parvo. As pessoas não compram os discos só porque são lançados cá para fora com grandes parangonas de promoção, mas que depois resultam em fracasso.” Excepções a estas estratégias mal orientadas, encontra-as António Manuel Ribeiro nos dois extremos do leque editorial: um dos casos é um dos “grandes” selos nacionais, o outro um pequeno, independente, e, segundo o cantor, “cada qual com um projecto viável para a música portuguesa”. De resto, 1991 será mais uma ano do “deixa andar”.

JOÃO PESTE
Regresso dos Pop Dell’Arte em várias frentes, reactivação da Ama Romanta, perspectiva internacional

João Peste é uma das poucas personagens que conseguiram alcançar estatuto de vedeta pop apenas com trabalho a nível alternativo. Membro fundamental dos Pop Dell’Arte e grande catalisador das ideias do grupo, não parou por aí e decidiu fundar a Ama Romanta, a primeira das editoras independentes a apostar na música nova. João Peste e o Acidoxibordel foi também um dos projectos, algo efémero, que entretanto erigiu. Os Pop Dell’Arte, que após alguns anos de actividade decidiram “fazer um intervalo” de carreira, vão agora regressar com um grande pacote de promessas, já para o início deste ano: a reedição de “Free Pop”, único longa duração do grupo até à data, e a edição da colectânea “Arriba! Avanti! Pop Dell’Arte”, que irá conter todo material editado pelo grupo e não incluído no álbum “Free Pop”. Estão também preparados concertos de reintrodução do projecto, inclusive no estrangeiro, havendo bastante optimismo em relação a essa perspectiva internacional e está em curso a realização de um vídeo sobre o tema “Illogik Plastik”.
A Ama Romanta vai voltar à actividade, esperando-se a edição de um disco de originais dos Pop Dell’Arte lá mais para a frente, além da edição do projecto “Alix na Ilha dos Sonhos”, elaborado a meias com Nuno Rebelo. A reactivação poderá também agitar o meio com a edição de outras bandas, o que será um ponto positivo a favor da renovação do circuito alternativo da música urbana, que João Peste considera ter estado por baixo no ano que passou. Ele acredita também em trabalhos de outras bandas que não a sua, esperando que nomes como Mão Morta, Rádio Macau, Santa Maria, Gasolina Em Teu Ventre!, Vítor Rua e More República Msónica possam de alguma forma assinar bons trabalhos em 1991.
Jorge Dias

PEDRO AYRES MAGALHÃES

Luís Maio

MIGUEL ÂNGELO

Luís Maio

RUI REININHO
GNR em estúdio, Gala anti-sida em Lisboa, cumplicidade Alexandre Soares

Este ano, os GNR entrarão em estúdio “quando lhes apetecer”, de preferência a partir de Março, que é, para Rui Reininho, “um bom mês, primaveril”, ideal para se gravar, sobretudo se for em Carcavelos. São capazes de apostar no estrangeiro: “deve ser fácil, cá é tão difícil, há tanta má vontade, que lá fora não pode ser pior.” São capazes de ter razão.
Grandes concertos parece que não vai haver. A não ser em Fevereiro, numa gala em Lisboa, uma intervenção “pequenina”, mas decerto que empenhada. Tem de ser, pois trata-se de “uma daquelas coisas de solidariedade, com uma recolha de fundos e apoios para a investigação da sida, com a participação de pessoas muito caridosas”. Para os GNR é importante “essa história do vírus”.
Já Rui Reininho, em particular, parece voltado para outro lado: Vai trabalhar de novo com o seu antigo companheiro nos GNR, Alexandre Soares, na feitura musical de uma peça de Sam Shepard.
Para 1991, o vocalista da banda portuense acredita nas virtudes das organizações camarárias, que podem desempenhar um papel importante na divulgação da música portuguesa, caso do espectáculo que deram o ano passado na Alameda, mas “com um bocadinho menos de romaria”. Falta organização, mas é capaz de “não haver estruturas para isso”.
Como na Alameda, que foi o que se sabe. Fazer coisas dessas sem segurança pode ser perigoso, só nós, que somos malucos. Se tivesse sido, por exemplo, em Milão, tinha havido gente ferida, esfaqueada, confrontos.” Mesmo assim “sentem” os apoios das câmaras, embora sejam “um bocado eleitoralistas”. 1991 vai ser ainda um ano de proibições, com as bandas proibidas de tocar em bares, “por causa dos horários, barulho, essas coisas todas. Apenas vai continuar aquela pressão das pessoas beberem copos”. Também não parecem acreditar muito nas editoras e ouviram falar de “recessão”. Enfim “é a guerra” – diz Reininho. “Acho que vai haver guerra!”

RUI VELOSO

Jorge Dias

RODRIGO LEÃO
Composição nos Sétima Legião, digressão nos Madredeus, projecto a solo

Rodrigo toca baixo e é um dos membros fundadores dos Sétima Legião. Depois iniciou, de parceria com Pedro Ayres Magalhães, o projecto Madredeus, onde se ocupa das teclas. É um dos personagens mais determinantes e influentes da nova música portuguesa, embora não seja muito vistoso nem vocacionado para afirmações sensacionalistas. Em 1991, dividirá a sua actividade entre as duas formações que integra. Quanto aos Sétima Legião têm poucas actuações agendadas, sendo duas delas no estrangeiro (Bélgica e Canadá). O objectivo desta formação não é, de resto, actuar ao vivo, antes estão mais preocupados em começar a compor e tocar material para um novo trabalho de estúdio, sucessor do triunfante “De Um Tempo Ausente”, lançado no Natal de 1989. É um trabalho mais a médio prazo e não é provável que seja editado antes dos finais deste ano/princípio do próximo. Diametralmente oposta é a ideia dos Madredeus, cuja digressão é para já a sua grande prioridade.
Para além das duas coisas, Rodrigo planeia também desenvolver este ano o seu projecto a solo que define como um trabalho de sintetizadores com computadores e surge na sequência da encomenda para a banda sonora do filme de estreia de Manuel Mozos. O artista encontra-se em negociações para a publicação do disco resultante com uma editora local. Com tanta coisa que fazer, Rodrigo está naturalmente um pouco à margem do trabalho alheio. “Tenho estado um bocado afastado do panorama local. As coisas que tenho ouvido… Acho é que há uma série de grupos que têm conseguido sobreviver.”

SÉRGIO GODINHO
Curtas metragens, programas de televisão, concertos em Goa e Macau

“Escritor de Canções”, Sérgio Godinho parece este ano apostado em explorar outros tipos de linguagem: vídeo e cinema. Já tem gravados dois dos seis programas que tenciona apresentar na televisão sob o genérico de “Luz na Sombra”, série que explora algumas das principais funções inerentes à produção musical – como recentemente explicou, em entrevista concedida ao PÚBLICO. Além disso, tenciona realizar e produzir quatro filmes, quatro curtas metragens, no fundo “extensões de trabalhos de ficção que habitualmente faz em canção”. “Anda tudo ligado”, como ele próprio diz. Discos, este ano, só se estes projectos falharem. Quanto ao espectáculo “Escritor de Canções”, que alcançou grande sucesso enquanto esteve em cena no Instituto Franco-Portugais, tenciona levá-lo a Goa e Macau já em Fevereiro.
Para o ano em curso, espera da música portuguesa que surjam coisas novas, mas que não sejam “indigestas”. É de opinião, no entanto, que adiantar mais qualquer coisa, seria como “fazer previsões sobre a guerra no Golfo”. Assim, acha que “todas as hipóteses estão em aberto”. Segundo ele, “criatividade é o que não falta e em Portugal é uma coisa estimulante”. Infelizmente parece que o que falta mesmo é “um mercado, mesmo para os consagrados. O consumo não é tão extenso como isso e o que há são casos esporádicos, como o Rui Veloso, de facto um fenómeno, mas que não faz a Primavera”. De resto, o costume: “A nível de estruturas organizadas para ‘tournées’ e espectáculos ao vivo, a coisa não tem evoluído muito positivamente.”
Em relação ao tal apoio ou não das câmaras municipais, lamenta que o panorama esteja “um bocado em recessão”. O rock é ainda assim quem menos razões tem para se queixar: “As câmaras acham que a juventude quer sobretudo rock e é como se lhe desse um brinde. Depois, há aquela facção adepta das canções tipo Marco Paulo e tudo é encaminhado para í.” Na questão de concertos, “devia dar-se prioridade a ‘tournées’ comerciais, inclusive com patrocínios, mas que sejam viáveis”, aponta. É que da maneira como as coisas estão, criaram-se, segundo ele, certos “vícios”, quer no público quer nos organizadores, com espectáculos gratuitos, mas sem qualquer espécie de condições. “É importante que as câmaras promovam a cultura, mas com o entendimento das estruturas necessárias para o fazer.”

XANA
Novo álbum dos Rádio Macau e investimento num circuito alternativo

A Xana é uma das poucas faces femininas que conseguiu vencer no meio rock nacional. Rádio Macau foi o grupo que a popularizou, mas, como outros nomes consagrados, já começou a participar noutras aventuras. O Johnny Guitar foi a primeira – uma aposta de peso na música moderna portuguesa. A Xana também intervém nela, agenciando grupos e fazendo relações públicas. Uma forma dos elementos da velha guarda patrocinarem as novas gerações e motivarem a renovação do meio. A vocalista dos Rádio Macau acredita no desenvolvimento que entretanto foi conseguido na música moderna portuguesa, nestes últimos dez anos, a nível de produções de espectáculos, de feitura de discos e de condições de trabalho a nível geral, mas constata facilmente a inexistência de um movimento paralelo de bandas novas. O velho problema que ela pretende contrariar sempre que puder. Previsões não arrisca, “porque até nunca foi muito boa nisso”. No entanto acredita que, se não existir uma renovação do meio e um constante aperfeiçoamento das condições, tudo pode morrer, porque estas coisas nunca estão seguras. Apetência do público já existe e bandas também, falta agora dar-lhe condições.
Os Rádio Macau, mediante um trabalho constante, já ultrapassaram o problema e prevêem alinhar um novo disco, a terminar em Novembro de 1991. Será diferente como têm sido os discos anteriores do grupo, mas ainda não está definido. O Luís Sampayo, o baterista que entrou recentemente para a formação e também pertence aos Pop Dell’Arte será um bom motivo gerador de novas influências. Outros projectos também estão na calha, mas como o segredo é a alma do negócio, “não se adianta nada, porque, por enquanto, não há certeza deles”.
Jorge Dias

ZÉ PEDRO

Jorge Dias

Vários – “Música Portuguesa – Grandes Expectativas”

Pop-Rock 16.01.1991


MÚSICA PORTUGUESA grandes expectativas

Se 1990 foi o ano das confirmações dos grandes nomes, mas também o da inexistência de um circuito alternativo que pudesse prometer a continuação do cenário, já há muita gente a tentar reagir contra isso. Pelo menos há uma grande esperança em relação ao aparecimento de projectos novos, que ainda assim pouco se vislumbram. Será 1991 um ano de grande explosão de vias alternativas impostas pela aparente estagnação do meio?
Algumas pistas parecem apontar nessa direcção, senão atente-se na qualidade de nomes consagrados dispostos a arriscar em projectos fora do habitual. Uma dessas pistas passa mesmo pela grande vontade de altar as fronteiras e mostrar no estrangeiro o que se vai passando por cá. Serão tudo promessas de ano novo?

ANTÓNIO M. RIBEIRO
Nova editora discográfica, discos a solo e com os UHF, tornée intensiva



Como sempre, os UHF têm uma agenda recheada para o ano em curso. Concertos não faltam e parece que discos também não. António Manuel Ribeiro, mentor e porta-voz habitual do grupo, é organizado e prepara com antecedência todas as suas actividades, isto é, não brinca em serviço. É peremptório: “Este ano, os UHF vão realizar uma série de concertos, já assinados, que farão parte da pré-temporada em relação ao Verão, que será muito intenso.” Quanto a discos, há projectos muito concretos: edição de single antes da época estival, “que será como que um aperitivo do álbum de originais a editar depois do Verão”. Mais bombástica é a intenção da banda de Almada criar a sua própria editora, destinada a editar e promover novos valores e, muito provavelmente, os próprios UHF, o que deixa antever uma rotura definitiva com a Edisom, à qual ainda se encontram ligados.
1991 vai ser o ano do lançamento a solo de António Manuel Ribeiro. Depois de uma primeira apresentação no Teatro Tivoli, integrada na campanha do MASP e que foi “até certo ponto uma brincadeira, embora tivesse sido minimamente preparada” (a apresentação, não a a campanha como é evidente…), tenciona continuar a trabalhar com os mesmos músicos que o acompanharam nessa ocasião e publicar o seu primeiro disco a solo ainda antes das férias grandes.
António Manuel Ribeiro anda no meio musical há muito tempo e conhece-o como poucos. Não tem pejo em criticar uma situação que julga cada vez mais deteriorada: “Em relação ao mercado discográfico, as coisas estão cada vez pior.” A editora que pensa criar pretende lutar contra tal situação: “Acho que nos devemos meter um bocado ao barulho. Ao fim destes anos todos de críticas constantes ao sistema, o que temos de fazer neste momento é apresentar-nos dentro desse próprio sistema e produzir, ao fim e ao cabo, novos grupos, novos artistas e novas ideias.”
O líder dos UHF não poupa as editoras: “A Europa e o confronto com 1992 deixou-as num deserto de ideias.” E diz ainda: “Toda a gente se queixa, desde os artistas aos próprios chefes das editoras, mas o que é um facto é que os disparates continuam semanalmente a ser os mesmos.” Refere-se a disparates como “gastar dinheiro mal gasto, de que são exemplo os melhores de contos perdidos em estúdio, em projectos sem pernas para andar” e adianta soluções: “A música portuguesa precisa sobretudo de descobrir novos valores, mas também de segurança e garantias de viabilidade financeira, sob riscos de [as editoras] se tornarem meros financiadores discográficos.” Acusa novamente: “Mas nada tem sido feito para que isso aconteça e as editoras são talvez as principais culpadas do insucesso prático que se verifica. O público não é parvo. As pessoas não compram os discos só porque são lançados cá para fora com grandes parangonas de promoção, mas que depois resultam em fracasso.” Excepções a estas estratégias mal orientadas, encontra-as António Manuel Ribeiro nos dois extremos do leque editorial: um dos casos é um dos “grandes” selos nacionais, o outro um pequeno, independente, e, segundo o cantor, “cada qual com um projecto viável para a música portuguesa”. De resto, 1991 será mais uma ano do “deixa andar”.

JOÃO PESTE
Regresso dos Pop Dell’Arte em várias frentes, reactivação da Ama Romanta, perspectiva internacional



João Peste é uma das poucas personagens que conseguiram alcançar estatuto de vedeta pop apenas com trabalho a nível alternativo. Membro fundamental dos Pop Dell’Arte e grande catalisador das ideias do grupo, não parou por aí e decidiu fundar a Ama Romanta, a primeira das editoras independentes a apostar na música nova. João Peste e o Acidoxibordel foi também um dos projectos, algo efémero, que entretanto erigiu. Os Pop Dell’Arte, que após alguns anos de actividade decidiram “fazer um intervalo” de carreira, vão agora regressar com um grande pacote de promessas, já para o início deste ano: a reedição de “Free Pop”, único longa duração do grupo até à data, e a edição da colectânea “Arriba! Avanti! Pop Dell’Arte”, que irá conter todo material editado pelo grupo e não incluído no álbum “Free Pop”. Estão também preparados concertos de reintrodução do projecto, inclusive no estrangeiro, havendo bastante optimismo em relação a essa perspectiva internacional e está em curso a realização de um vídeo sobre o tema “Illogik Plastik”.
A Ama Romanta vai voltar à actividade, esperando-se a edição de um disco de originais dos Pop Dell’Arte lá mais para a frente, além da edição do projecto “Alix na Ilha dos Sonhos”, elaborado a meias com Nuno Rebelo. A reactivação poderá também agitar o meio com a edição de outras bandas, o que será um ponto positivo a favor da renovação do circuito alternativo da música urbana, que João Peste considera ter estado por baixo no ano que passou. Ele acredita também em trabalhos de outras bandas que não a sua, esperando que nomes como Mão Morta, Rádio Macau, Santa Maria, Gasolina Em Teu Ventre!, Vítor Rua e More República Msónica possam de alguma forma assinar bons trabalhos em 1991.
Jorge Dias

PEDRO AYRES MAGALHÃES

Luís Maio

MIGUEL ÂNGELO

Luís Maio

RUI REININHO
GNR em estúdio, Gala anti-sida em Lisboa, cumplicidade Alexandre Soares



Este ano, os GNR entrarão em estúdio “quando lhes apetecer”, de preferência a partir de Março, que é, para Rui Reininho, “um bom mês, primaveril”, ideal para se gravar, sobretudo se for em Carcavelos. São capazes de apostar no estrangeiro: “deve ser fácil, cá é tão difícil, há tanta má vontade, que lá fora não pode ser pior.” São capazes de ter razão.
Grandes concertos parece que não vai haver. A não ser em Fevereiro, numa gala em Lisboa, uma intervenção “pequenina”, mas decerto que empenhada. Tem de ser, pois trata-se de “uma daquelas coisas de solidariedade, com uma recolha de fundos e apoios para a investigação da sida, com a participação de pessoas muito caridosas”. Para os GNR é importante “essa história do vírus”.
Já Rui Reininho, em particular, parece voltado para outro lado: Vai trabalhar de novo com o seu antigo companheiro nos GNR, Alexandre Soares, na feitura musical de uma peça de Sam Shepard.
Para 1991, o vocalista da banda portuense acredita nas virtudes das organizações camarárias, que podem desempenhar um papel importante na divulgação da música portuguesa, caso do espectáculo que deram o ano passado na Alameda, mas “com um bocadinho menos de romaria”. Falta organização, mas é capaz de “não haver estruturas para isso”.
Como na Alameda, que foi o que se sabe. Fazer coisas dessas sem segurança pode ser perigoso, só nós, que somos malucos. Se tivesse sido, por exemplo, em Milão, tinha havido gente ferida, esfaqueada, confrontos.” Mesmo assim “sentem” os apoios das câmaras, embora sejam “um bocado eleitoralistas”. 1991 vai ser ainda um ano de proibições, com as bandas proibidas de tocar em bares, “por causa dos horários, barulho, essas coisas todas. Apenas vai continuar aquela pressão das pessoas beberem copos”. Também não parecem acreditar muito nas editoras e ouviram falar de “recessão”. Enfim “é a guerra” – diz Reininho. “Acho que vai haver guerra!”

RUI VELOSO

Jorge Dias

RODRIGO LEÃO
Composição nos Sétima Legião, digressão nos Madredeus, projecto a solo



Rodrigo toca baixo e é um dos membros fundadores dos Sétima Legião. Depois iniciou, de parceria com Pedro Ayres Magalhães, o projecto Madredeus, onde se ocupa das teclas. É um dos personagens mais determinantes e influentes da nova música portuguesa, embora não seja muito vistoso nem vocacionado para afirmações sensacionalistas. Em 1991, dividirá a sua actividade entre as duas formações que integra. Quanto aos Sétima Legião têm poucas actuações agendadas, sendo duas delas no estrangeiro (Bélgica e Canadá). O objectivo desta formação não é, de resto, actuar ao vivo, antes estão mais preocupados em começar a compor e tocar material para um novo trabalho de estúdio, sucessor do triunfante “De Um Tempo Ausente”, lançado no Natal de 1989. É um trabalho mais a médio prazo e não é provável que seja editado antes dos finais deste ano/princípio do próximo. Diametralmente oposta é a ideia dos Madredeus, cuja digressão é para já a sua grande prioridade.
Para além das duas coisas, Rodrigo planeia também desenvolver este ano o seu projecto a solo que define como um trabalho de sintetizadores com computadores e surge na sequência da encomenda para a banda sonora do filme de estreia de Manuel Mozos. O artista encontra-se em negociações para a publicação do disco resultante com uma editora local. Com tanta coisa que fazer, Rodrigo está naturalmente um pouco à margem do trabalho alheio. “Tenho estado um bocado afastado do panorama local. As coisas que tenho ouvido… Acho é que há uma série de grupos que têm conseguido sobreviver.”

SÉRGIO GODINHO
Curtas metragens, programas de televisão, concertos em Goa e Macau



“Escritor de Canções”, Sérgio Godinho parece este ano apostado em explorar outros tipos de linguagem: vídeo e cinema. Já tem gravados dois dos seis programas que tenciona apresentar na televisão sob o genérico de “Luz na Sombra”, série que explora algumas das principais funções inerentes à produção musical – como recentemente explicou, em entrevista concedida ao PÚBLICO. Além disso, tenciona realizar e produzir quatro filmes, quatro curtas metragens, no fundo “extensões de trabalhos de ficção que habitualmente faz em canção”. “Anda tudo ligado”, como ele próprio diz. Discos, este ano, só se estes projectos falharem. Quanto ao espectáculo “Escritor de Canções”, que alcançou grande sucesso enquanto esteve em cena no Instituto Franco-Portugais, tenciona levá-lo a Goa e Macau já em Fevereiro.
Para o ano em curso, espera da música portuguesa que surjam coisas novas, mas que não sejam “indigestas”. É de opinião, no entanto, que adiantar mais qualquer coisa, seria como “fazer previsões sobre a guerra no Golfo”. Assim, acha que “todas as hipóteses estão em aberto”. Segundo ele, “criatividade é o que não falta e em Portugal é uma coisa estimulante”. Infelizmente parece que o que falta mesmo é “um mercado, mesmo para os consagrados. O consumo não é tão extenso como isso e o que há são casos esporádicos, como o Rui Veloso, de facto um fenómeno, mas que não faz a Primavera”. De resto, o costume: “A nível de estruturas organizadas para ‘tournées’ e espectáculos ao vivo, a coisa não tem evoluído muito positivamente.”
Em relação ao tal apoio ou não das câmaras municipais, lamenta que o panorama esteja “um bocado em recessão”. O rock é ainda assim quem menos razões tem para se queixar: “As câmaras acham que a juventude quer sobretudo rock e é como se lhe desse um brinde. Depois, há aquela facção adepta das canções tipo Marco Paulo e tudo é encaminhado para í.” Na questão de concertos, “devia dar-se prioridade a ‘tournées’ comerciais, inclusive com patrocínios, mas que sejam viáveis”, aponta. É que da maneira como as coisas estão, criaram-se, segundo ele, certos “vícios”, quer no público quer nos organizadores, com espectáculos gratuitos, mas sem qualquer espécie de condições. “É importante que as câmaras promovam a cultura, mas com o entendimento das estruturas necessárias para o fazer.”

XANA
Novo álbum dos Rádio Macau e investimento num circuito alternativo



A Xana é uma das poucas faces femininas que conseguiu vencer no meio rock nacional. Rádio Macau foi o grupo que a popularizou, mas, como outros nomes consagrados, já começou a participar noutras aventuras. O Johnny Guitar foi a primeira – uma aposta de peso na música moderna portuguesa. A Xana também intervém nela, agenciando grupos e fazendo relações públicas. Uma forma dos elementos da velha guarda patrocinarem as novas gerações e motivarem a renovação do meio. A vocalista dos Rádio Macau acredita no desenvolvimento que entretanto foi conseguido na música moderna portuguesa, nestes últimos dez anos, a nível de produções de espectáculos, de feitura de discos e de condições de trabalho a nível geral, mas constata facilmente a inexistência de um movimento paralelo de bandas novas. O velho problema que ela pretende contrariar sempre que puder. Previsões não arrisca, “porque até nunca foi muito boa nisso”. No entanto acredita que, se não existir uma renovação do meio e um constante aperfeiçoamento das condições, tudo pode morrer, porque estas coisas nunca estão seguras. Apetência do público já existe e bandas também, falta agora dar-lhe condições.
Os Rádio Macau, mediante um trabalho constante, já ultrapassaram o problema e prevêem alinhar um novo disco, a terminar em Novembro de 1991. Será diferente como têm sido os discos anteriores do grupo, mas ainda não está definido. O Luís Sampayo, o baterista que entrou recentemente para a formação e também pertence aos Pop Dell’Arte será um bom motivo gerador de novas influências. Outros projectos também estão na calha, mas como o segredo é a alma do negócio, “não se adianta nada, porque, por enquanto, não há certeza deles”.
Jorge Dias

ZÉ PEDRO

Jorge Dias