Arquivo da Categoria: Tecno

Haruomi Hosono – “Mental Sports Mixes”

Pop Rock

28 de Setembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Haruomi Hosono
Mental Sports Mixes

Epic, distri. Sony Music


hh

É um processo eterno, este de pegar nos temas e remisturá-los de forma a acentuar-lhes um sentido, uma tendência ou, em caso extremo, vergá-los à imposição de um estilo ou de um conceito. A música dos japoneses Yellow Magic Orchestra é hoje objecto de culto da parte dos construtores “techno”, que os colocam reverentemente ao lado dos papas Kraftwerk. Um novo disco da banda, já aqui recenseado, bem como o anterior de Hosono, “Medicine Compilation from the Quiet Lodge”, não fazem mais do que acentuar este fenómeno de sobrevalorização das vertentes “techno” e “ambient house” da música de dança actual. “Mental Sports” é uma colecção de remisturas empreendidas por gente como os também japoneses Something Wonderful, The Orb, Graham Massey e Tim Simenon dos Bomb the Bass. No meio da enxurrada de ritmos aprisionados na batida obrigatória do “tum-tum-tuntuntum” sobressaem os pequenos apontamentos alucinatórios que os Orb acrescentaram a “Laughter meditation – the reality os impossible orbjects”, e o início com uma reichiana e minimal (Wilheim e não Steve…) “Orgon box” – secret life mix” para atestar a energia. Está alguém acordado no meio da pista? (6)



The Future Sound of London – “Lifeforms”

Pop Rock

18 de Maio de 1994
ÁLBUNS POPROCK

The Future Sound of London
Lifeforms

2xCD Virgin, distri. EMI – VC


FSOL

Na aparência, o som dos Future Sound of London parece ser o prolongamento lógico e a duas décadas de distância dos dinossauros cósmicos Tangerine Dream e, sobretudo, do pai de todos os ambientalismos – Brian Eno. Mas enquanto os gurus do “kosmische rock” procuravam em primeiro lugar a “trip” acústica, indutora de viagens pelos meandros da mente, os FSOL limitam-se a fabricar a banda sonora do vazio de uma ressaca após as devastações provocadas pelo “ecstasy” ou por outros ácidos aos quais inverteram os efeitos. Gary Cobain, um dos mentores dos FSOL, diz a propósito que “Lifeforms” é “sobre deitar fora o que está na cabeça”. Na linha do que já haviam feito os KLF e continuam a fazer os The Orb, a banda de Cobain e Brian Dougans apropriou-se de cápsulas vazias, dos sintetizadores sem alma e dos resíduos eléctricos de uma cidade à qual subitamente desligaram todos os maquinismos.
“Lifeforms” não é música do futuro, mas tão-somente a antecipação do deserto de criaturas com o cérebro anestesiado e alimentado de pseudo-emoções sintetizadas em laboratório. A fauna e a flora que parasitam os muros electrónicos de “Lifeforms” são constituídas por seres de artifício com a forma de “chips” animados, pairando sobre um universo de circuitos integrados e arquitecturas virtuais materializados num ecrã de vídeo. Adormecemos num transe hipnótico embalados por esta música do admirável mundo novo como o descrevia Aldous Huxley, estrutura fechada ao transcendente, onde não havia lugar para seres humanos acordados e vigilantes. Muito a propósito, Robert Fripp, discreto, empresta a sua guitarra a um dos temas de “Lifeforms”, um disco que, descontando toda uma filosofia ou ausência dela que lhe está subjacente, tem o defeito de se estender por demasiado tempo. Ou é já de uma outra noção alterada de tempo que se trata? (7)



Vários – “International”

Pop Rock

27 MARÇO 1991
LP’S

VÁRIOS
International

LP e CD, Mute, Ed. Edisom

varios

Não se trata da celebração de nenhum aniversário, mas tão-só de uma orgulhosa declaração de princípios e de uma afirmação de vitória. Compreendem-se os festejos, no caso desta editora independente inglesa, formada em 1978, que no curto espaço de 13 anos conseguiu competir, em termos de venda e penetração do mercado, com as suas companheiras mais velhas e abastadas.
Vocacionada para a música electrónica nas duas vertentes comercial e experimental, a táctica consistiu sempre, por um lado, em apostar na rentabilização de nomes como os Depeche Mode (e não Mod, como aparece escrito no rótulo interior), que hoje enchem os estádios americanos, os Erasure ou os recém-chegados Inspiral Carpets, e, por outro, na divulgação e lançamento de propostas mais radicais e obscuras, como são os casos paradigmáticos de Diamanda Galas ou dos Einstuerzende Neubauten.
A presente compilação opta pelo meio termo, procurando o justo equilíbrio entre o mais imediatamente apelativo (os temas dançáveis dos Fortran 5, “Crazy Earth” ou a recriação ao vivo dos Erasure, em “Push me, Shove me”) e o moderadamente experimental (o excerto retirado da ópera nacionalista dos Laibach – e não Laiback, como vem escrito…) “MacBeth” ou o estruturalismo pop samplado de Holger Hiller, com os Oh! Ho Bang Bang, em “The Three”). Pelo meio algumas ideias interessantes e tédios evitáveis. Interessante é o instrumental dos Depeche Mode, “Enjoy the Silence” na veia séria institucionalizada no “alter ego” Recoil, povoada de cordas sintéticas e melancolia futurista. Mark (e não Mar…) Stewart repete a brincadeira de “Fatal Attraction” (e não “attractional”…), à custa de toneladas de “samplers”, fatalmente atraído pela batida “I Feel Love”, de Donna Summer. Os Inspiral Carpets servem-se de “Sackville” para imitar Julian Cope acompanhado à guitarra. Engraçado o tema dos Wire, metronómico-minimais da pop electrónica fabril de “Drill”, como antes a tinham visionado os Cluster de “Zuckerzeit”. Nitzer Ebb parece querer homenagear o patrão da editora, Daniel Miller, nos tempos em que este, com os The Normal, gelava as pistas de dança com “Warm Leatherette”.
Nick Cave representa o seu habitual papel de “crooner” sombrio e estelar em “The Train” e os Crime & the City Solution divertem-se à grande com “I Have the Gun” de Woody Guthrie. Durante escassos minutos assomam fantasmagorias dub a 16 r.p.m. de “Pocket Porn”, invocadas pelos Renegade Sounsdwave (e não “soudwave”…). Chatos são os suecos Easy, com “Between John & Yoko” (já não há respeito?). Dispensável é também “Give me” dos A. C. Marias, uma “má viagem” da irmã mais nova de Julee Cruise. A Mute não é muda e diz de sua justiça. Cada cabeça sua sentença. •••