O homem que subverteu o drum ‘n’ bass, crucificando-o nas engrenagens da obra-prima “Supermodified”, rendeu-se no novo trabalho à fantasia. “Out from out where” confirma o seu autor como um dos mais imaginativos demiurgos do “sampling”, mas poderá causar desilusão no aspecto rítmico, ao refugiar-se em fórmulas mais seguras do que aquelas que faziam de “Supermodified” uma contínua provocação. Mas agora é tempo de sonhar. Um lado onírico que começa por nos transportar pelo ar na abertura, “Back from space”, viagem na vassoura mágica de Harry Potter (onde a BSO do filme parece ser samplada…) até adquirir tonalidades cósmicas em “Searchers” e “Cosmo retro intro outro” (com um sample dos Soft Machine…). O d&b é então ponto de fuga e mero sustentáculo de uma música tão convulsiva (“Triple science” dá a réplica adequada aos Autechre) como visionária, onde se descortina um romantismo ora colorido pelos lápis da infância, ora desesperado. Não se pode ser revolucionário todos os dias. Mas é sempre possível abrir novas janelas sobre o belo.
São os recordistas no “tour” da pop electrónica. Mas “Tour de France Soundtracks” escapa à justa do carro-vassoura. Os homens-máquina regressaram.
O “Tour de France” terminou há dias com a 5ª vitória consecutiva do ciclista norte-americano Lance Armstrong. Os germânicos Kraftwerk não podiam desperdiçar a oportunidade para, uma vez mais, celebrarem o triunfo do homem-máquina.
Adeptos incondicionais do ciclismo, sabendo-se que um dos seus membros fundadores, Ralf Hütter, é mesmo coleccionador e perito em bicicletas, encontraram na simbiose ciclista/bicicleta o perfeito exemplo dessa identidade entre o biológico e o orgânico que laboriosamente têm vindo a construir desde que, em 1974, puseram a rolar as suas roldanas embebidas em ácido desoxirrinbonucleico em “Autobahn” – auto-estrada musical cujas placas de sinalização apontariam para uma das principais direcções que conduziria a pop até ao presente.
“Tour de France, Soundtracks” (disponível a 4 de Agosto), composto por originais e versões do primeiro “Tour de France”, apura o conceito de homem-máquina, cujo desenvolvimento se procesou através de fases de montagem prévias – “RadioActivity”, “Trans Europe Express”, “The Man-Machine”, “Computer World” e “Electric Cafe”. Os títulos do novo disco alternam entre a análise do humano (“Vitamin”, “Elektro Kardiogram”, “Regeneration”), da máquina (“Aerodynamik”, “Titanium”) e das “perfomances” obtidas da fusão entre ambos (as três “étapes” do “tour”, “Chrono”). A entidade mutante unificada é observada à lupa em “La forme”.
Homem-máquina, “the man-machine”, um novo corpo originado da fusão entre os neurónios e o “chip” (o “bio-chip”). Carne, plástico e metal. Pensa-se em filmes como “A Mosca” e “Crash”, de Cronenberg, pelo lado humano e existencialista, em “Tron” ou em “Matrix”, na perspectiva da inteligência artificial.
Atenção: Obras
Mas se a tecnologia parece ocupar o lugar central na obra demiúrgica dos quatro de Düsseldorf, é interessante verificar até que ponto os seus dois principais operadores, Ralf Hütter e Florian Schneider, optaram desde o início por uma abordagem artesanal, ou minimalista, do som electrónico. Ao invés de complexas produções preferiram a mesma directiva do “less is more” posta em prática pelos Can, na sua “trip” de transe universal – uma concentração implosiva dos meios tecnológicos postos ao serviço da máxima simplicidade musical.
Antes, porém, do andróide e do robô, os Kraftwerk rodearam-se de quinquilharia, fios, lâmpadas e metal ferrugento, para construir o homem de lata, o autómato das fitas de ficção científica de série Z.
Em “Tonefloat” (1970), que constitui a estreia discográfica da dupla, ainda sob a designação Organisation, a música é uma cacofonia com pretensões psicadélicas de sons electroacústicos directamente inspirados em Stockhausen. “Kraftwerk” (1970) e “Kraftwerk 2” (1972), com os pinos de sinalização na capa, deram início às obras. O som de guindastes e escavadoras, ferro em brasa, cimento e martelo-pilão. Metal já a chocar contra o metal, a fazer faísca e a exigir máscaras de protecção. Obras violentas, mais próximas do rock industrial e da música concreta do que da pop ou do rock, permanecem como exemplos do melhor “krautrock” da região industrial da Alemanha, a par dos Cluster e dos Neu!. Com uma ponta de humor: Julian Cope, no seu livro “Krautrocksampler” define uma das faixas de “Kraftwerk” como “os Stooges na Toys’R’us”.
“Ralf and Florian” (1973), mostra na contracapa uma foto da dupla rodeada de néons e instrumentos musicais. Álbum de transição, inclui uma “clusteriana” música de baile e uma sinfonia ambiental de cristais e ananases, “Ananas Symphonie”, que é provavelmente o refresco mais refrescante a alucinogénico que o “Krautrock” destilou. A obra máxima seria editada no ano seguinte e tem por título “Autobahn”, “Auto-Estrada”. Depois dela, a pop mudou. O longo tema de abertura é a banda sonora, via auto-rádio sintonizado nas estrelas, de uma viagem de automóvel pela auto-estrada. No entanto, cuidado com as cabeças: as auto-estradas alemãs permitem velocidades que as portuguesas nem imaginam. O “wahn wahn wahn” do refrão soa como o “Fun fun fun” dos Beach Boys, fonte inesgotável de inspiração, num álbum de tracção às quatro rodas que pôs os sintetizadores a cantar e os “tops” em polvorosa. As duas “Kometenmelodies” finais desenham um arco-íris de beleza estonteante no espaço sideral. Antes de darem ao pedal, os Kraftwerk lançavam-se em quinta velocidade num Mercedes rumo ao futuro. Mas foram os álbuns seguintes, “Radio-Activity” (1975), “Trans Europe Express” (1977), “The Man-Machine” (1978) e “Computer World” (1981) que transpuseram para a música a noção de miniaturização e máxima potência que caracterizou a indústria informática no último quarto de século e, consequentemente, a música electrónica, sempre dependente dos avanços da tecnologia. Os Kraftwerk foram o “Pocket calculator” da pop electrónica do século XX, resta saber se lhes caberá ainda algum papel no século que agora se inicia.
Ohm Sweet Ohm
Entremos porém, com a devida autorização, no estúdio Kling Klang, onde os germânicos têm arrumados os seus fornos alquímicos de raios laser. Há esquemas e fórmulas colados nas paredes. Não é só a ligação dos nervos do homem a circuitos eléctricos artificiais que interessava à dupla alemã. O cérebro pensa e ordena: viagem, comunicação, forma e substância, energia, transmissão/recepção. “You are the transmitter, I am the antenna” é um dos “slogans”, tão divertidos como acutilantes, proclamados no álbum “Radio-Activity” (1975). E “When airwaves swing, distant voices swing”. “Radioland”, “Airwaves”, “The voices of energy”, “Radio stars”, “Uranium” e esse fabuloso trocadilho que condensa a fusão entre a espiritualidade tradicional e a energia das novas divindades-electrões: “Ohm sweet ohm”. Dentro de um contador Geiger, fervilha um microuniverso de fantasias hollywoodescas. O mundo de máquinas dos Kraftwerk é uma Dysneylândia quântica de Pinóquios que se divertem a entrelaçar os fios de força de um campo unificado. A música é simétrica, mas os seus demiurgos apresentam-na como número de circo.
Se “Radio-Activity” ilustra a propagação da radioactividade e, deste modo, prepara a mutação, física e psicológica da Europa, “Trans-Europe Express” é a viagem de comboio que modificou o imaginário pop do Velho Continente. Um dos passageiros chamava-se David Bowie e saltou em andamento a tempo de gravar a “trilogia de Berlim” – “Low, “Heroes” (o tema “V-2 Schneider” é uma dedicatória a Florian Schneider) e “Lodger”. Sem este álbum seminal, já se sabe, nem a pop electrónica nem a música de dança seriam o que são hoje. Sobretudo a tecno, a “house” e o electro viciaram-se na batida totalitária – mas tão romântica – de “Europe endless”, “Metal on metal”, “Franz Schubert” e “Endless”. A repetição, a produção em série, a viagem circular sem princípio nem fim (o logótipo de “Europe endless” é um círculo fechado em forma de pauta). O super-homem nietzscheano espreitava na esquina. “Radio-Activity” e “Trans-Europe Express” retratam as novas formas de comunicação (“Electric Cafe” reconheceria a sua falência, como nessa trágica interrupção telefónica que é “The telephone call”). Outro filme, “Ao correr do tempo”, de Wim Wenders, não filma outra coisa. O digital vinha a caminho.
“The Man-Machine” é o emblema. Os kraftwerk desistem de uma vez do invólucro de pele e transformam-se em robôs. A bordo de uma máquina de realidade virtual, saltam para o espaço, evocando em temas como “Spacelab”, “Metropolis” (evidente a conotação com o filme de Fritz Lang) e “Neon Lights”, uma versão cibernética da valsa de Strauss em “2001-Odisseia no Espaço”, de Kubrick. “We are the robots” passaria a ser a declaração de identidade que jamais abandonariam.
“The Man-Machine” é o espaço exterior. “Computer World” mergulha no interior de um “chip” para revelar a realidade observada e filtrada através de um monitor. Aqui a comunicação é já a das máquinas e entre as máquinas, processada através de sinais linguísticos e números codificados (“Numbers”). “Computer World”, “Computer Love”, “Home Computer”. Somos nós, a olhar de dentro do PC, com os olhos muito abertos de espanto. “It´s more fun to compute”? Cada um que digite a resposta que mais lhe convier.
No último capítulo relevante da história dos Kraftwerk, “Electric Cafe” assume-se como uma paródia ao universo criado pelo grupo. Paródia extensiva à pop electrónica, ou tecnopop, de que eles próprios foram os criadores. “Boing boom tchak”, ou as onomatopeias da idiotia levadas com um “smile” para as “dance floors”. Falatava apontar o rato e carregar em “desligar”. E ficar de parte a observar o curso dos acontecimentos. “The Mix” seria mera operação de limpeza e diversão e “Tour de France”, na presente versão longa-duração, contenta-se em ser uma deslizante manobra de “charme”, umas vezes em cura de sono “chill-out”, outras bem-humorada, à maneira dos Telex, grupo belga que, paradoxalmente, foi a versão mais fiel e clownesca do original Kraftwerk.
Como dois respeitáveis anciãos, Ralf Hütter e Florian Schneider passeiam-se hoje de bicicleta pela Baviera florida, observando o cenário de florestas, nuvens e montanhas com a placidez de turistas na reforma. Se com uma íris biológica ou através de lentes biónicas, eis o enigma que eles próprios fazem questão de não esclarecer.
Kraftwerk
Tour de France Soundtracks
EMI, distri. EMI-VC
6/10
28.11.2003
Tjak
Viajando
Ed. e distri. Última
6/10
Victor Bandeira, Pedro Sotiry Gabriel Gomes armaram-se com samplers e sintetizadores para esta viagem de fusão que tomou como ponto de partida as recolhas efectuadas por Bandeira na África, América do Sul, Sudeste Asiático e Nova Guiné. São quatro temas longos, inspirados em sons e rituais primitivos como uma invocação a Buda, cantos dos Dogons do Mali e dos índios Karajás, da Ilha do Bananal, no Brasil, ou uma cerimónia religiosa tibetana. Juntam koras, flautas, vozes de Pai de Santo e de pássaros, registados em arquivo, a “grooves”, glissandos de sintetizador e programações, mais próximos do etnotrance dos Trance Mission, Sabres of Paradise e Banco de Gaia que do conceptualismo de Musci/Venosta ou dos Lights in a Fat City, Tuu e O Yuki Conjugate – todos petencentes a uma família que integra ainda Loop Guru e Transglobal Underground. Infelizmente, a par da correcta utilização dos sons samplados, os temas pecam por alguma facilidade rítmica, como numa “A orientação perfeita”, regulada pela bússola de Jean-Michel Jarre, ou um “Caminho africano” que após uma irresistível dança de Kora descamba para coros e batidas vulgares. Entre a “new age” exótica e ideias a pedir mais ousadia, “viajando” não se atreve a ir ao âmago dos lugares que visita.