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Daniel Lanois – “For The Beauty Of Wynona”

pop rock >> quarta-feira, 14.04.1993


Daniel Lanois
For The Beauty Of Wynona
CD Warner Bros., distri. Warner Portuguesa



Embora na capa apareça uma rapariga nua, armada de um punhal, Wynona é o nome de uma pequena localidade canadiana onde o jovem Daniel cresceu e se fez homem. A jovem será quando muito a Beatrice de uma das canções. Depois de “Acadie”, o guitarrista, produtor e co-produtor, com Brian Eno, de inúmeros projectos (U2, Bob Dylan, Robbie Robertson, Jon Hassell, Roger Eno, Michael Brook, Peter Gabriel…), volta a insistir na criação de atmosferas subjectivamente (objectivamente, no tema “The collection of Marie Claire”) associadas à cena “acadiana” e à cultura “cajun” do Canadá, embora menos que no álbum anterior, num trabalho que privilegia antes de mais os arranjos. Se no aspecto da feitura e combinação de sons, “For The Beauty” faz jus ao título, já as prestações vocais de Lanois deixam um pouco a desejar, não tanto pela técnica em si, mas pelo que revelam de indecisão e falta de uma orientação definida. Curiosamente, a voz mostra-se permeável à influência de alguns nomes com quem o músico trabalhou: Bob Dylan, em “Brother L. A.” E “Rocky world”, Peter Gabriel, em “The unbreakable chain” e “Indian red” e Bono, dos U2, em “Lotta Love to Give” e “For the beauty of Wynona”. Lou Reed (“Still Learning how to crawl”), Joe Cocker (“The Messenger”) e até John Lennon (“Death of a train”) parecem, também eles, ter encarnado vocalmente no canadiano. O que significa que, por enquanto, Daniel Lanois não se conseguiu libertar do estigma do produtor que procura uma voz e uma via pessoais. (6)

Deux Filles – “Silence & Wisdom”

pop rock >> quarta-feira, 14.04.1993


Deux Filles
Silence & Wisdom
CD Hamburg, import. Lojas Valentim de Carvalho



Silêncio e sabedoria são aqui sinónimos um pouco maricas de pequenas melodias por resolver e vocalizações de toucador. Gemini Forque e Claudine Loule são duas raparigas, francesas, em busca de ultrapassagem ao som 4AD, etiqueta aliás onde o disco esteve previsto para sair. O que significa muitas sombras, suspiros gregorianos em fios de voz desmaiada e canções que procuram desesperadamente um ponto de apoio qualquer. Recordam por vezes os Durutti Column, nas hesitações de cristal das guitarras. Os “samples” são usados com parcimónia, como brinquedos nas mãos de crianças. “Silence & Wisdom” procura ser impressionista e consegue de facto causar, frequentemente, uma impressão – de tédio. Começam a cansar tantos anjinhos, tantas rendas, tantos vitrais. As “deux filles” estão mesmo a precisar de umas aulas de culturismo, a ver se lhes muscula o corpinho. Álbum de apelo garantido para “zombies” e sonâmbulos pós-modernos, “Silence & Wisdom” é mais uma tristeza a juntar a tantas outras. Chorem, pequenas, chorem. A música pop fez-se para a depressão. Vamos lá carpir. (6)

Peter Hammill – “The Noise”

pop rock >> quarta-feira, 07.04.1993


Peter Hammill
The Noise
CD Fie, distri. Megamúsica



O principal problema de Peter Hammill será talvez o de ter dito tudo cedo de mais. Compositor, vocalista e guitarrista carismático dos Van Der Graaf Generator, da estirpe dos resistentes dos anos 70, poeta da língua inglesa, que utilizou para rasgar os interiores da alma humana, Hammill experimentou os limites da pop em álbuns como “The Least We can do is Wave to Each Other”, “H to He, who am the only one”, “Pawn Hearts” (um dos melhores álbuns de sempre da música popular), “Godbluff”, “Still Life”, todos ainda com a banda e, já a solo, “Chameleon in the Shadow of the Night”, “The Silent Corne rand the Empty Stage”, “In Camera” (monumento solitário equiparável a “Pawn Hearts”), “The Future Now”, “PH7” e “A Black Box”.
Os anos 90, contudo, ultrapassaram-no. Remetido ao estatuto de autor de culto, Hammill tem vindo a assinar álbuns que procuram, sem grande sucesso, recuperar o fogo perdido. Posterior a “Fireships”, um bom álbum de canções onde a serenidade predomina, “The Noise” inflecte na direcção oposta, no rock de batida dura, o que, à partida, poderia indicar uma filiação na rebeldia de “Nadir’s Big Chance”, a bíblia dos adolescentes “punks” com algo mais na cabeça que gel e alfinetes. Nada mais falso. Peter Hammill não consegue sair do beco dos seus fantasmas pessoais, repetindo fórmulas mil vezes usadas, e com maior imaginação, em ábuns antigos. “Nadir’s Big Chance” pegava fogo ao instituto mental. “The Noise” é um estertor preso por guitarras eléctricas, de um poeta perdido no labirinto da sua própria inspiração. Não é um may álbum. Peter Hammill não é capaz de tal. Mas limita-se a marcar passo. “The noise is with me still”, canta ele em “The noise”, “I loved the noise / though now it’s gone / some glorious echoes of the noise still linger on.” No meio de ruído de estática. Peter Hammill procura a sintonia com o final do século. (6)