Viajar para Saturno torna-se fácil, ouvindo a música dos Saturnia. Após um promissor álbum de estreia, Luís Simões e Francisco Rebelo refi naram o alcance destas “trips” que mergulham o espírito num oceano de sinestesias. Ainda que em “Kozmische (parts 1 and 2)”, a batida se esgote no psicadelismo de pacotilha dos Ozric Tentacles, desprende-se do álbum uma energia genuinamente indutora de estados alterados que vão da euforia de danças dervíxicas ao intimismo de secretas alucinações. “Hydrophonic Gardening” transporta ecos dos Pink Floyd, Klaus Schulze e Steve Hillage, mas fi ltrados por uma visão capaz de transmutar estas influências numa música personalizada. “Sunflower” lembra o misticismo dos Yatha Sidhra. “Lava” fará as delícias dos viciados na “new age” da Hearts of Space, bem como “Planetarium”, ideal para assistir à chegada de um ovni, como “The Way Home”, de Kevin Braheny. “Vimana” e “Omnia”, os mais tripantes frutos cósmicos desta jardinagem hidrofónica, disparam ao espaço, acolhendo Syd Barrett e as ondas aquáticas de “Meddle”. “Regulem os comandos para o coração do sol” volta a ser a palavra de ordem. Os Saturnia levam-nos lá.
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11 Abril 2003
mistérios e maravilhas do progressivo português
Em Portugal o Progressivo chegou a conta-gotas. Quando lá fora se varriam os cacos e o punk encolhia o rock’n’roll a três notas e o dobro de cuspidela, em Portugal os músicos “descobriam” ser possível fazer algo mais que a canção popular interventiva, a pop canónica dos Beatles e o nacional-cançonetismo.
Ao contrário, porém, do que sucedeu em Inglaterra, Itália ou França, faltava-nos tradição. Tínhamos a MPP de José Afonso e companhia e, mais para trás, o ié-ié. Também não abundavam os bons executantes e, pior, bons executantes originais. Restava aos músicos que se deixaram impressionar pelos King Crimson, os Gentle Giant, os Jethro Tull, os Genesis, os Yes ou os Van Der Graaf Generator assimilar e copiar os modelos estrangeiros.
Houve bandas promissoras que nunca chegaram a gravar, como os Kama Sutra ou, para muitos uma das melhores bandas progressivas portuguesas de sempre, os Ephedra. Os Psico tinham em Filipe Pires (mais tarde nos Heavy Band, imortalizados numa célebre primeira parte de um concerto dos Atomic Rooster em Almada) um dos maiores guitarristas da sua geração. Os Perspectiva guardaram o projeco “A Quinta Parte do Mundo” na gaveta. Já os Anangaranga deixaram registados “Regresso às Origens” (79) e “Privado” (80), hoje bastante procurados pelos colecionadores estrangeiros. Dos Saga há a anotar o conceptual “Homo Sapiens”.
Os Beatnicks, com a vocalista Lena d´Água, poderiam ter ido mais longe do que foram. Ficaram a recordação de um concerto inolvidável em Sintra onde o grupo se entregou com brio à execução de um tema de meia-hora, “Cosmonicação”, no meio de fumos coloridos e projeção de slides psicadélicos, a gravação de dois singles e um álbum tardio, “Aspectos Humanos” (1982).
Miguel Graça Moura, hoje maestro da “clássica”, lançou os Pop Five Music Incorporated (lembram-se do indicativo do programa radiofónico “Página Um”?) e, a seguir, os Smoog, um dos primeiros grupos a utilizar um sintetizador Moog, acabado de desembrulhar por MGM no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em 1973, na primeira parte de um espetáculo do “bluesman” Freddie King.
Não chegava para criar uma atmosfera, muito menos uma corrente. Mantendo apenas ténues ligações ao Progressivo, a Banda do Casaco, de Nuno Rodrigues e António Pinho, gravaram álbuns importantes como “Do Benefício de um Vendido no Reino dos Bonifácios” (74), “Coisas do Arco da Velha” (76), “Hoje há Conquilhas Amanhã não Sabemos” (77) e “Contos da Barbearia” (78). Mais datado, o álbum dos Filarmónica Fraude, “Epopeia” (69), destaca-se como uma curiosidade resgatada pelo tom de crítica social bem humorada das letras de António Pinho. Júlio Pereira coseu rendilhados progressivos à música tradicional portuguesa em “Fernandinho Vai ao Vinho…” (76)”. Luís Cília gravou um álbum instrumental de ressonâncias progressivas, “Transparências” (78). Quanto ao Quarteto 1111, renovou a pop nacional, entrando para a lenda com “Onde Quando e Porquê Cantamos Pessoas Vivas” (74).
“Mestre” (73) e “Ascenção e Queda” (76), dos Petrus Castrus, o segundo recentemente reeditado em CD em miniatura cartonada, fornecem pistas honestas do que poderia ter sido o “Progressivo Português” mas não tiveram continuação. Outro álbum, furiosamente apreciado pelos maníacos colecionadores de Progressivo japoneses, tem a assinatura de José Cid: “10000 Anos Depois, entre Vénus e Marte” (79, um delírio “sci-fi” colorido pelas sonoridades do “Mellotron” e do “Moog Synthesizer”).
Sobram os Tantra, de Manuel Cardoso, o único grupo clássico do Progressivo lusitano. Tinham (e têm…) um conceito próprio, presente na teatralidade (a história regista a apresentação de “Mistérios e Maravilhas”, 1977, no Coliseu de Lisboa como réplica nacional ao “show” dos Genesis), com máscaras e cenários alusivos, e no conteúdo musical. Seguir-se-ia “Holocausto” (79) e a posterior encarnação de Manuel Cardoso na personagem Frodo, que deu origem ao álbum “Noites de Lisboa” (82). Frodo que agora desceu de novo à “Terra”.
Fantomas, o anti-herói de uma série policial de cordel anterior à Primeira Grande Guerra, serviu de inspiração a Mike Patton para a concretização de mais um dos seus projetos, a juntar aos Faith No More, Mr. Bungle, Peeping Tom e Tomahawk, entre outros. Fantomas era o inimigo da burguesia, o criminoso anónimo que assombrava a cidade de Paris, envolto numa aura de mistério e de medo. Patton não usa máscara nem pistola, nem consta que assalte os incautos cidadãos da Califórnia, mas isso não o impede de ter a fama de ser o inimigo número um do mainstream musical. Juntamente com um dos seus companheiros nos Mr. Bungle, Trevor Dunn, Buzz Osborne (The Melvins) e Dave Lombardo (Grip Inc., ex-Slayer), Patton alinhou uma sequência de 30 títulos que contém o mesmo tipo de violência enraivecida que já veiculara nos Naked City. Hardcore, death metal, desenhos animados manga em ebulição, anfetamina vocal e ocasionais momentos de distração para se ouvir um órgão Hammond em BSO de “suspense”, formam um magma incendiário no qual o vocalista dos Mr. Bungle introduz a sua habitual sessão de terapia pelo grito. “Fantômas” é literalmente uma guerra, atravessada por disparos, explosões, gemidos, vómitos e rajadas de noise, numa cacofonia de horror. Longe, muito longe, dos delírios surrealizantes de “California”, dos Mr. Bungle. Maldoror é outro dos projetos de Mike Patton, provavelmente o mais radical. Desta feita em duo com o japonês, mestre do noise e da tortura sónica, Masami Akita, mais conhecido por Merzbow. A fonte de inspiração é, neste caso, o livro “Os Cantos de Maldoror”, obra percursora do surrealismo, escrita no séc. XIX por Isidore Ducasse, sob o pseudónimo literário Conde de Lautréamont. O rosa “shocking” da capa, as imagens sexuais explícitas (que incluem um “insert” de uma vagina) e duas ilustrações do cartoonista Milo Manara não iludem o conteúdo altamente agressivo de “She”, obra de uma violência extrema, nos limites do suportável, cuja origem remonta a shows de improvisação da dupla realizados no ano passado na Austrália e posteriormente organizados em estúdio, em Tóquio.
Se “Cantos de Maldoror” são uma injeção de veneno inoculada nas veias do Inconsciente e uma espada pendente sobre a sanidade da mente, esta sua correspondência sonora estará mais próxima da loucura e do sadismo do Marquês de Sade do que da escrita subterrânea do Conde de Lautréamont. Experimentem ouvir o tema “Snuff” (inspirado nos “snuff movies”, filmes porno que envolvem o assassínio real dos atores) com o volume alto, para sentir a dor abominável. Socorro!