Arquivo da Categoria: Rock Psicadélico

The Moody Blues – “Days of Future Passed” + “In Search of the Lost Chord” + “On the Threshold of a Dream” + “To Our Children’s Children’s Children” + “A Question of Balance” + “Every Good Boy Deserves Favour” + “Seventh Sojourn”

Sons

30 de Janeiro 1998
REEDIÇÕES


A maior pequena orquestra do mundo

The Moody Blues
Days of Future Passed (7)
In Search of the Lost Chord (9)
On the Threshold of a Dream (8)
To Our Children’s Children’s Children (7)
A Question of Balance (7)
Every Good Boy Deserves Favour (7)
Seventh Sojourn (6)
Deram/Threshold, distri. Polygram


mb

Os Moody Blues sempre foram mal amados pela crítica. Mesmo no seu tempo, a partir da segunda metade dos anos 60, a sua música causava embaraços e um mal disfarçado mal-estar. Encaixados entre o psicadelismo, que abraçaram com uma inoportuna elegância, e o progressivo, que tornearam com um não menos inoportuno sentido comercial, os Moody Blues criaram um nicho próprio que, ultrapassadas três décadas, conserva intacto seu fascínio. Agora ainda mais, graças ao pacote de reedições enriquecidas por remasterizações de extraordinária qualidade que fazem jus à espacialidade da música do grupo.
Ultrapassado o disco de estreia, com data de edição de 1965, “The Magnificent Moodies”, orgulhosamente gravado em mono, os Moody Blues saltaram para os tops de ambos os lados do Atlântico, no ano mágico de 1967, com “Days of Future Passed”. Embebido nas orquestrações, demasiado ligeiras para as mentes psicadélicas, da London Festival Orchestra, e nos talentos de multinstrumentistas e melodistas natos dos cinco músicos que permaneceram juntos até à dissolução do grupo – Mike Pinder, Ray Thomas, Justin Hayward, Graeme Edge e John Lodge –, “Days of Future Passed” é o paradigma do álbum conceptual. Vinte e quatro horas do dia, entre a madrugada e a noite. Melhor, 24 horas dentro de uma cabeça razoavelmente medicada com o ácido. Que no caso dos Moody Blues, ostentava sempre o rótulo Chanel.
Flautas, “sitars” e um “mellotron” de veludo (em oposição ao “mellotron” do inferno dos King Crimson) criavam suaves tapeçarias em canções como “Dawn is a feeling” e “Night in white satin” (tornado, por força do destino, num dos “slows” mais célebres de todos os tempos…) que transformavam a arte melódica dos Beatles num desfile de alta-costura.
“In Search of the Lost Chord”, de 1968, aproximou ainda mais os Moody Blues do psicadelismo. Embora instalado a uma confortável e segura distância da loucura, o grupo não hesitou em apresentar o seu próprio catálogo de visões (incluindo as das capas, um dos pontos fortes da estética global de ornamentação se rival na época) em temas declaradamente oníricos como “Ride my see saw” (outro “hit”, “House of four doors”, povoado de efeitos de estúdio bizarros, “Voices in the sky”, “The best way to travel”, “Visions of paradise” e “Om”. Numa demonstração do seu amor à causa do psicadelismo, dedicaram mesmo um dos temas, “Legend of a mind”, a Timothy Leary, profeta do LSD.
“On the Threshold of a Dream”, de 1969, começa com o tipo de efeitos electrónicos que os Pink Floyd viriam a utilizar em “Dark Side of the Moon”, incluindo a simulação da voz de um computador, numa veia experimentalista que marcaria o início da maior parte dos álbuns do grupo. “Dear diary” é um clássico do psicadelismo, banda sonora de um sonho, o sonho pop por excelência, com o seu ritmo arrastado, alado por uma flauta e pela voz à deriva de Ray Thomas. Mas o álbum está repleto de boas canções, como a “cosmic folk” de “Send me no wine”, o “brit pop” “avant la lettre” de “To share our love”, o extraordinário colorido de “To share our love”, os cânticos solares de “Lay day”, enfim, não há momentos mortos nesta cornucópia de melodias empaturradas de cordas e de luxo, sem os quais não existiriam hoje grupos como os Divine Comedy, Portishead, Mono ou Tindersticks.
“To our Children’s Children’s Children” indica “Higher and higher” como o caminho a seguir, logo no primeiro tema, uma partida de foguetão em direcção ao centro do cérebro. “Set the controls to the herat of the brain”. Os Moody Blues construíam aqui o seu próprio céu. Mas a viagem dos Moody Blues fazia-se com segurança. Através dos “Eyes of a child”, visão cristalina e inocente da música pop como era a dos Moody Blues, grupo de gente bem que apenas terá tido paralelo, na sua época, com os bastante mais obscuros mas não menos interessantes Nirvana (não, não são esses!…), dos quais valerá a pena reter o magnífico e menosprezado “The Story of Simon Simopath”.
“To our Children’s”, de novo recheado de boas canções, como “Beyond” ou o ultra-adocicado “Candle of life”, apresenta já, contudo, alguns sinais de decadência, tropeçando nos escolhos de uma ligeireza que sempre funcionou para os Moody Blues como uma faca de dois gumes.
No seu primeiro álbum da década seguinte, “A Question of Balance” (cuja capa é aqui reproduzida), de 1970, o próprio título parece traduzir a consciência desse problema de equilíbrio entre a manutenção de uma acessibilidade que mantivesse o grupo próximo do gosto popular e uma credibilidade capaz de o conservar afastado do espaço da música ligeira. A resposta continuou a ser dada através da presença de canções acima da média (“Question”, “Tortoise and the hare”, Minstrel’s song”, “Melancholy man”) que reuniam o gosto por arranjos sentidos enquanto orquestrações e um requintado trabalho de estúdio.
Ao contrário, porém, dos melhores grupos progressivos do início dos anos 70, cuja estética privilegiava a exploração constante de novas fórmulas e cruzamentos musicais, a música dos Moody Blues pecava pelo que, no início, fora uma virtude mas que agora se tornara num beco, o fecho sobre si própria, tornando cada tema numa unidade previsível, sem canais de respiração. O mesmo que aconteceu aos Pink Floyd, a partir de “Dark Side of the Moon”, álbum cuja audição será hoje, para muita gente, insuportável.
Assim, a inevitável “ousadia” electrónica que introduz “Every Good Boy Deserves Favour”, neste caso um amontoado de ruídos da natureza, colagens apocalípticas, batuques e cânticos rituais, “sitars” e flautas indianas, um clavicórdio barroco e o “mellotron” tornado imagem de marca, apoiando palavras de ordens terminadas em “ation” (“desolation”, “confusion”, “communication”), deixou de ser novidade, criando, em vez disso, um aglomerado de efeitos que funcionava como uma espécie de catálogo geral sonoro dos Moody Blues.
Mas esta previsibilidade continuava a ser compensada por canções que teimavam em recriar com extrema nitidez um mundo de sonhos preguiçosos, como “The story in your eyes”, “Emily’s song”, “After you come” e “My song” (um dos temas mais genuinamente progressivos dos Moody Blues, repleto de mudanças e transformações tímbricas e melódicas, mas era demasiado tarde para apanharem o comboio…), nas quais o grupo disfarçava a dolência com a evidência de guitarras eléctricas sabiamente controladas.
Em 1972, com “Seventh Sojourn”, era solto o último suspiro (os Moody Blues continuaram a gravar, claro, mas o seu tempo tinha-se esgotado) de uma banda que, seja qual for o juízo que sobre ela hoje se faça, era e continua a ser única. O segredo desta diferença estava no “moody”…



Steve Hackett – “Genesis Revisited” + Yes – “Open Your Eyes”

Sons

16 de Janeiro 1998
DISCOS – POP ROCK


Steve Hackett
Genesis Revisited (7)
Reef, import. Planeta Rock

Yes
Open your Eyes (7)
Eagle, import. Planeta Rock


sh

yes

Steve Hackett, guitarrista da época de ouro dos Genesis, resolveu passar revista a algumas das canções da sua antiga banda, convocando para tal um grupo de amigos conotados com o progressivo, como John Wetton, Ian McDonald e Paul Carrack, além de Colin Blunstone, que nos anos 60 fizera parte dos Zombies. “Watcher of the skies”, “Firth of fifth”, “I know what I like”, “Fountain of Salmacis” e “For absent friends” são algumas das canções dos Genesis que a guitarra e as orquestrações de Hackett transformaram, com sucesso, em matéria de recriação. Quanto aos Yes, depois de dois duplos álbuns com material ao vivo e novos originais de estúdio, regressaram ao que sempre foram, assumindo o seu lado sinfónico, agora mais do que nunca como suporte das vocalizações, cada vez mais espirituais e ecológicas, de Jon Anderson. Com os velhos companheiros Steve Howe, Chris Squire e Alan White, e o novo teclista Billy Sherwood. O tema de abertura, “New state of mind”, sintetiza a alegria recuperada pelo grupo, cuja música pareceu ter ganho uma nova frescura e um apelo mais pop do que nunca (não faltam em “Open your Eyes” canções para assobiar…), numa altura em que deixou de ser vergonha ter colaborado nos excessos visionários dos anos 70.



Steeleye Span – “Below the Salt” + “Parcel of Rogues” + “Commoner’s Crown” + “Rocket Cottage”

Sons

25 de Setembro 1998
REEDIÇÕES


Steeleye Span
Below the Salt (9)
Parcel of Rogues (8)
Commoner’s Crown (7)
Rocket Cottage (6)
BGO, distri. Megamúsica


ss

Fairport Convention e Steeleye Span formaram, nos anos 70, o par de bandas sem as quais o folk.rock nunca teria existido. Os primeiros contavam nas suas fileiras com uma diva: Sandy Denny. Do lado dos Steeleye Span, o trunfo da voz feminina não era menor: Maddy Prior. Durante anos disputaram ambas o ceptro de “melhor cantora folk das Ilhas Britânicas”. Com a morte prematura de Denny, Maddy Prior foi eleita, com toda a naturalidade, rainha incontestada. Ninguém se lembrou de June Tabor, talvez por fazer parte de outro baralho…
Mas os Steeleye Span contavam ainda, nas suas fileiras, com um guru, Ashley Hutchings, fanático da “morris dance” e do rock, dois estilos aparentemente antagónicos que procurou misturar, quer, primeiro, nos Fairport Convention quer nos Steeleye Span, antes de se dedicar por inteiro ao seu projecto mais querido, os Albion Band, na sequência de um disco lendário que publicou em 1972, “Morris on”. Para trás ficavam, dos Steeleye Span, os álbuns “Hark! The Village Wait”, “Please to See the King” (álbum folk do ano, em 1971, para o Melody Maker) e “Ten Man Mop or Mr. Reservoir Butler Rides again”, os dois últimos com a participação de Martin Carthy, provavelmente a maior voz masculina da folk inglesa contemporânea.
Com uma formação composta por Maddy Prior (voz), Peter Knight (violino, viola, bandolim, banjo), Tim Hart (guitarra, saltério), Rick Kemp (baixo) e Bob Johnston (guitarra), os Steeleye Span gravaram, em 1973, “Below the Salt” e, no ano seguinte, “Parcel of Rogues”. “Below the Salt” é um daqueles discos que marcam uma época e de onde ressalta uma magia especial. As vozes de Maddy Prior e de Tim Hart, afeiçoadas num passado comum, nos álbuns “Summer Solstice” e nos dois volumes de “Folk Songs of Olde England”, harmonizam-se como a de dois menestréis em temas como “Spotted cow” e “King Henry”. “Jigs: The bride’s favorite/Tansey’s fancy” é a resposta, em delicadeza, de Peter Knight, aos instrumentais inflamados de Dave Swarbrick, nos Fairport Convention. Polifonias “a capella”, como “Rosebud in June” e o clássico “Gaudete” enriquecem sobremaneira um disco onde, acima de tudo, a voz de Maddy Prior se eleva a alturas sublimes, em interpretações de antologia como as que rubrica em “Sheep-crook and the black dog”, “Royal forester” e “Saucy sailor”. Em “John Barley-corn”, representativo do lado mais folky do disco, é a vez de Tim Hart mostrar aquilo que vale. Há ainda o lado mais épico e progressivo, presente no longo “King Henry”, representativo ainda do tom geral que caracteriza “Below the Salt”, ilustrado pela capa, representando um banquete medieval.
“Parcel of Rogues” é um álbum que soa mais fácil e descontraído, com a electricidade e os ritmos rock a fazerem sentir-se com mais força, indicando o rumo que a banda viria a seguir nos álbuns seguintes e lhe valeria uma série de presenças regulares nos tops de vendas do Reino Unido, embora os Steeleye Span, desde “Please to See the King”, já fossem presenças regulares nessa mesma lista. Temas como “One misty moisty morning”, o instrumental “Robbery and violins” ou “The wee wee man” transbordam de energia, à boa maneira de uma banda rock. Por outro lado, em “Alison Gross”, “The Bold poachers”, “The ups and downs”, “The wee wee man” e “Rogues in a nation” (“a capella”), saem reforçadas a componente polifónica e as harmonizações vocais, cuja fluidez contrasta com o maior aprumo e compartimentação vocal do álbum anterior. Entregues aos cuidados vocais de Maddy Prior estão “One misty moisty morning”, “The weaver and the factory maid” e “Cam ye O’er frae France”.
Após “Now We are Six”, um fenómeno de vendas que contou com as participações do flautista dos Jethro Tull, Ian Anderson, como produtor/consultor, e de David Bowie, que toca saxofone num dos temas, “Commoner’s Crown”, de 1975, já com a presença do baterista Nigel Pregum (chegado dos progressivos Gnidrolog), envereda decididamente pelo rock-folk, em vez do folk-rock original… Um passo que Tim Hart justifica, comparando, uma vez mais, os percursos paralelos dos Steeleye Span e dos Fairport Convention. “Penso que experimentamos áreas que os Fairport Convention nunca atingiram, embora eles permanecessem mais em contacto com as raízes da música folk, algo que nós tivemos sempre mais tendência para ignorar”.
“Commoner’s Crown” vale, ainda e sempre, pelas excepcionais prestações de Maddy Prior, em “Little sir Hughh”, “Long lankin”, “Galtee farmer” e “Weary cutters”, esta num desdobramento permitido pela utilização de multipistas. Registe-se ainda a participação do actor Peter Sellers a tocar ukelele (o nosso cavaquinho) em “New York girls”, uma brincadeira. Mas se em “Commoner’s Crown” o trabalho de composição mantém um elevado nível qualitativo, notório nas harmonias vocais de “Dogs and ferrets” e “Elf call”, ou no instrumental “Bach goes to Limerick”, que impedem a bateria de ocupar um lugar de excessiva predominância, já em “Rocket Cottage”, de 1976, que sucede a “All around my Hat”, o mesmo não acontece. A batida de Pegrum torna-se um factor de vulgarização na quase totalidade dos temas, salvando-se ainda e sempre a voz de Prior. Curiosos, pelas razões opostas, são “Sir James the rose”, um aceno aos Fairport Convention, e o tema longo, “The drunkard”, que desce ao popularucho, fazendo suspirar pela arrepiante abordagem, sobre o mesmo tema do alcoolismo, de Richard e Linda Thompson, em “Down where the drunkards roll”, da obra-prima “I want to See the Bright Lights tonight”.
Todas as presentes reedições são remasterizadas, notando-se uma melhoria acentuada em relação às anteriores disponíveis no mercado, da Shanachie, o mesmo acontecendo com “Silly Sisters”, primeiro álbum da colaboração entre Maddy Prior e June Tabor, também agora reeditado.