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Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #117 – “This Heat (Pedro Gomes)”

#117 – “This Heat (Pedro Gomes)”

Fernando Magalhães
19.06.2002 170548
Os THIS HEAT são, além dos CLUSTER, dos CAN, dos NEU!, dos HELDON e dos SEVERED HEADS, provavelmente a banda que mais influenciou – ou antecipou! – o pós-rock. É curioso o facto da sua música juntar alguma da estética anterior do RIO (Rock in Opposition, ligado à Recommended) com a música industrial e a eletrónica “rough” de uns Cabaret Voltaire.
A diferença está em que CHARLES HEYWARD, o mentor do grupo, é um tipo com uma imensa cultura musical, cujo passado, como músico, entronca no rock progressivo (fez parte de uma banda de que não me lembro agora o nome).

Já agora, que disco é que ouviste, o primeiro, “This Heat” ou o seguinte, “Deceit”? São algo diferentes entre si. Mais fragmentário, acutilante e metálico o primeiro. Mais elaborado e construído em torno de “canções”, o segundo.

Como complemento aos THIS HEAT, o passo seguinte é ouvir os THE CAMBERWELL NOW (“The Ghost Trade”), numa vertente mais rock mas não menos imaginativa e poderosa, ou o disco de estreia a solo do C. Heyward, “Survive the Gesture”.

FM

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #116 – “BRASIL e GALIZA () Dois grandes álbuns (FM)”

#116 – “BRASIL e GALIZA () Dois grandes álbuns (FM)”

Fernando Magalhães
19.06.2002 170522
Ouvidos ontem, ambos me deixaram entusiasmado.

Do Brasil:

FRANCIS HIME: Choro Rasgado (ed. Biscoito Fino)
Classicismo do mais puro. Bossa-nova, samba, choro. Uma tristeza belíssima, a contrastar com os dias de sol que atravessamos. Instrumentais complexos (entre o ambiente dos “Dias da Rádio” e algumas das equações Recommened – a sério!) alternam com canções de uma delicadeza extrema, do agrado decerto, dos apreciadores de Tom Jobim ou João Gilberto.

Da Galiza (creio eu, embora o texto da capa não esteja escrito em galego, são muiñeiras, mas também uma quantidade de composições assinadas pelo próprio…):

FLAVIO BENITO: Mara (ed. Fonomusic)
Um novo portento da gaita-de-foles, capaz de fazer frente a Carlos Nuñez, Budiño, Bieito Romero, etc…
Benito é um inovador, tocando em escalas pouco habituais e com um fraseado também muito “sui generis”. As canções, vocalizadas por uma cantora (ainda não me dei ao trabalho de ver o seu nome…), também são muito boas. Escreverei em breve sobre este álbum, um “must” caído de surpresa no panorama folk deste ano.

FM

No Secrets In The Family – “Play And Strange Laughter”

BLITZ 6 MARÇO 1990 >> Escaparate


NO SECRETS IN THE FAMILY

«PLAY AND STRANGE LAUGHTER»


Raros são os discos da Recommended Records que não alcançam a classificação de pelo menos «Muito Bom». A explicação para tal facto é simples: os critérios prevalecentes na estratégia editorial (desde a feitura da capa até aos últimos retoques de produção) regem-se exclusivamente pela qualidade e originalidade genuínas, ou seja, não há cedências de qualquer espécie. Parece fácil? Até é. Quando os objetivos não se resumem à obtenção de lucros a todo o custo.
A Rec Rec é uma editora suíça, subsidiária da sua congénere britânica e cuja totalidade do catálogo não foge à regra, isto é, vale a pena comprar todos os seus discos. Nomes importantes não faltam: os britânicos Camberwell Now (de Charles Hayward) e Skeleton Crew (de Fred Frith e Chris Cutler); o próprio Frith a solo, os franceses Etron Fou Leloublan (mais álbuns a solo dos seus membros Ferdinand Richard e Guigou Chenevier) e Nimal, os suíços Débile Menthol, os americanos Orthotonics, Negativland e Red Crayola ou os nipónicos After Dinner (cujo último álbum, aqui criticado, é de 89 e não 84, como por gralha saiu publicado), incluem-se no catálogo de luxo da editora.
Os alemães, ou suíços, ou austríacos No Secrets in the Family fazem parte da última fornada, juntamente com o mais recente dos germano-suíços Unknownmix («Whaba»), o já citado dos After Dinner («Paradise of Replica») e a estreia dos No Safety («This lost leg», com Zeena Parkins e Pippin Barnett).
Com os No Secrets salta imediatamente à vista (ou ao ouvido) aquilo que constitui regra de ouro em todos os «produtos» Recommended: a excelência técnica de todos os músicos envolvidos. Claro que não basta, mas também (regra n.º 2) só grava na casa quem, para além de saber tocar impecavelmente, seja ainda melhor compositor e arranjador e consiga ainda por cima ser original. É o caso destes No Secrets in the Family, liderados pela família Schonholzer: Annette (voz, sintetizador, órgão de pedais e melódica) e Markus (voz, guitarra e melódica). Os dois restantes membros são Daniel Meienberger (baixo, ukelele e voz) e Martin Gantenbein (bateria, flautas, saxofone, acordeão e voz).
Presentes ainda alguns convidados em violino, violoncelo, fagote, tuba e oboé.
Um dos trunfos da banda é possuir nas suas fileiras duas excelentes vozes, as de Annette e Markus, filiados nas escolas de Dagmar Krause e David Thomas (o gordo), respetivamente. Um dos outros vocalistas lembra outro excêntrico: David Garland (de «Control Songs» e «Worlds of Love»).
Mas é ao nível das composições que levantam voo: canções simultaneamente complexas e acessíveis, arranjadas com um bom-gosto inexcedível. Ao todo são dez, incluindo uma versão surrealista de «Que Sera Sera» e uma letra inspirada num texto de Chesterton («The Ballad of Suicide»).
«Play and Strange Laughter» é um disco a não perder. Quando por esse mundo fora se vão publicando dezenas de ótimos discos como este, porquê perder ainda tempo com o lixo que, metodicamente e com a cumplicidade dos «media», vai saturando e envenenando o mercado?
O rótulo «Música alternativa» serve, neste como noutros casos, para lembrar que vale a pena fazer desvios e arriscar no menos óbvio.
O portal Rec Rec é uma das entradas possíveis no imenso e luxuoso palácio da Recommended. Franqueá-lo é ter acesso ao paraíso.
(LP Rec Rec, Import. Contraverso, 89)