Arquivo da Categoria: Progressivo

White Noise – “An Electric Storm”

Pop Rock

10 FEVEREIRO 1993
REEDIÇÕES

White Noise
An Electric Storm
CD Island, distri. Bimotor


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Quando em 1969 Chris Blackwell, patrão da Island, resolveu dar luz verde ao projecto White Noise, estaria longe de imaginar que, volvidos 24 anos, “An Electric Storm” continuaria a soar tão estranho como na altura em que foi editado. De facto, trata-se de um objecto único criado por David Vorhaus, génio e louco da electrónica, que aqui se fez acompanhar por um séquito de discípulos, entre os quais a cantora Delia Derbyshire e o percussionista Paul Lytton. Surgido na época anterior ao “boom” dos sintetizadores, conta a lenda que “An Electric Storm” foi gravado nota a nota com relíquias que então davam pelo nome de “tone generator” e “ring modulator”. O resultado é um assombro.
“Trip” electro-acústica, manifesto de uma espécie de psicadelismo espectral que até hoje não teve descendência, “An Electric Storm” penetra nas regiões mais recônditas do inconsciente, recorrendo para tal a explorações sonoras que então pareciam impensáveis. Em incursões no lado mais escuro e perigoso da paixão, entre perversões inomináveis e gemidos gravados durante uma orgia (“Love without sound”, “My game of loving”) ou na canção pop em levitação (“Firebird”), até levar o estúdio inteiro á folia, em dois minutos de delírio electrónico que sonorizam uma invasão de pulgas.
Do outro lado do álbum, ergue-se o mistério na obra-prima “The Visitation” – onze minutos de arrepio, onde o fantasma de alguém morto num acidente de viação tenta comunicar com a sua amante viva, que o espera na escuridão de um quarto. Por fim, uma missa negra celebrada no inferno (“Black mass: an electric storm in hell”), instrumental de gritos e percussões em fúria, alegadamente inspirado nos Pink Floyd de “Ummagumma”. David Vorhaus gravaria posteriormente, já na Virgin e no seu estúdio privado usado como um sintetizador gigantesco – o Kaleidophon synthesizer, como lhe chamou –, as sequências “White Noise 2 – Concert for Synthesizer” e, com o selo Pulse, “White Noise 3”. Quanto a este álbum, já parte integrante da lenda, foi adquirido em saldo ao preço ridículo de mil (!) escudos. Vão lá e peçam para vir mais. (10)

aqui



Mike Oldfield – Sinosite (Entrevista)

Pop Rock

22 de Setembro de 1993

SINOSITE

Mike Oldfield: um homem, uma guitarra de som inconfundível, uma personalidade instável e um disco onde coube tudo: “Tubular Bells”. Em dois volumes, separados por duas décadas, a marcarem a distância entre o génio e a banalidade.


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O autor de um dos discos mais vendidos a música Rock, “Tubular Bells”, o primeiro, pois claro, vai tocar numa praça de touros. Uma actuação em registo orquestral a exigir enorme concentração. Com a guitarra, vários tipos de guitarra, no comando das operações. Menos a portuguesa, de que Mike Oldfield, estranhamente, nunca ouviu falar.
PÚBLICO – Que motivos o levaram a gravar “Tubular Bells II”?
Mike Oldfield – Pensei que fosse uma boa ideia e agradou-me imenso fazê-lo. Tinha essa intenção já há cerca de cinco anos, mas queria fazê-lo com uma nova editora. Já não me sentia feliz na Virgin e tive de romper o contrato.
P. – Por que razão se aborreceu com a editora?
R. – As pessoas originais foram-se embora e as que vieram não eram grandes apreciadoras de música instrumental. Pensavam que era um formato difícil de promover. Depois, Richard Branson estava mais preocupado com a sua companhia de aviação, enquanto no passado se preocupava mais com a música. Foram 17 anos na mesma editora e achei que era tempo de mudar.
P. – Poderia ter feito “Tubular Bells II” com música original, mas em vez disso preferiu apenas alterar os arranjos. Porquê essa opção?
R. – As sequências não são as mesmas… mas porque é que me está sempre a perguntar “porquê”?

TubularBellsII

P. – Porque o público português quer ficar a saber…
R. – Oh! (suspiro). Não há uma razão para tudo o que faço, portanto não faz sentido perguntar-me “porquê”. Não tenho explicação para as coisas. Não sei por que razão há seres humanos sobre o planeta, não sei explicar os enigmas do universo. As coisas simplesmente existem. Eu faço coisas não por este ou aquele motivo. Faço-as e pronto.
P. – A sua obra tem-se caracterizado por dois campos musicais separados: longas peças instrumentais e, por outro lado, pequenas canções curtas…
R. – Resolvi deixar essas canções de lado por uns tempos. Comecei a sentir aborrecimento a escrever canções, que me estava a repetir. Há muitas pessoas no mundo a escrever canções mas muito poucas a compor peças instrumentais. Uso um pouco as vozes, é claro, mas não no formato tradicional de canções.
P. – Mas, sobretudo nos últimos anos, foram essas canções que lhe deram mais dinheiro…
R. – Nunca fiz nada por dinheiro. À parte quando era muito novo e trabalhava porque necessitava dele. Passei a ter sempre dinheiro desde “Tubular Bells”. A maioria das pessoas pensa que se age sempre a pensar em dinheiro, mas eu faço as coisas por outras razões, pelo prazer que sinto, por exemplo. Quando deixar de sentir esse prazer, paro, e vou fazer outra coisa.
P. – Passados todos estes anos, continua a sentir prazer em tocar ao vivo?
R. – Sim, especialmente nesta digressão, em que os processos utilizados são diferentes. Não vai ser como em digressões anteriores, em que fazia versões rock dos álbuns. Tinha já tudo escrito, como se fosse uma peça orquestral, os músicos vão cingir-se às respectivas partituras. Os actuais concertos soam bastante aos álbuns, embora num contexto “ao vivo”, com várias partes separadas que se complementam e que exigem uma grande concentração, de modo a conseguir-se a ordem correcta. Têm a duração de uma hora e meia, o que, nos dias que correm, pode parecer um pouco curto. Não se trata de preguiça, mas sim da tal concentração.
P. – Vão ser tocados temas novos ou só os arranjos é que variam?
R. – Novos arranjos. Vou tocar um pouco de “Tubular Bells II”, um pouco de flamenco, que adoro…
P. – Sempre mostrou interesse pela música tradicional, nomeadamente de inspiração celta… Tocou recentemente num clube de música tradicional na Galiza…
R. – É verdade. A minha namorada é galega e fomos visitar os pais dela. Conheci o grupo Luar na Lubre e tocámos juntos nesse clube. Adoro música celta.
P. – Continua a viver no campo?
R. – Sim, em Inglaterra, algumas vezes.
P. – Tem medo da cidade?
R. – Tenho uma casa em Los Angeles que é uma das maiores cidades dos Estados Unidos, só que fica um pouco à margem, no alto de um monte. Gosto de me sentir próximo da cidade, mas não no meio dela.
P. – Descontando “Tubular Bells II”, pensa regressar ao estilo e à complexidade de um álbum como “Amarok”, por sinal excelente?
R. – Complexo, sim, mas feito de forma muito espontânea. Costumava levantar-me de manhã e pensar em algo, uma técnica de composição que resultou bem. Há nesse disco secções maravilhosas, mas, na generalidade, é um disco em que existe raiva, um disco negativo. Não estou a dizer que seja mau…
P. – Sabe-se que costuma ser sensível a estes aspectos negativos, mas o curioso é que se desprende da sua música uma sensação de harmonia. Usa a música como terapia?
R. – Sim, é uma espécie de terapia. Nos primeiros tempos, a música era algo que me fazia sentir feliz e seguro, mas se se reparasse bem, não era uma máusica feliz, embora possa dizer que era uma música positiva.
P. – Define-se primeiro que tudo como um guitarrista?
R. – Absolutamente. Quando vir o concerto reparará que me concentro muito na guitarra. Vou tocar vários tipos de guitarra: espanhola, clássica, eléctrica…
P. – E guitarra portuguesa?
R. – O quê? Nunca vi uma guitarra portuguesa, o que é isso?
P. – Não sabe o que é?
R. – Não, mas vou tentar investigar, manter os ouvidos abertos para ela.

DIA 22, DRAMÁTICO DE CASCAIS, 21H30



Conceptual em Portugal – artigo de opinião

Pop Rock

14 JULHO 1993

CONCEPTUAL EM PORTUGAL

“Ser Maior” é o primeiro disco de rock português a perder a vergonha de ser desmesurado nos meios e nas intenções. Para trás ficaram preconceitos e uma tradição de “conceptuais” onde os exemplos escasseiam. Os Delfins poderão ter inaugurado a era da mania das grandezas.

Comecemos por distinguir entre álbum conceptual e ópera-rock. Ambos partem de uma ideia original (ou de um conceito, daí o termo conceptual), de uma temática aglutinadora à qual a estrutura total se submete. A diferença está nos meios utilizados. Enquanto o álbum conceptual apenas difere do longa-duração (termo que os novos formatos digitais vieram tornar obsoleto) vulgar pelo lado ideológico, chamemos-lhe assim, a ópera-rock é uma espécie de superprodução que opera segundo uma lógica de novo-riquismo que visa em primeiro lugar a ostentação dos meios de produção.
Em Portugal, pelas mesmas razões, e pela negativa, devido à proverbial pobreza da indústria discográfica nacional, não houve uma ópera-rock digna desse nome, exceptuando talvez “O Nazareno”, de Frei Hermano da Câmara, versão fado-eclesiástica de “Jesus Christ Superstar” e por tal motivo afastada de uma estética rock propriamente dita. Quer dizer: em Portugal, quem quiser ouvir ópera que vá ao São Carlos.
Álbuns conceptuais houve alguns, não muitos, que procuraram seguir um dos modelos mais em voga dos anos 70. O primeiro disco conceptual produzido em Portugal, na área da música pop, tem a assinatura de José Cid e chama-se “Dez mil anos depois entre Vénus e Marte”. Nele, o então membro do Quarteto 1111 fez como se fazia na época no estrangeiro, escrevendo na ficha técnica os nomes de todos os instrumentos de teclas utilizados (quanto mais melhor, mais “progressivo” e “sinfónico” era o álbum…), sendo de bom tom virem mencionados o mellotron e o “moog synthesizer”. “Dez mil anos depois…” inspirou-se na ficção científica e é um dos primeiros discos de música popular feita em Portugal onde a electrónica ocupa um lugar destacado.
Já no ocaso da década, os Tantra procuraram imitar os Genesis, na efabulação de um imaginário fantástico, com direito a representação teatral nas apresentações ao vivo, feitas de muitas máscaras, fumos e efeitos a granel, em “Mistérios e Maravilhas”. Mais tarde, Manuel Cardoso, guitarrista e mentor espiritual da banda, encarnou no seu primeiro álbum a solo, um Frodo de cabeça pontiaguda, numa mutação monstruosa da personagem central da trilogia “O Senhor dos Anéis”, do escritor inglês J. R. Tolkien.

tantra

Nos anos 80, os álbuns conceptuais deixaram de estar na moda. Paradoxalmente, foi nesta década que Fausto gravou aquele que até à data permanece como paradigma do género, “Por este Rio acima”, obra com princípio, meio e fim, onde o compositor apresenta a sua leitura dos descobrimentos portugueses, com um talento, uma imaginação e uma originalidade que nem o próprio, em obras posteriores, conseguiu igualar. Na mesma década os Heróis do Mar agitaram as ondas do marasmo lusitano, as bandeiras e os fantasmas do nacionalismo no álbum de estreia “Heróis do Mar”, embarcando mais tarde na aventura orientalista, em “Macau”.
Já na presente década, o termo “conceptual” funcionou num nível diferente, já não ao nível da música mas do método de formação dos grupos. É o período das superbandas, com os músicos de maior nomeada em constante rotação de uma para outra formação e as editoras numa busca desenfreada de “novas” propostas, segundo uma estratégia de reciclagem que veio pôr a nu a escassez, entre nós, de ideias realmente inovadoras. É neste sentido que surgem nos últimos anos em Portugal “conceitos” como Moby Dick, LX-90 ou Piratas do Silêncio, sendo o mais consistente e o que maior sucesso obteve em termos de venda os Resistência. Mesmo assim, ainda houve quem se desse ao trabalho de procurar um tema que desse pano para mangas à criação musical. Júlio Pereira andou pelas galerias a ver quadros, escolheu os que mais gostou e fez um álbum onde as cores e as imagens se confundem com os sons: “Janelas Verdes”. Menos trabalho teve Rui Veloso, que se limitou a compor, por encomenda da Comissão dos Descobrimentos, o seu “Auto da Pimenta”, obra subordinada à mesma temática de “Por este Rio acima”, mas que teve a vantagem de levar a chancela “oficial”. Trabalho de monta, e com resultados altamente positivos, teve o letrista Carlos Tê, a quem devem ser endereçados os maiores louvores pela adaptação e recriação dos textos originais.
Outro exemplo, último até ao presente, no qual os textos funcionaram como motor e ponto de partida do trabalho criativo é o disco de Vitorino (autor cujo álbum, mais antigo, “Leitaria Garrett”, estava já próximo de um trabalho conceptual, neste caso uma série de recordações ligadas ao estabelecimento referido no título) composto sobre textos de Lobo Antunes: “Eu que me Comovo por tudo e por nada.” Para além dos casos apontados, o “conceito” dominante tem sido o do deserto. De ideias e de argumentos.