Arquivo da Categoria: Progressivo

Cluster – “Zuckerzeit”

Pop Rock

21 de Junho de 1995
álbuns poprock
reedições

Cluster
Zuckerzeit

TEMPEL, IMPORT. SYMBIOSE


cluster

Já aqui escrevemos várias vezes sobre o grupo e sobre a sua influência crescente no panorama da música electrónica actual. O duo formado por Dieter Moebius e Hans-Joachim Roedelius antecipou em meia dúzia de anos a estética industrial, antes do seu encontro com Eno o levar para a área do ambientalismo romântico. “Zuckerzeit”, de 1974, é um álbum de transição entre a fase industrial dos dois primeiros trabalhos (dos quais o fantástico “Cluster II, de 1972, esteve igualmente disponível pela Symbiose, tendo entretanto esgotado) e os posteriores “Sowiesoso” e as duas colaborações com Eno, “Cluster & Eno” e “After the Heat”, todos com importação nacional.
Era o tempo de transformar a fábrica num parque de diversões e foi isso que os Cluster fizeram, montando pequenas peças movidas por motores a diferentes velocidades. Maquinismos de precisão pintados em cores de feira popular, cobertos de “confetti” e “chantilly”. Do metal nasciam flores e dos sintetizadores, que nos Harmonia (os Cluster com Michael Rother, dos Neu!) recuperaram a sua disciplina militar, brotavam ritmos de brinquedo. Um álbum fora de todos os géneros e uma prova de que a música electrónica alemã dos anos 70 não era apenas a grande divagação cósmica da escola planante. (8)



Area – “Arbeit Macht Frei” + “Caution Radiation Area” + “Crac!” + “Maledetti”

Pop Rock

19 de Junho de 1995
álbuns poprock
reedições

Área de descontaminação

AREA
Arbeit Macht Frei (8)
Caution Radiation Area (9)
Crac! (8)
Maledetti (Mauditis) (7)

Cramps, distri. Megamúsica


area

Ao contrário do que aconteceu na Alemanha e em França, nos anos 70, onde a corrente progressiva proporcionou, na Alemanha, o aparecimento de correntes autónomas, como a escola planante, e, em França, o despontar de grupos como Magma, Clearlight, Etron Fou Leloublan ou Lard Free, possuidores de linguagens singulares, em Itália a situação tomou rumos diferentes. A vaga progressiva criou neste país dependências fortes em relação aos ingleses, acontecendo que a grande maioria dos grupos italianos desta década seguiu os modelos de quatro grupos principais, a saber, Vand Der Graaf Generator, Genesis, King Crimson e Emerson, Lake & Palmer. É contra esta situação que se insurgem as três principais excepções, Picchio dal Pozzo, Stormy Six (membros da cooperativa internacional Rock in Opposition) e Area. Características comuns a todos eles são o radicalismo formal e um discurso pró-anarquizante, sinal de afirmação e de independência estética e políticas relativas aos seus congéneres anglo-saxónicos. Os Area – que contabilizam, se a memória não nos trai, pelo menos três actuações no nosso país – distinguiram-se de imediato com o álbum de estreia, “Arbeit Macht Frei” (“O trabalho dá liberdade”, inscrição que se podia ler à entrada dos campos de concentração nazis), aquele que está mais próximo do rock, onde a voz operática de Demetrio Stratos (entretanto falecido) dissecava os mecanismos da sociedade ocidental contemporânea, no meio de uma selva de electrónica “free” criada por Patrizio Fariselli e a guitarra, aqui bastante frippiana, de Gianpaolo Tofani. O tema de abertura, “Luglio, Agosto, Settembre (nero)”, com a utilização de fitas de música árabe, antecipava em alguns anos a explosão da “world music”. O álbum seguinte, “Caution Radiation Area”, de 1974, empreende a fusão da electrónica com as vias de improvisação abertas pelo “free jazz”, assumindo-se por inteiro como um momento de experimentação e provocação, atitude que é lavada ao extremo no último tema, “Lobotomia”, sete minutos de broca de dentista aplicada ao cérebro, de audição quase insuportável. Em “Crac!”, de 1975, o trabalho do grupo mais divulgado e vendido entre nós, os Area aproxima-se de um “jazz-rock” mais convencional, aqui cortado por uma canção irresistível, “Gioia e rivoluzioni”, onde, pela ironia, fazem jus à sua designação de “International Popular group”. “Maledetti”, de 1976, exercício libertário e esotérico inspirado no poeta romântico “maldito” Charles Baudelaire, introduz a nota do terror e da manipulação mental e ideológica (impossível escutar sem um frémito de medo um tema como “Gerontocracia”). Manipulação que os próprios se encarregam de demonstrar e recontextualizar na sua “versão” de um excerto do terceiro concerto brandeburguês em sol em sol maior, de Bach, transformado num “Massacre di Brandeburgo”. O tema final, “Caos”, com a participação do sax soprano de Steve Lacy e as percussões de Paul Lytton, é significativo do horizonte último dos Area. O compacto inclui ainda excertos de uma entrevista com os elementos do grupo, após um concerto de 1976 em Milão, onde estes analisam as reacções de repugnância do público, com quem sempre procuraram a interactividade, mesmo se baseada no pânico. A partir deste disco e até ao final da carreira, os Area tornaram-se aos poucos numa banda de jazz-rock exemplarmente tocado mas já sem o odor acre do perigo.



The Incredible String Band – “Earthspan” + “No Ruinous Feud” + “Hard Rope And Silken Twine”

Pop Rock

3 de Maio de 1995
álbuns poprock
reedições

A INCRÍVEL SERIEDADE

INCREDIBLE STRING BAND
Earthspan (7)
No Ruinous Feud (4)
Hard Rope and Silken Twine (5)

Edsel/Island, distri. Megamúsica


isb

Os Incredible String Band são hoje uma espécie de lenda. Há quem lhes chame pioneiros da “world music” mas a sua importância histórica não se esgota nessa catalogação, antes radica numa atitude de verdadeiros “outsiders” perante a música. Basicamente, os ISB – desde sempre um núcleo duro formado por Mike Heron e Robin Williamson, este último tornado hoje num nome respeitável da “folk” escocesa – juntaram a vertente “Folky” muito em voga a partir de meados da década de 60 com a vaga de fundo do psicadelismo surgida mais ou menos na mesma altura. Ainda nos anos 60, os ISB gravam dois álbuns marcantes, “The Hangman’s Beautiful Daughter” e o duplo “Wee Tam and the Big Huge”. Muito do fascínio que envolve estes discos (aos quais poderemos ainda juntar outro duplo, “U”, uma experiência no entanto algo desequilibrada) vive da liberdade total com que os ISB encaravam a elaboração de cada tema. O termo “canção” faz pouco sentido para definir sequências de poesia e alucinações lisérgicas que tanto podiam durar alguns segundos como estender-se por longas “suites” de dez e quinze minutos. Era, no fundo, a adopção de estruturas formais não-ocidentais aplicadas ao formato pop, o que resultou numa espécie de histórias musicadas onde a riqueza expressiva dos textos casava de modo sempre imprevisível com o exotismo dos arranjos e da inspiração de momento. Na prática, tudo cabia na música dos ISB. Os anos 70 – correspondentes à passagem da Elektra para a Island – marcaram uma viragem, na medida em que o grupo normalizou o seu discurso, adaptando-se a normas de composição mais convencionais, ao mesmo tempo que o lado “naïf” e “hippie” – garantido em grande por duas raparigas, Rose Simpson e Licorice – desaparecia. Há ainda assim dois álbuns fabulosos editados nos primeiros anos da década de 70, a banda sonora para um documentário naturalista, “Be Glad fo the Song has no Ending” e “Liquid Acrobat as Regards the Air”. Refira-se entretanto que de todos os álbuns até aqui citados apenas “U” e “Be Glad…” não têm por enquanto reedição portuguesa em CD. “Earthspan”, gravado a seguir a “Liquid Acrobat”, apresenta ainda relativamente intacta a visão descentrada dos ISB. Heron e Williamson mantinham o “élan” composicional e o álbum inclui pérolas como “Antoine” e “Sunday song”, ambas com a assinatura de Heron, ao lado de três instantes de pura magia, como só Robin Williamson era capaz de criar (aliás Williamson sempre mostrou ser o elemento mais original da dupla, recorrendo a um leque de referências – poéticas e musicais – mais extenso que o do seu companheiro): “Restless night”, “Banks of sweet Italy” e “Moon hang low”, este último um clássico de sempre das noites etílicas ao luar.
A partir daí, os ISB tornaram-se uma banda vulgar. “No Ruinous Feud”, de 73, mostra que o grupo já dominava as regras de funcionamento da canção “normal” mas isso pareceu funcionar em seu desfavor. Tudo o resto tornou-se igualmente normal e previsível. Gravado no mesmo ano, “Hard Rope and the Silken Twine” salva um pouco a face do grupo, com uma composição de Williamson à altura dos seus pergaminhos, “Dreams of no return”, antecipando já a sua futura fase de bardo com os Merry Band, e uma longa composição de Heron, “Ithkos”, inspirado no folclore grego, mas que não consegue escapar aos clichés do rock sinfónico, soando amiúde como um “pastiche” dos Procol Harum.