Arquivo da Categoria: Progressivo

Shakti – “Remember Shakti”

Sons

23 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK


Shakti
Remember Shakti (7)
2xCD Verve, distri. BMG


sh

Lembram-se dos Shakti? Nós lembramo-nos. Extintas as fusões de jazz-rock pioneiras dos Mahavishnu Orchestra (nas quais era já visível uma orientação em direcção ao misticismo das doutrinas indianas), John McLaughlin, um dos guitarristas mais rápidos e intensos do universo, criou, em meados dos anos 70, os Shakti, com Zakir Hussain (tabla, outras percussões e voz), Kakshminarayana Shankar (violino, viola de arco e voz) e V. H. “Vikku” Vinayakram (ghatam, um tambor bojudo em barro). Em três álbuns, “Shakti with John McLaughlin” (ao vivo, 1976), “A Handful of Beauty” (1976) e “Natural Elements” (1977), o grupo fundiu de forma natural elementos ocidentais e orientais, criando uma espécie de “raga rock” acústico onde o virtuosismo instrumental de todos os elementos era uma constante. Após um breve ressurgimento em 1985 para uma digressão ao vivo, o grupo voltou a extinguir-se para há dois anos regressar para nova digressão, desta feita pelo Reino Unido, por ocasião do 50º aniversário da independência da Índia e do Paquistão, com uma formação idêntica à original, sem o violinista, mas com a presença do convidado, mestre do bansuri (flauta), Hariprasad Chaurasia. Ideal para meditação ou, simplesmente, para acompanhar todas as subtilezas de execução dos quatro instrumentistas (a que se junta ocasionalmente Uma Metha, na tampura), as cinco longas composições de “Remember Shakti” (os 33 minutos de “Chandrakauns” só são batidos pelos 63mn de “Mukli”) dispõem da eternidade para se fazerem ouvir, de preferência em posição de ioga. Música fora do tempo e do espaço (ou criadora de um outro tempo e de um outro espaço), a música dos Shakti é um rio. Neste caso apenas perturbado pela interrupção, demasiado frequente, das palmas do público.



Vários – “Buffalo ’66 (banda Sonora original)”

Sons

30 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK


Vários
Buffalo ’66 (banda Sonora original) (7)
Milan, distri. BMG


b66

“Buffalo ‘66” começa com “Lonely boy”, uma vocalização feminina de jazz etéreo, com a mesma sensualidade fria de Annette Peacock, composta pelo próprio Vincent Gallo, que, de resto, assina a quase totalidade dos temas da banda sonora do filme. “Fools rush in” salta directamente de um disco em vinilo riscado, vocalizado pelo pai do realizador, num standard de Rube Bloom e Johnny Mercer.
Outro tema que escapa à linha mais mainstream das bandas sonoras originais é “Drowning in brown”, hip hop industrial em contraste com o tom mais retro da restante música. Stan Getz aquece com o seu saxofone tenor “I remember when”, mas o tema que parece estar a espantar toda a gente pertence aos “dinossauros” Yes, através da sequência instrumental que abre “Heart of Sunrise”, tema do álbum “Fragile”, de 1971. Curiosamente, neste tema, que no disco aparece com a sua duração total de 10m34, são evidentes as semelhanças com os King Crimson, outra das bandas clássicas do progressivo inglês dos anos 70 que também se faz representar com um tema nesta banda sonora, a balada “Moonchild”, retirada do álbum de estreia do grupo, “In the Court of the Crimson King”, editado em 1969. Os Yes contribuem ainda com “Sweetness”, uma das primeiras, senão mesmo a primeira, canções compostas pela banda, antes da sua estreia a 33 rotações com “Yes”, de 1969. Um curioso anacronismo que ajuda a lançar uma nova luz sobre um dos períodos mais subestimados da música popular.



Shannon Wright – “****Flightsafety”

Sons

18 de Junho 1999
DISCOS – POP-ROCK

Voo nocturno

Shannon Wright
****Flightsafety (8)
Quarterstick, distri. MVM


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Desconhecida entre nós, Shannon Wright estreia-se no mercado português com um álbum, a vários níveis, notável. Impressiona, de imediato, no tema de abertura de “****Flightsafety”, “Floor pile”, as semelhanças com o despojamento e a catarse emocional de Kristin Hersh. A mesma voz de criança perdida num pesadelo, a mesma guitarra acústica obcecada por uma cadência minimalista levam-nos num voo nocturno e agitado pela turbulência. No tema seguinte, “All these things”, a voz e o tom emocional aproximam-se da zona iluminada entre a fogueira de Suzanne Vega e o sorriso desagasalhado de Hersh, numa valsa de espectros dançando sobre a cauda de um piano disforme.
Há profundidade e densidade nas canções através das quais Shannon Wright vai revelando o seu mundo interior. “Rich hum of air” propõe o catecismo do progressivo para o ano 2000 – através dos lugares esquecidos onde deambulam os Genesis de “Nursery Cryme”. A guitarra, o órgão de enfermaria, o rufo dos tambores recordam Alice e o jogo de críquete com cabeças humanas. O carrossel funciona no território do puro surrealismo, ao som de um órgão de feira, na introdução de “You´re the cup”, onde a voz de Shannon Wright demonstra todas as suas potencialidades na arte da flutuação de registos e entoações. No ventre de um túnel habitado pelas criaturas das trevas.
“Twilight hall” passa pelo filtro de um piano a ressoar numa caixa de medo e “Captain of the quarantine” atrai o mesmo tipo de aves de rapina e a palidez vocal de Stina Nordenstam. E que raio fazem os Pink Floyd no meio de “Holland”? Ou a guitarra de Gordon Giltrap em “Hobos on parade”, o sonho mágico de todos os vagabundos. Outra valsa, “Yard grass” é absolutamente irresistível, antes de uma rajada de pseudoflamenco em fúria a pôr a ferro e fogo. “****Flightsafety” termina numa nota de classicismo, com o cunho de interiorização que Peter Hammill imprime ao seu teatro psíquico.
Mas quem é esta cantora que, de um só golpe, se veio juntar ao grupo das compositoras-intérpretes eleitas a que pertencem, além de Vega e Hersh, Liz Phair, Lisa Germano e P. J. Harvey? Depois de uma passagem pelo grupo Crowsdell, da edição, por conta própria, de uma série de singles, da aventura de uma digressão solitária e da troca de Nova Iorque por uma cidade esquecida do Sul, Shannon fechou-se num pequeno estúdio no Alabama, onde, com o recurso a um gravador de quatro pistas e a um arsenal de instrumentos tocados por ela própria, gravou, arranjou e misturou a colecção de temas que compõem “****Flightsafety”. Um álbum que cresce a cada audição, com as participações de Joey Burns, dos Calexico, e Sibal Firat e Eric Bachaman, dos Archers of Loaf.