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Vários – “‘INDIES’ CONTRA A PULVERIZAÇÃO” (feira de editoras Seixal – presente)

pop rock >> quarta-feira >> 22.03.1995


“INDIES” CONTRA A PULVERIZAÇÃO



PELO MENOS 14 SELOS INDEPENDENTES JÁ SE INSCREVERAM no Indies Forum, primeiro encontro nacional de editoras discográficas independentes, que decorrerá no fim-de-semana de 24 a 26 deste mês, no Seixal, uma iniciativa integrada no Festival da Juventude, de genérico Março Jovem, deste concelho, com organização da Antena Portuguesa do Printemps de Bourges, Ama Romanta, Farol, El Tatu, Música Alternativa, Dark Records, Drunk Records, Margem Esquerda, MTM, Projecto Gloobal, Morgana Records, Symbiose, MoneyLand, Johnny Blue e In-Édita vão deste modo estar representadas “pessoalmente, através dos seus editores”, ao mesmo tempo que têm garantido “um espaço de exposição, onde vão estar os discos para serem vendidos”, diz Tim, o vovalista dos Xutos & Pontapés, proprietário do selo El Tatu e um dos organizadores do encontro.
“Juntar as pessoas e tentar encontrar caminhos comuns” para as editoras independentes é o principal objectivo deste certame, que, entre concertos e debates abrirá, na sexta-feira, com uma actuação do pianista Mário Laginha. Será também a oportunidade para “a divulgação das editoras e dos seus projectos musicais”. Segundo Tim, “já houve avanços de propostas” a apresentar à mesa, onde serão discutidos temas como a colocação, distribuição e venda de discos, em Portugal e no estrangeiro, neste caso em “feiras e mostras que estão à espera de uma apresentação de catálogos nacionais”. Algo que, “isoladamente, é impossível de atingir”.
A criação de uma estrutura associativa para os selos independentes é, em concordância com estes objectivos, outra das ideias que serão lançadas e debatidas neste fórum, uma vez que Tim gostaria que se fizesse a discussão sobre “se vale a pena utilizar as estruturas já existentes” ou se, pelo contrário, é desejável “fazer uma associação à parte, em concorrência”. “A tendência para a pulverização chegou a um limite”, diz Tim, se bem que recuse a solução simples de “importar os modelos completos, americanos ou ingleses”, em que as independentes são nalguns casos subsidiárias das grandes companhias. “Aqui em Portugal, o que aconteceu sempre que as multinacionais tentaram distribuir editoras independentes foi que as coisas correram mal para estas últimas. Os volumes de vendas nunca foram significativos. Embora agora se comece a ver a coisa por outro lado, em que não é só a venda que precisa de ser incentivada, mas também um outro tipo de trabalho.”
“Vamos entrar num degrau da escada que talvez faltasse ou estivesse um pouco subvertido. Por isso mesmo é que todas estas pequenas editoras têm de tomar conhecimento do que vai acontecer”, explica o músico, atento aos problemas que quase sempre envolvem a gravação dos primeiros discos de bandas novas. Preocupação esta que, aliás, está na base da criação da El Tatu, responsável pelo lançamento, entre outros nomes, dos Ex-Votos, Ena Pá 2000, Lulu Blind, Censurados e Tomás Pimentel.
O Indies Forum inclui, no sábado à noite, na Sociedade Filarmónica Operária Amorense, um espectáculo com a designação “Interferências”, em que irão tocar os Bizarra Locomotiva, Corrosão Caótica e More República Masónica (ver notícia nas primeiras páginas). No domingo, ao longo de todo o dia, será a vez de bandas menos conhecidas mostrarem o que valem, num palco de rua, e incluindo-se numa maratona que contará com a colaboração do Johnny Guitar.

Everything But The Girl – “Everything But The Girl Afagam No CCB – Corações De Geleia” (concerto)

cultura >> segunda-feira, 13.03.1995


Everything But The Girl Afagam No CCB
Corações De Geleia


Foi uma actuação pausada, suave, bastante suave, excessivamente suave até, a dos Everything But The Girl num CCB à cunha e disposto a ir ao embalo. Tracey Thorn e Bem Watt fizeram festinhas nos ouvidos. Ficou toda a gente a fazer “ronron”.

Há alturas em que um homem só tem vontade de ouvir o ruído de esferovite a raspar contra o vidro. O concerto dos Everything But The Girl no Centro Cultural de Belém (CCB), sábado á noite, primeiro de uma minidigressão pelo nosso país que hoje leva o grupo a Braga, ao Teatro Circo, e amanhã se concluirá no Coliseu do Porto, foi uma dessas alturas. Ao longo de cerca de uma hora e um quarto, o casal formado por Tracey Thorn e Bem Watt – os dois desamparados, , ao contrário da actuação do ano passado em que tiveram a boa companhia do contrabaixista Danny Thompson – presenteou uma plateia que esgotou o CCB com canções de uma delicadeza extrema cuja principal característica é deixar os corações a tremer como geleia.
Tracey Thorn e Ben Watt, figuras franzinas, têm aquele “charme” das pessoas que estão ali mas podem desfalecer a qualquer momento. Ele veio de “T-shirt” branca e ténis. Ela, de minivestido a imitar pele de leopardo e botas, armada com uma sensualidade de tipo específico, evidente nos movimentos de trás para a frente do corpo, a tentar manter o equilíbrio, ao mesmo tempo que cantava num registo semelhante ao de Joni Mitchell há 20 anos.
A actuação dos Everything But The Girl foi, apesar de tudo, variada e recheada de episódios emocionantes. Houve canções em que ele cantou sozinho, outras em que cantou só ela, outras ainda em que cantaram os dois, por sinal bastante afinados. Tocaram os dois guitarra mas nem sempre. Às vezes revezavam-se. Entregaram-se de alma e coração, mas sempre com cautela e em passinho curto, a canções de álbuns como “The Language of Life” ou do recente “Amplified Heart”, o tal com músculo, mas em estúdio, claro. As canções novas recordaram as antigas. Estas, por sua vez, possuem bastantes semelhanças com as mais recentes. As letras, de uma brutalidade por vezes chocante, giraram em volta de um tema imorredoiro, o amor, na sua vertente obscura, tatuado na alma em palavras de fogo como “My love, I’ve been waiting for you for so long”.
Watt dedilhou na guitarra a maior parte do tempo ao ritmo da bossa-nova, estilo que tem marcado desde início a música do duo. O público, dando mostras de excepcional capacidade analítica, conhecia de cor praticamente todas as canções, aplaudindo logo às primeiras notas. Aliás, um dos momentos mais significativos de ternura manifestada pela plateia para com os Everything But The Girl ocorreu no aplauso espontâneo a Bem Watt quando este soltou um “Hi” de cumprimento, com toda a convicção.
A excitação atingiu o climax, não numa intervenção mais intempestiva de qualquer dos vocalistas, nem com a queda de algum deles, mas no choro de protesto de uma criança (“não era suposto estar em casa a esta hora?”, exclamou Tracey Thorn) e no “bip” de um relógio electrónico a rasgar uma pausa de angustiante silêncio na prestação dos EBTG. Em matéria de conteúdo musical propriamente dito, a adrenalina descongelou em “Sunday morning”, um tema de Lou Reed dos anos malditos dos Velvet Underground, e em “25th December”, de “Anplified Heart”.
Bonito foi também ouvir Tracey cantar num português bastante fluente o clássico da bossa-nova, “Corcovado”, de Tom Jobim, no fecho do concerto, arrancando mais uma revoada de aplausos de um público que levou a banda nas palminhas. Dois “encores”, sempre no mesmo registo de melodia-beijinho, deram por fim descanso ao descanso. Decididamente, embora tenham cara disso, os Everything But The Girl não são nenhuns “boxeurs”.

Entre Aspas – “Entre Aspas Ainda Em Março – PÓS-RESSACA”

pop rock >> quarta-feira >> 01.03.1995


Entre Aspas Ainda Em Março
PÓS-RESSACA



deverá sair ainda em Março o segundo álbum dos Entre Aspas, com o título “Lollipop” e selo BMG. O novo disco deste grupo algarvio constituído por Viviane, António e Nuno, com a colaboração sistemática de Luís Sampaio e Filipe Valentim, marca, segundo os seus elementos, uma evolução relativamente à estreia “Entre S. F. F.”, e é caracterizado por uma “maior batida de rock”.
Para trás ficou a participação no projecto Filhos da Madrugada, no qual os Entre Aspas asseguraram a interpretação de “Traz outro amigo também”. Um marco importante na carreira do grupo, ainda que fosse o tema “Criatura da noite”, retirado do disco de estreia, o que consideram ter sido mais bem recebido. “Ouviu-se bastante, embora as pessoas talvez não o tenham associado ao nome da banda.”
Em relação a José Afonso, sentem “uma grande afinidade”. O guitarrista Tó lembra-se mesmo de, “quando era puto”, ter “tocado músicas como o “Venham mais cinco”. Também Viviane, nascida em França, afirma que “começou a perceber um certo número de coisas” ao tomar contacto com a obra do autor de “Maio maduro Maio”, no qual tanto ela como os restantes elementos da banda reconhecem a importância de uma “mensagem interventiva” capaz de fazer “as pessoas abrirem os olhos”: “Se pegarmos nas letras e nas músicas do Zeca, encontramos logo qualquer elo de ligação com a vida actual.”
“Algumas das nossas letras também têm algum significado a nível social, embora com um certo lado de fantasia”, conclui Viviane, que divide com o Nuno a autoria dos textos dos Entre Aspas.
Revelando algumas preocupações a nível dos arranjos e de uma certa sofisticação formal, os Entre Aspas não recusam certos pontos de filiação na estética dos anos 70. “Revivalismo, não!”, garantem, “mas de facto nessa altura houve ideias que marcaram muito as pessoas, como a liberdade espiritual, uma maior criatividade. Nos anos 90, as pessoas talvez estejam a ver as coisas todas de uma forma muito escura, sem saída.”
Os Entre Aspas recusam este negativismo e declaram-se uma banda optimista que, em particular nos concertos, procura libertar quem a ouve do fardo do dia-a-dia. “Não queremos ver à nossa frente pessoas a pensar nas contas que têm para pagar.” A agenda não está para já, neste aspecto, muito carregada, mas a saída do disco poderá inverter a situação. “Só temos um álbum que ainda por cima já saiu há dois anos. Estamos um bocado na fase da ressaca. Mas agora que vai aparecer o novo álbum as coisas vão começar a andar novamente e com mais força.”
A dedicação exclusiva à música tem implicado para o grupo algumas dificuldades de sobrevivência, mas não é isso que os vai fazer desistir, até porque, como dizem, “neste país, se uma pessoa não se deicar a cem por cento a isto, é muito difícil conseguir alguma coisa”.
“Lollipop” foi programado a longo prazo. Falta esperar pelos resultados. Como diz Viviane, “em Portugal é um bocado estranho: as coisas pegam ou não pegam. Da nossa parte, temos inteira confiança. Demos ao disco toda a nossa energia”.