Arquivo da Categoria: Industrial

F. M. Einheit – “Stein”

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

CORAÇÃO DE PEDRA

F. M. EINHEIT
Stein

LP e CD, Some Bizarre, import. Contraverso/Bimotor

fmeinheit

“Vamos acabar com isto de vez”, era até há bem pouco tempo o lema dos niilistas berlinenses Einstuerzende Neubauten. “Isto” significa o mundo e a sociedade em geral, e a música em particular, que a banda de Blixa Bargeld parecia especialmente empenhada em destruir, à custa de golpes de serra eléctrica e martelo-pilão. A música resistiu estoicamente aos ataques destes assassinos em potência que, pelo meio, gravaram discos excelentes, como recente “Haus der Luege” faz questão de provar. Menos radical que Blixa parece ser F. M. Einheit, um dos pilares da banda germânica, decidido a experimentar novos caminhos e sonoridades menos próximos do apocalipse sónico característico do colectivo.
Não que Einheit se mostre interessado em investir no campo oposto, em suavidades ou tentações melódicas, aqui de todo ausentes. Pelo contrário, é ainda e sempre a violência que faz valer os seus direitos, apoiada no ritmo, por vezes avassalador, ou nas potencialidades tímbricas do ruído, às vezes mesmo na exploração do espectro sonoro, como as frequências de “Hafen”, vibrando nos limites do audível.
Onde “Stein” (pedra) se afasta da estética Neubauten é na recusa da carnificina, do caos, da pistola encostada à testa, tão ao gosto de Blixa, o perverso, optando em vez disso por registos mais controlados mas não menos perturbantes. A própria panóplia percussiva geralmente utilizada pela banda (bidões, peças de metal, objectos vários) desvaloriza-se em detrimento das programações rítmicas do computador – maquinismos automáticos implacáveis que alguém se esqueceu de desligar.
“Stein” começa por surpreender: “Educação” (cantado em português sem sotaque abrasileirado, por uma tal Katharina Franck que ou nos enganamos muito, ou terá uma costela lusitana) pretende ser um exercício de funk com botas marciais a que as palavras estrangeiras acrescentam um toque de exotismo. Para nós, “portugas”, soa mais a Adelaide Ferreira numa “soirée” ao lado dos DAF. No capítulo das (escassas) participações vocais, registam-se ainda as presenças da fantasma da ópera Diamanda Galas, em “Hymne (Witch burn)” e de Blixa Bargeld, em “Homeless”.
O resto de “Stein” desenvolve-se em sombrias incursões por universos rítmicos computorizados onde as únicas vozes que se fazem ouvir são as dos samplers, sejam as de multidões fanáticas urrando ao apelo hitleriano (“Das Ende einer Diskussion”), ou de uma criança balbuciando que “Batman brät Fische”.
Caspar Brӧtzmann (filho do expoente do free jazz Peter Brӧtzmann) e Alexander Hacke (dos Neubauten), ambos na guitarra, Ulrike Haage (acordeão) e Jan Schade (violoncelo) acrescentam um pouco de calor a uma música por essência e vocação pouco preocupada com a vil condição humana. O disco inclui uma espécie de homenagem, “Tribute to Cheb Mani”, dentro da mesma estética de aço inoxidável e do já citado “Das Ende Einer Diskussion”, “suite” que até ao fim se ocupa em exorcizar mais meia dúzia de fantasmas herdados do nazismo. F. M. Einheit tem um coração de pedra. À semelhança de “Wild at heart” – de novo o horror que nos fascina. ****

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Front 242 – “Tiranny For You”

Pop Rock

6 FEVEREIRO 1991

FRONT 242
Tyranny for you

LP e CD, Play it Again Sam, distri. Contraverso

front242

Em sintonia com os tempos que correm, existem pressupostos ideológicos ambíguos, subjacentes à produção artística deste quarteto belga, em actividade desde 1981. Para D. Bressanutti, P. Codneyz, J. L. de Meyer e Richard J. K. o rótulo “electronic body music” serve de pretexto para desenvolver todo um discurso aparentemente militarista e totalitário. Ao longo dos cinco álbuns que contam no activo, a estratégia tem-se mantido praticamente inalterável: utilização sistemática de ritmos electrónicos maquinais (parece que meia Europa aprendeu, melhor ou pior, a lição dos Kraftwerk…), atravessados por vozes e ruídos samplados, sobre os quais o vocalista humano vai enumerando todas as misérias do mundo contemporâneo. Dá para dançar.
Dos temas preferidos dos rapazes consta o dos jogos de poder, relação senhor-escravo, do tipo chicotes e cabedal negro. Conseguiram minimamente perturbar-nos em “Official Version”, até à data o seu melhor trabalho.
Depois limitaram-se a repetir a fórmula, procurando novas soluções que teimam em não aparecer. Neste novo registo limitam-se a fabricar ritmos sobre ritmos e a berrar mais umas tantas palavras de ordem. O problema dos jogos de poder está em que a vítima acaba inevitavelmente por ser o suposto senhor. Sadomasoquistas ou militaristas, os Front 242, de momento, também lambem as feridas e marcam passo. **

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Badland (editora): O Cântico dos Electrões

Pop Rock

 

1 MAIO 1991

 

O CÂNTICO DOS ELECTRÕES

 

O catálogo francês Badland, especializado em música electrónica, passou a ter representação em Portugal, através da Ananana, colectivo apostado em divulgar os sons alternativos que vão surgindo um pouco por todo o planeta. Os discos, capazes de fazer as delícias dos amantes dos “bits” e “bites” musicais, podem ser obtidos via postal.

Do programa de intenções da Badland, que prevê apenas a edição de discos compactos, consta a gravação e distribuição de obras incidindo nas diversas áreas da denominada “new music” – do rock alternativo às músicas electrónica, minimal, progressiva, repetitiva, “new wave”, industrial, “funk” e étnica. Para já, os seis volumes até agora editados incluem-se no território vasto da electrónica e reflectem, segundo a própria editora, “uma alteração de tendências no mundo da música”. Passemos em revista os discos em questão, do primeiro ao mais recente.

Robert Rich cria música capaz de provocar estados físicos e psíquicos de relaxação, propícios ao sonho e à contemplação. Do seu currículo fazem parte uma obra de nove horas ininterruptas de música electrónica, baseada em “ondas vibratórias que induzem ao sono”, e uma escultura “quadrifónica com três ‘lasers’ apontados a uma fonte”. Integrou grupos de música ritual/industrial e “rítmica minimal”. “Numera” estende-se por atmosferas oníricas, vibrando em cristais de silêncio no interior de uma imensa catedral. Avançando para além do conceito “ambiental”, Robert Rich prolonga os transes hipnóticos de Klaus Schulze até os diluir no espaço estelar. O disco, construído sobre “sistemas de entoação precisa”, dá uma atenção particular às “séries harmónicas”, o que não chega para nos tirar o prazer da sua audição.

Dos seis discos, “Flow” é o mais fraco do lote. Praticantes de “high-tech dance music”, os Quiet Force são óptimos a demonstrar as possibilidades da nova tecnologia áudio. Os computadores e sequenciadores não têm segredos para eles. Falta-lhes conhecer o mais importante: saber transformar a luxúria digital em música interessante e inovadora.

“Traces”, do compositor norueguês Erik Wollo, figura desde já como uma obra-prima definitiva das novas correntes da música electrónica. “Ambiental”, “romântica”, “impressionista”, “étnica”, são outras tantas designações incapazes de descrever e englobar a riqueza e sobrenatural beleza de uma música que parece mover-se noutras esferas. Erik Wollo serve-se dos sintetizadores e de toda a panóplia electrónica ao seu dispor, como se fossem desde sempre instrumentos da floresta e do mar. Transcendente.

Mais próximo da sensibilidade rock, seja lá o que isso for, “The Secret Convention”, assinado pelos Propeller Island (alter-ego do alemão Lars Strosschen), joga num experimentalismo divertido, aliando os ritmos maquinais dos sequenciadores a atmosferas estranhas em constante mutação, capazes de provocar no auditor um estado de constante surpresa e excitação. Na caixa, somos avisados de que certos efeitos mais bizarros se devem não a um qualquer defeito de fabrico, mas à própria estrutura musical.

Conrad Schnitzler, um dos fundadores da escola “planante” berlinense dos finais da década de 60, integrou a formação original dos Tangerine Dream, ao lado de Klaus Schulze e Edgar Froese. Mais tarde passou pelos Cluster (de Dieter Moebius e Joachim Roedelius). Trabalhou com Peter Baumann (outro ex-Tangerine Dream, actual responsável pela editora Private Music). Detentor de uma já extensa discografia a solo, ou em dueto com o experimentalista americano Gen Ken Montgomery, sob a designação “Gencon”, Conrad Schnitzler tem, contudo, em “Constellations” a sua primeira edição em CD. Música dita “de computador”, “Constellations” viaja durante mais de uma hora pelo interior de uma “realidade virtual”, alucinatória e deslumbrante, sensibilizando o auditor para novas formas de sentir e compreender a organização dos sons.

“Solo: Observed” – título estranho para a música do duo Becker/Lehnhoff composta exclusivamente através de processos computorizados, dificilmente se descreve por palavras. Há quem se lhe refira como uma “pintura surrealista de Berlim no ano 2000”. Gravado nesta cidade, com o auxílio de Chris Franke (ainda um ex-Tangerine Dream…), “Solo: Observer” explode em múltiplas direcções. Ritmos rock, fragmentos de vozes e sons transformados via “sampler”, naipes orquestrais sintéticos, entrelaçam-se e colidem entre si, criando um universo paralelo cuja lógica obedece exclusivamente aos arquétipos significantes do inconsciente.

“Polyrische variationen”, do alemão Stefan Tiedje (a Alemanha sempre à frente, no capítulo da música electrónica), revela-se uma obra mais conceptual, mas não menos interessante. Um dos temas (“The Voice”) é construído a partir de um “sample” da voz de Diamanda Galas. Outro (“Water you Have for”), criado em 1987, para o Festival “White Waves”, utiliza tratamentos electrónicos de sons oceânicos. “Murmelmusik”, declaradamente ambiental, procura, nas palavras do compositor, criar “um efeito semelhante ao murmúrio do riacho”.

Refira-se por último que na Ananana se podem encontrar obscuras preciosidades, em álbuns de Asmus Tietchens, Blackhouse, Esplendor Geometrico, Jeff Greinke, Jorge Reyes, Roedelius, Mecanica Popular, Pascal Comelade, Peter Frohmader, PGR, Reyvision, Thomas Koener ou Vasilisk, alguns de entre muitos nomes e mundos a descobrir (Ananana, apart. 3164, 1304 Lisboa).

quiet force – flow – aqui