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Egberto Gismonti – “Egberto Gismonti Compõe Para Novo Espectáculo De Ricardo Pais – ‘Onde Ninguém Ri Nem Chora Sozinho'” (entrevista)

cultura >> sexta-feira, 19.11.1993


Egberto Gismonti Compõe Para Novo Espectáculo De Ricardo Pais
“Onde Ninguém Ri Nem Chora Sozinho”

A sobrevivência da humanidade passa pela sobrevivência da Amazónia, diz o compositor brasileiro Egberto Gismonti, que Ricardo Pais convidou para musicar a leitura de Luísa Costa Gomes dos “Sermões” do Padre Vieira. Em “Clamor”, espectáculo a estrear até Março de 1994 incluído na programação de Lisboa 94.

Com a mesma convicção com que defende o actual Governo brasileiro e ataca a inconsciência e os interesses estrangeiros na Amazónia, Egberto Gismonti faz da sua música um manifesto poético em defesa de uma causa que é universal. A música que fará para os “Sermões” voltará a falar de uma questão que é de princípio e de sobrevivência.

PÚBLICO – De que modo se processou a sua leitura, do ponto de vista do compositor, dos textos do Padre António Vieira?
EGBERTO GISMONTI – Li-os e reli-os no Brasil. Seria impossível não gostar dos “Sermões” de Vieira. Aliás nós conhecemos Vieira no Brasil ao ponto de adoptá-lo como brasileiro. Da mesma maneira que gostamos tanto de Fernando Pessoa que já o citamos no nosso quotidiano, também como se ele fosse brasileiro.
P. – Sobre que bases vai escrever a partitura para a peça?
R. – Cerca de noventa por cento da música já está marcada. Isto quer dizer que nos pontos A, B, C, etc temos já um ponto de referência que nos diz que aqui deve haver a música X, do tipo tal. Não foi difícil para um director que conhece e gosta do que eu faço, como é o caso do Ricardo Pais, usar todos esses conhecimentos como sugestão. Acontece que depois de ler o texto no Brasil seleccionei do material que tenho gravado nos últimos dois anos com orquestras sinfónicas cerca de uma hora de música que dei a ouvir ao Ricardo e que ele aceitou imediatamente.
P. – Parece evidente que a temática do missionarismo e das civilizações índias presente nos textos de Vieira foi determinante para a sua chamada, uma vez que este tema tem sido uma constante do seu trabalho, nomeadamente nos recentes álbuns “Kuarup”, “Amazónia” e, de forma mais subtil, no novo “Música de Sobrevivência”. É uma questão vital para si?
R. – Produzi a respeito deste assunto muito menos do que gostaria. Gostaria de ter produzido cem discos!… E que todos eles, independentemente dos direitos de autor, tivessem chegado a 500 milhões de pessoas, porque todos eles tratam do que mais me estimula e sensibiliza nessa cultura: o respeito, a dignidade, o afecto… Felizmente tive a sorte de ver de perto uma sociedade digna, equilibrada onde ninguém sorri nem chora sozinho. É o que me sustenta há 15 anos, desde o meu primeiro contacto com os índios da Amazónia, em 1978.
P. – O texto poético que acompanha 2Kuarup” deu lugar, em “Amazónia”, a outro, bastante mais politizado, no qual o chefe índio Ailton Kernak diz: “Precisamos nos lembrar sempre que as 180 tribos existentes no Brasil hoje são apenas as sobreviventes das 900 nações indígenas existentes quando o branco chegou aqui”. Houve alguma reacção da parte do governo brasileiro?
R. – O Governo está agindo da melhor forma possível, de um ano e meio, dois anos para cá, que é expulsando os estrangeiros da Amazónia. O Governo brasileiro não precisa de explorar a Amazónia…
P. – Mas autoriza que os estrangeiros o façam…
R. – Autorizou. Através dos seus Governos militares e corruptos do passado. Mas à medida que os brasileiros começaram a tomar consciência do problema da Amazónia chegaram à conclusão de que 89 por cento deles eram os estrangeiros. E que os outros 11 por cento, a consequência de brasileiros que procuram a própria sobrevivência. Aí sim, já se trata de um problema social e governamental brasileiro. Mas mesmo esses foram estimulados a ir para regiões da Amazónia para trabalhar pelas grandes indústrias estrangeiras.
P. – No mesmo texto pode ler-se a seguir: “O que nós exigimos é que cada tribo possa ter, dentro do seu território, na sua região, uma proposta de autonomia, de autogestão do seu território e dos seus recursos naturais, estabelecer programas e metas próprias”…
R. – O Governo brasileiro está a ser bombardeado por partidos reaccionários por demarcar as áreas dos índios com a imensidão necessária. Não existe uma questão de merecimento. É uma coisa irrevogável. Na medida em que vocês chegaram ao Brasil, acabou o princípio dos índios. E tudo começou com a invasão – não foi descobrimento, não – que trouxe a reboque os grandes ladrões, ingleses e espanhóis que assaltaram o país desde o início. Vocês até assaltaram pouco…
P. – Qual é afinal o problema principal da Amazónia?
R. – Os problemas reais da Amazónia ficaram demonstrados na ECO 92, a propósito da biodiversidade. O alimento de que este mundo necessita, no século XX, não é de comida mas de medicamentos. Medicamento surgiu sempre da biodiversidade. Não nasce na Floresta Negra na Alemanha, muito bonitinha e boa para tirar fotografia mas que não presta para o ser humano. O problema não está em o brasileiro tomar conta da Amazónia, mas nesses países que a destroem sem nenhum questionamento a ponto de, nessa época, o próprio Presidente norte-americano, George Bush, não ter assinado o acordo sobre a biodiversidade, assim como os ingleses. A sobrevivência do ser humano está determinada pela sobrevivência da floresta. Não se pode sequer falar da expulsão dos índios da floresta, mas dos índios com a floresta. Eles são a mesma coisa.
P. – O seu novo álbum, “Música de Sobrevivência” aborda o mesmo assunto de uma forma bastante mais subtil, em particular na longa litania “Natura, festa do interior”, que surge precedido pelo conselho de leitura, cinco minutos antes da audição, de um belíssimo texto de Manuel de Barros incluído no folheto, “Vesperal de Chuva”…
R. – A música pretende exactamente o mesmo que o texto. O Manuel de Barros fala das coisas que ninguém vê. Meu Deus, ele escreve prosa da melhor qualidade apenas para dizer: “Vai chover!”. Esses cinco minutos são uma sugestão de reflexão. Para dizer que a Vida não é uma linha recta entre dois pontos. Essa é a dos negócios. Para a vida não presta. “Música de Sobrevivência” é o título mais sintético que consegui achar para exprimir as sensações antagónicas que são o desespero, a tristeza, o aborrecimento, a decepção da humanidade e, por outro lado, a força de determinados sectores dessa humanidade para manter animadas e estimuladas a vida e a procura da vida. Sobrevivência é isso.

Hamish Moore & Dick Lee – “Farewell to Decorum” + Obsession – “Et Pourtant Elle Torune”

pop rock >> quarta-feira, 10.11.1993
WORLD


PROPOSTAS INDECENTES

Hamish Moore & Dick Lee
Farewell to Decorum (7)
Greentrax, distri. VGM

Obsession
Et Pourtant Elle Torune (8)
Mustradem, distri. Etnia



Faz sentido a ligação entre o jazz e a música tradicional. Por dentro, pelo lado da improvisação, característica comum a estes dois tipos de música. Em França, sobretudo na Bretanha, é prática corrente. Dos diálogos improvisados entre a gaita-de-foles e a bombarda ou das disputas vocais de canto e resposta é fácil para os novos grupos bretões partirem para a estilização formal e para um discurso marcadamente jazzístico. Nas Ilhas Britânicas, e neste caso na Escócia, a contenção é maior, em parte devido ao facto, de certa forma paradoxal, de a própria estrutura intrínseca da música ser bastante mais fluida, o que permite um sem número de liberdades que dispensam as colagens. As experiências levadas a cabo, nos anos 70, por Ken Hyder e os Talisker, em “Dreaming of Glenisla”, sobre temas tradicionais, ou a aproximação ambiental empreendida por John Surman, em “Westering Home” não deixaram descendência. Com uma colaboração encetada em “The Bees Knees”, Hamish Moore, especialista das “highland” e “border pipes” escocesas, volta a encontrar-se com o saxofonista e clarinetista de jazz Dick Lee. Do reencontro ressaltam uma energia e alegria avassaladoras, impressionando sobretudo as colisões e conversas apaixonadas travadas entre as “pipes” e o clarinete-baixo, num “Third movement of a concerto for bagpipe and jazz orchestra”, em “Malts on the optics / Farewell to decorum” e numa sequência de jigas galegas gravadas ao vivo. A gaita-de-foles solta-se a solo em “Farewell to Nigg”, e Dick Lee, soberbo de força, mostra uma vez mais ser um músico pouco dado à introspecção. A faísca seria maior se neste adeus ao decoro (uma das dedicatórias do álbum vai mesmo para o “hooliganismo musical”…) não pusessem água na fervura o neo-classicismo despropositado de “Autumn Leaves”, a versão folk do som GRP de “Round dawn” e um “The Monster” criado por Lee que se arrasta pelos pântanos da falta de criatividade. Mas tudo acaba embeleza no manifesto guerreiro – urbano – tribal de “12.12.922 (a march for democracy” / “Freedom come all ye”, com a simulação do som de um didjeridu, uma “pipe band” e um naipe de metais empurrados para a revolução pela memória de Hamish Henderson.



“Farewell to Decorum” não é um disco para nos contar segredos, mas um grito que nos vem lembrar o quanto é verdadeira a máxima de Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres”. Eles fizeram-no. Mais e melhor, e com menos alarido, ainda no capítulo da fusão entre a folk e o jazz, fizeram os Obsession. De novo com o clarinete baixo na ribalta e dois acordeões no lugar da gaita-de-foles. A “Trad Mag.” Chamou a Stéphane Milleret e Norbert Pignol, os dois principais solistas do grupo, os Valentin Clastrier do acordeão diatónico. Não são bem, embora certos desenvolvimentos temáticos, como os de “Musique de sabloir”, recordem por certo pormenores da “Héresie”, daquele sanfonineiro recentemente chegado até nós pela Silex. Mas enquanto Clastrier revolucionou a interpretação na sanfona os dois acordeonistas dos Obsession preocupam-se menos comm a exploração das possibilidades técnicas do instrumento e mais com a criação de um estilo inovador que, pelas suas características, está mais próxima de Guy Kluceskek, Astor Piazzola, Pauline Oliveros e Dino Salluzi do que da folk convencional. Os Obsession partem de uma ideia, já de si pouco convencional, do “bal musette”, para deambularem pelo jazz de câmara, em constante visitação por áreas dificilmente identificáveis, ou pelo contrário, bem evidentes, como é o caso de “Mélodie volée au Café Pingouin”, referência explícita aos Penguin Café Orchestra. “Et Pourtant Elle” estende-se por “suites” instrumentais, por vezes bastante longas, que vão tão longe quanto os Balcãs “Manege a eau pour chamelle de bois”). Os dois acordeões repartem o tempo de antena com o violino, a flauta de bisel (não a ouvíamos tão bem tocada desde os tempos de Richard Harvey com os Gryphon), o clarinete e o clarinete baixo, com a cobertura conivente e percussiva de uma dabourka, congas e tom-tons.

Vários (Old Rope String Band, Delyth Evans com Peter Stacey, Jean-Pierre Rasle, John Kirkpatrick e John Gresham. Os Blind Boys of Alabama e Maria João, com Mário Laginha e Carlos Bica) – “Folk Na Rua Augusta” (concertos | festivais | Folk Tejo)

cultura >> segunda-feira, 12.07.1993


Folk Na Rua Augusta

COM INÍCIO hoje e até ao próximo sábado decorrerá em Lisboa, na Rua Augusta, a 3ª edição do Folk Tejo, que este ano pela primeira vez não integra o programa das Festas da Cidade de Lisboa. Os concertos, com alinhamento flexível, começam a partir do meio-dia, prolongando-se até cerca das 19h.
Do programa fazem parte a Old Rope String Band, Delyth Evans com Peter Stacey, Jean-Pierre Rasle, John Kirkpatrick e John Gresham. Os Blind Boys of Alabama e Maria João, com Mário Laginha e Carlos Bica encerram o festival no sábado 17, com um concerto no Mosteiro dos Jerónimos.
Os Old Rope String Band são um trio de “entertainers” de Newcastle, cujo material vai da tradição celta a polkas mexicanas ou canções de amor espanholas, acompanhados por números de acrobacia e prestidigitação.
Delyth Evans, do País de Gales, em harpa céltica, e Peter Stacey, saxofone, flautas, teclados e gaitas-de-foles, integraram as bandas Cromlech e Aberjaber.
Jean-Pierre Rasle, francês, e John Kirkpatrick, inglês, passaram ambos pela Albion Band, autêntica escola da folk rock britânica. O primeiro, especialista da “cornemuse”, gaita-de-foles francesa, tocou igualmente na banda Cock and Bull (que alguns conhecerão do álbum “Concrete Routes, Sacred Cows”). O segundo é “apenas” um dos nomes mais importantes da cena folk inglesa das últimas décadas e um dos grandes execuntantes da concertina e do “melodeon” (parente do acordeão). Tocou com Martin Carthy, Richard Thompson e Roy Bailey, entre outros e gravou álbuns fundamentais como “The Compleat Dancing Master”, um tratado sobre a evolução das danças tradicionais em Inglaterra, com Ashley Hutchings, “Stolen Ground”, com a sua mulher Sue Harris e, a solo, “Plain Capers”, antologia sobre uma variante regional das danças “morris” inglesas.
John Gresham, antigo presidente da Musical Box Society da Grã-Bretanha e destacado representante da chamada “música mecânica”, animará a rua Aug com o som do seu realejo “traficado”.
Os espectáculos são gratuitos, á excepção do concerto nos Jerónmos, com bilhetes a mil escudos.