Arquivo da Categoria: Folk

Fausto – “O Terceiro Fausto” (concerto | antevisão)

pop rock >> quarta-feira >> 21.06.1995


O TERCEIRO FAUSTO
FAUSTO
Teatro São Luiz
Lisboa, dias 22 (quinta) e 23 (sexta), 22h00



Fausto é uma personagem enigmática e, por vezes, contraditória. Durante anos não se ouve falar dele, até porque ele não gosta de falar com ninguém. É conhecida a sua aversão a entrevistas, mas, “hélas”, ainda há pouco tempo deixou-se entrevistar no programa Parabéns, de Herman José. Esteve anos sem gravar qualquer álbum, desde “A Branco e Preto”, um trabalho que não suscitou a unanimidade da crítica. “Por Este Rio Acima”, o seu melhor álbum até à data e uma das obras-primas de sempre da música portuguesa, pairou durante mais de uma década sobre si e ergueu a fasquia das expectativas, da parte do público.
Foi então que Fausto decidiu, doze anos volvidos sobre “Por Este Rio Acima”, lançar a segunda parte de uma trilogia que deverá estar terminada por volta do próximo milénio. “Crónicas da Terra Ardente”, assim se chama a continuação da saga portuguesa dos Descobrimentos, reúne um lote de boas canções que, uma vez mais, se mantêm firmemente unidas à música tradicional portuguesa, ao mesmo tempo que as letras se assumem como metáforas com óbvios pontos de contacto com o presente. Trata-se de um bom disco, que peca por pouco ou nada adiantar em relação à primeira e excepcional primeira parte.
Fausto decerto não tem a mesma opinião, e é isso que seguramente tentará demonstrar no duplo concerto que dará nos próximos dias 22 e 23 no Teatro São Luiz, em Lisboa, em espectáculos integrados nas festas da capital. Esse e outros álbuns mais antigos da sua discografia serão reavaliados à luz de um outro comprometimento com o tempo e com os sons, que permitirá ao músico reinventar em novos moldes o seu universo pessoal.

Den – “Just Around The Window” + Andrea Ar Goullh – “Barzaz Breiz” + Vários – “Real World Presents”

pop rock >> quarta-feira >> 14.06.1995
curtas


DEN
Just Around The Window
Escalibur, distri. Mundo da Canção



A nata dos músicos bretões pouco preocupados com a reprodução fiel dos originais, num divertimento saudável que passa pelo jazz, o rock e paragens menos identificáveis. Por caminhos ínvios, os Den chegam a um lugar feérico onde a alegria é uma constante e se joga aos dados com a tradição. Uma janela aberta para uma Bretanha imaginária. (7)

ANDREA AR GOULLH
Barzaz Breiz
Escalibur, distri. Mundo da Canção



Obra composta por altura dos 150 anos de “Barzaz-Breiz”, uma importante e aclamada recolha de cânticos da Baixa Bretanha, da autoria de Théodore Hersart, publicada pela primeira vez em 1839, é aqui retomada pela voz luminosa desta senhora da Cornualha. Com o acompanhamento ocasional do duo de harpistas Na Triskell, a contenção domina os tr~es géneros representados: cantos mitológicos e históricos, cantos de amor e de festa e lendas e cantos religiosos. (7)

VÁRIOS
Real World Presents
Real World, distri. EMI-VC



Outra das compilações da Real World, desta feita sob o pretexto de divulgar os mais recentes lançamentos – nomeadamente pelos africanos Papa Wemba e Justin Vall, a que acrescenta selecções de registos mais antigos. Entre aquelas novidades… (incompleto – scaning do jornal cortado  nem tenho a certeza se é do FM pois essa indicação só aparece, neste caso da coluna “curtas”, no final de cada crítica.)

La Cantarana – “Le Joli Moulin – Canti e Danze Tradizionali Del Pinerolese” + La Rionda – “Capitan De Gran Valore – Musica Tradizionali Della Liguria” + Ritmia – “Forse Il Mare”

pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995
world


Argonautas Do “Bello Vino”

LA CANTARANA
Le Joli Moulin – Canti e Danze Tradizionali Del Pinerolese (8)
Associazone Culturale La Cantarana

LA RIONDA
Capitan De Gran Valore – Musica Tradizionali Della Liguria (7)
Robi Droli

RITMIA
Forse Il Mare (8)
New Tone
Todos distri. MC – Mundo da Canção



Constituindo até há bem pouco um mercado pouco explorado, a música tradicional proveniente de Itália ganhou nos últimos anos um espaço e um impulso maiores nas atenções e nos gostos do consumidor nacional, muito por força dos discos e dos concertos realizados no nosso país pelos La Ciapa Rusa e Barabàn, dois grupos representantes da vertente céltica do Norte de Itália, aos quais poderemos ainda juntar o acordeonista toscano Riccardo Tesi. Aberto esse espaço, o interesse suscitado justifica uma investigação mais ampla e profunda de outros nomes oriundos de Itália. Os La Cantarana não andam longe nem dos Ciapa Rusa nem dos Barabàn, já que a sua região de origem é a mesma, o Piemonte, com incidência nas músicas da planície do Pinerolese e dos vales de Chisone e Germanasca.
Arredados do espírito de transgressão e inovação que denotam aqueles dois grupos, a contrapartida manifesta-se numa maior proximidade das raízes por parte dos La Cantarana que deste modo evidenciam um contacto mais estreito com o espírito das comunidades rurais e dos seus rituais colectivos, em especial os do “bello vino”, como em “Chanson du buveur” e “Buvons buvons”. Uma das particularidades curiosas reside na utilização do francês, língua que em certas zonas do Piemonte se mestiçou e misturou ao piemontês e ao chamado “patouá”. Polifonias corais como “Le joli moulin”, “Dessur la fleur da Lys”, “El Pui e la puglia” e “Buvons buvons” (a propósito de vinho, alguém sabe da existência em compacto do fabuloso disco “Le Galant Noyé”, dos Le Bourdon, gravado na Le Chant du Monde. Que maravilha, e que sabor, um tema como “La jolie vigne”…) têm a complexidade e o polimento de uns Malicorne, enquanto “La fènno louerdo” se inscreve num universo que intercepta o dos Ciapa Rusa. Com a sanfona (“ghironda”) a ditar as leis, a saliência vai para um tema que “enche” todo o disco, “La femme d’un tambour”, com uma tocante vocalização de Ornella Galetto, uma senhora que por vezes recorda a saudosa Donatta Pinti, dos Ciapa Rusa, o mesmo acontecendo em “Dans la ville de Gênes”, outro tema a pedir repetidas audições. Um “must” para os italianófilos.
Os La Rionda, de Génova, trazem sons mais picantes e salgados. “Brani” e velhas canções e ritmos de baile (polcas, jogas, valsas) são recuperados e adaptados, determinando uma componente de dança bastante mais marcada do que nos La Cantarana. Outra grande voz feminina: Laura Parodi. A sua gloriosa interpretação em “Maria Giovana” (que por sinal tem pelo meio uma “Aria di vino”…) ultrapassa qualquer tipo de adjectivações. Uma voz de contralto que chegou a causar um certo “escândalo” numa ocasião em que ousou substituir o típico “falsetto” masculino num grupo de “trallallero”, tradição vocal fortemente implantada na região de Génova, em risco de se perder.
Finalmente, se os La Cantarana penetram mais fundo na terra, através das escavações da sanfona e do “organetto” (acordeão), os La Rionda filiam-se sobretudo nas escolas violinística e do clarinete – disseminadas em várias zonas de Itália – mais extrovertidas e de cunho imediatista.
Do passado revisitado com alguma reverência pelos La Cantarana e La Rionda, o salto é enorme para os Ritmia, num álbum que em 1986 agitou a cena da música tradicional italiana. Escrito pelos quatro elementos do grupo, Alberto Balia, Enrico Frongia, Daniele Craighead e … Riccardo Tesi, na sua fase anterior às colaborações com Patrick Vaillant (a dupla tem um disco novo “Colline”), “Forse il Mare” é composto por quatro temas, três dos quais bastante longos, onde as influências tradicionais são filtradas por uma linguagem que ora se aproxima do jazz ora dispara em estruturas minimalistas/hipnóticas de conotação arabizante. Uma espécie de “free folk” que apenas se rege pelas regras pessoais dos seus executantes. Instrumentos como a gaita-de-foles, o “organetto”, a guitarra, o saxofone, o clarinete, a flauta de bisel, o pífaro de cana, o sintetizador e percussões várias juntam-se a vozes que poucoligam ao convencionalismo numa aventura onde a liberdade de processos se conjuga com uma criatividade constante. É como andar na montanha russa.