Arquivo da Categoria: Festivais

Vários – “Folk Tejo, Em Junho, Nas Festas Da Cidade – Povos Que Cantam No Rio” (festival / concertos)

Cultura >> Quarta-Feira, 13.05.1992


Folk Tejo, Em Junho, Nas Festas Da Cidade
Povos Que Cantam No Rio


A música folk volta a animar a cidade de Lisboa. É o Folk Tejo na sua segunda edição, que terá lugar nos próximos dias 5 e 6 de Junho no Teatro de São Luiz. Este ano, ao contrário do ano passado, haverá actividades paralelas e uma sala com condições acústicas à altura do acontecimento.



O cenário está montado: bom som, recinto confortável, um programa sem cedências e a presença tutelar, ao fundo, do rio Tejo conjugam-se para que este ano não haja razões de queixa. Como se tudo começasse a sério neste Verão.
No primeiro dia do Folk Tejo actua um grupo de música coral alentejana, Abed Azrié e Bem Zimet, estes últimos acompanhados pelas respectivas bandas. No dia seguinte será a vez dos Romanças, Chris Wood com Andy Cutting e o grupo de Happy & Artie Traum.
Músico sírio radicado em Paris, Abed Azrié junta, na sua música, elementos árabes ao Ocidente dos computadores e sintetizadores. Azrié canta o amor livre de Al Hallaj, o misticismo sufi de Rabiah Al Adawiyyah ou o combate palestiniano inscrito a fogo nos versos de Mahmoud Darwich. Há quem chame “Leo Ferré oriental” a este cantor de “blues” das mil e uma noites. Acompanham-no Habib Yamine e Adel Shamin, nas percussões, Mohamed Moutalattif, no alaúde, Abdulkader Chouran, no “kanoun”, Jean-Raymond Gelis, teclados, e Michele Claude, bateria.
Bem Zimet, como Azrié, escolheu Paris para segunda pátria. Judeu de origem polaca, Zimet tem longas barbas que lhe dão a apar~encia de um profeta do Velho Testamento, desmentida pela maneira diferente como toca violino e canta as canções yiddish, em registo de cabaré. Foi director artístico do primeiro festival de cultura yiddish, em 1979, no centro Pompidou, e criou o espectáculo “Yiddish Cabaret” apresentado em 1988 no Festival de Avgnon. De novo os blues surgem como referência. Juntamente com o jazz, Elvis Presley, a música cigana e os espirituais negros. Zimet defende os direitos das minorias. Dos “fracos contra os fortes” onde quer que eles se encontrem. Sente-se à vontade para falar de todos, porque a história do seu povo “não se baseia numa terra nem num tempo particulares”. “Yiddish down-the-drain-blues”, uma canção sobre “alienação social e petrodólares”, é um bom exemplo da “escolha que se oferece aos imigrantes” como ele: “a integração ou o desaparecimento puro e simples”. Acompanham-no Eddy Shaff, acordeão e piano, Teddy Lasry (tocou na formação original dos Magma), clarinete e percussão, Pierre Mortarelli, contrabaixo, e Maurice Delaistier, violino e guitarra.

Vencedores E Professores

Sábado abre com os portugueses Romanças, agora em fase de reestruturação, consumada a saída de José Barros que decidiu seguir as pisadas de Vítor Rua e levar consigo a “patente” do nome do grupo. Uma história por contar. Veremos se Pedro D’Orey (nos Trovadores de Sintra já tange a harpa que trouxe da Irlanda) e Fernando Pereira conseguem manter-se no alto do “Monte da Lua”.
Chris Wood & Andy Cutting actuam a seguir. O primeiro é canadiano, violinista e integrou os “allstars” do “papa” John Kirkpatrick. O segundo é inglês, toca concertina e fez parte dos extintos Blowzabella, de Nigel Eaton, com quem, de resto, continua a tocar, agora nos Scarp. A revista “Folkroots” incluiu-os este ano no lote dos melhores instrumentistas e elegeu-os “os melhores recém-chegados” à cena folk britânica. Até Dave Swarbrick, antigo violinista dos Fairport Convention, se espanta: “Gostava de ter tocado assim tão bem quando tinha a idade deles.”
Professores de música, mestres do banjo, da guitarra e da arte de contar uma boa anedota, Happy e Artie Traum encerram o programa oficial do Folk Tejo. Lenda viva da folk americana, sobreviventes dos anos 60, assimilaram influências de Brownie McGhee, Pete Seeger, Doc Watson, John Coltrane e Jim Hall. Aliam a “country music”, o estilo “fingerpicking”, os “blues” e o bom-humor. Vêm a Portugal dispostos a tocar com toda agente. Trazem consigo Robbie Dupree, harmónica e voz, Cindy Cashdollar, dobro e voz, e Frank Campbell, baixo. Todos os concertos realizam-se às 21h30.

Iniciação À Folk

As actividades paralelas estão presentes em força. Entre 1 e 30 de Junho estará patente ao público, no Museu de Etnologia, em Belém, uma mostra de instrumentos de percussão e no “foyer” do São Luiz, nos dias de concerto, os bandolins da colecção particular de Júlio Pereira.
Anthony Seeger, filho de Pete Seeger e membro da “Smithsonian Institution”, dará uma conferência dia 3 de Junho, no Auditório do Museu de Etnologia, sob o tema “Dando voz aos silenciados: Folkway records 1947-1982”. No anfiteatro da Faculdade de Letras, dia 2, José Duarte contará a sua “experiência de dois anos de ‘Outras Músicas’”. Finalmente o doutor Chritopher Norris, da Universidade de Gales, falará (e esperemos que alguém o entenda) do “coro Folk Cor Cochion Gaerdydd, de Cardiff”. Previstos estão ainda os “workshops” “O estilo fingerpicking”, “Hot licks for guitar” e “Harmónica de boca nos blues e folk”, dirigidos respectivamente por Happy, Artie Traum e Robbie Dupree. João Nuno Represas fará uma demonstração, no Museu de Etnologia, dos “instrumentos musicais populares de percussão”. Vídeos de temática folk projectados na discoteca Plateau, entre 8 e 14 de Junho, animação de rua pelos Andarilho, e bancas de discos, no Museu e no São Luiz, completam um programa de actividades capaz de iniciar muita gente no mundo das músicas tradicionais.

Bleizi Ruz, De Danann – “Irlandeses De Danann Dão Festival De Virtuosismo No Último Dia Do Intercéltico – A Alegria E A Fúria Vieram Do Mar”

Cultura >> Segunda-Feira, 06.04.1992


Irlandeses De Danann Dão Festival De Virtuosismo No Último Dia Do Intercéltico
A Alegria E A Fúria Vieram Do Mar


Bleizi Ruz e De Danann fecharam em força e com virtuosismo o Festival Intercéltico que durante três dias decorreu na cidade do Porto. Portugal, Galiza, Astúrias, Bretanha, Inglaterra e Portugal foram os pólos de um mundo nascido do mar e de um tempo que teimam em permanecer vivos. Cumpriu-se o ritual.



Sábado, derradeira noite do Intercéltico. Últimos folguedos. Festa em que estiveram presentes os sons do mar, as pulsações da Natureza que firma os corpos e os sonhos que rompem o futuro. Lotação esgotada. Que chamamento ou chama atrai o homem para estas músicas que o tempo poliu? Entusiasmo. Celebração. Ritual. Os Bleizi Ruz vieram da Bretanha e da chuva. Os Beleizi Ruz gostam e desejam a chuva – disseram-no em palco. Eric Liorzou, Loic LeBorgne, Bernard Quillien e Philippe-Janvier deram início à função com um “laridé” e nunca mais pararam. Mantiveram-se mais fiéis à Bretanha do que o seu álbum ao vivo, “En Concert”, deixava adivinhar. As passagens, esperadas, pelo “cajun” e pela música dos Balcãs enriqueceram um concerto do qual o mínimo que se poderá dizer é que foi vibrante.
Philippe Janvier e Bernard Quillien dialogaram, lutaram e quase rebentaram as bochechas na estridência das bombardas. Luc Lierzou cruzou-se com elas em ritmos e síncopes impossíveis arrancadas da guitarra. Loic Leborgne deu “show” no acordeão diatónico com ligação MIDI, o que lhe permitiu, por exemplo, imitar o som de uma harpa. Quillien, sempre bem-humorado, contou histórias – sobre ciclistas ecológicos, casamentos regados com Ricard e cabeças cortadas servidas em Jerusalém. Houve espaço para “mensonges” intimistas e para os delírios de um saxofone baríotono soprado por Janvier. Respirou-se chuva e sol. Subiu-se às montanhas da Bulgária e da Roménia. No final, os quatro músicos improvisaram sobre cadências bretãs. A gaita-de-foles irrompeu, um pouco fora de tom, em diálogo com a bombarda. O “kan há Diskan”, de canto e resposta, também fez a sua aparição, extrovertido, vibrante, afirmativo da individualidade linguística e cultural da Bretanha.

Irlanda Em Ritmo De Loucura

Sobre os De Dannan é difícil transcrever o virtuosismo instrumental e a “fúria” criativa de todos os seus elementos. Frank Gavin faz do violino um brinquedo cujas cordas parecem não conhecer limites. O violino arde literalmente nas suas mãos, e salta, mergulha, esgueira-se e incendeia o resto da música. Frank disse piadas, riu-se e gozou com os guinchos de “yeahouyupiuoiu” da assistência. Nota de apreço ao público que, desta vez, esteve muito bem. Riu nas alturas certas e não bateu escusadas palmas (fora de) compasso. Apenas os guinchos “yeahouyupiuoiu” não terão tido a pronúncia correcta, como, de resto, os músicos foram os primeiros a assinalar. Mas, na generalidade, não desiludiu.
Regresso aos De Dannan para mais um pouco de entusiasmo crítico: espantosa a “conversa” rendilhada mantida entre o bouzouki de Alec Finn e a guitarra desse grande senhor que é Arty McGlynn. E que dizer do solo de “bodhran” (instrumento de percussão) de Colin Murphy? O melhor é nem dizer nada, só visto e ouvido, para perceber como é possível criar melodias com um osso a bater numa pele. Frankie Gavin juntou-se-lhe num solo de “tin whistle” de cortar a respiração (principalmente a do próprio músico que, exagerando um pouco, não terá afastado os lábios do pequeno tudo metálico durante quase cinco minutos). Mais discreto mas não menos eficaz, Aidan Coffey manteve a máquina em andamento com o seu acordeão, embora neste caso, não fosse possível afastar o fantasma de mestre Mairtín O’Connor.
Claro que houve uma cantora. Os De Danann jamais dispensaram uma voz feminina, nos já longos anos que levam de carreira. Eleanor Shanley não terá feito esquecer a profundidade de uma Dolores Keane (ainda é novita, com os anos vai lá) mas saiu-se bem. Cantou sem fífias um difícil tema a solo, outro de Dylan e as tradicionais baladas de descanso entre a vertigem dos “reels”, “jigs” e “hornpipes”, (escolhidos na maioria do álbum recente “1/2 Set in Harlem”) que para qualquer cantora irlandesa que se preze são canja.
Fechou com loucura o Intercéltico: no “encore”, ao som de “Hey Jude” dos Beatles que deu lugar a nova sequência endiabrada de danças. O público pediu mais mas já se fazia tarde. O ciclo céltico dava a volta completa e de novo se abria em espiral. Até ao próximo ano, com a promessa de uma semana irlandesa.

Bailia Das Frores, Uxia, António Tentúgal, llan De Cubel – “Novo Projecto De António Tentúgal Desilude No Segundo Dia Do Intercéltico – Bailia À Desgarrada” (festivais / intercéltico / céltica)

Cultura >> Domingo, 05.04.1992


Novo Projecto De António Tentúgal Desilude No Segundo Dia Do Intercéltico
Bailia À Desgarrada


Nem sempre o gigantismo é a melhor solução. Prova-o o novo e ambicioso projecto de Tentúgal, “Bailia das Frores”, apresentado no Teatro Rivoli do Porto, que pecou por falta de rodagem. Os asturianos Llan de Cubel mostraram que o essencial pode ser dito em poucas palavras. Sem perder o coração.



“Bailia das Frores”, o projecto galaico-português montado por Tentúgal para a segunda edição do Intercéltico, a decorrer no Porto, falhou onde deveria ter acertado: no ritmo e na alegria. À desmesura da ideia – uma espécie de demanda das origens mítico-históricas comuns a Portugal e à Galiza – correspondeu uma sucessão de quadros soltos em que o aspecto “folclórico” e construção em excesso acabaram por vencer qualquer tipo de discurso. Valeram os momentos em que a música se sobrepôs ao peso das intenções. Assim aconteceu quando a voz de Uxia, uma cantira galega caída da lua, fez esquecer a Geografia e a História para nos devolver, em apenas duas canções, a beleza que dispensa máscaras e disfarces. Canções de luz.
À partida, “Bailia das Frores” tudo prometia. Meia-hora antes do espectáculo começar na sala já o “hall” e o primeiro piso do teatro Rivoli vibravam ao choque dos paus e aos gemidos da gaita-de-foles dos pauliteiros do Orfeão Universitário do Porto, e às pantominices dos bugios e mouriscos de Sobrado. Instalados a confusão, a festa e o espanto, aguardava-se o resto da procissão. Do adro ao interior da Igreja, as cantadeiras do Neiva, de candeias acesas, romaram e cantaram por entre as frisas da plateia em direcção ao palco. Depois o filme partiu-se.
Ficaram imagens, sons e cores desgarrados. Fotogramas em vez de película em movimento. Fernando Meireles, Carlos Guerreiro, Amadeu Magalhães e Tentúgal giraram compenetrados as manivelas das sanfonas, em “Ai flores, ai flores do verde pino” que não floriram, muito por culpa do som que várias vezes falhou ao longo da noite. Ressalve-se a vocalização de Carlos Guerreiro, que teve a força e a emotividade adequados a um tema composto por D. João IV.

Uxia, Mais Alto

Jorge Mota, o “pivot” da cerimónia, cumpriu o que se lhe pedia e arrancou algumas gargalhadas da plateia. Ensinou-nos, por exemplo, a distinguir um pauliteiro de uma mirandesa (é preciso saber que ambos vestem saias): “Mete-se a mão por baixo da saia. Se encontrarmos uma gaita-de-foles é um pauliteiro. Se descobrirmos uma gaita de beiços, é uma mirandesa”.
As cantadeiras do Neiva (por acaso uma delas até tinha bigode) cantaram e ajoelharam num “Pai do Ladrão” pitoresco e genuinamente popular. Já os gaiteiros Francisco Bouzo, Nuno Cristo e Paulo Marinho, este último dos Sétima Legião, não atinaram com o fole e a palheta, recordando a necessidade de se criar entre nós, à semelhança do que acontece na Galiza, uma escola do instrumento. Os pauliteiros rodaram as saias e bateram os paus, como lhes competia. Saltaram os bugios, sem que alguém na sala percebesse porque saltavam.
Em palco os músicos iam-se amontoando até haver suficientes para uma “suite-expresso” pelo périplo celta da qual constaram um “an dro” bretão, a enésima versão do “B-A-Ba” irlandês de “Maggie in the Woods” e uma “pasacorredoira” galega. Tentúgal e os outros Vai de Roda presentes bem poderiam ter dispensado o resto da companhia.
A salvação chegou com Uxia, que interpretou duas belíssimas canções apoiada pelos teclados discretos de Pancho, seu antigo companheiro nos Na Lua, que ao longo da “Bailia” tocou também violino. Na memória ficou ainda o tema final (repetido no “encore”), “A roupa do marinheiro”, entoado primeiro pelas cantadeiras do Neiva e em seguida servindo de pretexto para todos os participantes se reunirem em palco para o “tudo ao molhe e fé em deus” final. Com a voz de Uxia de novo a elevar-se mais alto que a restante massa humana. A esta “bailia” faltou o ardor da paixão. Porque os celtas sempre preferiram o fogo da intuição à frieza dos conceitos.

Astúrias Irlandesas

Na segunda parte do programa os asturianos Llan de Cubel dispensaram todo e qualquer artifício para se centrarem no essencial. José Manuel Cano e Elias Garcia, respectivamente na guitarra e bouzouki, construíram o suporte rítmico eficaz sobre o qual discorreram o violino de Gusmán Marqués (um portento de concisão e subtileza, o tipo de violinista que se insinua ao invés de se impor), a flauta de Marcos Llope (também inexcedível de técnica) e a gaita asturiana e o acordeão de Fonsu Mielgo. Pese embora uma certa homogeneização e “irlandisação”, os Llan de Cubel provaram que a tradição do seu país permanece viva e actuante. Em “muineras”, rumbas, valsas, villaneicos e rabeladas vertiginosos ou em canções como “La cleva”, “Arrisha”, “Xunan de Mieres” ou “Nel campu faeva flores” extraídas dos álbuns “Dova” e “Na Llende”.