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La Ciapa Rusa – “La Ciapa Rusa No Porto – A Culpa É Dos Gatos” (concerto)

Cultura >> Sexta-Feira, 11.09.1992


La Ciapa Rusa No Porto
A Culpa É Dos Gatos


ALGO NÃO tem funcionado nos Circuitos das Tradições Musicais Europeias, realizadas na cidade do Porto. Na quarta-feira actuaram nesta cidade, no Teatro Rivoli, os italianos La Ciapa Rusa, um dos melhores e mais prestigiados agrupamentos de música tradicional da Europa. Cerca das 22h, meia hora depois do previsto, o teatro apresentava um aspecto desolador, em termos de público. O mesmo já acontecera anteriormente com os Ad Vielle Que Pourra, num concerto integrado nos Encontros Musicais da Tradição Europeia.
Sabe-se que a Etnia, organização responsável por ambas as iniciativas, estabeleceu um protocolo com a Câmara Municipal do Porto, em que esta se comprometeu a assegurar a promoção dos concertos. Promoção foi coisa que não existiu, nos dois casos citados. Cartazes, mandados imprimir às centenas, nem vê-los. Alguns, os únicos, colados à entrada do Teatro, lá estavam, à atenção de quem já se encontrava no teatro para comprar o seu bilhete, informado pelos jornais.
Apresentando-se no Porto com uma formação bastante diferente da de então, com os novos membros Devis Longo, Bruno Ratteri e Patrick Novara, os La Ciapa Rusa mantiveram a orientação estética característica dos seus trabalhos discográficos, incluindo a do novo álbum “Retanavota”, de recolha e tratamento de temas tradicionais do Noroeste de Itália.
No centro das operações, Maurizio Martinotti e a sua sanfona, secundado pelo sempre discreto Beppe Greppi, no acordeão. Na linha da frente revelou-se um dos novos músicos da “Ciapa”, Patrick Novara, brilhante e imaginativo no pífaro, clarinete, gaita-de-foles, flautas e bombarda da Renascença. Devis Longo arrancou dos teclados batidas tradicionais, para de seguida sugerir acordes de harpa ou a respiração antiga de um “regal” (órgão de foles) medieval. Bruno Ratteri mostrou a riqueza imensa da escola violinística da região do Piemonte. Harmonias vocais intricadas rivalizaram com sequências de “monferrinas”, a dança tradicional do Piemonte, e em particular de Monferrate, célebre pela qualidade do seu vinho tinto. “Bourrées”, “branles”, “sestrinas”, marchas carnavalescas e matrimoniais, baladas nostálgicas e instrumentais delirantes entusiasmaram uma plateia diminuta (“poucos mas bons”, notou Maurizio Martinotti) que no final obrigou os Ciapa Rusa a regressarem para um “encore” e mais um instrumental extrovertido retirado de um dos primeiso discos.
Donatta Pinti, a vocalista de voz quase sobrenatural presente na anterior apresentação dos La Ciapa Rusa em Portugal, afinal não abandonou a banda. Apenas deixou de a acompanhar nas digressões. É que Donatta, explicou Maurizio Martinotti, faz questão de jamais se separar dos seus seis gatos, o que torna bastante problemáticas as deslocações. E não poderia trazê-los consigo, os felinos? “Não” – suspirou o sanfonineiro, após o concerto, copo de cerveja na mão e solhar sonhador -, “a melhor solução seria exterminá-los”…

Sitiados – “Último Dia Da Festa Do ‘Avante!’ – Estado De Sítio”

Cultura >> Terça-Feira, 08.09.1992


Último Dia Da Festa Do “Avante!”
Estado De Sítio


O último dia da Festa do “Avante!” proporcionou algumas novidades: sanitários sem luz, “lasers” nacionalistas e novos meios de pedagogia partidária. O triunfo pertenceu aos Sitiados, que ofereceram à multidão a única coisa que esta queria: desbunda. Para o ano, fica a sugestão de um chá dançante.



Loucos. Loucos e cegos. Fomos loucos porque não compreendemos o significado profundo da Festa, o da solidariedade, da lama e da poeira partilhadas em democracia rumo ao socialismo. Aliás, na Festa do “Avante!” tudo é partilhado: as febras, o garrafão, os Chieftains, o comício, o Adriano, a música que se ouve ao mesmo tempo em todos os palcos, os odores, os encontrões, as bichas, o lixo, o grande arraial do menor múltiplo comum.
A felicidade estampa-se nos rostos dos jovens estendidos na alcatifa naturista da Atalaia. Há um brilhozinho nos olhos e fumos e pó nas veias e nos pulmões. Há muita alegria, muita música e toda a gente se trata por tu. Três dias de folia comunitária em que apenas é proibido estar sozinho. Loucos, loucos, que não percebemos isto. E cegos porque não vimos com olhos de ver, com a acuidade da foice e a veemência do martelo. A poeira não serve de descuilpa. Foi a cegueira e só ela que não deixou ver a beleza imensa das multidões que se entrechocam e dançam e comem e bebem e tombam. Em êxtase, tombam muito. Maravilhoso de se ver. Bela, muito bela, a cena protagonizada por dois jovens que numa das alamedas principais do recinto, lutavam, ao murro e à cadeirada, numa alusão simbólica à luta de classes. As massas, agradadas, capataram a subtileza do conceito e aplaudiram, incitando ao despique de dois sers humanos em luta sob um sol tórrido e vermelho, protagonistas de um mito que os transcende, onde se degladiam proletariado e capital. Como não nos emocionarmos com o teatro da vida? Só por brutalidade.

Subversão Sanitária

Coisa bela foi também uma das inovações tecnológicas presentes este ano na festa do jornal comunista, apresentada em regime experimental, na noite de Domingo: as instalações sanitárias, vulgo urinóis, sem luz eléctrica. Em princípio esta inovação teria como objectivo tornar os actos de libertação orgânica em acções revolucionárias, de vasto alcance político e social, empreendidas na obscuridade e, em simultâneo, símbolos da escuridão ecológica em que chafurda o mundo capitalista.
Mas não só de ideologia viveu a jornada de encerramento de mais uma edição da festa do “Avante!”. A música, claro, mereceu um lugar de destaque. Música portuguesa, no palco 25 de Abril, protagonizada no comício do partido e nas actuações dos Sitiados, Resistência e Rui Veloso. Delicioso assistir à prestação do grupo de Pedro Ayres Magalhães, “desalinhado” da anterior orientação nacionalista, empertigado numa versão delicada de “Traz outro amigo também”, de José Afonso. Os Resistência procuraram ser subtis, privilegiando, como consta no seu plano de intenções, a “mensagem” e os textos. Tão subtis que, depois do espectáculo “infernal” dos Sitiados, não chegaram a aquecer uma assistência mais interessada em abanar o capacete, como se costuma dizer, do que em ser educada na luta por uma vida melhor, debaixo de um céu azul que ficará, segundo a letra do hino de solidão e rebeldia “Não sou o único” com que fecharam a sua actuação.

Temas Ordinários

Antes de Rui Veloso subir ao palco, teve imensa graça assistir ao “show” de lasers baseado em imagens dos Descobrimentos, com muitas caravelas e cruzes de Cristo, dentro da mais pura estética que ajudou a ilustrar os compêndios da “longa noite” fascista. Longa foi também a noite passada na companhia do autor do recente “Auto da Pimenta”. O guitarrista portuense e a sua banda deram um espectáculo de rigor e profissionalismo, passando em revista temas conhecidos da sua discografia. Com solos “bluesy” à mistura, novos arranjos e as palavras de Carlos Tê, sempre valiosas. Mas tudo se arrastou excessivamente e a noite acabou em anti-apoteose.
Mais valia terem sido escolhidos os Sitiados para o concerto de encerramento. João Aguardela, Sandra Baptista, João Marques, Fernando Fonseca e Jorge Cuco perceberam bem a onda colectiva e trataram de lhe dar corda, que combustível já havia. Temas populares, velocidade de execução, o diálogo bem-humorado com a assistência chegaram para provocar o delírio e a celebração desenfreada. Os Sitiados são os apaches do rock português. João Aguardela fez a apologia da mentalidade xunga e anunciou temas “um bocado ordinários”, com versos inspitados como “a minha sogra é um micro-ondas, é um esquentador, é um frigorífico, é um vibrador” ou a “Cabana do pai Tomás”, sobre “um arquitecto que gostava de ter sido realizador de filmes pornográficos”. O público aderiu, cantou às ordens do João – “primeiro só as moças, agora só os homens. Vá lá, agora todos” e saltou, fazendo levantar mais algumas toneladas de poeira. Sandra Baptista, correu que se fartou pelo palco, agarrada ao seu “acordeão mágico”, a querer justificar as suas declarações no jornal da Festa: “palco, para mim é um orgasmo, público, é ele que me faz chegar ao clímax!”. “Ponha aqui o seu pezinho” mereceu quadras populares entoadas por cada um dos elementos da banda. O frenesim que entretanto se instalou proporcionou decerto à Sandra um grande número de seguidores. “Sex, dust & rock ‘n’ rol.” O pessoal não pedia mais.

The Chieftains – “The Chieftains Na Festa Do ‘Avante!’ – ‘Há Sempre Alguém Que Resiste'”

Cultura >> Segunda-Feira, 07.09.1992


The Chieftains Na Festa Do “Avante!”
“Há Sempre Alguém Que Resiste”


QUEM QUISER ouvir boa música, com o mínimo de condições, deve desistir de vez da Festa do “Avante!”. Os programas são apelativos mas quando se chega à hora da verdade prevalece invariavelmente o sacrifício. Assim aconteceu mais uma vez, sábado a noite, na Quinta da Atalaia, com a actuação de nome de cartaz, os irlandeses The Chieftains.
Para os incondicionais da música tradicional justificava-se à partida a deslocação. Era a oportunidade de assistir ao vivo a uma das melhores e mais representativas bandas do género. Exactamente à hora prevista, 22h00, os Chieftains deram início à função, depois de terem sido apresentados por um camarada entusiasta como os autores da banda sonora de “Barry Lyndon”. Aos primeiros acordes, os mais jovens desataram a pular e, a facção mais “hard” a berrar desalmadamente. Era a “dança”, na medida do possível, entre as dezenas de corpos que se amontoavam, inertes, na relva e na terra do palco 25 de Abril. Dançar, significava neste caso abandonar-se a uma série de convulsões, entre gritos e quedas que contribuíam para aumentar ainda mais o número de corpos prostrados.
Nas filas da frente então ouvir música era uma tarefa impossível. Não que importasse muito. Era apenas um pretexto, um som de fundo para a curtição. Para os adeptos da pedrada indiscriminada entre os Chieftains e os Guns n’ Roses não há grande diferença.
Quando, num dos temas, a banda apresentou música da Galiza e Derek Bell fez deslizar os dedos pela sua harpa num momento de maior serenidade, um grupo de jovens “hooligans” desatou a entoar cânticos futebolísticos, interrompendo a música com gritos e imprecações. Chegados a este ponto era entrar na desbunda ou desistir. Venceu a desbunda e até os Chieftains pareceram compreender isso, optando a partir dessa altura por temas mais extrovertidos que dessem azo à agitação dos corpos.
Contrastando com os pesos-pesados da assistência, a bailarina que acompanhou um par de temas executando as típicas danças irlandesas, braços pendentes ao longo do corpo erecto, pernas e pés libertos num bailado que desafiava a gravidade, mais parecia uma figurinha de caixa de música a flutuar num universo paralelo.
No final, numa concessão à materialidade terrena, apareceu em palco envergando uma minúscula mini-saia verde, provocando de imediato nos elementos mais excitáveis da multidão um urro de contentamento e aprovação.
Pelo meio, ficavam seis músicos inexcedíveis de técnica que passearam a sua classe pelos tradicionais irlandeses, a música chinesa, “drinking songs” e uma versão pouco ortodoxa de “Heartbreak Hotel”. Os Chieftains tocaram durante uma hora, com bonomia e sem fazer distinções, para os aficionados, os curiosos, os agitadores, os saltadores, ou os corpos estendidos que dormiram do princípio ao fim da sua actuação. Chama-se a isto profissionalismo. Ou doses infinitas de paciência. Aos primeiros resta a consolação de os Chieftains voltarem a Portugal no próximo ano para o IV Festival Intercéltico a realizar no Porto.
Num dos bares da Festa do “Avante!”, um comunista da velha guarda, copo na mão, voz embargada pela comoção, lembrava que “há sempre alguém que resiste”. É verdade. Cá estamos nós para o provar.