Arquivo da Categoria: Electrónica

Einstürzende Neubauten – “Silence is Sexy”

14 de Abril 2000
POP ROCK – DISCOS


Einstürzende Neubauten
Silence is Sexy (8/10)
2xCD Zomba, distri. Música Alternativa



Existem duas maneiras para se destruir o equilíbrio psicológico de uma pessoa. Uma, mais directa, é fazer detonar uma carga de dinamite junto ao tímpano do sujeito da experiência. Efeito garantido. Outra é segredar-lhe, com suavidade, ao ouvido, alguma verdade terrível que o faça empalidecer e perder de uma só vez todas as certezas que supunha ter. Os berlinenses Einstürzende Neubauten começaram por usar a primeira estratégia mas, aos poucos, foram passando para a segunda. “Silence is Sexy” é um palimpsesto. Camada sob camada e à medida que aumenta o grau de investimento psicológico do auditor, o álbum sugere temíveis realidades ocultas, como uma novela de H. P. Lovecraft. A macroestrutura de ruídos industriais que prevaleceu na obra dos Neubauten até “Tabula Rasa” foi substituída por um microcosmo de ruídos por vezes quase inaudíveis como o do “fumo do cigarro” do título-tema, inspirado na composição “4.33” de John Cage. Ou seja, em vez da cacofonia, o silêncio ocupa agora o lugar central na estética de transmutação do grupo alemão, pois é disso que trata a sua música e a sua filosofia. A substituição de uma realidade e das formas de percepção da mesma por outras diferentes. À superfície um álbum de canções, “Silence is Sexy” investe, sem dúvida, nas palavras e no seu potencial de manipulação, mas é no tema que ocupa separadamente todo o segundo CD, “Pelicanol”, que o aspecto sensorial e mnemónico desde sempre cultivado pelo grupo (a cola com este nome, o seu cheiro) se confunde a aprofunda no símbolo alquímico do pelicano, numa operação de desmantelamento semântico e sonoro que culmina nos gritos de uma criança mutante, matéria já de um outro estado de existência, como o do “homem-mosca-máquina” de Cronenberg.



Funkstörung – “Appetite for Destruction” + Solvent – “Solvently One Listens” + Tele:Funken – “A Collection Of Ice Cream Vans Vol. 2” + Tone Rec – “Demo Pack Démoli”

21 de Abril 2000
POP ROCK – DISCOS


Destruição, gelados e diversão

Funkstörung
Appetite for Destruction (8/10)
Studio !K7, distri. MVM
Solvent
Solvently one Listens (7/10)
Suction, distri. Matéria Prima
Tele:Funken
A Collection of Ice Cream Vans Vol. 2 (8/10)
Domino, distri. Ananana
Tone Rec
Demo Pack Démoli (8/10)
Quatermass, distri. Ananana




Sexo, violência, confusão e disciplina, a electrónica agita-se num paroxismo sanguinolento na música dos Funkstörung, uma dupla constituída por Michael Fakesch e Chris de Luca. Funk industrial, consistente, num conglomerado que em “Try dried frogs” e “A8 KM 34” arrasa por completo a arquitectura hip hop e em “Sounds like a breakrecord” e “Grammhy winers” (ambos com a participação de Triple H) assume um lado activista através de um rap e scratch demolidores. Lembramo-nos de Mark Stewart e da sua “Mafia”. “Think”, “1/10” (swing de metal percussivo) e “Red shirt, white shoes” (música industrial em levitação, coisa rara) contam com vocalizações aéreas de Greenwood e Carin sobre massas incandescentes. “A bottle, a box and a mic” larga a mesma energia dos Einstürzende Neubauten combinados com os Public Enemy num “drum’n’bass” pegajoso e residual que se cola à pele, antes de os 16 minutos finais de “Mind the gap” abrirem uma cratera de poeira radioactiva em suspensão no trip hop dos Portishead. Uma torneira de escape para tanta tensão.
O som dos Tele:Funken é mais analítico, proporcionando outro tipo de estímulos. Electrónica swingante na linha dos Shabotinski, FX randomiz, Isan e Holosud que do krautrock extraiu a filosofia e do uso lúdico das novas tecnologias fez uma síntese para usar no imenso parque de diversões em que se transformou a música electrónica neste final de milénio. “Theme from Tele:Funken” abre em carrossel num convite a Gary Numan para se divertir com as suas “replicas” numa montanha-russa.
Os Solvent é que não escondem o seu fervor pelo passado, citando como influências os Human League, Depeche Mode, Soft Cell, Fad Gadget, Yazoo e os Skinny Puppy, além de Lowfish e Aphex Twin. Pop electrónica, polida e ritmada, para fazer dançar robôs. Arrumar, depois de gasta, ao lado dos Mikron 64 e Nova Huta.
Em fase de reconhecimento nos meios da electrónica europeia, os radicais franceses Tone Rec surgem pela primeira vez menos radicais num álbum de remisturas, metade a cargo deles próprios, metade assinada por Fennesz, pelos primos Dat Politics e pelos To Rococo Rot. Da operação saíram experiências mais dançáveis que o habitual no mundo angular dos Tone Rec, mais anarquizantes no caso de Fennesz, dos Dat Politics e nuns surpreendentemente virulentos To Rococo Rot do que na própria banda francesa que em “Trend” rubrica a faixa mais irresistível de toda a sua carreira – uma coisa viciante e oleada, alimentada a mel e gasolina, que é uma resposta absolutamente imparável à “auto-estrada” aberta pelos Kraftwerk. E quem quiser brincar ao giroflé e ao mesmo tempo dançar tecno à maneira dos Tone Rec só tem que ouvir “Giroflex”, saltar como um doido e ser conduzido em seguida ao manicómio.



Messer Für Frau Müller – “Allo, Superman!”

2 de Junho 2000
POP ROCK – DISCOS


Messer Für Frau Müller
Allo, Superman! (8/10)
What’s so Funny about, distri. Ananana



Para além das cenas de Canterbury, Chicago, Detroit, Viena, Berlim, Setúbal ou Düsseldorf, registe-se a existência da menos badalada mas não menos agitada cena de São Petersburgo que, desde os anos 70 e com sede privilegiada no Tam Tam Club, assistiu e promoveu a eclosão dos movimentos “hippie”, punk, new wave, gótico, etc, na Rússia. Brian Eno circulou por lá durante algum tempo (chegando a produzir o grupo Zeni Geva). Pioneiros do tecno soviético como os Novi Kompositori, DJ K-Fear, Good Dead Davidoff, Alexandroid (“house”), Deadushki (apelidados os Chemical Brothers russos), Mo Fun (“jungle-jazz”) ou Christmas bubbles passaram pelo Tam Tam Club que, entretanto, encerrou as portas por ordem judicial (a droga vendia-se lá livremente…). Oleg Kostrow (ou Kostrov), de quem já se conhecia o magnífico “Great Flashing Tracks from Iowna” é um veterano da cena de S. Petersburgo (hoje povoada por gente com os Jah Division…) e, juntamente com Oleg Gitarkin, um dos elementos dos Messer Für Frau Müller. O que encontramos em “Allo, Superman!” é um delírio ainda mais requintado que o de “Flashing Tracks”, um caldeirão borbulhante de colagens e eletrónica “funny”, “easy listening”, música de variedades russa, “lounge jazz”, “drum ‘n’ bass”, spots publicitários, rumbas, pop de garagem dos anos 60, samples de música clássica e tudo o mais que vem à rede, num redemoinho incessant que chama por Felix Kubin e Holger Hiller mas, sobretudo, se revela como um parente próximo e plastificado de “The Sylvie and Babs Hi-Fi Companion” dos Nurse With Wound.