Arquivo da Categoria: Electrónica

Twokindermen – “Misstakesonlove”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
2 Maio 2003


TWOKINDERMEN
Misstakesonlove
Kinder of Heart, distri. Ananana
6|10



Em termos musicais, era costume Portugal estar atrasado 20 anos. Agora, estamos melhor. Os Two Kindermen (António Contador e Nuno Antunes) estão apenas atrasados dois ou três. “Misstakesonlove”, banda sonora para um filme (que o grupo costuma projetar nos seus concertos) “sobre erros, enganos e mal entendidos amorosos”, desenrolado à escala de figuras da Playmobil, serve-se da eletrónica com fins exclusivamente lúdicos, repescando a corrente “funny electronics” com que os Schlammpeitziger, Felix Kubin e a putalhada da Stora (Nova Huta, Oleg Kostrow…) repuseram na ordem do dia aquilo que, por sua vez, já tinha sido publicado em ata nos anos 70 pelos Cluster. E nos anos 80 quem se lembra da “música para festas” dos Silicone Teens, que já era o mesmo, na versão camuflada de Daniel Miller? O problema está em que uma piada apenas serve uma vez. Estes sons que há uns anos eram divertidos e tinham devolvido a frescura à eletrónica de entretenimento, soam agora como curiosidade requentada. Como a tentativa de reproduzir a “anedota assassina” dos Monty Python, nos laboratórios alemães… Seja como for, as melodias de feira popular dos Twokindermen poderiam perfeitamente encaixar-se na programação do Canal Panda.

Bizarra Locomotiva – “Homem Máquina”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
18 Abril 2003


BIZARRA LOCOMOTIVA
Homem Máquina
Metrónomo, distri. Zona Música
7|10



Já que anda toda a gente a escarafunchar nos anos 80, porque não deitar o dente à boa e massacrante música industrial e à “electronic body music” que naquela década procurou revolucionar as rotações cardíacas e o ritmo das discotecas, através de agentes como os Front 242, Skinny Puppy, Controlled Bleeding ou Front Line Assembly? Verdade seja dita que a locomotiva conduzida por Armando Teixeira nunca circulou longe destes apeadeiros e que “Homem Máquina” não faz mais do que atualizar uma direção há muito encetada pelo grupo. Sobre temáticas como a simbiose homem-máquina (divergente do conceito de “man machine” dos Kraftwerk…), da mitificação demoníaca da heroína ou da relação de poder entre o escravo e o amo, “Homem Máquina” é pura maquinaria em ação de combate onde as noções de ludicidade, guerrilha mental e sexo se confundem em batidas do III Reich. Umas vezes assimilando a vertente “agit pop” dos Mão Morta ou, como, em “O meu anjo”, a sugerir que tipo de pop faria Abrunhosa se estivesse “agarrado” ao pó. “Um homem é um homem, uma máquina é uma máquina”, repete Armando Gama, obsessivamente, nas duas partes de “Homem máquina”. Frase que, repetida de forma maquinal, afirma exatamente o contrário do que enuncia. Bizarra? Os êmbolos da locomotiva trituram a carne e a mente na sua travessia pelo túnel.



Lesser – “Gearhound”

Y 2|FEVEREIRO|2001
escolhas|discos

LESSER
Gearhound
Matador, distri. Zona Música
7|10



J. Lesser, ISR, 157, Backfire, DJ 40 Year Old Woman (!), não importa como se apresenta. É um foragido de bandas rock que encontrou na eletrónica o último refúgio da “estética punk”. Trabalhou com Matmos e Kid606 (com quem prepara o projeto Sex Pixels…) e no horizonte está uma colaboração com os Blectum from Blechdom. Formou uma banda de covers dos Metallica, os Creeping Death, e ao vivo as suas atuações pautam-se pelo caos e destruição. Editou a cassete “I hate me”, acompanhada da oferta de uma lâmina de barbear (verdadeira) e um bocadinho de LSD (falso). Tudo junto explica este “Gearhound”, carga explosiva de eletrónica apocalíptica onde se misturam as influências dos Big Black, Sebadoh, Meat Beat Manifesto, Public Enemy e Negativland. Um dos temas, “Cheeseburger lady”, é uma réplica de “Hamburguer lady”, dos Throbbing Gristle. Dat Politics, Atari Teenage Riot e Speedy J não passam de easy-listening, comparados com a tareia sónica de J. Lesser.