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The Beatles – “Anthology, vol. 1”

pop rock >> quarta-feira >> 06.12.1995
reedições


The Beatles
Anthology, vol. 1
2XCD APPLE, DISTRI. EMI-VC



O que dirão os miúdos de doze, treze anos, que apenas ouviram os pais falar com devoção do grupo, não conhecem os discos antigos mas lá condescenderam, instigados pelo “bruá” mediático, em deitar um ouvido a esta antologia? O mais certo é exclamarem: “Ganda banhada!” E t~em razão. “Anthology, vol. 1” banaliza a imagem que deveria ter permanecido intocável dos “fabulous four”. Teria sido talvez aconselhável fazer uma edição limitada para colecionadores, a um preço exorbitante, como quem diz: “Objecto raro, só para fanáticos.” Mas não, quis-se facturar, ainda por cima à custa de um morto, John Lennon, que assim voltou a cantar com os seus antigos companheiros, no célebre tema inédito, “Free as a bird”, único motivo relevante num apanhado monstruoso do que, basicamente, não passa de lixo, por mais reciclado que seja. Mas “Free as a bird” é fraco. Pior, é banal. Lá se ouve Lennon a cantar com os outros três, ao empurrão sobre uma harmonia imediatamente identificável como “beatliana”, e uma banda tão, tão primária, de Ringo que até faz corar de vergonha. E pronto, as restantes 59 faixas ouvem-se com esforço e o respeito devido à memória do grupo, entre discursos de várias das personalidades em questão e faixas “raras” recolhidas de diversos contentores. São “takes” alternativos, gravações da sessão com Tony Sheridan, pedaços inacabados de canções célebres e algumas desafinações que têm o condão de transformar os deuses em músicos de carne e osso, sujeitos às armadilhas do ouvido. Enfim, não é que nada disto seja capaz de travar a romaria às discotecas, das turbas enfurecidas que se excitam à simples menção do nome mágico, ainda para mais espicaçadas por uma operação de “marketing” que soube mexer bem os cordelinhos. Os admiradores, que guardam com fervor religioso discos como “Rubber Soul”, “Revolver”, “Sgt. Peppers…” e o “álbum branco”, encolhem os ombros e passam ao lado. Os putos gozam à brava e fazem pouco dos pais. Os tais colecionadores ferrenhos espumam de raiva e acotovelam os broncos que os estirvam na fila de espera. Os Beatles vivos estão-se nas tintas e embolsam mais algum. John Lennon só pede que dêem descanso à sua alma. (4)

Beatles | John Lennon – “Antologia Dos Beatles ‘Ressuscita’ John Lennon – O Pássaro Engaiolado”

cultura >> segunda-feira, 20.11.1995


Antologia Dos Beatles “Ressuscita” John Lennon
O Pássaro Engaiolado


“Free as a Bird” é o primeiro de dois inéditos incompletos de John Lennon que os restantes Beatles transformaram numa canção original. Paul, George e Ringo juntaram-se, em estúdio, ao fantasma do Beatle assassinado, consumando-se deste modo a reunião virtual, e para muitos histórica, dos “fabulous four” de Liverpool. A suportar esta assombração de Natal, materializada na edição de uma mega-antologia do grupo, está uma operação de “marketing” sem precedentes. Em Inglaterra as lojas abrem hoje mesmo, à meia-noite. Dickens não faria melhor.



“Não acredito em fantasmas, mas lá que eles cantam, cantam!”, poderia ser o anúncio da maior “novidade” discográfica deste final de ano. É verdade, um “novo” disco dos Beatles está prestes a sair! Na verdade, trata-se de uma antologia, dividida em três volumes, contendo material inédito dos “fabulous four” de Liverpool. Para os milhões de apreciadores do grupo espalhados pelo planeta não poderia haver melhor prenda de Natal.
O lançamento mundial do primeiro volume, em compacto e cassete duplos e vinil triplo, está agendado para hoje à meia-noite, hora marcada para a abertura das lojas, de maneira a poder satisfazer a previsível loucura consumista dos fãs. Algo parecido com o que aconteceu recentemente com o lançamento do Windows 95 no campo da informática.
O que faz salivar os milhões de admiradores da lendária banda britânica é o facto de voltarem a poder escutar canções originais, gravadas, compostas e interpretadas na actualidade pelos quatro músicos, ou seja, o fantasma de John Lennon – assassinado à porta da sua residência em Nova Iorque, a 8 de Dezembro de 1980 – saltou do túmulo para o mundo dos vivos. E voltou a cantar.
“Free as a bird” e “Real love”, ambos com edição prevista em “single”, são os dois inéditos incompletos, compostos por Lennon no final dos anos 70, que Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr trabalharam em estúdio, acrescentando música original à voz pré-gravada do Beatle ausente. “Free as a bird” é o tema de abertura de “The Beatles Anthology, Volume 1”, primeira parte de uma série de três compactos duplos que fazem incidir uma luz nova sobre a história do grupo que revolucionou a música popular deste século.
“Real love” fará parte do alinhamento do segundo volume da antologia, a lançar no próximo ano. Uma estratégia comercial correcta da parte da editora, a EMI/Apple, ao incluir um isco irresistível em cada um dos discos. No sapatinho vão caber decerto vendas astronómicas.
George Martin, o “quinto Beatle”, como é conhecido, produtor de obras-primas como “Revover”, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e “The Beatles” (mais conhecido como o “album branco”), anunciará ainda, em conferência de imprensa, a realização paralela de uma série documental televisiva com seis horas de duração, sobre a vida e obra dos Beatles. A primeira será exibida em Inglaterra já no próximo dia 26 pela cadeia ITV. A RTP adquiriu já os direitos de exibição para Portugal. Está ainda prevista a edição de oito vídeos de 75 mínutos cada, contendo imagens dos Beatles cedidas por fontes públicas e privadas.

A Estratégia

Para não destoar de uma estratégia de “marketing” montada ao pormenor, foi escolhida para a capa uma pintura de Klaus Voorman, colaborador dos Beatles de longa data, baixista dos Plastic Ono Band, ao lado de John Lennon e responsável pelo “design” da capa de “Revolver”. Tudo a bater certo. Ainda para mais agora que o Natal se aproxima, época ideal para milagres. Desde o da ressurreição ao da multiplicação dos dólares, perdão, dos pães.
“The Beatles Anthology, Volume 1” colecta a módica quantidade de 60 temas, 34 no primeiro compacto, 26 no Segundo. Descontando “Free as a bird”, é extensa a lista de preciosidades ou simples curiosidades arqueológicas, desde gravações caseiras a simples comentários falados de John Lennon e Paul McCartney.
Entre os inéditos contam-se “That’ll be the day”, versão dos Quarry Men (o grupo que daria origem aos Beatles) para um original de 1958 de Buddy Holly, “Hallelujah, I love y oso”, versão de 1960 de um tema de Eddie Cochrane, “You’ll be mine”, “Cayenne (instrumental da autoria de Paul), “How do you do it”, o “standard” “Besame mucho”, gravado durante a primeira visita dos Beatles aos estúdios Abbey Road, em Junho de 1962, ou uma série de cinco temas extraídos de uma audição falhada para a Decca, em 1 de Janeiro de 1962.
A enumeração de “takes” originais, “demos” e variações de temas antigos seria fastidiosa. É uma refeição completa que dará de comer a muita gente por muitos e bons anos. O mito está bem e recomenda-se. E regorjita-se.

Caça-Fantasmas

Deixando de lado a festa mediática, fica o essencial, os tais temas “originais” em que Lennon voltou ao convívio com os seus antigos companheiros. As fitas estavam na posse de Yoko Ono, viúva do Beatle, para muitos “essa megera, que deu cabo do grupo”. A primeira intenção da megera foi regravá-las com músicos modernos. Seria uma traição, mais uma, ao

Convém não esquecer qu, ainda hoje, os Beatles vendem mais do que alguma vez venderam e vendem os seus arqui-rivais Rolling Stones

Nome e à memória de John Lennon. Assim o entenderam Paul, George e Ringo, que insistiram em ser eles a ressuscitar musicalmente o defunto e, em paralelo, os próprios Beatles.
Foi preciso fingir. Fingir que o tempo não volta atrás. “Fingir que John apenas se ausentara momentaneamente para umas férias em Espanha”, como Paul McCartney justificou todo o processo, numa entrevista concedida no último número da revista inglesa “Q”. Não foi difícil, neste caso, tornar o esboço numa canção. Como se John tivesse deixado expressamente o tema inacabado para os outros lhe darem a forma final e definitiva.
Ainda segundo Paul, na parte intermédia da canção, John cantava algo como “whatever happened to / the life that we once knew / woowahwunnnnnyeurrggh” não é certamente uma letra à altura da reputação dos Beatles. Quem quiser conhecer já a letra definitiva terá que ir para a bicha e esperar até à meia-noite.

O Produtor

Agarrado o fantasma, era preciso arranjar um produtor. Alguém que soubesse enredar as tramas do tempo. George Martin era a escolha óbvia, por sugestão de Paul. Martin produz o resto da antologia, mas, para os temas com John, foi George Harrison a ter a última palavra. Eram precisos “ouvidos imaculados” para canções imaculadas. A escolha recaiu, por fim, em Jeff Lynne, um ex-Move e Electric Light Orchestra que se especializou mais tarde em discos de homenagem aos Beatles e produziu álbuns de Bob Dylan, Brian Wilson e, é claro, George Harrison.
Quando Lynne sugeriu que George tocasse “slide guitar”, Paul receou o pior, lembrando-se de imediato de “My sweet Lord”. Mas não. Afinal o mais “indiano” dos Beatles soube conter-se e “Fre as a bird”, segundo opinião unânime de Paul, George e Ringo, soa de facto aos Beatles, podendo perfeitamente passar por um tema escrito no ano áureo de 1967.
“Real Love”, outra das vocalizações deixadas para a posteridade por Lennon, também já tem novo argumento. Aqui foi necessária uma cesariana. As fitas estavam sujas de ruído, embora a voz de John, pelo menos na opinião de Ono, estivesse mais nítida. Consumada a operação de limpeza, Paul e George acrescentaram as harmonias vocais. Ringo bateu nas peles, na sua forma simples mas que mais ninguém soube imitar. O resultado, dizem todos, é uma canção melodicamente atraente e “catchy”, à boa maneira dos grandes clássicos do grupo.
Consumada a “histórica” reunião dos quatro Beatles que ficaram para a lenda, resta saber se, a partir daqui, a invocação do fantasma de Lennon lançará ou não uma assombração sobre o que a memória colectiva prefere manter inviolável. Se a história dos Beatles é de facto uma história interminável, com novos capítulos sempre a serem escritos ou, pelo contrário, corre o risco de se vulgarizar.
Convém não esquecer que, ainda hoje, os Beatles vendem mais do que alguma vez venderam e vendem os seus arqui-rivais Rolling Stones que, como se sabe, ainda correm nos palcos, contra o destino, já lá vão mais de 30 anos de carreira. Os mortos sempre tiveram mais sucesso do que os vivos. Vem nos livros.

A Outra Vida

Hoje, Ringo Starr refere-se aos Beatles como “eles” e George Harrison acredita que se irão encontrar os quatro de novo numa outra vida. Paul tem uma visão mais focada e menso distorcida pela emoção da realidade. Continua a recusar-se a tocar ao vivo e a gravar novos discos com o nome “The Beatles”, mesmo confirmando a oferta de uma verdadeira fortuna para os três actuarem juntos numa digressão de dez datas pelos Estados Unidos.
Ele sabe que os Beatles são hoje, mais do que nunca, uma fantasia, e que a sua história definitiva nunca será escrita. Uma história cuja veracidade se perde, inclusive, na memória individual dos seus intervenientes directos. No documentário que integra o pacote de lançamentos de “Anthology” há uma entrevista elucidativa.
Aí se refere uma ocasião em que os Beatles se encontravam em Paris e um deles sofria de uma inflamação na garganta. Paul narra o modo como cada um recorda o episódio: “Ringo afirma que era George quem tinha a garganta inflamada. A câmara aponta para George para filmar a sua reacção. George nega e afirma que foi Paul. A câmara volta-se para mim. Garanto-lhes que foi John quem estava com a garganta inflamada!”.
Porém, “a posteriori”, os três, incluindo Paul, afirmam a pés juntos que não foi John! É ainda Paul McCartney quem deixa a porta aberta para poderem entrar todos os fantasmas: “Deixem passar mais uns anos, quando se queimarem mais algumas células dos nossos cérebros. Nessa altura não haverá história nenhuma para contar!”



Beatles (The) – “1962-1966” + “1967-1970”

pop rock >> quarta-feira, 29.09.1993


A PERFEIÇÃO PODE SER UM BOM NEGÓCIO

THE BEATLES
1962-1966 (10)
2xCD
1967-1970 (10)
2xCD
EMI, distri. EMI – VC



O que é que ainda há de novo para dizer sobre os Beatles? Nada. Mas se a vida de cada um dos quatro “fabulous four” já foi mil vezes dissecada, as canções permanecem como modelos intemporais do que deve ser a música pop. Entre discípulos e imitadores muitos têm procurado, sem sucesso, a fórmula milagrosa que serviu a Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr para fazerem a lenda. Consumada a morte de Lennon, essa fórmula ficará para sempre guardada no segredo dos deuses.
As canções de “1962-1966”, do período compreendido entre os álbuns “Please Please me” e “Revolver”, e de “1967-1970”, abrangendo as duas obras-primas “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e o duplo álbum branco, “The Beatles”, a banda sonora “Yellow Submarine” e os derradeiros “Abbey Road” e “Let it be”, toda a gente as conhece de cor. Estão aqui todas as melodias mais célebres do grupo, produzidas pelo génio da dupla Lennon-Mccartney. A redescobrir sempre. Ou a descobrir, pelas gerações mais novas, pelas gerações que estão por vir.
Mas se a música não encerra novidades, a sua edição, pela primeira vez, em formato compacto, chegou rodeada de controvérsia. A história conta-se me poucas palavras. As edições originais, em vinil, saíram em formato de duplo álbum. Acontece que o tempo de gravação de ambas não ultrapassa os 60 minutos, o que permitia a sua reedição em dois CD simples. Era essa, de resto, a intenção da EMI, quando a Apple, propriedade dos três Beatles ainda vivos, entrou na jogada, fazendo questão que os dois álbuns mantivessem o formato original, ou seja, os compactos deveriam ser igualmente duplos e com o preço de venda ao público correspondente a um duplo CD normal. A EMI discordou, a Apple insistiu, alegando as baixas percentagens de “royalties” que a EMI Parlophone teria pago ao grupo, durante os anos 60, relativas a todos os álbuns da banda editados nesta editora, isto é, até 2Sgt. Peppers”, inclusive. Trata-se, afinal, de uma espécie de compensação tardia, em que o principal prejudicado, como acontece quase sempre nestes casos, acaba por ser o consumidor, que deste modo terá que pagar mais por causa das birras de uns senhores chamados Paul, George e Ringo, esquecidos decerto de quem os elevou aos píncaros do sucesso.
Mas se ninguém é perfeito, nem sequer os Beatles, a sua música anda lá perto. Pondo de lado as quezílias e as negociatas, as canções, e só elas, merecem que se façam todos os sacrifícios. Se, como dizem, e vamos fingir que é verdade, o digital é mesmo eterno, vale a pena conservarmos para a posteridade a quinta-essência da música popular. No caso de não termos adquirido já a totalidade dos álbuns da banda, em separado. São XX canções. Todas perfeitas.