Quinta do Bill
No Trilho do Sol
POLYDOR, DISTRI. POLYGRAM
Os putos gostam de se divertir na Quinta, nada a fazer quanto a isso. Por onde passa, ao vivo, a banda faz a festa. À música de bar a fingir de irlandesa, do álbum de estreia, segue-se agora a música dos índios, muito em voga nas colecções de new age étnica da temporada. Não há dúvida, porém, de que o grupo evoluiu bastante desse primeiro trabalho para este segundo pacote de canções, em que a tentativa de “fazer épico” deu lugar a uma maior contenção. “Parar o tempo”, “Se te amo” e “Prece (uma canção)” são mutações atraentes dos Sétima Legião, enquanto, instrumentalmente, o grupo inflectiu na direcção dos “folkrockers” irlandeses Horslips e de uma tónica “progressiva” (“Gerónimo”, agigantada por um sexteto de cordas), curiosamente aquela que parece ser o lugar natural da Quinta. A influência índia aparece no tema inicial, em “Índios na reserva” e “Mão na consciência” (com letra à UHF!…); a irlandesa em “O fogo posto”, “Reunir aos meus amigos” e “A única das amantes”; e o passado da Quinta em “Quanto + me olho ao espelho” (um “hit” à espera de o ser?). Palmas para o violinista Nuno Flores, está um senhor. Numa Quinta agora bem cuidada. Eu próprio – cujas reservas em relação à banda nunca escondi -, confesso, me deleitei nalgumas das suas paragens. Uma canção como “Eles ignoram” indica, só por si, que o grupo, afinal, tem potencialidades para ir longe. Rapazes, larguem lá os irlandeses e os índios e usem as pernas que têm para andar. (6)
JOSÉ MÁRIO BRANCO
A Noite (8) / Correspondências (8)
Ed. EMI –VC
O que torna José Mário Branco e a sua música únicos? A arte dos arranjos e da composição? O segredo da transmutação? A culinária de venenos? A capacidade de luta e de resistência? A ironia? O sarcasmo? A transparência? Tantas perguntas a pedir respostas, que, por sua vez, exigem outras perguntas. Experimente-se uma chave: a força. A força das convicções e dos ideais. A força que confere unidade a uma obra que passou em revista os vícios e virtudes da sociedade portuguesa das últimas três décadas.
“A Noite”, editado originalmente em 1985, junta duas facetas distintas do compositor. De um lado, em termos de rodela de vinilo – ou na reconversão para o novo formato, na primeira parte –, é o foguetório popular, a sátira mordaz e festivaleira de “Cá vai Caneças”, “Tiro-no-liro” e “Elogio da Corrupção”. Na segunda parte, Portugal apaga-se, para se reacender e desventrar, uma vez mais, numa solidão que é de todos nós, que definhamos a sonhar os mitos e glórias do passado.
De todos, quase todos nós, carneiros modernos ou pós-modernos, mas carneiros sempre – por imposição ou vocação, vai dar ao mesmo. “A Noite” é um longo poema sinfónico/ manifesto espiritual, que interroga os abismos da história (ou o seu negativo) e do inconsciente portugueses. “A noite é o espaço vago, o tempo sem história/ em que as perguntas nascem dentro da memória/ em tudo o que já fomos está o que seremos/ mas cabe perguntar: foi isto que quisemos?”
Se “FMI” fazia a dissecação, sem anestesia, de um corpo inteiro em agonia, “A Noite” é a revelação das suas motivações e pulsões – estéticas, espirituais, existenciais e políticas –, através da interrogação e da auto-interpelação: “Como é que aqui chegámos?” “Acaso estamos vivos?” “Existe uma saída?” Caminho de retorno ao paraíso do útero maternal, única matriz a partir da qual é possível recomeçar tudo de novo. Com “A Noite” a música portuguesa recomeçou e das trevas fez-se luz. Ascensão e queda, passado e futuro, indivíduo e colectividade, “A Noite” constitui-se como a própria dialéctica da criação. Iluminada em palco, à luz dos holofotes e do espírito, mesmo em frente aos nossos olhos estremunhados.
Com data de edição original de 1991, “Correspondências”, ao contrário de “A Noite”, tem carimbo e o endereço dos destinatários. Palavras e sons dirigidas a poetas e músicos, aos netos e ao sr. Silva, ao remetente, quando a solidão e a ilusão apertam mais. Um álbum que, em termos poéticos, resume, sem lhes acrescentar novos destinos, viagens cumpridas do autor, espécie de recapitulação, de um pôr em ordem o desalinho dos anos e desenganos do passado. Em termos de som e produção, é um trabalho de colaboração, de experiências formais, por vezes sentidas como desvios.
Nesse aspecto de partilha de responsabilidades, “Correspondências” pode ser visto como o equivalente a “Galinhas do Mato”, de José Afonso, no qual as funções de comando foram entregues a José Mário Branco. Cumprida mais uma espiral do tempo, chegara a vez do próprio José Mário Branco entregar os arranjos a amigos como José Peixoto, José Martins e Júlio Pereira.
É ainda o sinal do fim de uma época e o começo de outra, marcado pelo nascimento da UPAV, na defesa, em novos moldes, da música portuguesa. José Mário Branco, o político, sobrepondo-se ao José Mário Branco, músico. Uma vez mais, as notas informativas que acompanham as presentes reedições, da autoria de Nuno Pacheco, constituem leitura auxiliar obrigatória.
Brigada Victor Jara
Contraluz
COLUMBIA, DISTR. SONY MUSIC
Editado em 1984, “Contraluz” ganha hoje uma outra relevância, devida em grande parte ao ressurgimento actual da Brigada, materializado no recente a aplaudido “Danças e Folias”. Maior virtude do grupo tem sido desde sempre também o seu maior defeito. A facilidade com que são transformados os temas tradicionais, só possível em quem conserva atrás de si uma longa experiência, tem como reverso da medalha o facto de, por vezes, se notar uma certa ausência de tensão nos arranjos, de “sofrimento” no acto criativo, de trabalho alquímico na composição dos pormenores, nesta passagem do tradicional para o contemporâneo. Algo que sente, por exemplo, em temas como “Arriba monte”, no “”bonito” redundante e tecnicamente pouco seguro da vocalização feminina em “O cativo” ou num certo comodismo das cordas e do acordeão no tradicional açoreano que fecha, em anti-apoteose, “Contraluz”. O que não chega verdadeiramente a ensombrar um disco repleto de boas ideias, como a de sequenciar vários pregões populares, conferindo-lhes uma tonalidade surreal, ou a inclusão de reverberações gregorianas em “Ea, judios”, entre outros achados do estilo Em dez anos, a Brigada saiu da contraluz para a luz. (7)