Arquivo da Categoria: Críticas 1992

Unmen – “Love Under Water”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 17.06.1992


UNMEN
Love Under Water
CD Some Bizarre, distri. Contraverso



Não se conhece a identidade dos músicos. Pelo nome do grupo, não devem ser humanos, mas coisas viscosas e verdes, oriundas de uma dimensão de criaturas odiosas. Talvez, a julgar pelos bonecos mutilados da capa, restos de “Chuckies” ou “Barbies” assassinos, atirados para o caixote de lixo, mas mesmo assim nunca fiando… O Calvin haveria de dar cabo deles. Um dos produtores é Nick Cash, nome ligado aos extintos Fad Gadget, e suspeita-se de que faça parte do grupo.
O “amor debaixo de água” encontra variantes nas “outras músicas de filme” que o subtítulo refere. Música electrónica que avança a golpes de sequenciadores, de empurrão por sonoridades techno-étnicas, ou então se deixa levar pelo apelo ambiental, criando paisagens inóspitas na linha das produzidas pelos Delerium. Quando se deixam levar pelo ritmo, os Unmen não andam longe dos primeiros discos dos Recoil ou do álbum a solo de F. M. Einheit (Einstuerzende Neubauten), nos momentos em que as percussões se tornam mais metálicas e os “samples” de vozes identificadas fazem a sua aparição. A música é na generalidade bastante sombria, sem contudo se confundir com os habituais vómitos negros com que os “industriais” e satanistas vão poluindo o éter, enquanto não chega o dilúvio de fogo purificador. Por vezes, os computadores soam a cristal, apaziguadores. “Love under Water” é intrigante e justifica a investigação. Mesmo levando em conta a hipotética proveniência “não humana” dos seus autores… (8)

Lounge Lizards – “Berlin, 1991, Part I”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 17.06.1992


LOUNGE LIZARDS
Berlin, 1991, Part I
CD VeraBra, distri. Contraverso



Berlim é verdadeiramente uma cidade mágica. É raro o disco em que a cidade esteja presente, como local de gravação ou fonte de inspiração, que não seja uma obra superlativa, numa linha histórica iniciada com “Berlin”, de Lou Reed, prosseguida com a trilogia de Bowie, “Low” / “Heroes” / “Lodger”, “The Idiot” e “Lust For Life”, de Iggy Pop, um punhado de Nick Caves e a banda sonora de “Les Ailles Du Désir”, e que atingiu o zénite de novo em “Berlim”, desta feita pelos Art Zoyd. Os Lounge Lizards, de John Lurie, não fogem à regra e assinam, neste registo ao vivo das actuações do grupo na sala “Quartier Latin” daquela cidade alemã, um dos seus melhores álbuns, ao nível dos anteriores “No Pain for Cakes” e “Voice of Chunk”.
Considerados praticantes de um jazz híbrido conotado com a “downtown” de Nova Iorque, os Lounge Lizards passeiam-se com inusitada frequência por alamedas laterais como o cabaré, os ritmos latinos e o rock de feição libertária. Em “Berlim 1991”, o swing está sempre presente, arredado que foi o discurso fragmentário do guitarrista Marc Ribot, que por sua vez substituíra Arto Lindsay nas formações prévias dos Lizards. Michael Blake ajuda Lurie nos saxofones, um Lurie que, logo na abertura, pega no sax alto electrificado e toca um solo de forma estranha, num jogo surreal com a bateria, a querer mostrar que não é tão mau executante como alguns pretendem fazer acreditar. Brilhante de lirismo é Bryan Carrott, no longo solo de marimba de “Not a rondo”, um entre outros exemplos que deixam patentes as virtualidades técnicas de todos os instrumentistas. Imparáveis de energia, imaginação contrapontística e uma boa dose de humor, os Lounge Lizards não param de surpreender pela positiva. Aqui, com Berlim a ajudar. (8)

Vários – “Noches Gitanas En Lebrija”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 10.06.1992


AO REDOR DAS CHAMAS

VÁRIOS
Noches Gitanas En Lebrija
4xCD, EPM, distri. Dargil


Os vários em questão são na realidade um agregado familiar à volta do guitarrista Pedro Bacan, que convocou para estas noites de flamenco o pai, Bastian Bacan, a tia-avó, Luisa Pena, a irmã Ines Bacan e um punhado de primos, Pepa de Benito, Manuel de la Costa, Diego El Daito, Concha del Lagana, La Morena, La Perrenga e Diego Vargas. Os nomes não serão conhecidos da maioria. É a família dos Bacan como poderia ser a dos Silvas. Mas que ninguém se iluda: a verdade da música flamenca está toda aqui. Na guitarra e, sobretudo, no canto que vibra, vive e sangra naquilo que o flamenco tem de mais profundo e genuíno. Noites ciganas, entre o fogo e as estrelas, registadas ao vivo em quatro volumes correspondentes a outros tantos títulos temáticos: “Fiesta”, “Luna”, “Solera e “Al Alba”. Quanto ao aglutinador do projecto, Pedro Bacan, foi-lhe atribuída pela Fundação Machado o prémio para o melhor espectáculo apresentado na Bienal de Flamenco de Sevilha, em 1990: “Nuestra Historia al Sul”.
Da “Fiesta” à volta da fogueira até à primeira luz da madrugada, é toda a história de um povo que se desenrola no espaço de uma noite mítica e por todos os cambiantes que pode assumir a alma cigana enquanto caminha. Nesse caminhar que é a sua própria essência. A noite é então o espaço, físico e poético, onde cabem, paredes meias, a celebração e o sofrimento, ao mesmo tempo que uma metáfora sobre a condição existencial de uma raça em busca de um centro.
Nos quatro álbuns é a voz que conta a história. Vozes masculinas, de luta, sol, vinho e suor, e vozes femininas, de lua, sangue, terra e pranto. Há um mistério neste canto e nestas vozes que se soltam para o negrume do céu, envoltas pelas chamas. Há quem diga que esta música se situa para além de toda a estética e que se confunde com a própria vida. Silverio Franconetti, estudioso da cultura do “povo descendente do faraó” e considerado o primeiro divulgador da sua música no exterior, julgou encontrar o segredo dos ciganos cantores, ou “flamencos”, numa sílaba que em si condensa e concentra a existência e o mundo “ay” – a chave de dentro e de fora, do sentimento e das formas de que se revestem as típicas vocalizações ciganas, feitas de espasmos, suspiros, gritos, cortes, modulações e ornamentações, que se diriam arrancadas à própria carne, movimento perpétuo, a um tempo infinito e fugaz, como uma chama – fogo e chamada.
No ciclo destas noites de Lebrija, encontram-se ainda outras chaves que dão acesso ao interior do continente (ou será ilha?) cigano. A principal abre o portão da comunicabilidade, do contacto directo entre os entes, sejam eles divinos ou humanos, e aqui reside mais um ponto essencial. O canto “flamenco” exprime uma ligação real e por isso se pode considerar sagrado. Ligação entre os vários elementos da família, entre os apaixonados, entre o homem e a terra, o homem e o céu, o homem, a sua alegria e a sua dor. Enquanto canta, o cigano transforma-se, concentra-se, encontra o seu lugar no universo. E perde-se, porque se abre, se deixa percorrer pelas correntes que através de si fluem, telúricas e celestes. Um cigano é como uma árvore a que só o canto permite criar raízes. Um cigano é a personificação do destino. Inevitável e incerto. Uma dança sem fim. Bulerias, fandangos, siguiryas, soleás… Mas atenção: para fruirmos a noite e aluz ciganas é preciso que também nós saibamos acender a fogueira. Porque a luz da Lua enlouquece. (9)