Arquivo da Categoria: Críticas 1990

CTI with Guests – “Core – A Conspiracy International Project”

IBÉRICO INVERNO 1988 >> Discos


CTI w/Guests
Core – A Conspiracy International Project
PLAY IT AGAIN SAM, SAM-88



Este disco, ao contrário do que possa parecer a quem manusear distraidamente a capa, não é uma coletânea. Trata-se antes de um projeto dos CTI, duo constituído por Chris Cárter e Cosey Fanni-Tutti, dois ex-THROBBING GRISTLE, para o qual foram convidados a participar, em cada faixa, músicos ou grupos seus amigos, tais como os COIL, MONTE CAZAZZA, LUSTMORD ou BOYD RICE dos NON.
Ideologicamente falando, e apoiando-nos nos textos explicativos do folheto incluso na capa, é mais um cruzamento de Nietzsche e a sua teoria super-homem com o marquês de Sade, com os pózinhos de magia negra hi-tech q.b., habituais neste tipo de música.
Musicalmente falando, este é um álbum bastante diversificado, oscilando entre o muito bom (COIL, LUSTMORD), o mais vulgar neste género de música, isto é, samplers, percussões eletrónicas e vozes ameaçadoras traficadas (MONTE CAZAZZA), e o sublime, como é o caso do tema “Unmasked” que surpreendentemente inclui uma discreta mas brilhante interpretação vocal de Robert Wyatt.
Trata-se, em suma, de mais uma tentativa de criação de um novo tipo de música ritual, apoiada na tecnologia eletrónica de ponta que pretende simultânea e ambiguamente destruir os velhos valores, substituindo-os por outros de sinal contrário. Neste aspeto são sintomáticos os dois temas já referidos, contanto com a participação dos COIL (“Feeder”) e de LUSTMORD (“Over Abyss”: uma religiosidade demoníaca, ambientes sonoros ao mesmo tempo belos e terríveis de um inferno tornado atraente, para o qual se voltam muitos que habitam outros infernos, de dor e desespero. Baseando-nos nos mesmos COIL, num seu outro disco, poderemos perguntar: “Uma porta de saída ou de entrada?”.
Este não é, no entanto, um projeto dos mais radicais (como o têm sido, por exemplo, todos os álbuns de Jim Thirwell, vulgo Clint Ruin ou Foetus). Não é o hard-core 1º escalão que se poderia esperar, mas um soft-core de qualidade; para os apreciadores do género, é claro!…

Benjamin Lew – “Made To Measure 17: Nebka”

IBÉRICO INVERNO 1988 >> Discos


BENJAMIN LEW
Made To Measure 17: Nebka LP
CRAMMED DISCS-88


Este é o volume 17 da série MADE TO MEASURE, da Crammed Discs Belga. Já tardava uma nova edição e este “Nebka” de Benjamin Lew, se em parte satisfaz, por outro lado ilude um pouco as expetativas e sabe a pouco. Porquê esta dupla sensação? O colecionador incondicional desta série (e é o meu caso), habituou-se a encontrar em cada um dos álbuns que a constitui, a par de uma qualidade musical intrínseca a cada disco, uma originalidade e diversidade de propostas que fazia de cada disco desta coleção, uma peça exemplar única. Ora, se neste volume 17, a qualidade continua a existir, já quanto à originalidade deixa algo a desejar. Fica-se com a sensação de que este é “apenas” mais um nº para acrescentar à série. Em parte esta sensação talvez resulte da própria escolha ter recaído em Ben Lew, que já participara, aliás, no volume 1 de apresentação deste selo, ou seja, a escolha parece ser demasiado óbvia e o músico demasiado “típico”. Ora, precisamente uma das características dos diversos discos editados, era esta recusa de uma música da qual se pudesse dizer: “Este é o género ou som da MADE TO MEASURE!”, como acontecia em relação ao som inicial da 4AD; sob a designação aparentemente unificadora de “musique de circonstance” (a circunstância é sempre única…) revelavam-se-nos propostas musicais radicalmente distintas e em que o fator surpresa era uma constante. Nunca se sabia que disco, que músico(s) ou que música constituiriam o próximo volume da coleção! Era (ou é) também nesta diferença que reside toda a coerência de todo este projeto editorial, no qual aliás o título MADE TO MEASURE é afinal bastante esclarecedor: um disco – uma peça musical única – uma música irrepetível.
Chegados a este ponto cabe esclarecer que os volumes imediatamente anteriores (nº15 e 16) são as reedições de dois discos de 1983 e 1985 do mesmo Benjamin Lew com Steven Brown, os álbuns “Douzième Journée: le verbe, la parure, l’amour” e “A propos D’un Paysage”, são sem dúvida superiores ao seu sucessor nesta série, “Nebka”, e com a vantagem de serem realmente peças musicais exemplares. Fica-se pois, após a audição de “Nebka”, com a dúvida de se teria sido necessária a edição deste disco, NESTA série, que nada acrescenta aos já citados LP’s. Talvez apenas a necessidade do lançamento de um disco mais recente por parte da editora.
Mas é então este um mau disco? – perguntarão os leitores – que não justifica uma audição ou mesmo a sua aquisição? É óbvio que não; considerado individualmente, este é um disco de qualidade muito acima da média: uma música que consegue ser ao mesmo tempo experimental e acessível, de uma beleza serena, às vezes possuidora de um lirismo próximo de um Wim Mertens. Melodias extremamente cativantes, alternando com sequências aparentemente mais dissonantes.
Acompanham Benjamin Lew, neste disco, nomes também eles familiares: Steven Brown, Marc Hollander e Blaine Reininger, seus companheiros de sempre.
Em suma, um disco extremamente belo, a merecer cuidada audição, tentando esquecer o facto de que é o mais recente volume da MADE TO MEASURE e sobretudo procurando fazer qualquer comparação com os restantes volumes desta série. O que eu fiz, afinal, nesta crítica…

The Fall – “The Fall”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 12 DEZEMBRO 1990 >> Pop Rock >> LP’s


CEM À HORA

THE FALL
The Fall
Beggars Banquet, distri. Anónima


Finalmente! Já não era sem tempo! Um vídeo todo a cores, sem movimentos em câmara lenta nem multidões em delírio. Com efeitos especiais à antiga, quase sempre sem qualquer relação com as canções, mas agradáveis de ver. Mais difícil ainda: sem erotismo (não necessariamente uma virtude) e mesmo, parece impossível, sem raios de luz azul passando através de persianas ou figuras animadas desenhadas a lápis de cera.
Estranho: as imagens não distraem da música, antes funcionam como legendas visuais, construídas a partir de grafismos variados (fundos que são mapas, cartazes, símbolos cabalísticos, texturas fotográficas), em que a profusão da cor se alia aos corpos dos músicos (de Mark E. e Brix Smith, sempre na função de personagens, mascaradas, pintadas, travestidas), para criar uma sequência non-stop de clips encadeados que correm a cem à hora e explodem com a mesma energia da músicas e palavras de Mark E. Smith.
Pós-“new wave”, empenhada e militante, a música dos Fall permanece fiel a uma linha de rock duro, mas elástico, fortemente rítmico, mas atento à sedução da melodia, sintetizado em canções de duração mínima, como uma granada pronta a rebentar.
São dez temas (incluindo uma versão de “Victoria”, dos Kinks) que souberam superar o niilismo sarcástico dos Sex Pistols (num dos temas, a anarquia é substituída pela “monarchy in the UK”…), acrescentando um toque de humor à negritude pessimista do “punk” e devolvendo à pop a dignidade que lhe concede a persecução de um ideal. Segue-se no comboio de cores berrantes até se chegar ao fim com o pé a bater o ritmo e a sensação reconfortante de que o rock ainda consegue ser hoje mais do que simples negócio e novo-riquismo.
Os realizadores são Cerith Wyn Evans, Emma Burge, Tim Riley, Schneider Barnes, Scarlett Davis e Jon Riley. Pelo ecrã passam centrais nucleares em miniatura, uma mulher vestida de bolinhas até aos cabelos, pentagramas satanistas, rostos em decomposição por onde se passeiam vermes em busca de almoço, fantasmas com forma de mulher e abstrações simbólicas, daquelas que os realizadores gostam imenso de espalhar pelas suas obras, sem qualquer intenção especial, mas graças às quais se divertem à grande com os significados profundos que se lhes quer atribuir. No fundo, a mensagem é simples: divertir, dançar, pensar. Nos dias que correm, já não é nada mau! ***