Arquivo da Categoria: Country

Loudon Wainwright III – “History”

pop rock >> quarta-feira, 03.03.1993

NOVOS LANÇAMENTOS


Loudon Wainwright III
History
CD Charisma, distri. Edisom



Considerado uma espécie de Bob Dylan recatado, o que não chega a ser grande recomendação, Loudon Wainright III anda nisto há 25 anos e o melhor que conseguiu até agora foi compor uma canção sobre o atropelamento de doninhas inocentes e gravar um disco, “More Love Songs”, ao lado de algumas sumidades da folk britânica, entre as quais o decano Ashley Hutchings, além de outros membros da Albion Band. Mas chamar-lhe cantor folk talvez seja abusivo. Loudon etc. é mais um trovador “hippie” perdido no tempo, cuja voz lembra por vezes a de Don McLean, de “American Pie”, em baladas acompanhadas à guitarra de flores, enquanto num ou noutro tema, se faz acompanhar de convidados conhecidos, neste caso, Syd Straw (Golden Palominos), as Roches e as irmãs canadianas Kate e Anna McGarrigle. Loudon etc. canta os Estados Unidos do Sul, as famílias, a sua família, e respectivas histórias, À laia de cartas intimistas. “History” conta porém essas histórias, que poderiam ser interessantes, em tom morno e sem quaisquer rasgos de inspiração. O que faz dele um disco inócuo e inofensivo que voga ao sabor das palavras. Já passou à História. (4)

Bob Dylan – “Mudam-se Os Ventos, Mudam-se As Vontades” (documentário / tv / rtp2)

rádio e televisão >> terça-feira, 19.01.1993
DESTAQUE


Mudam-se Os Ventos, Mudam-se As Vontades



O HOMEM é um mito. Símbolo de uma América marginal nada e criada no pacifismo “hippie” dos anos 60. Bob Dylan fez da palavra a sua arma, numa época em que a mensagem valia acima de tudo. O maior poeta do rock. Um génio. Desafina. Um traidor e um vendido que canta uma coisa e faz outra. De tudo já chamaram a Robert Allen Zimmerman, a quem, por comodidade de escrita, passaremos a chamar Bob Dylan. Ele esteve-se sempre nas tintas para o que lhe chamaram. Chamem-lhe Fred ou “acabado” que ele prosseguirá imperturbável o seu caminho. Há poucos meses, espantou meio mundo com um novo álbum onde interpreta em exclusivo temas tradicionais, apoiado numa guitarra acústica, na voz nasalada e na harmónica de sempre.
É esta figura lendária, este gigante da música popular, enfim, alguém cuja música não aprecio especialmente mas a quem reconheço um certo estatuto, que alguns colegas, da sua e de gerações mais novas, homenagearam num espectáculo realizado a 16 de Outubro do ano passado, no também mítico Madison Square Garden. Que ao mesmo tempo serviu para celebrar 30 anos de gravações do músico na editora Columbia.
Entre os homenageantes figuravam algumas “trutas” do “AOR” (“adult orientated rock”), que é uma maneira airosa de definir quem se habituou a descansar sobre o colchão dos tops (Willie Nelson, Eric Clapton, George Harrison, Tom Petty), mas também um “outsider” que, pelo contrário, jamais se acomodou ao que quer que fosse (Neil Young) e ainda uma cantora careca que errou na profissão (Sinead O’Connor). Esta última, protagonista do célebre episódio de acusação ao Papa, teve honras de receber, em pleno concerto, uma vaia monumental de desaprovação, deixando no ar a suspeita de a audiência ser na maioria constituída por elementos do Vaticano. Dylan, conta quem esteve lá (e esperemos que a RTP mostre o episódio), não terá pronunciado uma palavra de apoio ou de conforto à rapariga, que se desfez em lágrimas. O que, por seu lado, vem mostrar até que ponto o outrora “cantor de protesto”, autor de “Blowin’ in the wind”, se encontra ligado aos meios eclesiásticos.
O velho Bob esqueceu-se por certo de uma digressão que efectuou em 1966, quando o público reagiu mal a uma alteração de estilo do cantor, mimoseando-o com assobiadelas monstruosas e objectos atirados para o palco. “The times they are changin’”, é verdade. Mudam-se os ventos, mudam-se as vontades, e o espectáculo, em ambos os casos, teve de continuar.
Espectáculo que a RTP dividiu em três partes, completando-se a série, em princípio, a 26 de Janeiro e 2 de Fevereiro. Com todos os matadores.
Canal 2, às 00h35

Bob Dylan – “Good As I Been To You”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 04.11.1992


BOB DYLAN
Good As I Been To You
LP / MC / CD Columbia, distri. Sony Music



Que se pode esperar do velho Fred, hoje em dia? Palavras levadas pelo vento? Lições de harmónica? Suspiros de enfado? Publicidade ao Nasex? “Good as I Been to You” acaba por conseguir o inesperado: surpreender-nos. Uma voz, um nariz e uma guitarra afinal são mais do que suficientes para fazer um disco de boas canções. Há também as palavras, às quais já ninguém liga muito, mas pronto, é Bob Dylan, grande poeta, a “beat generation”, blá, blá, blá… Neste caso é diferente. As canções são todas tradicionais, arranjadas por Dylan da forma mais simples possível: em baladas intimistas, de uma serenidade típica de quem já disse há muito o que tinha a dizer, e também dos velhos. Mas nem é esse o caso. “Goo as I Been to You” soa surpreendentemente fresco, limpo e despoluído, num regresso às raízes “country” e dos “blues” que pelo caminho dá a escutar algumas das mais sentidas interpretações do trovador: “Black Jack Davey”, “Canadee”, “Sittin’on the top of the world”, “Arthur McBride”, “You’re gonna quit me”. Apetece dizer que Bob Dylan soa desta vez quase como um “absolute beginner”. (6)