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Joni Mitchell – “Cinco Estrelas” (artigo de opinião – “Blue” +”For The Roses” + “The Hissing of Summer Lawns” + “Hejira” + “Mingus”)

12 de Maio 2000


Cinco Estrelas

33 anos de carreira, 20 álbuns de originais, ao longo dos quais a cantora e compositora canadiana tem escrito e reescrito a sua própria história. Um universo pessoal, tão musical como pictórico, sem paralelo na enciclopédia dos grandes singers-songwriters norte-americanos. Desta longa viagem confessional retirámos cinco momentos que são outros tantos álbuns de retratos. Uma escolha assumidamente subjectiva, não consensual, que exclui a fase mais recente da cantora, presente em álbuns como “Turbulent Indigo” ou “Taming the Tiger”, sem dúvida excepcionais. Apenas porque a intenção foi, acima de tudo, chamar a atenção para o barro e para as estrelas de um passado sem o qual nunca se teria iluminado o firmamento de clássicos que Joni Mitchell, no seu mais recente capítulo de uma história de amor interminável, entroniza em “Both Sides Now”.



“Blue” (1971)

“Sentia-me isolada, como uma ave presa na gaiola. Já não conseguia relacionar-me com as pessoas. Uma certa dose de sucesso pode acabar com uma pessoa, de várias maneiras.” Esta dose de sucesso tinha sido granjeada ao longo dos três álbuns precedentes e “Blue” é a resposta aos que queriam ver nela apenas a “hippie” que assinou o hino “Woodstock”. Com “Blue”, Joni Mitchell demarca-se do seu passado recente, abandonando os concertos ao vivo para se auto-analisar num retiro interior do qual resultou este álbum, onde é possível descortinar os claros-escuros de um poço emocional e criativo sem fundo. É ainda a autora que, a propósito deste seu trabalho, afirmou: “Neste período da minha vida não tinha quaisquer defesas, por isso dificilmente se encontrará nas letras ou na voz o mínimo sinal que não corresponda a uma sinceridade absoluta.”

“For the Roses” (1972)

Apesar da ausência voluntária dos palcos, “For the Roses” entra, num ápice, para as listas de vendas dos EUA, feito para o qual muito contribuiu o impacte do single “You turn me on, I’m a radio”, o primeiro “hit” da cantora que chegou a ter alguma divulgação em Portugal. Embora muitos prefiram o tom mais extrovertido do álbum seguinte, “Court & Spark”, é em “For the Roses” que a relação entre a voz e o piano de Joni Mitchell – nalguns casos e pela primeira vez, pontuados por uma orquestra – se tornam cúmplices de mil e uma solidões repartidas. Um crítico do “New York Times” apontava então para ela como uma “cantora e compositora de génio que fazia com que não nos sentíssemos sozinhos”, enquanto ela própria, na canção “Woman of heart and mind”, canta: “Pensas que sou como a tua mãe, ou outra das tuas amantes, ou a tua irmã, ou a rainha dos teus sonhos, ou apenas outra rapariga tonta, quando o amor faz de mim o que quer.”

“The Hissing of Summer Lawns” (1975)

Há quem não morra de amores por este álbum, embora tivesse sido, uma vez mais, um sucesso de vendas. Ao contrário de todas as obras anteriores, autoconfessionais, “The Hissing of Summer Lawns” aponta o bisturi para o exterior, fazendo a dissecação de alguns dos vícios da sociedade americana. É, em simultâneo, em termos musicais, o álbum mais experimental da compositora, carregado de uma electrónica densa que atinge o esplendor em “The jungle line”. Manhattan transformada numa selva tropical, cimento e lianas, atravessada por jibóias e batuques rituais. E o jazz começava a despontar.

“Hejira” (1976)

O oposto do álbum anterior. Se “The Hissing of Summer lawns” era calor e humidade, “Hehjira” é branco e frio, com o desenho rigoroso de uma patinadora no gelo. Conta Joni Mitchell que a maioria das canções foi composta em viagens de automóvel. O título significa “uma viagem empreendida com a finalidade de escapar a um ambiente hostil ou indesejável”. Por vezes algo hermético, de um apuro formal levado à perfeição, “Hehjira” é um exercício de jazz ambiental, cuja arquitectura depende em grande parte do baixo de Jaco Pastorius, da bateria de John Guerin e do vibrafone de Victor Feldman. Neil Young, um velho amigo, toca harmónica como convidado. “Coyote” e “Amelia” são as canções que fogem um pouco a esta paisagem imaginada por uma esteta.

“Mingus” (1979)

Depois da participação, em 1978, no filme de Scorsese, “A Última Valsa”, Charles Mingus, um dos maiores contrabaixistas e compositores da história do jazz, já na fase terminal da sua doença, contactou-a, manifestando-lhe o desejo de trabalharem juntos numa adaptação musical de “Four Quartets”, de T. S. Eliot. Ele escreveria a música, ela editaria os textos. Joni Mitchell declinou a oferta, com a justificação de que seria mais fácil fazer uma síntese da Bíblia. Mingus insistiu, compondo seis composições para a voz da cantora. Acabaram por ser utilizadas apenas quatro, incluindo o “standard” “Goodbye pork pie hat”. Completam o alinhamento de “Mingus” dois originais da cantora e cinco designados rap, que não são mais do que curtíssimos excertos de monólogos de Mingus, um “Parabéns a você” e conversas e sons de circunstância captados durante o funeral do músico. Mingus morreu a 5 de Janeiro de 1979, mas “Mingus”, o álbum, ficou como uma tocante homenagem a esse músico visionário. Contribuíram para a gravação, além de Guerin e Pastorius, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Peter Erskine e Don Alias.



Lambchop – “Nixon”

10 de Março 2000
DISCOS – POP ROCK


Nashville ao retardador

Lambchop
Nixon (6/10)
City Slang, distri. EMI-VC



Reclamam-se herdeiros de Chey Atkins numa linhagem de country atmosférico à qual se convencionou chamar “Nashville sound” e sentem-se orgulhosos por serem considerados a “banda mais estranha de Nashville”. Chegados ao sexto álbum, os Lambchop continuam pachorrentos, envoltos numa cortina de fumo e de lamentações soul, atentos aos pequenos episódios da vida que, bem trabalhados, podem servir para encher um álbum de canções. Kurt Wagner, vocalista e líder desta formação de 13 músicos, confessou um dia que escrevia e cantava devagar por se sentir exausto quando chega a casa após um dia de trabalho (Kurt trabalha na construção civil) e a música ser assim um factor de relaxamento. Neste aspecto, “Nixon” cumpre o seu papel até fazer ressonar.
As canções enrolam o novelo que aperta o tal country atmosférico contra a soul (aliás, os Lambchop seguem a máxima que afirma que “a country é a soul branca”), com todo o vagar, ao longo de uma longa noite iluminada pelo cartaz “romantismo”. “Nixon” sofreu ainda de uma demora adicional, sendo arrancado a ferros do estúdio, fruto da obsessão de Wagner e do engenheiro de som Mark Nevers pelo pormenor e pelos pequenos efeitos de produção que podem transformar um disco medíocre num objecto colorido. Em “Nixon” a sedução e o sedativo escorrem nos arranjos para cordas que num tema como “Nashville parent” pousam num easy-listening soul complementar dos High Llamas de “Hawaii”. Otis Redding, Nick Cave e Tindersticks habitam alguns dos outros mundos escuros que dão para o dos Lambchop. Mas, se é verdade que Curtis Mayfield continua a ser uma referência na música do grupo (“What else could it be?”), isso não impede que “Nixon” se confunda nalguns casos com um decorativismo que em “The book I haven’t read” recorda Tom Jones e em “Up with people” acompanha a fase mais country de Peter Blegvad, de “King Strut and Other Stories”.
E ficaríamos pela eternidade fora a contemplar esta verdadeira homenagem ao homem-estátua – a qual, diga-se de passagem, não destoaria como banda sonora de “Uma história Simples”, de David Lynch. Mas eis senão quando as duas últimas faixas nos vêm arrancar do sossego, gritando-nos que, afinal, num ápice, os Lambchop se podem virar do avesso para mostrar o lado convulsivo da sua música. “The petrified florist” (o homem-estátua sorri mas não compreende…) escurece no gume da faca de John Cale para se elevar numa escalada épica de sopros e sintetizadores Boeing e finalmente tombar com majestade no cemitério dos Current 93 e Death in June. A fechar, “The butcher boy” monta no bisonte, guiado primeiro por Johnny Cash e depois por Stan Ridgway, para correr (sim, correr!) ao encontro do rock ‘n’roll e do tempo perdido a desfalecer no resto do álbum.



John Fahey – “Hitomi”

28 de Julho 2000
POP ROCK – DISCOS


John Fahey
Hitomi (7/10)
LivHouse, distri. Sabotage



Figura lendária do “underground”, herói para Jim O’Rourke, que o projetou como padrinho do pós-rockm influência assumida por Thurston Moore, dos Sonic Youth, John Fahey prossegue infatigável uma carreira desde há três décadas paralela aos grandes centros de decisão da indústria discográfica. A sua música fantasmática faz-se da devoção aos blues e à country, colados nas cordas da sua guitarra pela técnica do “fingerpicking” e por uma noção do tempo que ronda os princípios da hipnose. “Hitomi” apresenta uma sucessão de monólogos onde a introspeção e o silêncio se entrelaçam em longos mantras sulcados por efeitos de eco, reverberação e delay. Os “blues” alongam-se na dispersão das frases da guitarra, abrindo no seu interior espaços e síncopes. O tempo, repetimos, não é o mesmo para John Fahey e para um “bluesman” tradicional. Fahey estilhaça-o a seu bel-prazer numa música que tem tanto da serenidade zen (um “Delta flight” planante) como da inquietação súbita que um redemoinho de vento traz a uma cálida tarde de Verão. Quando, por fim, a guitarra se depara com o seu primeiro grande obstáculo, em “A history of Tokyo rail traction”, o embate com a eletrónica de Tim Knight e Rob Scrivener repõe com violência esta música do “outro mundo” na realidade das coisas sólidas que colidem e fazem ruído e causam dor. Como se o pós-rock reivindicasse à força os seus direitos, exigindo de John Fahey a atenção que este invariavelmente tem concentrada nas regiões mais estratosféricas da imaginação. São sonhos que se desvelam em “Hitomi”. Mas sonhos que causam desequilíbrio e exigem a reavaliação das normas que regem os passado. O que torna a música de John Fahey intemporal.