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Whippersnapper – “Folk-Rock No S. João Do Porto”

cultura >> quinta-feira, 10.06.1993


Folk-Rock No S. João Do Porto

OS WHIPPERSNAPPER, trio constituído por Chris Leslie, Martin Jenkins e Kevin Dempsey, actuam amanhã e na sexta-feira na Ribeira do Porto, em espectáculos integrados nas festas de S. João, iniciativa do pelouro de animação da cidade, com produção e organização da MC – Mundo da Canção. É o regresso do humor e do virtuosismo que a banda já dera a conhecer nas suas duas anteriores visitas a Portugal: em 1991, nos Encontros Musicais da Tradição Europeia, e, no ano seguinte, a solo, nos “Circuitos” que complementavam esse festival.
De então para cá a música do grupo ganhou consistência e reconhecimento público, passando do estatuto de banda de culto – para o qual muito contribuiu a presença, na formação inicial, do mestre do violino, ex-Fairport Convention, David Swarbrick – para nome de cartaz no carrossel de festivais Folk internacionais.
Chris Leslie assume hoje o papel de violinista principal numa proposta que se mantém intacta desde o início, na qual os instrumentos de corda são os principais protagonistas: além do violino, o bandolim, a mandola, o mandocelo e a guitarra. Ultimamente, o sucesso e consequente alargamento de audiências levaram a que a electrização do som se fizesse sentir comm maior intensidade, através da inclusão, na paleta instrumental, do sintetizador e de um violino eléctrico.
Nas suas anteriores passagens por Portugal, os Whippersnapper deixaram a imagem de um grupo de “virtuoses” sem pretensões, que intercalava um “tour de force” das cordas ou a repescagem de tesouros antigos desenterrados dos tempos em que Jenkins e Dempsey ajudaram a implantar o Folk Rock em Inglaterra, nos Dando Shaft, com uma anedota ou um comentário bem humorado sobre cada canção.
Hoje como ontem, os Whippersnapper prosseguem viagem pelas margens da música tradicional inglesa, sem grandes preocupações em deixar marcas de reconhecimento. A revista americana da especialidade “Frets” definiu-os uma vez nos seguintes termos: “Just your typical everyday original new acoustic traditional british ethnic multi-instrumentalboedown rock folk band.” O que, traduzido por miúdos, significa bons momentos de música e de gozo em perspectiva.

Ganhões de Castro Verde – Ganhões Alentejanos Em Compacto”

pop rock >> quarta-feira, 09.06.1993


GANHÕES ALENTEJANOS EM COMPACTO

Pela primeira vez, um grupo de cantares alentejanos vai ter a sua música editada em compacto. Maurizio Martinotti e Beppe Greppi, dos La Ciapa Rusa, estiveram no Alentejo e gravaram os Ganhões de Castro Verde, na primeira produção conjunta entre a Robi Droli e a Etnia.



Os Ganhões de Castro Verde são umm dos muitos grupos de “cante” alentejano que proliferam pelas planícies e planaltos do Alentejo. Ao longo dos anos, este género de agrupamentos, cuja música remonta aos cânticos religiosos da Idade Média, tem sido sistematicamente manipulado pelas forças políticas. Votado ao ostracismo antes do 25 de Abril, depois utilizados, no período posterior à revolução, pelos partidos de esquerda, que dels quiseram fazer cavalo de batalha da luta de classes e da sua música porta-voz do proletariado. À esquerda ou à direita, a mesma cegueira e a mesma visão estreita. E a incapacidade de reconhecer nas “modas” alentejanas o canto vivo de uma tradição secular, sem dúvida ligada aos ritmos do trabalho e da terra, mas também à mensagem das estrelas, à ondulação das searas e ao sussurro do vento.
Com uma formação actual de 27 elementos, os Ganhões (nome dado aos assalariados que trabalhavam sem quaisquer contratos ou garantias) existem com esta designação desde 1972, com direcção artística de Francisco Caipirra, tendo ganho já vários prémios de “cante” alentejano. O grupo funciona no âmbito da Sociedade Filarmónica 1º de Janeiro, uma das mais antigas associações recreativas e culturais da localidade. A Câmara Municipal de Castro Verde, através do seu presidente, Fernando Caeiros, à frente dos destinos camarários da vila desde 1976, garantiu o apoio monetário e a disponibilização das infra-estruturas necessárias para levar por diante a iniciativa.
Durante cinco dias, entre 28 de Maio e e de Junho, Maurizio Martinotti e Beppe Greppi gravaram “modas” escolhidas pelo grupo, no Auditório do Cine Teatro da vila, com a selecção final dos temas a cargo de um dos solistas, o “alto” António Revez. Agora falta a prensagem e o desenho da capa, que incluirá as letras em português, italiano e inglês, compiladas por Mário Alves, da Cooperativa Cultural Etnia, fotos do grupo, da autoria de Rui Mota, membro da mesma cooperativa, e desenhos sobre os Ganhões e quotidiano rural no Alentejo, da autoria do artista popular Joaquim Rosa. Tudo terá de estar pronto até 13 de Julho, antes da realização, com início a 16, do festival de Vancôver, no Canadá, um dos mais importantes festivais de música tradicional, que este ano vai estar subordinado ao tema das polifonias vocais e para o qual os Ganhões de Castro Verde foram convidados, de novo com o apoio das entidades camarárias e da Sociedade 1º de Janeiro.
O compacto – primeiro com selo Etnia, na série Vozes (fazendo ainda parte dos projectos da nova editora mais duas colecções, uma dedicada aos novos grupos de música tradicional portuguesa e outra de reedição de gravações históricas existentes (em arquivo) – terá o seu lançamento oficial em Portugal no Outono, por ocasião da feira de Castro Verde, com um espectáculo dos Ganhões e dos La Ciapa Rusa em agenda.

Júlio Pereira – “Júlio Pereira Estreou Novo Espectáculo Em Lisboa – A Matemática Do ‘Swing'”

cultura >> segunda-feira >> 07.06.1993


Júlio Pereira Estreou Novo Espectáculo Em Lisboa
A Matemática Do “Swing”


Para Júlio Pereira, o concerto de sábado, no Teatro S. Kuiz, em Lisboa, representava a sua estreia a solo na capital. Ultrapassada uma fase inicial de algum nervosismo, o bandolim disparou para uma actuação brilhante, num recital de intuição e virtuosismo. Só a voz de Minela pecou por falta de discrição.



A responsabilidade era muita. A assistência não tanto, mas mesmo assim suficientemente numerosa para compor a sala e testemunhar o novo projecto ao vivo de um dos grandes instrumentistas de música popular portuguesa da actualidade. Acompanhado por Moz Carrapa, antigo elemento dos Salada de Frutas, na guitarra acústica, e por Minela, voz e sintetizador, o autor de “O Meu Bandolim” percorreu fases diversas do seu reportório, dos tempos de divulgação do cavaquinho até ao período recente de vassalagem ao bandolim, único instrumento que tocou ao longo da moite.
Excelente na técnica de “rasgar” e no dedilhar das cordas, Júlio Pereira soube precaver-se contra o perigo do mero exibicionismo técnico. Deixou-se levar pelos caminhos da intuição sem com isso perder a bússola. O “swing” nas equações da matemática. Moz Carrapa assumiu-se como suporte e contraponto ideal das malhas urdidas no bandolim. Seguro, sempre, dialogante quando lhe foram pedidas explicações e comentários. Acima de tudo foi protagonista atento e equilibrado, resistindo de igual modo à subserviência e ao autoritarismo.

O Grito De Minela

Teriam sido só harpas e rosas se a magia não quebrasse por onde à partida não seria suposto tal acontecer, pela prestação de Minela, uma voz que sabe e costuma ser de assombro mas que no S. Luiz não soube encontrar o registo adequado. A ela coube interpretar uma série de canções de José Afonso – “Teresa Torga”, repetida no segundo “encore”, “Maio maduro”, “Fura fura”, “Milho verde”, “Entrudo”… – que defendeu com garra mas onde se perdeu quando lhe era exigida maior contenção. Demasiada estridência (defeito que a mesa de som poderia ter corrigido mas não corrigiu), hesitações no tempo e, sobretudo, alguma ostentação, situaram a cantora na margem oposta à de Moz Carrapa. O equilíbrio das cordas da guitarra por oposição ao excesso das cordas vocais.
O despropósito atingiu o auge numa improvisação (?) sobre “Milho Verde” com pretensões a experimental, segundo aquela concepção de que o experimentalismo, quando da utilização da voz, é sinónimo de gritaria. Até poderá ser “de gritos” mas não da forma como Minela o fez, descontrolada, pulmão à rédea solta, qual Castafiore serialista. Visivelmente, a cantora açoriana não é uma Diamanda Galas nem uma Irene Papas. Depois também não se percebeu muito bem aquela passeata pelo palco, em dança, sem graça nem leveza, acompanhada de palmas fora do compasso, durante uma conversa arrebatada mantida entre Júlio Pereira e Moz Carrapa, na introdução de “Fura Fura”. Desviou as atenções e não acrescentou fosse o que fosse à música. Pelo contrário, o sintetizador esteve mais apagado do que seria desejável, marcando presença a um nível quase subliminar.
Fora tais despautérios foi uma delícia escutar as cordas em festa do bandolim, no duelo com a guitarra, em “Palaciana”, numa “Nortada” em que o bandolim serviu de instrumento de percussão, na pura vertigem de um “Miradouro” revisitada, nas encruzilhadas da música búlgara que antecederam a explosão do “Entrudo”.
Júlio Pereira, sem computadores a estorvá-lo, é um músico que não cessa de evoluir. O caminho está livre à sua frente. A música tradicional, não há espanto nisto, chama do futuro. Saber dar-lhe voz sem lhe cortar as raízes, eis a vereda, eis o segredo. Júlio Pereira tem as cordas do tempo na mão.