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Milton Nascimento e Pat Metheny – Concertos –

Pop Rock

27 MAIO 1992
SÓ CONCERTOS – JULHO

MILTON NASCIMENTO E PAT METHENY

Milton Nascimento, no Porto. Pat Metheny, também. Milton Nascimento e Pat Metheny, juntos no mesmo concerto, só em Lisboa, no Campo Pequeno, a 30 de Julho. Quanto às datas portuenses: Milton a 28 de Junho, Pat a 1 de Julho, ambas no Coliseu. Em Lisboa, a primeira parte será preenchida pela banda de Milton Nascimento, que actuará cerca de uma hora e meia. A seguir brilhará a guitarra de Pat Metheny, mais ou menos durante duas horas e meia. Para o fim, está previsto espectáculo extra: o guitarrista americano deverá juntar-se à banda do brasileiro. Se os astros quiserem e os músicos também, as duas bandas poderão mesmo tocar em simultâneo, numa experiência que, a acontecer, constituirá decerto momento inolvidável. Os preços dos bilhetes vão dos 2500 aos 6000 escudos. A Scat organiza. Nos concertos do Porto, deverá ser um pouco mais barato.
Milton Nascimento traz consigo seis músicos, todos brasileiros, avultando a presença de três percussionistas. Ao lado de Pat Metheny, o nome mais conhecido é o do teclista Lyle Mays. Há mais quatro, entre os quais também dois brasileiros. Se em relação ao Milton Nascimento (tornado importante pela excelência de “O Milagre dos Peixes”), os elogios são mais ou menos unânimes (a principal crítica diz respeito à por vezes excessiva reverência aos modelos americanos), já Pat Metheny tem a desagradável (e felizmente ocasional) tendência para se afundar na mais completa mediocridade. Não faltam exemplos nos recentes álbuns gravados para a Geffen. Pontos altos são a maioria dos seus discos da ECM e o magistral “tour de force” reichiano que é “Electric Counterpoint”. Da primeira vez que esteve entre nós, há dois anos, no Coliseu de Lisboa, foi o delírio, parece.



Folk Tejo – Festival de Folk em Lisboa

Pop Rock

27 MAIO 1992
SÓ CONCERTOS – JUNHO

FOLK TEJO

Finalmente Lisboa vai ter a sua grande festa de folk. Nos dias 1 e 2 de Junho, no Coliseu dos Recreios. A organização chamou-lhe “Folk Tejo” e é ela que abre as “Festas da Cidade”. Os preços variam entre os 1200 escudos, para a Geral, e os 12500 escudos, para um camarote de 1ª, para cinco pessoas. No Sábado: Maddy Prior, McCalmans, June Tabor e Davy Spillane. No domingo será dia dos portugueses Vai de Roda e Júlio Pereira, do brasileiro Paulo Moura e da banda americana Moore by Four. Considerada, ao lado da malograda Sandy Denny, uma das duas grandes vozes femininas britânicas do movimento revivalista folk dos anos 70, Maddy Prior viria a abandonar a banda que a celebrizou, os Steeleye Span (“Ten Man Mo por Mr. Reservoir Butler Rides again”, “Below the Salt” e “Parcel of Rogues” ficaram para a história), para se dedicar a uma discreta carreira a solo, voltada para sonoridades progressivamente mais distantes da música tradicional. Nos últimos anos, a filha pródiga regressou ao lar e à música antiga, integrada nos Carnival Band, de “A Tapestry of Carols” (recolha de canções de Natal que remontam à Idade Média) e “Sing Lustilly & with Good Courage”, recuperação brilhante do ambiente palaciano e das danças da Renascença inglesa. Fundamentais são ainda os dois álbuns (com destaque para “No more to the Dance”) que, juntamente com June Tabor, gravou sob a designação Silly Sisters – duas vozes femininas irmanadas numa paixão comum pelas origens, magistrais no modo como ambas se harmonizam no canto dessa paixão.
June Tabor, que, de resto, estará também presente na festa. De voz mais contida e interiorizada que a da sua “irmã” Maddy, nem por isso deixou de desempenhar um papel fulcral no movimento do “folk revival” britânico. Vista nos meios folk como uma purista, o seu álbum “Ashes and Diamonds” causou escândalo na época (1977), devido à utilização descomplexada dos sintetizadores, hoje, para o melhor e para o pior, tornada usual. De entre um extenso e meritório currículo, salientam-se as participações no épico “The Transports”, de Peter Bellamy e “Till the Beast’s Returning”, de Andrew Cronshaw, bem como a parceria com Martin Simpson em “A cut above”. No seu disco mais recente (“Some other Time”), optou por um estilo “jazzy” e pela interpretação de alguns dos seus “standards”, com resultados duvidosos. No Coliseu, presume-se, será diferente.
Os escoceses McCalmans integram a segunda linha dos grupos folk britânicos, apesar de já contarem no activo com 17 álbuns. A sua música distingue-se pelos apurados jogos vocais e por uma rudeza estilística que os aproxima do som “pub” dos Dubliners ou dos Wolfetones. Ao vivo, podem tornar-se irresistíveis. De Davy Spillane, menino prodígio da gaita-de-foles, há quem o deteste e quem o venere. No primeiro caso estão aqueles que o acusam de perverter (a solo ou integrado nos Moving Hearts) o espírito celta, ao acrescentar-lhe a vergonha do “rock‘n’roll”, a crueza dos “blues” e a contaminação “country”, em álbuns como “Atlantic Bridge”, “Out of the Air”, “The Storm” ou o recente “Shadow Hunter”. No segundo caso, rejubila quem acha que deve ser assim, que o termo “celta” tudo engloba e que o mais importante é o facto de Spillane ser hoje um dos principais embaixadores da cultura irlandesa no mundo.
António Tentúgal e os Vai de Roda vão mostrar como se pode ser antigo, moderno, rural e urbano ao mesmo tempo e sem deixar de ser português. Lisboa vai poder deliciar-se ao vivo, pela primeira vez, com as histórias de “Terreiro de Bruxas”, que a banda portuense tão bem sabe contar. Júlio Pereira, acompanhado pela sua nova banda, trará para a cidade as suas paisagens pintadas nas “Janelas Verdes”. Paulo Moura, brasileiro, saxofonista, influenciado por Charlie Parker, mistura o jazz com ritmos rurais como a gafieira ou o chorinho. “Confusão Urbana, Suburbana e Rural”, título de um dos seus álbuns, ilustra nem tal atitude. Finalmente os Moore by Four, cinco instrumentistas e quatro vocalistas, de Minnesota, EUA, banda de “fusão” swingante, permeável ao “gospel” e à pop, que alguns comparam, na abordagem vocal, aos Manhattan Transfer. “Folk Tejo” – da tradição celta à tradição do “swing”.



Resistências: José Mário Branco – “Correspondências” + Janita Salomé – “Cantar À Lua”

Pop Rock

6 MARÇO 1991
LP’S

RESISTÊNCIAS

JOSÉ MÁRIO BRANCO
Correspondências
LP, MC e CD, UPAV

jmb

JANITA SALOMÉ
Cantar à Lua
LP / MC / CD, Edisom

janita10

Multiplicam-se as edições discográficas nacionais de obras não directamente relacionadas com o rock. Cantores/compositores como Sérgio Godinho e José Mário Branco voltam a ser referidos de igual para igual com os músicos rock. A música tradicional ganha novo fôlego (Vai de Roda, Cantares do Manhouce). Como se de repente se alargassem as fronteiras do mundo. Ou as vistas se tornassem menos curtas. Mais interessante ainda: os discos vendem-se.
Foi preciso esperar quase dois anos até “Correspondências” estar finalmente disponível nos escaparates. As multinacionais ignoraram sistematicamente o projecto. Não acreditaram num músico, José Mário Branco, de créditos firmados e justamente reputado com um dos grandes compositores e arranjadores da moderna música popular portuguesa. O disco saiu agora com o selo UPAV, cooperativa cultural de que o próprio é fundador e membro activo.
“Correspondências”, gravado em 1989 no Angel Studio, assinala uma mudança significativa no percurso do autor e particularmente em relação ao seu anterior trabalho, “A Noite”. Para trás ficou o tom épico-dramático do longo tema que dava nome a esse disco ou a raiva e lucidez do manifesto “FMI”. José Mário Branco pôs a correspondência em dia, através de dez canções dirigidas a outros tantos destinatários: Daniel Filipe, José Afonso, Hannah Arendt, Chico Buarque, Anton Tchekov, a si próprio e aos netos, ao misterioso J.C. e ao prosaico sr. Silva. Palavras certas. Palavras cortantes. Populares umas, outras distantes. Entre a fábula acerca da mediocridade que é “Diminuendos”, contando a história do leão que aos poucos se transformou em formiga e a distanciação apaixonada de “Emigrantes da quarta dimensão”.
A voz – a mesma de sempre – mais madura, pausada, sem a rouquidão demencial de “A Noite”. Continua mestre na arte dos arranjos, na maneira de tornar mais bela uma canção. Excelente e conciso todo o trabalho efectuado no computador (“Dairinhas”, “Diminuendos”, “Shalom Palestina”, “Cada dia são cem”). Tudo encaixa sem esforço no lugar certo – a introdução pianística de Mário Laginha em “Emigrantes da quarta dimensão”, os coros elegíacos de “Zeca”, o evocativo solo de sax de Paulo Curado em “Sentido único”, os diálogos violoncelo/flauta (tocados respectivamente por Irene Lima e Ricardo Ramalho) em “1900” e das guitarras em “Quando eu for grande” (por José Peixoto e Júlio Pereira). José Mário Branco permanece ao lado das modas e à frente na luta contra o derrotismo e a contemporização. Recados por carta a quem os souber ler.
“Cantar à Lua”, de Janita Salomé, não pretende ser mais do que aparenta: álbum de fados (como já havia sido o anterior, “Melro”) e alguns temas tradicionais, acompanhados à (apenas) guitarra, (António Brojo e António Portugal) a que falta o intimismo contido da saudade e da escuridão das vielas, substituídos pelas grandes extensões queimadas e solares ou a placidez das noites enluaradas do planalto alentejano, presentes na voz e no canto pujantes de Janita. Disco afastado do gosto das massas. Disco contido e sentido nos propósitos, sincero no modo com os traduz. Faz apetecer o verão. Desejos à luz branca e crua, quando o mundo cala e a alma se liberta, nua, para lá dos montes e da Lua.