Arquivo mensal: Junho 2023

Wir – “The First Letter”

Pop-Rock Quarta-Feira, 06.11.1991


WIR
The First Letter
LP / CD, Mute, distri. Edisom



Perderam a última letra (o título refere-se à primeira…) pelo caminho, mas não o espírito de aventura que desde sempre lhes tem permitido manterem-se à margem de qualquer futilidade. Sucessor do minimalismo maquinal de “The Drill”, o novo álbum consegue de novo esse milagre de equilíbrio entre a veia experimentalista de Gilbert e Lewis e a intuição melódica de Newman, num lote de canções que acaba por o seu melhor de sempre. Passado o tom espartano dos primeiros discos, de que reultou o inesquecível “154”, cada um dos membros dos Wire ensaiou experimentalismos obscuros nos projectos Dome, He Said (este menos) ou Duet Emmo, que finalmente serviram para enriquecer a música do grupo original. Testemunho desse enriquecimento, a nova colectânea de temas, entre a reminiscência dos Kraftwerk e a obliquidade das melodias, atinge o auge de ambiguidade em “So and slow it grows” (um potencial “hit” aqui editado em duas versões), que alia o tom vagamente sinistro das palavras a um balanço irresistível. (8)

Vários – “Realidade Virtual”

Pop-Rock Quarta-Feira, 06.11.1991


VÁRIOS
Realidade Virtual
LP, Fast Forward, distri. Ananana & Messerschmitt



A música portuguesa alternativa continua á procura de novos rumos. A presente colectãnea inclui temas originais dos portugueses Popper W2, Hesskhé Yadalanah, Rafael Toral, God Speed My Aeroplane, Nuno Rebelo, Adolfo Luxúria Canibal & Humpty Dumpty e Matrix Run, dos ingleses Somewhere In Europe, Zone e Pornosect, dos franceses Margaret Freeman, dos alemães Strafe Für Rebellion e do espanhol Miguel A. Ruiz.
Músicas rituais mais ou menos negras e electrónica ambiental / industrial constituem o prato forte, ilustrativo das sombras que procuram descer sobre o mundo e da influência exercida por certos magos (ou pretensos magos) negros sobre uma determinada camada dos nossos jovens músicos, de que são exemplo os temas dos Popper W2, um decalque razoavelmente credível dos Throbbing Gristle da primeira fase e dos Hesskhé Yadalanah, à procura do estatuto de Hafler Trio nacional. Menos preocupados com os ardis do demónio, Adolfo Luxúria e os Humpty Dumpty optam pelo rock industrial operário e os God Speed pela acidez das guitarras. Ao contrário dos Matrix Run, que preferem dançar ao som da “house” ambiental. Destaque para as vagas de energia sexual sintetizadas pela guitarra de Rafael Toral, aprendidas à luz da “estrela da tarde” de Fripp & Eno, e para os deliciosos 16 segundos de Nuno Rebelo aos comandos do computador. Quanto aos estrangeiros, exceptuando as colisões de metal (ressoando a Asmus Tietchens) de Miguel Ruiz, é a descida ao inferno, no fundo essa “realidade virtual” a que o título alude. Disponível por via postal, apartado 5204, 1706 Lisboa códex. (7)

Nitzer Ebb – “Ebbhead”

Pop-Rock Quarta-Feira, 06.11.1991


NITZER EBB
Ebbhead
LP / CD, Mute, distri. Edisom



Música a músculo. Para os Nitzer Ebb, Douglas McCarthy e Bom Harris, cada disco é uma prova de força. E de poder. “Ebbhead” é tão poderoso e militarista quanto os anteriores “That Total Age”, “Belief” e “Showtime”, tendo sobre estes a vantagem de ser mais subtil. Subtileza que os afasta de vez da síndrome rítmica DAF que sempre os perseguiu (notória ainda em temas como “Time” e “Ascend”), impelindo-os para paragens bem mais variadas. Tão cruelmente dançável como os anteriores (“Family man” arrisca-se mesmo a intoxicar as discotecas), “Ebbhead” aposta, porém, numa maior complexidade dos arranjos e num registo vocal que, desta vez, se situa perto das contorções épicas de Jim Thirlwell (Foetus). Os computadores e as máquinas de ritmo tornaram-se mais delicadas. O discurso do poder permanece, saturado do veneno, martelado pela repetição de palavras de ordem e a exposição de uma ou outra atrocidade. Os Nitzer Ebb prosseguem a guerrilha. Exterminadores agora menos implacáveis. (7)