Arquivo mensal: Novembro 2022

Carmel – “The Collection, 1983 – 1990”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 13.02.1991


CARMEL
The Collection, 1983 – 1990
LP e CD London, Distri. Polygram



Como o título indica, trata-se de um “best of” de canções gravadas originalmente no período compreendido entre essas datas, dispersa pela discografia de álbuns da cantora. A escolha recaiu nos temas mais imediatamente apelativos, sem que tal facto constitua um demérito grave. Sabe-se quais são as intenções de discos desta natureza. Carmel McCourt e os seus dois companheiros habituais (Gerry Darby, percussões e programações de ritmo e Jim Paris, guitarra, baixo) passeiam-se com todo o à vontade por sonoridades tão distintas como o calypso de “I Have Fallen in Love”, as sugestões “soul” que lhes são mais caras, de que são ilustrativas a versão de “It’s all in The Game” dos Four Tops. “Every little bit” e “You Can Have Him” (inspirado na versão de 1980 de Dionne Warwick) ou os sombreados “bluesy” do órgão Hammond, pontuados pelos sopros da “Sounds 18”, em “More more more”. A voz de Carmel faz o resto, numa colecção sem pretensões de raridade, mas capaz de satisfazer os amadores menos puristas.
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Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #112 – “Mais dúvidas sobre os Anos 80 como se não fossem já suficientes__ (Familycat)”

#112 – “Mais dúvidas sobre os Anos 80 como se não fossem já suficientes__ (Familycat)”

Fernando Magalhães
17.06.2002 020216
Em relação aos CURVED AIR, penso que irás render-te ao “Phantasmagoria”. Um álbum mágico, ainda que a letra de “Not quite the same”seja passível de interessar ao Alvarez… 😀

Já agora, não resisto a recomendar-te a audição de “Begin”, dos THE MILLENIUM (1968). É uma obra-prima ao nível do “Sgt. Peppers” e do “Pet Sounds”:

O CURT BOETTCHER (falecido m 1987) era um iluminado, da estirpe de Brian Wilson. O álbum foi o primeiro de sempre a utilizar um gravador de 16 pistas (ou melhor, dois gravadores de 8 pistas juntos…) e foi o mais caro de sempre na altura, ultrapassando mesmo o “Sgt. Peppers”.

O aproveitamento do estúdio é espantoso e as canções fazem jus ao uso intensivo e imaginativo da tecnologia.

Mas, repito, o CURT BOETTCHER era um louco iluminado. As letras do disco inspiraram-se numa espécie de livro de profecias e ele próprio se convenceu de que era o Messias, encarregado de salvar o mundo com a sua música. Considerava mesmo os THE MILLENIUM, além de um grupo pop, um culto religioso!!!!

Completamente ignorado na altura, “Begin” tornou-se ao longo das décadas seguintes numa espécie de lenda do Psicadelismo, na sua versão ao mesmo tempo mais mística, pop e experimental.

FM

Mão Morta – “Corações Felpudos”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 26 SETEMBRO 1990 >> Pop Rock

O APELO DO SANGUE

MÃO MORTA
Corações Felpudos
LP, Fungui


Sangue, muito sangue! – clamam, sedentos, os Mão Morta. A banda de Adolfo Luxúria Canibal não faz a coisa por menos: faixa sim, faixa não, escorre hemoglobina a rodos, tornando o coração mais felpudo numa massa ensopada de vermelho. A ideia que têm das atividades geralmente designadas de “amorosas” consiste basicamente em espetar facas na barriga do parceiro(a). Tudo é escuridão e terror. “Corações Felpudos” (título sugerindo coisas como Gremlins sequinhos ou bichos de peluche) esconde horrores inomináveis, abomináveis, perversões. “Gritos e lâminas afiadas / tingem de sangue os lençóis”, crimes, reais ou sublimando uma sexualidade cruel, em que o prazer se alcança inevitavelmente pela dor. “Este punhal uma ilusão / que seguro firme contra o corpo / metal frio de carne sedento”. Enquanto os Xutos se divertem e enriquecem à custa da Pepsi e os UHF militam no combate a velhos fantasmas – os Mão Morta encarnam a violência e o vazio urbanos do final do século.
Adolfo Luxúria Canibal não canta – berra, vocifera, blasfema, esbofeteia os preconceitos auditivos, destila ódio, como no tema do mesmo nome, um dos melhores do disco, fazendo de cada palavra uma faca, cada entoação uma punhalada dirigida ao âmago das pequenas e grandes coisas que fazem da vida um inferno. No limite do ódio, a paranoia absoluta – “As trevas estão por aí escondidas / à espera que eu apague a luz / para se lançarem sobre mim” ou a violência ritual exemplificada no tribalismo onomatopaico de “É Uma Selvajaria” (outro dos grandes temas do disco). “Facas em Sangue” sumariza na perfeição as cores prevalecentes: negro e vermelho, o sangue e a noite, onde se gritam blasfémias e se ama até ao aniquilamento. “Das trevas nasce a luz / mas a luz sempre às trevas regressa” – eterna e cíclica viagem sem redenção possível, que só a morte liberta.
Musicalmente, “Corações Felpudos” investe no furor das guitarras, no ruído controlado, na repetição angustiada, na brutalidade dos arranjos. Em alguns temas notam-se algumas influências ou meras semelhanças, nada de grave, se considerarmos a excelência das mesmas: Pere Ubu (o desfalecimento das guitarras nos instrumentais “Olho da Máscara” e “Santana Menho”), Einsturzende Neubauten (nalgumas vocalizações de A.L. Canibal e na organização do ruído, como em “Ventos Animais”) ou, curiosamente, Snakefinger (em “Freamunde, Acapulco” e no instrumental final “Arlequim”).
Com “Corações Felpudos” os Mão Morta situam-se definitivamente do lado mais negro e marginal do rock português. Onde outros procuram a claridade dos tops, alcançada quase sempre à custa de cedências, Adolfo Luxúria Canibal, Joaquim Pinto, Zé dos Eclipses, Carlos Fortes e Miguel Pedro escolhem deliberadamente mergulhar no abismo. Acompanhá-los no mergulho pode ser penoso. Como apertar a mão a um cadáver e senti-la latejar.