Arquivo mensal: Setembro 2022

GNR – “Reininho No Recreio” (concerto | televisão)

PÚBLICO SÁBADO, 15 DEZEMBRO 1990 >> Local >> TELEVISÃO


Reininho no recreio


RUI REININHO e os GNR pertencem à casta forjada a ferro e fogo dos sobreviventes. Sobreviveram à onda normalizadora do primeiro “boom” do então denominado “rock português”, à recessão que se lhe seguiu, sobreviveram sobretudo a si próprios, às tentações que o demónio do sucesso decerto não deixou de lhes segredar aos ouvidos: estagnação de ideias, acomodação a programas estéticos preguiçosos, elaborados à pressão, para fácil digestão das massas, segundo a conhecida fórmula do “Reader’s (neste caso “listener”) Digest”.
Reininho e companhia sobrevivem graças ao humor subtil e à distanciação. A palavra séria é dita a brincar, o absurdo veste-se com a casaca da solenidade. Assumem a contradição, engolida vorazmente pelos vampiros, como se de nova bíblia pós-moderna se tratasse.
Há sete meses e picos, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, foi a apoteose do rei da “kitsch pop” e da decadência elegante. Os GNR, como de costume, confundiram e encantaram, baralhando as pistas e presenteando uma multidão delirante com os seus típicos “trompe l’oeil” melódico-gramaticais. “Impressões Digitais”, “Dafundo”, “Morte ao Sol”, “Hardcore Primeiro Escalão”, “Pós (País) Modernos” e mais uns tantos trocadilhos conceptuais chegaram para provar que são diferentes. É possível juntar no mesmo espetáculo a gaita-de-foles dos Sétima Legião e o Vata do Benfica, sem parecer ridículo? Claro que não. A diferença está em que os GNR conseguem fazê-lo de forma sublime. RTP 2, às 23h30

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #79 – “Jazz (FM)”

#79 – “Jazz (FM)”

Fernando Magalhães
20.02.2002 170556
Também eu estou a entrar em força no jazz, não tanto pelo free jazz mas mais pelo hard bop, estética na qual, aliás, prefiro ouvir o Coltrane…

Como houve quem falasse do ARCHIE SHEPP, aproveito para informar que o vendedor tem por lá o “Fire Music” com, entre outros, SUNNY MURRAY.
Fiquei, para já, com “The Way Ahead” e mais outro…

RANDY WESTON, PHAROAH SANDERS, McCOY TYNER, ABDULLAH IBRAHIM e SONNY ROLLINS são outros dos actuais “objectos” de pesquisa.

Sugiro também a descoberta na free music inglesa dos anos 60, princípios de 70. Das big bands de MIKE GIBBS e MIKE WESTBROOK aos fantásticos 2º e 3º álbuns de JOHN SURMAN (nada a ver com a música minimalista para a qual evoluiu nos discos que gravou para a ECM), respetivamente “How many Clouds can you See?” e “Tales of the Algonquin”., bem como, também produzido por ele e com a sua participação, “Pause, and Think again”, do pianista JOHN TAYLOR.

Mas há mais, muito mais…

FM

Fernando Magalhães
21.02.2002 170535
“Soltas” de jazz…

1 – JOE HENDERSON é outro dos meus saxofonistas tenor preferidos.

2 – Do McCOY TYNER gosto bastante do “Atlantis”

3 – Fala-se muito do “A Love Supreme”. Prefiro uma versão aumentada da mesma obra gravada ao vivo no festival de Antibes no mesmo ano (1965) em que foi gravado o disco original de estúdio, para a Impulse.
Aos menos de 30 min. da versão de estúdio respondeu o saxofonista (com a mesma formação) com cerca de quarenta e tal, de dilúvio emocional ao vivo.
Esta edição tem o selo Castle Pie e inclui ainda o tema “Impressions”.

4 – Uma correção a uma mensagem lá mais para cima: ABDUL IBRAHIM é DOLLAR BRAND (nome artístico porque ficou conhecido este pianista sul-africano).

5 – Também gosto bastante do “karma”, do Pharaoh Sanders

6 – Uma mania: Irrita-me um pouco o som do trompete. Com exceção de Miles Davis, são poucos os trompetistas de jazz que aprecio verdadeiramente. Uma exceção: MICHAEL MANTLER (uma mente mórbida, um excelente músico, companheiro habitual de Carla Bley).
Também DON CHERRY (nos CODONA, por exemplo).
MARKUS STOCKAUSEN, apesar de bastante cerebral e frio, é um bom compositor e adepto ferrenho da utilização da eletrónica no jazz.

7 – Mas pelo-me pelo som do vibrafone. De LIONEL HAMPTON a GARY BURTON, passando por MILT JACKSON ou BOBBY HUTCHERSON, eis uma sonoridade que, nos bons músicos, me envia para o espaço.

FM

The Fall – “The Fall”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 12 DEZEMBRO 1990 >> Pop Rock >> LP’s


CEM À HORA

THE FALL
The Fall
Beggars Banquet, distri. Anónima


Finalmente! Já não era sem tempo! Um vídeo todo a cores, sem movimentos em câmara lenta nem multidões em delírio. Com efeitos especiais à antiga, quase sempre sem qualquer relação com as canções, mas agradáveis de ver. Mais difícil ainda: sem erotismo (não necessariamente uma virtude) e mesmo, parece impossível, sem raios de luz azul passando através de persianas ou figuras animadas desenhadas a lápis de cera.
Estranho: as imagens não distraem da música, antes funcionam como legendas visuais, construídas a partir de grafismos variados (fundos que são mapas, cartazes, símbolos cabalísticos, texturas fotográficas), em que a profusão da cor se alia aos corpos dos músicos (de Mark E. e Brix Smith, sempre na função de personagens, mascaradas, pintadas, travestidas), para criar uma sequência non-stop de clips encadeados que correm a cem à hora e explodem com a mesma energia da músicas e palavras de Mark E. Smith.
Pós-“new wave”, empenhada e militante, a música dos Fall permanece fiel a uma linha de rock duro, mas elástico, fortemente rítmico, mas atento à sedução da melodia, sintetizado em canções de duração mínima, como uma granada pronta a rebentar.
São dez temas (incluindo uma versão de “Victoria”, dos Kinks) que souberam superar o niilismo sarcástico dos Sex Pistols (num dos temas, a anarquia é substituída pela “monarchy in the UK”…), acrescentando um toque de humor à negritude pessimista do “punk” e devolvendo à pop a dignidade que lhe concede a persecução de um ideal. Segue-se no comboio de cores berrantes até se chegar ao fim com o pé a bater o ritmo e a sensação reconfortante de que o rock ainda consegue ser hoje mais do que simples negócio e novo-riquismo.
Os realizadores são Cerith Wyn Evans, Emma Burge, Tim Riley, Schneider Barnes, Scarlett Davis e Jon Riley. Pelo ecrã passam centrais nucleares em miniatura, uma mulher vestida de bolinhas até aos cabelos, pentagramas satanistas, rostos em decomposição por onde se passeiam vermes em busca de almoço, fantasmas com forma de mulher e abstrações simbólicas, daquelas que os realizadores gostam imenso de espalhar pelas suas obras, sem qualquer intenção especial, mas graças às quais se divertem à grande com os significados profundos que se lhes quer atribuir. No fundo, a mensagem é simples: divertir, dançar, pensar. Nos dias que correm, já não é nada mau! ***